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Bernardo Moedas

Bernardo Moedas

Cosmos: uma parte do universo num copo de vinho

No alto da Serra da Estrela, a CARM apresentou a sua nova marca de vinhos. Cosmos representa o melhor da Beira Interior, onde, num copo de vinho, cabe todo o Cosmos.

“Se há um sítio em Portugal onde estamos mais perto das estrelas, é aqui”, afirmou o físico Carlos Fiolhais no jardim da Pousada da Serra da Estrela, a cerca de 1500 metros de altitude. A frase é mais poética do que literal – no sentido de que mais mil metros ou menos mil metros não farão diferença ao encarar o céu estrelado através dos telescópios montados no relvado – mas, naquele momento, deixámo-nos levar pela poesia da ciência.

A proximidade às estrelas servia de metáfora para o grande momento da noite: o lançamento de Cosmos, a nova marca de vinhos de altitude da CARM – Casa Agrícola Roboredo Madeira -, em parceria com a PrimeDrinks, que chega ao mercado com quatro referências: Cosmos Colheita Branco 2025, um vinho branco de altitude, sem madeira, que vive da acidez e da tensão; Cosmos Reserva Branco 2025, um branco com estágio em barrica, mais denso e com textura, mas sem perder a frescura; Cosmos Colheita Tinto 2023, um tinto de entrada, direto, pensado para ser bebido com prazer e sem cerimónia; e Cosmos Reserva Tinto 2020, o topo de gama, com Touriga Nacional e Tinta Roriz em partes iguais, com 10% de Alfrocheiro, e um estágio sério em barrica francesa e americana.

Bernardo Moedas

Antes de se abrir a primeira garrafa, Carlos Fiolhais falou de Carl Sagan, do cosmos como “tudo o que existiu, existe e existirá”, da luz do Sol que alimenta a videira e da origem remota dos átomos de que somos feitos. Explicou que o hidrogénio que corre no álcool de um copo de vinho nasceu no Big Bang, enquanto “o carbono e o oxigénio foram forjados no coração de estrelas que explodiram muito antes de o Sol existir”. E recuperou uma imagem feliz do poeta francês Guillaume Apollinaire, depois validada pelo cientista Richard Feynman: “Num copo de vinho está todo o universo.”

E se o cosmos é tudo, Cosmos, o vinho, procura condensar uma parte desse “tudo” num vinho de altitude da Beira Interior. Se as estrelas deram os átomos, e a terra deu o clima, os solos e a identidade, “o resto deve-se à intervenção do Homem,” garantiu Filipe Roboredo Madeira, CEO da CARM

A Serra da Estrela era, assim, mais do que um cenário bonito, um espelho de outra serra, menos famosa, mas determinante nesta história: as elevações graníticas de Castelo Rodrigo, onde estão as vinhas de onde nasceram os vinhos Cosmos. Montanha a montanha, altitude a altitude, o conceito começava a encaixar.

Cosmos: o novo capítulo da CARM

A CARM – Casa Agrícola Roboredo Madeira – é um produtor sobejamente conhecido no panorama vínico nacional. Mas é um nome que associamos mais a outros territórios, como o Douro Superior. A sua reputação construiu‑se na base da qualidade, consistência e fiabilidade. “Como um carro alemão”, diria Filipe Roboredo Madeira, pois quando se abre uma garrafa com o selo CARM, “sabe‑se com o que se pode contar”.

Curiosamente, a história da CARM não começou com o vinho. Filipe Roboredo Madeira contou que a aventura começou quando estudava medicina em Itália e levava de Portugal o que julgava ser o melhor que a família produzia: vinhos, mas também azeite de oliveiras com mais de 300 anos. A reação dos amigos não foi a esperada. “Os vinhos são ótimos, mas, por amor de Deus, não tragas mais azeite”, ouviu.

A família procurou então um dos grandes especialistas mundiais em azeite, que vivia em Perugia. Aprenderam-se novos processos, construiu-se um lagar moderno e aprendeu-se uma lição simples, mas importante: com boa fruta e uma intervenção mínima, é possível atingir a excelência.

Pouco depois, essa lógica foi transposta para a vinha. Primeiro no Douro Superior; mais tarde, nas encostas e planaltos graníticos de Castelo Rodrigo. O primeiro vinho da CARM na Beira Interior surgiu em 2010 sob a marca Marquês de Almeida e rapidamente somou distinções em concursos regionais. Durante anos, a região foi um laboratório paralelo, pequeno em volume, mas grande em aprendizagem.

O Cosmos é a maturação desse caminho e representa um passo ao mesmo tempo geográfico e conceptual. Geográfico, porque se concentra num conjunto de vinhas em altitude (600–750 metros), em solos graníticos e franco‑arenosos, de baixa produção. Conceptual, porque quer ligar explicitamente a identidade da Beira Interior à narrativa das estrelas: vinhos de clima extremo, feitos com castas portuguesas, que assumem sem receio a acidez e a frescura como bandeiras.

Quatro vinhos, quatro constelações

Numa das salas principais da Pousada, com vista para o planalto da Cova da Beira e as serras em redor, os convidados passaram da teoria à prática. Coube ao enólogo António Magalhães Ribeiro conduzir a prova dos quatro vinhos.

O primeiro a ser servido foi o Cosmos Colheita Branco 2025. No copo, a cor é pálida, quase translúcida. No nariz, aparecem imediatamente os cítricos da Síria, a casta branca mais plantada na região. O enólogo fala de um “vinho novo de cepas velhas”, um branco que vive tanto da frescura como da memória da vinha.

A casta Fonte Cal contribui pouco no aroma, mas impõe‑se na boca: dá densidade, largura e um certo peso salino. Do Arinto vem a acidez. Não há madeira, mas há inox, altitude e a tal amplitude térmica de que se falou tantas vezes ao longo da noite: dias quentes, noites frias, acidez preservada. É um branco de altitude, fresco, leve, sem madeira, pensado para aperitivos, saladas, peixe, marisco e pratos vegetarianos delicados. Um vinho de entrada de gama que assume com orgulho a sua função – abrir a conversa e o apetite.

O Cosmos Reserva Branco 2025 deslocou a conversa para um outro ponto da mesma encosta. Aqui, a casta Gouveio assume a frente, apoiada pela Síria e Fonte Cal, vindas de uma parcela específica, a Vinha Corval da Mata, em solo franco‑arenoso de origem granítica, pouco fértil, com rendimentos baixos. A fermentação termina em barrica de 300 litros de carvalho francês, onde o vinho estagia 6 a 8 meses, com bâtonnage sobre borras finas. O resultado é um vinho branco mais volumoso e cremoso. No nariz, é mais contido do que exuberante. É um vinho pensado para a mesa: acompanha bem bacalhau no forno, peixes gordos, aves assadas e pratos com molhos mais ricos.

Dos vinhos brancos passou‑se para o Cosmos Colheita Tinto 2023, feito de Tinta Roriz e Touriga Nacional, com quatro meses de estágio repartidos entre inox e barrica. Um tinto de entrada que é também um vinho completo, com “ataque doce, fruta vermelha e silvestre, taninos finos e presentes, e acidez bem marcada que lembra que estamos na Beira Interior”, afirmou o enólogo. E acrescentou: “Pode ser servido um pouco mais fresco, a rondar os 15 ºC, e acompanha bem carne assada como num prato de massa mais intenso.”

O Cosmos Reserva Tinto 2020 fechou a prova num registo mais sério. O lote junta partes iguais de Touriga Nacional e Tinta Roriz, com 10% de Alfrocheiro. As uvas vêm de parcelas de encosta, pedregosas, de solos graníticos e cascalhentos, com rendimentos muito baixos (menos de cinco toneladas por hectare) e forte “dupla radiação”: isto é, sol direto e luz refletida pelas pedras, que concentram açúcares e compostos fenólicos. O estágio faz‑se em barrica francesa e americana, durante cerca de 12 meses. O resultado é um tinto que, no nariz, combina frutos vermelhos maduros, notas de especiaria e um ligeiro fumado. Na boca, há mais peso, mais volume, uma sensação de “gordura” que a acidez impede de se transformar em peso excessivo. António Magalhães Ribeiro sublinha o lado gastronómico: “É um tinto para carnes vermelhas, pratos de forno, cozinha mediterrânica rica em azeite”. Um vinho de inverno que, pela frescura, não pesa na mesa.

Os vinhos de altitude da Beira Interior

A prova dos vinhos Cosmos funcionou também como uma aula sobre a Beira Interior. Rodolfo Queirós, presidente da Comissão Vitivinícola Regional da Beira Interior, ajudou a desenhar o mapa da região, que se divide em três sub‑regiões: Cova da Beira, Castelo Rodrigo e Pinhel.

A Cova da Beira fica mais a sul, encaixada entre Estrela, Gardunha e Malcata, com zonas mais quentes e estruturadas. Castelo Rodrigo e Pinhel, mais a norte, estendem‑se num planalto da Meseta Ibérica, onde as vinhas atingem altitudes entre os 700 e os 800 metros.

O clima é de extremos: verões muito secos, dias quentes, noites frias. A regra empírica que Rodolfo, Presidente da CVR da Beira Interior, gosta de citar é simples: “cada 150 metros de altitude tiram cerca de 1 grau à temperatura média”. As vindimas são, por isso, mais tardias do que no Douro ou no Dão; a acidez natural dos vinhos, mais alta.

Bernardo Moedas

Os solos são maioritariamente graníticos, com bolsas de transição para xisto (sobretudo em Castelo Rodrigo). Há manchas de franco‑argiloso mais férteis, onde é preciso controlar vigor e produção, e de franco‑arenoso pobre em encosta, que dão uvas pequenas, concentradas, ideais para reservas.

Nas castas brancas, destacam‑se a Síria, Fonte Cal, Arinto e Gouveio. Nas tintas, o Rufete (também conhecida como Tinta Pinheira), Tinta Roriz, Touriga Nacional, Alfrocheiro, Jaen, entre outras.

O resultado? Vinhos que, num país cada vez mais quente, oferecem uma coisa que começa a ser rara: frescura natural. Vinhos que não cansam, que convidam a um segundo copo, que fazem sentido à mesa. Vinhos que, como nesta noite na Pousada da Serra da Estrela, lembram que, por trás de cada gole, há uma história que vem de muito longe – às vezes tão longe quanto a luz das estrelas que brilham sobre a serra.

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