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Hugo Amaral

Hugo Amaral

Contestação social seria violenta

Muitas manifestações, mas não tão violentas quanto se esperava. Os portugueses habituaram-se à austeridade?

As televisões mostravam cidadãos gregos a partir montras, a incendiar carros e, nas piores manifestações, algumas mortes. Por cá, ainda a troika não estava a fazer contas há um ano e já o Presidente da República traçava o cenário: “A situação social poderá tornar-se insustentável”.

“A situação social poderá tornar-se insustentável e não será possível recuperar a confiança e a credibilidade externa do país"
Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, mensagem de ano novo 2012

Portugal assistia a anos atípicos de contestação social. A uma “explosão”, como lhe chama o sociólogo Miguel Cabrita, do ISCTE. Mas a explosão, que começou em 2011 com o movimento nascido nas redes sociais “Geração à rasca”, teve continuidade por pouco tempo, quando comparado com outros países europeus, com ou sem resgate, como a Grécia e Espanha.

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A Reuters resumia, em março de 2012, a pouca apetência dos portugueses para a contestação: “Portugal, sem historial verdadeiro de protestos, mostrou até agora pouca paixão pelo tipo de protestos violentos e greves frequentes que atingiram a Grécia”.

“Portugal, sem historial verdadeiro de protestos, mostrou até agora pouca paixão pelo tipo de protestos violentos e greves frequentes que atingiram a Grécia”.

Em Portugal, de resto, os protestos sempre foram de menor dimensão, aconteceram com menor frequência e foram menos violentos do que em outros países da Europa.

Apesar da austeridade causada pelo programa de ajustamento, a tendência manteve-se, em comparação com países como Grécia, Espanha ou, mesmo, França e Itália. Mas, olhando apenas para a realidade portuguesa, os anos da troika trouxeram, mesmo assim,  algumas inovações. Primeiro, porque a contestação social mais intensa, sobretudo em 2012, começou por movimentos “inorgânicos”, ou seja, sem ligação a partidos e a organizações como sindicatos, diz o sociólogo Miguel Cabrita. E depois porque, numa segunda fase, em 2013, os protestos de estruturas organizadas tomaram, com uma maior frequência, um caráter mais violento: por exemplo, as entradas em ministérios e as manifestações dos polícias.

Protestos dos polícias, em Novembro de 2013, quando estes subiram as escadarias da AR

AFP/Getty Images

O ano do brutal aumento de impostos e da crise política não teve, no entanto, paralelo na rua, apesar de a revista The Economist colocar Portugal em alto risco de contestação ao lado de países como Irão, Brasil, Chipre, Espanha ou México, em 2013. À “Geração à rasca” sucedeu o movimento “Que se lixe a troika”, que organizou durante largos meses manifestações pontuais – as “grandoladas” -, mas também a grande manifestação de setembro de 2012, que acabou por fazer cair o anunciado aumento da taxa social única (TSU). Mas até o “Que se lixe a troika” foi perdendo expressão durante o ano passado e 2014 tem sido o ano mais calmo nas ruas.

Em 2011, houve  702 operações policiais em manifestações e greves que envolveram 9.277 polícias.

Em 2012, multiplicaram-se. Foram 3.012 operações que envolveram quase o dobro dos polícias: 16.672 polícias.

Em 2013, diminuiu o número de operações policiais, mas duplicou o número de polícias envolvidos (31.257), segundo dados dos Relatórios Anuais de Segurança Interna.

O desinteresse

Mas qual a justificação para o abrandamento da contestação quando a austeridade não diminuiu? Para o sociólogo Miguel Cabrita, há várias justificações, mas na raiz das causas está a forte tendência dos portugueses para a não participação em tudo. O desinteresse pela política, pelos partidos e até pela sindicalização levaram a que, mesmo os que sentiram a austeridade na pele, tenham ido a uma ou duas manifestações e depois deixaram de aparecer. Além da cultura, outro fator que terá contribuído para o desinteresse terá sido, também, o facto de a contestação não ter provocado mudança nas políticas, exceto no caso da TSU.

Portugal sem extremos

O slogan do primeiro-ministro no início do mandato, “Portugal não é a Grécia”, aplicou-se também no caso da contestação social. Para Miguel Cabrita, outra grande diferença entre os dois países intervencionados prendeu-se com o facto de na Grécia o próprio sistema político estar em crise, com maior força dos movimentos extremistas e com o enfraquecimento do partido do regime, PASOK, o que não contribui para o equilíbrio na rua.

O contrário é notado por cá pelas autoridades: “A violência induzida por estes grupos [anti-capitalistas autónomos e anarquistas] nas manifestações de 2012 não teve sequência, ao contrário do que seria expetável. (…) Isoladamente, anticapitalistas autónomos e anarquistas continuam a não ter capacidade para concretizar os seus objectivos revolucionários”, descreve o Relatório de Segurança Interna de 2013.

Mas além do não avanço exagerado de forças extremistas, há um papel que é salientado: os sindicatos, em especial a estrutura da CGTP, têm tido um papel importante para manter a violência longe das manifestações. Lembra o sociólogo que tanto a UGT quer manter o papel de parceiro social e evitar a descredibilização de uma manifestação social violenta como, por outro lado, a CGTP, pela sua ligação ao PCP, quer evitar extremismos violentos.

Com o fim da troika, a contestação na rua também voltará à normalidade portuguesa. Os sindicatos prometem não dar tréguas à austeridade. Contudo, a mobilização será agora mais focada no Governo e menos na troika, que tinha um caráter muito mobilizador.

Veja aqui os outros mitos:

A troika iria destruir o Estado social

Governo não chegava até ao fim da legislatura

Programa perfeito para reformas

Dinheiro da troika não era suficiente

Portugal ia sair do euro

 

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