“Qual é a pressa?” É daquelas frases de antologia política, dita em 2013 por António José Seguro para sacudir dos ombros a pressão (dos costistas) para fazer um congresso do PS o mais depressa possível. Mais de dez anos depois, parece agora Pedro Nuno Santos o mais interessado em usá-la (e até dirigindo-se a Seguro) para desacelerar as Presidenciais de 2026. As possíveis candidaturas na área socialista são várias e o líder procura uma saída para evitar repetir divisões desastrosas. Interessados e os seus círculos mais próximos estão atentos às movimentações.
Por agora, o líder do PS vai avançando com conversas com os nomes que se vão posicionando de alguma maneira. Já almoçou com Mário Centeno, António José Seguro, Ana Gomes e vai ainda conversar com Elisa Ferreira, Augusto Santos Silva e António Vitorino, nos próximos tempos. Tem estado sobretudo a ouvir, nesta fase, mas Ana Gomes diz que, do seu ponto de vista, a conversa que teve “foi conclusiva“, embora não queira ainda adiantar o que isso quer dizer. Ao que o Observador apurou, o líder socialista tem mostrado estar ainda a observar não só vontades, como também “tendências”, ou seja, quer ver sondagens para, mais tarde, decidir o que fazer e como fazer.
“Primeiro tem de haver candidatos; depois o PS apoia”, atira um dirigente que acrescenta ainda que “é preciso mais do que avançarem como putativos. Têm de avançar já com alguma estrutura eleitoral, como por exemplo um comité de candidatura”, considera. “A decisão tem de ser iluminada e bem gerida, não como aconteceu com o Orçamento”, diz outro dirigente, que defende que se fale com todos e depois se escolha nos “órgãos próprios” do partido. Mas isso só mais adiante, diz, já que nesta altura “o PS profundo está entregue às autárquicas”.
A pressão começa, no entanto, a surgir no partido que tem vários traumas acumulados de divisões na área socialista em presidenciais, a começar no Soares/Zenha de 1986 e a acabar no Maria de Belém/Sampaio da Nóvoa de 2016, passando pelo fratricida Alegre/Soares de 2006. Além disso, o PS está há 20 anos afastado de Belém, ou seja, nas próximas eleições joga-se também a possibilidade de poder somar, no mínimo, mais cinco anos a essa ausência presidencial. Um destacado socialista comenta com o Observador que a gestão das presidenciais “é mais difícil do que as autárquicas porque nas autárquicas, Pedro Nuno ainda divide responsabilidades”.
Entre líderes das federações distritais, na última semana, Luís Graça (PS-Algarve), colocou mesmo as presidenciais como o maior desafio do próximo ano para o PS. “Se há várias vontades, tem de se falar e tentar que convirjam para uma delas. Estamos a caminhar a passos largos para repetir a divisão de votos no centro esquerda. Não é só uma responsabilidade do secretário-geral, mas a gestão política tem de ser feita com pinças. Pode estar em causa passar um socialista à segunda volta”, disse ao Observador.
“O PS tem de criar todas as condições para ter só um candidato desde a base até ao secretário-geral”, considera Victor Hugo Salgado, do PS-Braga, sobre este mesmo assunto e acrescenta que “o grande desafio não é só a definição do candidato, o verdadeiro desafio é os socialistas perceberem que está na altura de definir um candidato que agregue.” Ninguém está confortável com o surgimento de mais do que um candidato na área socialista e fala-se na necessidade de “criar condições para haver agregação“.
Para João Portugal, do PS-Coimbra, o partido tem de “avaliar as figuras e não tomar decisões precipitadas” e nessa análise tem de “ver quem tem as melhores condições para passar à segunda volta o que, com tantos candidatos, é o mais provável que aconteça.” André Pinotes Batista, líder em Setúbal, acredita que “ninguém quer dividir o eleitorado de esquerda e não passar à segunda volta”. É um misto de convicção e aviso: “Se aparecerem dois candidatos — e eles sabem disso — pode estar em causa a segunda volta.”
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Na direção, a posição é que “este é o tempo dos candidatos” e que “o PS não vai condicionar e, no seu devido tempo, vai pronunciar-se”. E no topo do partido há quem avise quem possa estar à espera de perceber se o PS está no seu lado para avançar: “A estrutura do PS estava com Soares e Alegre ganhou.” Uma coisa é certa, diz outro dirigente do partido, Pedro Nuno “está refém” do assunto a partir do momento em que foi perentório a dizer que o PS apoiará um candidato. Não tem margem para assobiar para o lado.”
Quanto ao método de decisão em caso de vários alinhados no lado da esquerda democrática, a ideia inicial era levar o assunto aos órgãos próprios do partido, o que já aconteceu no passado. Por exemplo, para as eleições de 2006 Mário Soares apresentou a sua candidatura presidencial no final de agosto de 2005, quando Manuel Alegre já tinha manifestado a sua disponibilidade para se candidatar — que não retirou, ainda que o então líder do PS, José Sócrates tenha conversado com os dois anteriormente. O PS avançou com uma decisão antes mesmo de Alegre formalizar a sua candidatura, com Sócrates a propor à Comissão Nacional do PS o apoio do partido a Soares — que foi aprovado apenas com 11 votos contra e uma abstenção.
Primárias: de “inconstitucional”” a “uma ideia que merece reflexão”. O que pensam as proto-candidaturas
Esta sexta-feira, uma declaração de Eduardo Ferro Rodrigues ao Expresso, colocou outra ideia em cima da mesa: fazer primárias, abertas a militantes simpatizantes do partido, para determinar o apoio socialista nas presidenciais. Ao Observador o socialista defende que “é o momento para decidir o método para chegarmos a um e só um candidato apoiado pelo PS.”
Já Daniel Adrião, que representa uma corrente minoritária no PS, tem um Manifesto com cerca de 100 subscritores a pedir um “referendo interno”. Em reação a tudo isto, Pedro Nuno Santos disse ser cedo para discutir o método, afirmando que este “não é o tempo da decisão, é o tempo de os candidatos manifestarem vontade”. Também disse que, quando o momento chegar, “não é uma decisão do secretário-geral, mas do PS no tempo certo”, sinalizando que continua a querer envolver o partido na decisão final.
Se o líder concorda com as vantagens de alargar essa auscultação para lá dos militantes, ninguém sabe. Certo é que Pedro Nuno Santos conhece bem o método das primárias, estava no lado de António Costa quando elas foram usadas pela primeira vez no PS (em 2014) para definir quem era o melhor candidato pelo partido a primeiro-ministro nas legislativas que se seguiam, as de 2015. Seguro propôs o método para ganhar tempo, perante a ofensiva costista fora do tempo e após as famosas Europeias do poucochinho, mas acabou por perder com 31% contra os 67% de Costa.
Desde então que as primárias ficaram inscritas nos estatutos do partido, mas nunca mais foram usadas. Ficou definido que “são eleições primárias abertas aquelas em que são admitidos a participar os simpatizantes do partido; são eleições primárias fechadas aquelas em que são admitidos a votar todos os militantes de uma estrutura local, federativa, regional ou nacional do Partido”. E que a Comissão Nacional do PS pode, por sua iniciativa ou sob proposta do Secretariado Nacional, “deliberar sobre a convocatória de eleições primárias fechadas ou abertas para a escolha dos candidatos a titulares de cargos políticos” onde inclui “cargos de âmbito nacional ou europeu” — é nesta alínea que caberia essa eleição.
No entanto, há socialistas que veem um problema na aplicação de primárias à definição de candidatos presidenciais. É o caso de Álvaro Beleza, um acérrimo apoiante de primárias nos partidos mas que, neste caso, considera que “não se aplicam”. “Sempre defendi e continuo a defender, mas para candidaturas dos partidos”, diz ao Observador o socialista que é próximo de António José Seguro. “A Constituição diz que nas presidenciais não são os partidos a candidatarem-se, mas cidadãos individuais”, acrescenta, dizendo que a ideia do referendo é “ainda mais disparatada, já que os referendos se fazem a ideias e não a pessoas.”
Vitalino Canas vai mais longe na análise e diz ao Observador que usar primárias neste processo é “inconstitucional”: “As candidaturas são apresentadas por partidos e não por cidadãos. Não se coaduna com a Constituição e o PS não deve mostrar vontade de contrariar o espírito” do Texto Fundamental. As primárias são para definir candidatos e não apoios“, acrescenta ainda este socialista que é próximo de António Vitorino, um dos socialistas que mantém em aberto uma candidatura a Belém. A Constituição define que “as candidaturas para Presidente da República são propostas por um mínimo de 7.500 e um máximo de 15.000 cidadãos eleitores” e devem ser apresentadas no Tribunal Constitucional até trinta dias antes da eleição.
Mesmo do referendo, Vitalino não é o maior simpatizante, dizendo que há um problema de tempo: “Os candidatos da esquerda democrática devem apresentar-se muito rapidamente e não podem embrenhar-se em processos de dois ou três meses.” O tempo, considera, “começa a apertar” e “os próprios candidatos têm de conversar com o PS”, defende, apontando sobretudo a todos os que não têm funções neste momento — o que, refere como exemplo, não é o caso de Mário Centeno, que mantém vínculo ao Banco de Portugal até ao verão.
Um dos problemas que as primárias colocariam era sobre o candidato derrotado. Teria de ficar fora da corrida presidencial? É uma questão que faz com que Eduardo Cabrita considere a ideia das primárias “pouco compaginável com o modelo de presidenciais que parte da iniciativa do candidato”. Na votação que fosse promovida, “os considerados tinham de aceitar ser sufragados e aceitarem o resultado”, não se candidatando posteriormente às eleições. “A única coisa que resultava era ser apoiado pelo PS, o que era bizarro para o nosso sistema”, referiu no canal de televisão Now nesta sexta-feira à tarde.
Para Augusto Santos Silva, um dos nomes que se mostrou disponível para concorrer a Belém, a realização de primárias para a escolha de um candidato é “uma ideia que merece reflexão, ao contrário da ideia de referendo que se usa para se decidir se se é a favor ou contra x”, o que não se aplica neste caso. O socialista lembra ao Observador a vantagem de ter um método aberto a “todos os que se identifiquem com o PS”, recordando que, em 2014, quem votou nas primárias tinha de estar de acordo com a declaração de princípios do PS.
“Implica uma participação mais ativa não só no apoio, mas no processo da escolha”, defende. E acrescenta que é o “método que melhor previne subsequentes divisões” — muito em linha com a argumentação usada por Ferro Rodrigues. Santos Silva diz que há solução para o candidato que saísse derrotado dessa eleição: “A regra é que aceitam o resultado das primárias. Tem implícita a aceitação do resultado por todos os que participam nas primárias”.
Adalberto Campos Fernandes, um apoiante confesso de uma candidatura de Mário Centeno, concorda que este modelo teria de ter um “pacto entre os proto-candidatos, para que aceitassem o resultado e não ficassem os dois” depois na corrida a Belém.
O socialista diz que a discussão “terá sempre de ser feita nos órgãos nacionais” do partido, embora olhe para as primárias como “uma proposta que vale a pena ser avaliada, não é destituída de fundamento”, refere ao Observador, defendendo que não se ponha “em causa a independência dos candidatos”. Uma reflexão que Santos Silva diz que o secretário-geral tem de ter “tempo para fazer”. E insiste na vantagem da “unidade” que acredita que uma escolha em primárias pode promover, quando defende que o seu “único interesse” é que a área política a que pertence “tenha uma candidatura única e forte às eleições presidenciais”, mantendo-se “disponível” para o que for necessário.
“Havendo primárias, os disponíveis passam a saber que têm de apresentar uma candidatura a Presidente da República, mas no âmbito das primárias” do PS, os interessados teriam de submeter-se ao processo de escolha. Quanto a desvantagens, o ex-Presidente da Assembleia da República aponta sobretudo questões políticas como, por exemplo, a assunção pelo PS de que “não tem um candidato natural” e ainda a de ter um “processo paralelo a decorrer em ano de autárquicas. Há que refletir”, defende.
Outra proto-candidata, Ana Gomes, diz ao Observador que “não exclui” a ideia, ao mesmo tempo que assume que “também não vê grande necessidade” em primárias, recusando alongar-se em comentários por ainda não ter refletido sobre o assunto. Por agora, o líder socialista nada quer dizer sobre o assunto e na próxima semana terá sobretudo pesos pesados nas autárquicas (Lisboa e Sintra) para resolver, mas o partido já começou a carburar para o ciclo pós-Marcelo em Belém e não quer voltar a ficar de fora desse Palácio.