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Macron visitou Israel e a Cisjordânia logo após o 7 de Outubro

POOL/AFP via Getty Images

Macron visitou Israel e a Cisjordânia logo após o 7 de Outubro

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Depois de "ziguezagues" políticos, França vai reconhecer a Palestina. E quer guiar a política externa europeia na mesma direção

Face à reticência europeia para "endurecer" a "amizade" com Israel, Macron avançou e tenta agora assumir a liderança da política externa europeia. Mas a situação doméstica também pesou na sua decisão.

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Em março de 1982, um chefe de Estado francês visitou pela primeira vez Israel. Num discurso perante o Parlamento israelita, François Mitterrand destacou a “amizade” entre os dois países e declarou que “para França, nada é proibido”. “Falamos numa só linguagem para todas as entidades”, continuou, salientando que Paris continuaria a opor-se a boicotes contra Israel e, ao mesmo tempo, a defender o direito do povo palestiniano à autodeterminação, consagrado num Estado reconhecido internacionalmente. Mais de quatro décadas depois, este desejo vai finalmente cumprir-se.

Emmanuel Macron anunciou esta quinta-feira que França, “fiel ao seu compromisso histórico com uma paz justa e duradoura no Médio Oriente”, irá reconhecer oficialmente o Estado da Palestina durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, a realizar-se em setembro. “A necessidade urgente hoje é terminar a guerra em Gaza e providenciar alívio à população civil”, escreveu, numa carta endereçada ao presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, que contem uma mensagem aparentemente manuscrita em que o líder francês reitera o “compromisso com a paz e a segurança”.

A decisão é histórica: França será o primeiro país do G7 — o grupo dos sete Estados mais industrializados do mundo — a reconhecer a Palestina. No entanto, em Telavive foi interpretada como uma “mancha negra” numa longa relação de “amizade”. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu declarou que a “medida premeia o terror” e que “um Estado palestiniano nestas condições seria uma rampa de lançamento para aniquilar Israel”, enquanto o seu vice-primeiro-ministro considerou a decisão “uma instigação direta ao terrorismo”.

O anúncio foi o culminar de uma ideia que ganhava forma há vários meses no palácio do Eliseu. No final de maio, Macron já tinha estado sob críticas israelitas por ter declarado, durante um discurso em Singapura, que “a criação do Estado palestiniano não é apenas um dever moral, mas uma exigência política” e ainda que os Estados europeus “deviam endurecer a sua posição face a Israel, à luz da crise humanitária na Faixa de Gaza, que se acentuou nos últimos meses.

As críticas não demoveram Paris de pressionar os seus aliados, europeus e árabes, a dar passos concretos na implementação da solução de dois Estados. O plano deveria ser concretizado durante uma conferência organizada em conjunto com a Arábia Saudita, marcada para os dias 17 a 20 de junho. Contudo, a ideia enfrentou resistência, relataram vários diplomatas europeus ao Politico, e o fulgor inicial parecia ter desaparecido quando a conferência acabou cancelada devido ao deflagrar da guerra entre Israel e Irão.

"[Macron] está a tentar preservar a paz civil em França, porque as tensões [internas] estão a aumentar."
Karim Émile Bitar, especialista nas relações entre a Europa e o Médio Oriente no Instituto de Estudos Internacionais e Estratégicos de Paris

Um mês depois, o tema não saiu de cima da mesa do Eliseu. Esta semana, ainda antes do anúncio de quinta-feira, França já se tinha desdobrado em iniciativas. Na segunda-feira, assinou, em conjunto com outros 30 países, uma carta a apelar ao fim da ofensiva israelita na Faixa de Gaza, que já matou mais de 59 mil palestinianos; na terça-feira, apelou a Israel que autorize a entrada da imprensa internacional no enclave palestiniano; para a próxima semana, ficou reagendada a conferência em Nova Iorque.

A insistência de Emmanuel Macron em dar “uma contribuição decisiva para a paz no Médio Oriente”, como o próprio escreveu, pode não depender exclusivamente da situação no terreno, mas da situação política francesa ainda mal recuperada de um ano de sucessivas crises políticas. “[Macron] está a tentar preservar a paz civil em França, porque as tensões [internas] estão a aumentar”, argumenta Karim Émile Bitar, especialista nas relações entre a Europa e o Médio Oriente no Instituto de Estudos Internacionais e Estratégicos de Paris, ao Observador.

Porém, dado o primeiro passo, o principal desafio de Paris continua a ser outro: comandar a posição europeia sobre o tema e levar os restantes aliados a tomar a mesma decisão — o facto de a decisão só ir ser formalizada daqui a dois meses abre a possibilidade de outros países se juntarem a França até lá, destaca a BBC. Entre estes, destacam-se outras duas potências europeias: Reino Unido e Alemanha. Os três líderes conversaram por telefone esta sexta-feira e concordaram que “é tempo de acabar a guerra a Gaza”. Mas Keir Starmer, pressionado internamente, parece estar mais próximo do passo seguinte do que Friedrich Merz, que continua a colocar o reconhecimento imediato da Palestina como uma linha vermelha.

Os “ziguezagues” da posição francesa desde o 7 de Outubro

Desde que o Hamas atacou o festival Nova e vários kibbutz no dia 7 de outubro de 2023 e, consequentemente, Israel lançou uma ofensiva militar na Faixa de Gaza, que a posição de França tem evoluído. Logo após o ataque, em que foram mortas 42 pessoas com cidadania francesa, Emmanuel Macron deslocou-se a Israel, onde defendeu que a comunidade internacional devia combater o Hamas, numa coligação nos mesmos moldes daquela que foi fundada para fazer frente ao Estado Islâmico. Na mesma viagem, Macron encontrou-se com o presidente da Autoridade Palestiniana e considerou que a segurança israelita dependia do “relançamento do processo político com os palestinianos”.

A ideia de uma coligação internacional de combate ao Hamas nunca avançou, mas Macron também não consolidou uma posição firme sobre o conflito à medida que este se foi desenrolando. Por um lado, foi criticando o governo de Benjamin Netanyahu enquanto o número de vítimas civis continuou a subir e foi defendendo o estabelecimento do Estado palestiniano; por outro, nunca cedeu na defesa do direito de Israel se defender.

No final de 2024, tanto o Politico como o Le Monde definiam a política externa macronista para o Médio Oriente como um “ziguezague”, dividida entre os membros da sua administração e da sua equipa diplomática mais próximos da Palestina ou de Israel. “Continuo sem saber o que o Presidente realmente pensa“, declarava, à data, um antigo diplomata francês ao Politico. Nos media franceses, multiplicava-se uma mesma crítica: o Presidente está a “procrastinar”.

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A visita de Macron ao Egito terá sido um ponto de viragem na sua posição

POOL/AFP via Getty Images

No início de 2025, Emmanuel Macron atirou-se de cabeça para os temas da política externa e da defesa. Cientistas políticos e antigos conselheiros do Eliseu apontaram ao Le Monde duas justificações para esta atenção renovada à área. Por um lado, o facto de Donald Trump ter regressado à Casa Branca e tentado uma abordagem diferente sobre os conflitos internacionais deu ao Presidente francês espaço para fazer “o que ele faz bem”: diplomacia diretamente com outros chefes de Estado — por exemplo, ao mediar os encontros entre Volodymyr Zelensky e Donald Trump. Por outro lado, a política externa e defesa são “áreas reservadas” do Eliseu. Com os sucessivos bloqueios na aprovação de um orçamento de Estado de Paris, que atiraram um país para uma crise política, e sem a possibilidade de convocar novas eleições, Macron dedicou-se mais a estas áreas.

Durante os primeiros meses, esta atenção esteve principalmente virada para a Ucrânia. Afinal, na mesma altura, Israel e a Faixa de Gaza experienciavam um frágil cessar-fogo, assinado no final de janeiro. O fim deste cessar-fogo e a reentrada das forças israelitas no enclave palestiniano aconteceram poucas semanas antes de Macron se ter deslocado ao Egito numa visita de Estado. Aqui, o chefe de Estado francês deslocou-se a uma cidade portuária a cerca de 50 quilómetros da Faixa de Gaza, onde viu a ajuda humanitária que se acumulava no porto, sem poder entrar em Gaza devido ao bloqueio israelita.

A visita impressionou Macron e marcou um ponto de viragem no seu olhar sobre a região, relatou um diplomata francês ao Le Monde. Depois disso, o chefe de Estado tornou-se mais vocal sobre a necessidade de reconhecer o Estado da Palestina e forçar Israel a permitir a entrada de ajuda humanitária, como ficou visível no seu discurso durante o fórum em Singapura. No entanto, a dualidade da posição não desapareceu e, semanas depois, voltou a ficar exposta com a “Guerra dos 12 Dias” entre Israel e Irão, durante a qual Macron voltou a “reafirmar o direito de Israel se defender e garantir a sua segurança”.

Estabilidade interna, credibilidade e legado. As preocupações de Paris

Em maio, ao mesmo tempo que Emmanuel Macron voltava a pressionar Israel para dar resposta à situação humanitária em Gaza, a empresa de sondagens britânica YouGov inquiria cidadãos de seis países da Europa Ocidental acerca das suas visões sobre Israel e o conflito israelo-palestiniano, um inquérito que acontece de forma regular desde o final de 2016. A sondagem registou, entre a população francesa, a margem mais baixa de sempre de apoio a Israel (-48). Além disso, pela primeira vez, mais inquiridos responderam que simpatizam mais com o lado palestiniano do que com o lado israelita e 31% dos inquiridos consideraram que Israel “tinha razão em ter enviado tropas para Gaza, mas tinha ido longe demais”.

Karim Émile Bitar argumenta que esta mudança na opinião pública transformou aquilo que era um problema de política externa num problema também interno. “França é o país europeu com a maior população judia e a maior população muçulmana. Em certa medida, Macron quer ver esta guerra a acabar para prevenir escaladas e tensões dentro da sociedade francesa”, afirma. O professor francês declara que a situação criou uma bipolarização no país que se reflete em todo o “panorama intelectual” — desde declarações de protesto em Cannes a cartas abertas, assinadas por dezenas de personalidades francesas.

"Se o Tribunal Internacional de Justiça considerar que isto é realmente um genocídio, a História vai julgar de forma severa todos os que não deram passos suficientes para o travar."
Karim Émile Bitar, especialista nas relações entre a Europa e o Médio Oriente, no Instituto de Estudos Internacionais e Estratégicos de Paris

Esta bipolarização já foi visível nas eleições legislativas e para o Parlamento Europeu do verão passado, destacava, à data, a historiadora Blandine Chelini-Pont que, em declarações à agência Reuters, atribuiu o crescimento do partido França Insubmissa nas urnas ao facto de ter centrado a sua campanha na causa palestiniana. Contudo, passado um ano, Karim Émile Bitar considera que a visão crítica cresceu. “Todos os dias veem as imagens que saem de Gaza“, justifica.

Este enquadramento político francês não é inédito. Em 2014, aquando da última grande incursão do Exército israelita na Faixa de Gaza, o Presidente François Hollande declarava que “não queria consequências em França” e que o “conflito israelo-palestiniano não podia ser importado”. Mais de dez anos depois, França continua a procurar manter o equilíbrio entre o apoio à segurança e defesa de Israel e a autodeterminação política do povo palestiniano.

Atualmente, soma-se a realidade da política francesa e o facto de uma crise interna motivar o Presidente a agir nas áreas da política externa e da defesa. Porém, Karim Émile Bitar aponta uma terceira justificação para a proatividade francesa: a preocupação com o seu legado. “Se o Tribunal Internacional de Justiça considerar que isto é realmente um genocídio, a História vai julgar de forma severa todos os que não deram passos suficientes para o travar”, argumenta. Ainda que o analista considere que a preocupação principal do Presidente francês é a manutenção da estabilidade interna, admite que Emmanuel Macron“está definitivamente a pensar como será lembrado na História”.

Quando discursou em Singapura, o líder francês deixou transparecer esta preocupação, não apenas com o legado do Eliseu, mas com o legado da União Europeia. “Se abandonarmos Gaza, se considerarmos que há um livre-trânsito para Israel — mesmo condenando os ataques terroristas — matamos a nossa credibilidade no resto do mundo”, declarou. No entanto, a “credibilidade” futura de Bruxelas não parece ser uma preocupação unânime dos restantes líderes europeus.

epa12227588 French President Emmanuel Macron (R) and British Prime Minister Keir Starmer (L) attend an event at the British Museum in London, Britain, 09 July 2025. French President Emmanuel Macron’s trip marks the first state visit by a European leader to the UK since Brexit.  EPA/CARLOS JASSO / POOL

Macron pressiona aliados na UE, mas encontra mais apoio em Keir Starmer

CARLOS JASSO / POOL/EPA

Coordenar esforços entre Autoridade Palestiniana, aliados árabes e europeus

No alinhamento entre o escalar da ofensiva israelita em Gaza, o bloqueio da ajuda humanitária e a divisão interna francesa, Emmanuel Macron decidiu avançar com o desejo que Miterrand já expressara perante o parlamento israelita em 1982: o reconhecimento do Estado da Palestina. Segundo o anúncio do líder francês, a decisão desta quinta-feira foi motivada pela abertura que Mahmoud Abbas expressou em relação às condições impostas por França, numa carta enviada há mais de um mês.

As exigências incluíam a condenação dos ataques do 7 de Outubro e um apelo à libertação dos reféns presos pelo Hamas, assim como uma série de promessas para o futuro: a total desmilitarização do Hamas e a sua retirada da governação de Gaza, o reconhecimento (pelo futuro Estado da Palestina) do Estado de Israel e uma reforma da Autoridade Palestiniana, que atualmente governa apenas a Cisjordânia. Em resposta, Abbas condenou publicamente o Hamas e anunciou que tenciona realizar eleições pela primeira vez desde 2006. “À luz dos compromissos”, Macron avançou mesmo com o reconhecimento da Palestina.

Mas o plano de Paris para a região não é unilateral e procura “mobilizar todos os parceiros internacionais que tencionem fazer parte”. E aqui surge o novo desafio de Emmanuel Macron, já que as exigências aos parceiros árabes e europeus não foram tão bem-recebidas. No âmbito da conferência organizada em conjunto com a Arábia Saudita, França exigia ao seu co-organizador e aos restantes Estados árabes reciprocidade. Ou seja, o reconhecimento pelos países ocidentais do Estado da Palestina dependia do reconhecimento do Estado de Israel pelos países árabes. No entanto, as negociações não foram particularmente produtivas. “As nações árabes querem sanções, não um Estado“, justificou um diplomata europeu envolvido nas negociações ao Politico.

Já junto dos europeus, os pedidos não se limitaram à pressão política sobre Israel, na forma do reconhecimento do Estado palestiniano. Paris exigiu também à comunidade europeia que pressionasse economicamente, através, por exemplo, da reformulação do Acordo de Associação UE-Israel, que engloba a cooperação económica, mas também política e social. Porém, este plano saiu furado quando, na semana passada, os ministros dos Negócios Estrangeiros dos 27 Estados membros não conseguiram concordar numa forma de agir em relação a Israel.

Em cima da mesa estavam 10 opções de ação, que incluíam não só a suspensão do Acordo, mas a aplicação direta de sanções económicas ou o fim das importações de bens dos colonatos ilegais na Cisjordânia. No fim do encontro, a líder da diplomacia europeia, Kaja Kallas, declarou apenas que Israel deve dar “passos concretos para melhorar a situação humanitária no terreno” e que a “UE se vai manter atenta” à sua implementação. “O objetivo não é punir Israel, é melhorar a situação em Gaza”, declarou.

[A reformulação da conferência franco-saudita] uma forma de manter a iniciativa francesa viva. O timing atual parece complicado.
Rym Momtaz, antiga repórter do Eliseu e analista da política externa francesa

O bloqueio entre a posição dos Estados árabes e dos Estados europeus criou um impasse na organização da conferência franco-saudita que levou França a reformular os seus planos. Para além do adiamento forçado, por causa da guerra entre Israel e Irão, a cimeira passou de um encontro de chefes de Estado e de governo para um encontro entre chefes de diplomacia — o que quer dizer que Emmanuel Macron não estará presente, avançou o Le Monde. Citado pelo mesmo jornal, o Ministério dos Negócios Estrangeiros francês declarou ainda que o objetivo central da conferência é “clarificar as intenções [de Macron]” — e não reconhecer em grupo o Estado da Palestina.

“É uma forma de manter a iniciativa francesa viva. O timing atual parece complicado”, comentou Rym Momtaz, antiga repórter do Eliseu que se tornou analista de política externa francesa, sobre os novos moldes da conferência. A especialista apontava, dias antes do anúncio oficial de Macron, que a cimeira deveria fazer a ponte entre o bloqueio atual e o encontro das Nações Unidas em setembro, onde seria mais expectável uma tomada de posição internacional — o prazo apresentado pelo Presidente parece confirmar esta leitura. Os próximos dois meses assumem-se, portanto, como cruciais para o plano francês funcionar em conjunto.

[É sábado. No lobby de um hotel de Albufeira um assassino misterioso espera junto ao bar por um convidado especial: representa a Organização para a Libertação da Palestina. Quando o vê entrar, o terrorista dispara quatro tiros e foge. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Reino Unido quer “vozes unidas”, mas Alemanha mantém “linha dura”

A relação histórica entre França e Israel pode ser uma de “amizade”. Mas o grande aliado de Telavive no ocidente é outro: os Estados Unidos, cuja atual administração não tem, nos planos a curto ou a longo prazo, o reconhecimento do Estado da Palestina. Prova disso foi a reação do Presidente norte-americano ao anúncio de Macron. “O que ele diz não interessa. Gosto dele, mas essa declaração não tem peso nenhum”, declarou Donald Trump, depois de o seu secretário de Estado ter classificado a decisão francesa como “irresponsável”. Como notava Jeremy Shapiro, investigador no European Council on Foreign Relations ao Washington Post, os países europeus não têm a mesma influência junto de Telavive que Washington.

Tendo em conta a oposição norte-americana, a influência europeia depende, como em muitos outros temas, de uma posição unida. Foi isso mesmo que Keir Starmer sublinhou, por ocasião da visita de Emmanuel Macron a Londres no início deste mês. “Acredito que precisamos de unir as nossas vozes em Paris, Londres e em todos os outros sítios”, declarou o primeiro-ministro britânico. Esta sexta-feira, depois do comunicado conjunto, Starmer esclareceu que o Reino Unido irá “inequivocamente” reconhecer a Palestina, mas que a decisão “tem de fazer parte de um plano mais alargado” — sem nunca adiantar um prazo concreto para esta decisão. Contudo, a pressão interna continua a subir de tom. Também esta sexta-feira, um grupo de 221 deputados britânicos de vários partidos assinou uma carta aberta a apelar ao reconhecimento do Estado da Palestina.

A mesma postura de união é expressa por outros países europeus, que não querem tomar iniciativa a solo e aguardam por uma ação em bloco — entre estes países incluem-se os Países Baixos e a Bélgica, que já se tinha mostrado disponível para avançar com o reconhecimento em setembro, bem como Portugal, que, esta sexta-feira voltou a dizer que está disponível para reconhecer a Palestina sem nunca se comprometer, no entanto, com esse passo.

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Berlim e Paris não estão alinhados na ação face a Israel

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No entanto, esta ação conjunta é dificultada pela posição da outra potência europeia — a Alemanha. Historicamente, Berlim e Paris estão alinhados na definição da política externa da União Europeia, destaca Karim Émile Bitar. Neste caso — e devido aos laços históricos da Alemanha com Israel — “a Alemanha está de um lado completamente diferente”. O chanceler Friedrich Merz tem sido mais crítico que os seus antecessores. Mas a posição oficial na Alemanha mantém-se inalterada: Berlim não irá reconhecer a Palestina num futuro próximo.

O anúncio foi feito esta sexta-feira por um porta-voz do governo alemão, que defendeu que o reconhecimento deve ser o último, e não o primeiro passo, para a implementação da solução de dois Estados. Além disso, Berlim entende que endurecer as críticas resultaria numa perda de influência sobre Telavive — excluídos os Estados Unidos, a Alemanha é um dos Estados mais próximos de Israel.

No entanto, Karim Émile Bitar acredita que “será cada vez mais difícil a Alemanha manter esta linha dura”, não só pela mudança generalizada da opinião pública, mas pelo facto de o bloco europeu também incluir posições no espectro oposto, assumidamente críticas de Israel. Entre estas, destaca Espanha, Irlanda e Eslovénia que, no ano passado, não esperaram pelo resto da comunidade europeia para reconhecerem o Estado da Palestina. Aliás, o governo espanhol tem sido uma das vozes mais vocais na defesa da Palestina e condenação de Israel na Europa e o seu líder, Pedro Sánchez, apressou-se a assinalar a decisão de Macron. “Juntos, devemos proteger o que Netanyahu está a tentar destruir”, declarou.

França conseguiu levar avante um desejo que anda a alimentar há mais de 40 anos. Agora, continua o trabalho diplomático para que o resto do bloco europeu siga a sua liderança. Porém, analistas e diplomatas consideram, de forma quase unânime, que a pressão política da comunidade europeia, se não for acompanhada de pressão económica (ou da bem mais improvável pressão norte-americana) não deverá passar de um gesto simbólico — importante para o futuro da região, mas não um passo concreto na direção da paz na Faixa de Gaza.

Notícia atualizada com a declaração de Keir Starmer

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