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“Senhor Presidente, querido Donald. O que fez na Síria foi incrível. Vou usar os meus contactos em Davos para destacar o seu trabalho lá, em Gaza e na Ucrânia. Estou comprometido em arranjar uma solução na Gronelândia. Mal posso esperar por vê-lo.” Esta é uma mensagem privada que o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, enviou ao Presidente dos Estados Unidos da América (EUA) nos últimos dias e que foi tornada pública nas redes sociais por Donald Trump. O tom é elogioso, amigável e até denota uma certa submissão, mas o chefe da Aliança Atlântica terá mesmo vendido uma solução ao líder dos EUA — que o fez aceitar um princípio de acordo na Gronelândia.
Nesta segunda administração Trump, a estratégia de Mark Rutte em lidar com os Estados Unidos passa pelos elogios e por não confrontar o Presidente norte-americano. “Se alguém acredita que a União Europeia e a Europa se conseguem defender sem os EUA, continuem a sonhar. Porque não podemos”, defendeu, esta segunda-feira, o líder da organização, num discurso no Parlamento Europeu. Mesmo quando o líder dos Estados Unidos critica a NATO e os aliados europeus, a postura de lisonja do secretário-geral mantém-se intacta. Como tal, o secretário-geral entrou no lote de políticos favoritos do chefe de Estado norte-americano. “É meu amigo pessoal”, já confidenciou Donald Trump.
Esta relação de amizade parece funcionar a favor da NATO: mesmo com a típica desconfiança de Donald Trump no que toca à Aliança Atlântica, Mark Rutte tem sido capaz de encontrar consensos — cada vez mais difíceis — com a presidência norte-americana. Na Gronelândia, um assunto que poderia levar ao fim da organização militar por eventualmente poder haver um confronto entre dois Estados-membros, o secretário-geral conseguiu novamente salvar os móveis e convencer o “amigo pessoal” a baixar a guarda e a recuar.
Secretary General of NATO @SecGenNATO Rutte to Trump, “what you accomplished in Syria today is incredible. I will use my media engagements in Davos to highlight your work there.”
It was part of the plan to revive ISIS in Syria to force the Kurds to withdraw. pic.twitter.com/wznw4Zu9mY
— Diliman Abdulkader (@D_abdulkader) January 20, 2026
Mas esta postura de Mark Rutte recebe algumas críticas. Em declarações ao Observador, Jamie Shea, membro do think tank Chatham House que já desempenhou várias funções dentro da Aliança — incluindo o cargo de porta-voz —, assinala que “muitos embaixadores e responsáveis da NATO sentem vergonha alheia ao ler as mensagens de Rutte para Trump ou ao ouvir as suas declarações públicas a elogiar o Presidente norte-americano”.
Além disso, vários líderes europeus têm optado pelo confronto e por desafiar a liderança dos Estados Unidos, deixando para trás os elogios e o apaziguamento. O primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, fez um discurso em Davos em que mandou várias farpas à política externa norte-americana. Na mesma linha, o Presidente francês tem feito vários apelos para reforçar a “autonomia e soberania” europeia — Emmanuel Macron tem alertado os líderes da Europa para a necessidade de reduzir a dependência face aos EUA.
Em declarações ao Observador, os especialistas confirmam que há “divisões” dentro da NATO (e não só). O tom mais elogioso de Mark Rutte — o antigo primeiro-ministro dos Países Baixos que já pediu aos europeus para “deixarem de se queixar sobre Donald Trump” — não cai bem em muitas capitais europeias, principalmente depois do que aconteceu com a Gronelândia e as ameaças dos EUA a um aliado. Alguns dirigentes não desejam mais manter a cordialidade com o “bully” (nas palavras de Emmanuel Macron) — e optam por desafiá-lo.
Os elogios que funcionam: os ossos do ofício de Mark Rutte
Antes de chegar à NATO, Mark Rutte foi primeiro-ministro dos Países Baixos — um cargo exigente num país com um sistema político bastante fragmentado. O líder da Aliança esteve em funções durante 14 anos e foi o chefe do Executivo que esteve mais tempo à frente dos desígnios do país. Em Haia, o centro da política neerlandesa, negociou com partidos de todos os quadrantes para manter a estabilidade — desde a direita radical liderada por Geert Wilders aos trabalhistas do centro-esquerda.
Um negociador exímio, pragmático e realista. É assim que Mark Rutte é descrito por vários políticos e analistas neerlandeses: sabe ler nas entrelinhas, é bastante cirúrgico na forma como opera e tem poder de encaixe. À Reuters, Simon Otjes, professor de política neerlandesa na Universidade de Leiden, descreve o antigo primeiro-ministro como o “tipo que consegue chegar a compromissos, que une as pessoas, que faz com que as pessoas se sintam valorizadas para que possam avançar” nos diferendos.
Na NATO, Mark Rutte mantém o mesmo modus operandi, ainda que tenha de lidar com Donald Trump, um político que gosta do caos e que é imprevisível. Ao longo do último ano, o secretário-geral foi-se aproximando do Presidente norte-americano e tentou sensibilizá-lo para apoiar a Ucrânia. Sempre que as tensões entre Kiev e Washington escalavam, o líder da Aliança Atlântica tentava pôr água na fervura e procurava consensos. Na Gronelândia, sucedeu o mesmo.
▲ Mark Rutte e Donald Trump
Getty Images
O Presidente da Finlândia, Alexander Stubb — outro líder que mantém uma boa relação com Donald Trump e que até vai jogar golfe com o líder norte-americano — afirmou em Davos, no Fórum Económico Mundial, que era Mark Rutte quem conseguia melhor “diminuir as tensões” com os EUA. “O trabalho do secretário-geral da NATO é sempre importante. E quando é confiado a uma personalidade como a de Mark Rutte — que é tranquilo, calmo, ponderado e é capaz de falar com o Presidente dos Estados Unidos —, nós deveríamos estar gratos por ser ele o nosso secretário-geral”, disse o líder finlandês.
Em declarações ao Observador, Zachary Selden, professor de Ciência Política na Universidade da Florida, frisa que o trabalho de Mark Rutte, enquanto secretário-geral, é ser aquela pessoa “que defende a organização e que obtém os melhores resultados para a NATO enquanto instituição” — daí manter essa postura “ponderada”. O docente universitário realça também que o líder da Aliança “não é um representante nacional” — e não está preso às amarras dos interesses de nenhum país.
O professor da Universidade da Florida salienta que o secretário-geral sabe “que a NATO não tem muito para oferecer sem os Estados Unidos” e que o papel que desempenha passa, em grande medida, por dialogar e negociar com as autoridades norte-americanas. “Ele tem que fazer” com que os EUA se mantenham “interessados” na continuidade da organização militar, especialmente quando existe um líder como Donald Trump.
▲ Presidente da Finlândia defendeu Mark Rutte
OLIVIER MATTHYS/EPA
O mesmo argumento é usado por Bernhard Blumenau, professor de História e Política Internacional na Universidade escocesa de Saint Andrews. Mark Rutte “sabe que se os EUA se retirassem dos compromissos com a NATO de forma explícita, o seu próprio cargo poderia efetivamente desaparecer, juntamente com a credibilidade da Aliança, devido ao papel dominante que os Estados Unidos desempenham dentro da NATO”, destaca o professor universitário ao Observador.
Ainda assim, Bernhard Blumenau conjetura que nos bastidores deve existir “alguma irritação generalizada” com Donald Trump entre os 32 Estados-membros da Aliança: “Até Mark Rutte — que criticou muito raramente Trump e até se referiu a ele como “daddy” [“paizinho” em português] — deve estar exasperado em privado”.
No fundo, é uma questão quase de sobrevivência. O secretário-geral entendeu que precisa de cortejar o Presidente norte-americano para que os EUA não se retirem ou não diminuam a cooperação no quadro da NATO. “O problema com Trump é que as mensagens públicas através dos órgãos de comunicação social ou a diplomacia não funcionam com ele. É necessário ter acesso a ele para reuniões cara a cara, fora do alcance dos meios de comunicação social, em que se possa dialogar e persuadi-lo a ver as coisas de outra maneira”, explica Jamie Shea.
Para isso, prossegue o antigo porta-voz da NATO, é necessário “ser visto como alguém que não se opõe a ele diretamente e que o possa persuadir a adotar uma abordagem diferente e mais razoável para alcançar objetivos comuns”. Os elogios são o meio que o secretário-geral tem usado e que tem dado frutos. “É um dos poucos líderes europeus a fazer isso [esse tipo de negociação], como o ‘acordo’ para a Gronelândia demonstrou”, nota Jamie Shea.
O secretário-geral também já admitiu que sabe que as suas ações “não o tornam popular”. Em Davos, Mark Rutte admitiu que defender e elogiar o Presidente norte-americano não lhe concede popularidade, mas realçou que “se deve estar feliz” porque Donald Trump “forçou a Europa a avançar, a enfrentar as consequências” e a investir mais na sua política de defesa. No Ártico, a lógica do líder da Aliança Atlântica é a mesma: o líder norte-americano defendeu a proteção daquela região do mundo face à ameaça russa e chinesa.
A divisão europeia. Macron e Carney de um lado, Trump e Meloni do outro (e Starmer e Merz no meio)
A NATO é uma organização com 32 Estados-membros. Dos Balcãs ao Norte da Europa, passando pelo Canadá, as prioridades internas são diferentes em muitos casos — assim como a reação à forma como Mark Rutte lida com o Presidente norte-americano. Um diplomata europeu contou à Reuters que o secretário-geral não é “perfeito”. “Os aliados podem ter diferentes opiniões sobre ele e a forma de gerir. Mas ele é muito bom a manter a Aliança unida em tempos difíceis.”
▲ Fotografia da última Cimeira da NATO em junho de 2025
Bloomberg via Getty Images
Pode até ser bom a manter a união, mas têm surgido várias divisões em parte por causa do estilo Mark Rutte. “A NATO é uma grande e diversa aliança”, constata Bernhard Blumenau, que dividiu em três categorias as reações à postura do secretário-geral. A primeira são “os líderes estatais que estão politicamente alinhados com Donald Trump”, como o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, ou a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni. Neste lote, existe uma maior confluência e poucas críticas ao Presidente norte-americano.
“No outro extremo do espectro, há líderes da NATO que são muito mais francos, como Emmanuel Macron ou o canadiano Mark Carney”, refere Bernhard Blumenau. O Presidente francês e o primeiro-ministro do Canadá não têm pudor em declarar publicamente as suas divergências em relação a Donald Trump. E depois há aqueles que estão numa posição intermédia, como o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, ou o chanceler alemão, Friedrich Merz: “Têm sido um pouco mais discretos, mas também têm manifestado críticas mais recentemente”.
No Fórum Económico Mundial, Mark Carney falou sobre uma “dura realidade” que se abateu sobre a comunidade internacional, numa crítica à política externa norte-americana e à complacência de vários líderes mundiais face às ações mais recentes do Presidente norte-americano: “Há uma forte tendência para os países cederem para manterem a harmonia, para se acomodarem, para evitarem problemas, na esperança de que esse conforto lhes garanta segurança. Ora, isso não vai acontecer”.
▲ Mark Carney e Emmanuel Macron têm deixado várias críticas ao Presidente norte-americano
Thomas Padilla / POOL/EPA
O mesmo argumento foi usado por Emmanuel Macron, que sublinhou em Davos que os países europeus “preferem o respeito em vez dos bullies”. “Preferem a ciência em vez da conspiração e preferem o Estado de Direito em vez da brutalidade”, declarou o líder de França, no que também pode ser encarado como uma crítica a Donald Trump.
Ao Observador, Zachary Selden confirma que há várias “divisões” não só nas reações às atitudes de Mark Rutte, como também na abordagem dos europeus a Donald Trump. O professor universitário esclarece que são resultado de dinâmicas da “política interna e interesses nacionais”, confirmando, contudo, que “há alguns pontos válidos” nas queixas dos líderes estrangeiros críticos do Presidente norte-americano.
Por exemplo, em relação a Emmanuel Macron, Zachary Selden afirma que “França sempre escolheu o seu próprio caminho” dentro da NATO, lembrando que Paris saiu nos anos de 1960 da Estrutura de Comando Integrado da Aliança e apenas regressou em 2009. Para além disso, o professor universitário argumenta que o Presidente francês “sabe que enfrentar os Estados Unidos é bom para ele internamente“.
▲ Emmanuel Macron em Davos criticou "os bullies" e defendeu autonomia estratégica da Europa
GIAN EHRENZELLER/EPA
A dependência da NATO da Europa que impede um “conflito aberto” entre os dois lados do Atlântico
Em todo o caso, como nota Bernhard Blumenau, “nenhum dos líderes questionou a existência da NATO como tal e muitos ainda evitam críticas demasiado explícitas a Trump”. “O motivo é simples: todos os Estados-membros da NATO dependem da Aliança e, mais do que isso, das garantias de segurança norte-americanas, incluindo o guarda-chuva nuclear. Enquanto isso continuar, é improvável que haja um conflito aberto e constante com o Presidente dos Estados Unidos, por mais controverso que ele seja.”
“Por enquanto, a maioria dos governos estão basicamente a tentar desenvencilhar-se como podem”, prossegue o mesmo especialista. Bernhard Blumenau ressalva, porém, que o assunto da Gronelândia talvez tenha sido a “linha vermelha mais clara” de oposição aos Estados Unidos. Os países europeus “defenderam essa posição” até ao fim, enfatizou.
As ameaças de Donald Trump contra o território de um Estado-membro da NATO “aumentaram a perceção crescente de que a autonomia militar da Europa é necessária”, considera Bernhard Blumenau. Por agora, contudo, os aliados “sabem que têm poucas alternativas aos Estados Unidos”. “No futuro próximo, não há qualquer substituto viável ao poder norte-americano dentro da NATO e das suas capacidades”, sentencia o especialista.
Dentro da NATO, por causa dessa necessidade, as críticas deverão manter-se vagas ou isoladas. Existe também um tema a que os líderes europeus dão grande importância e no qual o papel dos Estados Unidos continua a ser preponderante: a guerra na Ucrânia. Existe mesmo um mecanismo dentro da Aliança (Lista de Requisitos Prioritários da Ucrânia — PURL, sigla em inglês) em que os europeus compram armas e equipamento de guerra aos Estados Unidos que depois são enviados para território ucraniano. Sem o PURL, as tropas ucranianas dificilmente conseguiram suster a ofensiva russa.
Relação com os EUA faz Alemanha afastar-se de Paris e a aproximar-se de Roma
Na União Europeia, a forma como se deve abordar a presidência norte-americana também está a causar algumas fraturas. O chanceler alemão tem-se aproximado da primeira-ministra italiana em parte por causa disso, afastando-se ao mesmo tempo do Presidente francês. O eixo franco-alemão tem tido várias divergências em relação a este assunto — e Friedrich Merz, um profundo crente no atlantismo, encontrou em Giorgia Meloni uma aliada.
“França é mais verbal, Itália é muito mais pragmática”, sintetizou, em declarações ao Politico, Alex Schä, membro do Partido Social Democrata alemão (SPD), partido que é o principal parceiro da CDU na coligação que governa a Alemanha. Ao mesmo jornal, Giangiacomo Calovini, deputado dos Irmãos de Itália (partido de Giorgia Meloni), acusou Emmanuel Macron de “agir como alguém quer desafiar os Estados Unidos, mas depois enviar mensagens em que implora a Trump para jantar com ele” — referindo-se às mensagens trocadas por Macron e Trump divulgadas por este último.
▲ Friedrich Merz e Giorgia Meloni num encontro esta sexta-feira em Roma
Bloomberg via Getty Images
Por muito que Friedrich Merz tenha prometido revitalizar o eixo franco-alemão quando tomou posse o ano passado, o chanceler alinha-se com a postura cautelosa e atlantista de Giorgia Meloni em relação aos Estados Unidos. Por sua vez, Emmanuel Macron tem insistido na autonomia estratégica da União Europeia, para que se torne menos dependente dos Estados Unidos.
Como prova desta ligação cada vez mais intrincada, Friedrich Merz esteve esta sexta-feira em Roma, onde se encontrou com Giorgia Meloni. “Itália e Alemanha estão mais próximas do que nunca”, saudou o chanceler alemão. Os dois líderes comprometeram-se a fazer mais pela defesa da Europa e a investir mais na segurança europeia. Mas, em paralelo, num comunicado, reafirmaram a “importância fundamental da ligação transatlântica entre a Europa e os Estados Unidos da América, baseada nos valores comuns e em interesses partilhados”.
Ao Observador, Jamie Shea define-se como um defensor da NATO e do atlantismo; afinal, trabalhou na organização militar. E assume que “não é bonito” ver o secretário-geral naquilo que parece ser uma posição de submissão face a Donald Trump. “Mas se ainda se acredita que a NATO é necessária neste mundo perigoso e que temos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para a manter unida, tem de se engolir o orgulho e desejar boa sorte a Rutte“, conclui o antigo porta-voz da Aliança.