O diretor executivo da CNN, Frederico Roque de Pinho, foi denunciado por alegadamente favorecer funcionários da estação em função da sua orientação sexual. No canal oficial de denúncias da empresa, obrigatório por lei desde 2022, foram apresentadas várias queixas contra Roque de Pinho, alegando que o diretor executivo escolhe frequentemente homens gays para cargos e tarefas com maior destaque, em detrimento de outros elementos da redação.
As denúncias foram investigadas e, esta quinta-feira, o diretor executivo da CNN esteve reunido com a administração da Media Capital para encontrarem uma saída para o caso. Ao Observador, Frederico Roque de Pinho garante: “Desconheço qualquer processo”. Assegura que se mantém em funções, admitindo no entanto que prolongou as férias — que deveriam ter terminado esta quarta-feira — “pelo tempo que for necessário”.
A investigação interna que visou o diretor executivo da estação teve origem em várias queixas apresentadas por funcionários da CNN, que denunciavam o que consideravam ser critérios discriminatórios de Frederico Roque de Pinho na escolha dos jornalistas chamados para as funções de maior relevo na estação de televisão. Segundo o Observador apurou, as queixas referiam que eram muitas vezes favorecidos homens, homossexuais, para dar a cara pelo canal, para assumir cargos e tarefas de maior responsabilidade e visibilidade.
Os fundamentos das queixas foram considerados suficientemente sólidos para que devessem ser alvo de uma investigação mais aprofundada. Além de as informações que constavam das queixas terem sido reportadas à PricewaterhouseCoopers (PwC), entidade externa responsável pela auditoria da Media Capital, detentora da CNN, o Observador sabe que foram ouvidos vários funcionários da empresa sobre os dados reportados nessa denúncia — o diretor de informação da TVI, Nuno Santos, foi ouvido pelos responsáveis pela investigação, mas também vários jornalistas e elementos das chefias intermédias da redação da CNN.
▲ Nuno Santos, diretor geral da CNN, foi um dos profissionais da estação ouvidos na investigação às denúncias contra Frederico Roque de Pinho, seu braço-direito
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
O reporte à entidade auditora é um dos pressupostos estabelecidos para garantir que a investigação das denúncias não é bloqueada internamente — um ponto ainda mais relevante quando estava em causa um alto cargo da CNN.
O resultado dessa investigação terá sido comprometedor e foi dado a conhecer ao diretor executivo da CNN esta quarta-feira à noite, quando Frederico Roque de Pinho se deslocou à estação de televisão, depois de um período de férias no Brasil.
Isto não significa, ainda assim, que o processo esteja concluído. Segundo diversas fontes na empresa referiram ao Observador, Roque de Pinho e a administração estiveram reunidos já esta quinta-feira para decidir qual a saída para a atual situação. Entre as hipóteses em cima da mesa chegaram a estar: um acordo para uma desvinculação da empresa; uma eventual suspensão, como medida provisória; a destituição das atuais funções, mantendo-se Frederico Roque de Pinho na Media Capital; ou mesmo o despedimento.
Roque de Pinho: “Não há processo nenhum. Alarguei as férias”
O Observador confrontou Frederico Roque de Pinho com as informações sobre o processo por discriminação de funcionários em que foi visado. Recusando-se a ser “julgado na imprensa”, o diretor da CNN garante não ter “conhecimento de qualquer processo” e refere que o seu “entendimento” é o de que se mantém em funções: “Não tenho nada a dizer sobre esse assunto. É perguntar à empresa se houve ou não algum processo. Alarguei o meu período de férias, pelo tempo que for necessário. Da minha parte, não há processo nenhum”.
O Observador tentou também obter uma reação da parte de Mário Ferreira, acionista maioritário da empresa e presidente da Media Capital, Pedro Morais Leitão, CEO da Media Capital, e também de José Eduardo Moniz, diretor-geral da TVI, mas nenhum respondeu aos pedidos de esclarecimento.
▲ José Eduardo Moniz, diretor-geral da TVI
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Frederico Roque de Pinho chegou ao cargo de diretor executivo da CNN em fevereiro de 2022, pela mão do diretor geral da CNN Portugal, Nuno Santos, que afirmou na altura: “A escolha [da nova equipa] foi feita em articulação com o novo diretor-geral da TVI”, referindo-se a José Eduardo Moniz. O Observador confrontou o diretor-geral da CNN com a suspensão do seu diretor executivo, mas Nuno Santos recusou-se a comentar o caso.
Cerca de 8 mil empresas obrigadas a ter canal de denúncia — e o caso do CEO da Galp
Foi através do tal canal de denúncias que a CNN tem à disposição dos seus funcionários que as queixas sobre Frederico Roque de Pinho surgiram. Neste caso, foram denunciadas alegadas situações de discriminação, mas aquela plataforma pode ser usada, de forma anónima, para reportar todo o tipo de situações que os profissionais considerem ser irregulares: casos de assédio sexual, assédio laboral, segurança, saúde, questões éticas ou outras.
Os canais de denúncia começaram a multiplicar-se ao longo de 2022 e tornaram-se obrigatórios por lei a partir de 17 de junho desse ano. Ao todo, 8.312 empresas e organismos do Estado em Portugal deveriam passar a ter, a partir desse momento, canais próprios para proteger duplamente os seus funcionários: por um lado, porque passavam a ter uma via formal para apresentar casos passíveis de gerar conflitos hierárquicos; por outro lado, a legislação prevê que os autores das denúncias devem beneficiar de um grau reforçado de proteção, para garantir que os reportes não ficam por fazer por receio de represálias por parte da própria organização. Na prática, os denunciantes não podem ser despedidos, sancionados ou prejudicados de alguma forma na sua carreira profissional por motivos relacionados com a denúncia.
E porquê os tais 8.312 organismos e empresas? Porque a legislação se aplica a todas as entidades públicas e privadas com mais de 50 trabalhadores e é esse o universo que em junho o Instituto Nacional de Estatística apresentava para a realidade empresarial no país.
O primeiro caso com impacto real numa grande empresa nacional aconteceu já este ano de 2025: logo em janeiro, o presidente da Galp Energia apresentou a demissão do cargo alegando “motivos familiares”. Mas a saída foi anunciada depois de ser tornada pública uma denúncia contra Filipe Silva, por alegadamente manter uma relação com uma diretora da empresa que dependia hierarquicamente do CEO da empresa.
No comunicado em que anunciou a saída de Filipe Silva, a presidente do Conselho de Administração da Galp não fez qualquer menção ao caso em que o CEO da Galp Energia era visado. “Gostaria de enfatizar o contributo do Filipe para a empresa nos últimos 12 anos, período durante o qual a sua dedicação foi importante para o crescimento da Galp”, referia o comunicado, citando Paula Amorim.
O caso que envolve Frederico Roque de Pinho e a CNN pode vir a ser a segunda situação em que um dirigente de uma empresa com elevada notoriedade pública é posto em causa por uma queixa comunicada através do canal de denúncias, desde a criação oficial deste mecanismo em 2022.