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ILUSTRAÇÃO INÊS CORREIA / OBSERVADOR

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Crianças tímidas. Respeitar o ritmo delas ou incentivá-las a enfrentar os medos?

Obrigar uma criança tímida a "ir brincar com as outras" pode aumentar a insegurança. Mas protegê-la de tudo também. Onde está o equilíbrio?

Há crianças que parecem sentir-se à vontade em qualquer lugar: entram numa sala e, em poucos minutos, já estão no centro da brincadeira. Aproximam-se dos outros miúdos, fazem perguntas, riem alto, conversam com quem acabaram de conhecer.

Outras, pelo contrário, evitam ser o centro das atenções, observam antes de participar, demoram a largar a mão dos pais e escondem-se atrás das pernas deles quando alguém lhes fala. São “acanhadas”, “envergonhadas” ou “tímidas” e os pais, mais cedo ou mais tarde, começam a interrogar-se: é uma fase, um traço da personalidade ou haverá motivo para preocupação?

Sobre isso, a primeira coisa para que a psicóloga clínica infanto-juvenil Rita Castanheira Alves chama a atenção é o facto de estas reações de tensão, inibição e desconforto nas crianças não deverem ser olhadas como uma característica imutável. “A criança está em desenvolvimento, não tem ainda uma personalidade definida.” Durante a infância tudo é muito dinâmico e sofre inúmeras alterações em pouco tempo. “Nos primeiros anos de vida, às vezes, há mudanças que observamos nas crianças, nomeadamente, nesta questão dos temperamentos mais inibidos e mais desinibidos, em seis meses ou menos.”

“Os estudos apontam para uma relação proporcional entre um temperamento emocionalmente mais inibido na infância e uma maior prevalência de dificuldades a nível de ansiedade social futuramente”, mas que isso não significa que a timidez por si só seja ou venha a ser um problema.

O que, pelo contrário, pode ser problemático é uma má reação dos adultos a essa timidez: quando se fala e age com a criança rotulando-a sempre como tímida (devido à presença de estranhos ou pessoas pouco familiares), ela pode ir-se ajustando a essa expectativa. “Esta ‘etiqueta’ desde cedo pode ser um fator que contribui para que se torne efetivamente uma característica de personalidade muito predominante e, mais tarde, se transforme em algo que interfira de forma mais negativa no funcionamento da pessoa adulta, como é o caso da ansiedade social ou fobia social.” Por outro lado, quando se valoriza perante a criança um comportamento mais extrovertido — o que é muito frequente —, isso reforça o comportamento: a criança fica ainda mais inibida porque se sente desconfortável e pouco aceite.

A má reação dos adultos pode ser um problema. Quando se fala e age com a criança rotulando-a sempre como "tímida", ela pode ir-se ajustando a essa expectativa. “Esta ‘etiqueta’ pode contribuir para que se torne efetivamente uma característica de personalidade muito predominante e, mais tarde, se transforme em algo que interfira de forma negativa no funcionamento da pessoa adulta, como é o caso da ansiedade social ou fobia social”, diz a psicóloga Rita Castanheira Alves.

Como podem então os pais podem ajudar uma criança mais tímida? Incentivá-la a arriscar ou respeitar o seu tempo? A resposta, diz Rita Castanheira Alves, não cabe em fórmulas nem em receitas universais. “É efectivamente difícil encontrar o equilíbrio ou as ‘doses’ certas para ajudarmos as crianças”, mas há quatro aspetos que a psicóloga destaca como importantes.

  1. O primeiro é um exercício pouco óbvio para alguns: olharem primeiro para si próprios. Quando se sentem desconfortáveis com a timidez dos filhos, é importante para os pais “compreenderem que tipo de pensamentos e emoções têm sobre a timidez, e se eles poderão ser mais sobre si próprios.” Pais que foram muito tímidos e que sofreram com isso podem, sem se aperceber, projetar esses receios nos filhos;
  2. Um segundo passo, essencial, é “munirem-se de conhecimento sobre a idade e fase de desenvolvimento da criança ou adolescente”. É comum, por desconhecimento ou apenas comparação, alguns adultos ou pais considerarem que determinado comportamento mais inibido não é “normal”, quando, na verdade, é;
  3. Este conhecimento mais geral deve ser complementado com a observação daquela criança em particular, ou seja, “dedicarem-se a conhecer bem a criança ou adolescente que é o filho, não só relativamente aos comportamentos que parecem indicar timidez, mas noutras dimensões: observar, conversar, tirar conclusões de quando, como e porquê aparece a timidez. Este conhecimento mais aprofundado ajudará a percebê-la melhor e permitirá também encontrar as tais ‘doses’ de alívio e de encorajamento nas situações sociais”;
  4. Por fim, falar sobre aquilo que a criança sente faz toda a diferença. Junto das mais pequenas pode ser feito através da brincadeira, nas mais velhas, pela conversa. O objetivo não é convencer a criança a deixar de ser tímida, mas ajudá-la a reconhecer o que está a sentir. “A identificação do que sentimos permite uma maior regulação emocional”, explica a psicóloga. E há um detalhe que considera particularmente importante: separar a emoção da identidade da criança. Em vez de dizer “tu és tímida”, pode dizer-se que “a vergonha apareceu” ou que “a timidez veio fazer uma visita”. A diferença parece subtil, mas ajuda a criança a perceber que aquele estado não a define nem será necessariamente permanente.
"É importante não deixar a criança desamparada ou forçá-la, mas também não 'fazer por ela'. Fazer com ela e, gradualmente, incentivar a que faça."
Rita Castanheira Alves, psicóloga clínica

Na prática, é necessário um equilíbrio. “É importante não deixar a criança desamparada ou forçá-la, mas também não ‘fazer por ela’. Fazer com ela e, gradualmente, incentivar a que faça.” Ou seja, acompanhar sem substituir e dar tempo sem evitar sistematicamente todas as situações sociais. O importante é que a criança sinta que tem uma base segura a partir da qual pode, ao seu ritmo, explorar o mundo.

Nenhuma estratégia serve para todas as crianças da mesma maneira, mas Rita Castanheira Alves deixa alguns conselhos sobre que podem ser úteis aos pais de crianças mais tímidas:

  • Evitar críticas, humilhações ou brincadeiras quando a criança não consegue ultrapassar a timidez;
  • Não a rotular como “tímida”, nem perante ela nem perante outras pessoas;
  • Separar a emoção da identidade: em vez de “tu és tímida”, dizer, por exemplo, “a vergonha apareceu”;
  • Dar-lhe tempo para observar e adaptar-se quando chega a um contexto novo;
  • Não a comparar com crianças mais desinibidas;
  • Não a forçar a participar antes de se sentir minimamente segura, mas também não evitar sistematicamente situações sociais;
  • Perguntar se gostaria de ajuda para iniciar uma brincadeira ou uma conversa, respeitando a resposta;
  • Prepará-la antecipadamente para situações novas, quando isso fizer sentido;
  • Ensinar estratégias simples de regulação emocional quando surgem sintomas físicos de ansiedade;
  • Se existirem dificuldades nas competências sociais, criar oportunidades para as treinar de forma gradual.

E quando é que a timidez se deve transformar num motivo de preocupação? Entre outros sinais, quando a inibição for acompanhada por sintomas físicos de ansiedade — palpitações, dores de barriga ou tremores —, levar a evitamentos frequentes ou começar a interferir com a vida escolar, social ou familiar. Também o aparecimento de outros sintomas de ansiedade ou a preocupação manifestada por professores e outros adultos que convivem com a criança pode justificar uma avaliação especializada.

Rita Castanheira Alves é psicóloga clínica infanto-juvenil e de aconselhamento parental desde 2007. É mentora do projeto Psicóloga dos Miúdos e autora do livro com o mesmo título (ed. Penguin).

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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