O discurso é convincente, a aparência cuidada — surge sempre de fato e camisa e o toque final é o Mercedes que conduz. A PSP descreve-o como alguém “extremamente alerta” e cuidadoso para não deixar rastos. Na semana passada, foi detido por suspeitas de burlar dezenas de idosos: apresentava-se com um funcionário bancário, levava as vítimas a entregarem-lhe o cartão e o respetivo PIN. O esquema, que usou em pelo menos 43 burlas, entre 2022 e 2025, valeu-lhe quase 164 mil euros: “As poupanças de muitas vidas.”
“Há pessoas que passaram a viver grandes dificuldades em virtude deste senhor, que estavam bem na vida e agora se veem numa situação limite“, diz ao Observador uma fonte da PSP que esteve envolvida na investigação que levou à detenção, pela segunda vez, do homem de 50 anos. É que o burlão já era conhecido da polícia desde 2022, altura em que foi detido e condenado a nove anos de prisão efetiva que nunca chegou a cumprir, depois de esgotar os recursos até à última instância e de, nesse processo, se ter expirado o prazo máximo da prisão preventiva.
Em liberdade, a partir de julho de 2023, bastaram três meses para regressar aos velhos hábitos. Mas se a estratégia e o tipo de vítimas não mudou, o falso bancário deixou de operar junto a bancos e passou a optar por zonas residenciais. Também redobrou os cuidados, com a escolha de um parceiro cujo envolvimento nos crimes ainda está a ser investigado pela PSP.
Um “charuto” para o dia a dia e um Mercedes para as burlas. A vida dupla do falso bancário
Sentado à secretária, de olhos postos no computador, o analista passa em revista dezenas de burlas registadas na base de dados da PSP. O aumento do número de casos dos últimos meses é notório, mas não é só isso que salta à vista. Um padrão começa a formar-se com clareza: uma ou mais pessoas estão a fazer-se passar por bancários para convencer vítimas a entregarem-lhe cartões e dados bancários. Ao que tudo indica, o esquema está a dar lucro.
“O analista detetou um aumento significativo de casos de burlas em determinadas zonas geográficas, bem definidas, sempre com o mesmo MO [modus operandi], tudo levando a crer que era a mesma pessoa”, explica uma fonte policial a propósito do início da investigação, que arrancou em 2022. O primeiro passo seria a colocação de polícias em zonas estratégicas onde os crimes tinham vindo a acontecer e rapidamente foi possível identificar o suspeito.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O homem, na altura com 47 anos, operava sobretudo perto de bancos e não só em Lisboa. “Há viagens ao Porto, há viagens a outras zonas mais recônditas do território nacional”, revela a mesma fonte. “Bem vestido, sempre de fato e com viaturas de alta cilindrada” — trocava o “charuto” do dia a dia por um Mercedes-Benz CLA —, encarnava perfeitamente a personagem de bancário. Para tentar dar mais credibilidade à história, andava sempre com cartões de apresentação com nomes falsos. No mesmo dia tanto podia ser um João como um Carlos.
Não só o modus operandi era o mesmo, como também o tipo de vítimas. “Todas mulheres, todas de idade avançada, com um discernimento muito mais débil relativamente à história que ele apresentava”, descreve a mesma fonte, acrescentando que em muitos casos eram provenientes de contextos familiares destruturados. Na abordagem, o homem dizia às vítimas que o seu cartão bancário estava com problemas: ou porque o cartão tinha expirado ou a conta tinha sido acedida indevidamente. Pedia que o entregassem, juntamente com o código PIN, prometendo levar um novo a casa ou que ele chegaria por correio mais tarde.
Antes sequer de as vítimas suspeitarem da demora na entrega dos novos cartões, o falso bancário recorria a transferências e levantamentos para retirar “quantias avultadas”. Muitas vezes utilizava a estratégia dos levantamentos antes e depois da meia-noite para garantir que tirava o máximo proveito do acesso aos cartões, dos quais se livrava “de imediato” no fim de cada esquema. “As pessoas acabavam por perceber não muito tempo depois [que era uma burla], porque as suas contas eram esvaziadas de tal forma violenta que até os próprios bancos informavam que eventualmente estava a ocorrer um crime de burla”, explica a fonte da PSP.
Depois de cerca de cinco meses de investigação, em junho de 2022 a PSP de Lisboa conseguiu deter o burlão em flagrante, enquanto fazia levantamentos do cartão de um idoso. No decorrer de buscas, foram-lhe apreendidos “3.090 euros, duas viaturas de alta cilindrada e um telemóvel.”
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Um parceiro, a troca de carro e o último crime
Detido em flagrante, o homem ficou em prisão preventiva enquanto aguardava o julgamento pelos crimes de 35 burlas qualificadas e 254 utilizações indevidas de cartão bancário. Um juiz acabou por condená-lo a nove anos de prisão efetiva, mas depois de recorrer até à última instância, em julho de 2024, altura em que terminava o prazo máximo da prisão preventiva, sairia em liberdade enquanto aguardava a decisão sobre esse último recurso que interpôs.
O regresso ao crime não tardou. Apesar de ter ficado sujeito a apresentações semanais na PSP, três meses depois de sair da prisão o mesmo analista que em 2022 contribuiu para a detenção do homem voltou a captar um aumento de casos e a notar o mesmo padrão de burlas. “Pela descrição, pelo modus operandi, pela conversa, pelos sítios, foi o mesmo analista que já o tinha sinalizado que se recordou que eventualmente poderia ser a mesma pessoa“, explica fonte policial.
A teoria revelou-se certeira, com a equipa a confirmar que o homem estava novamente em liberdade. Ao regressar aos locais da primeira investigação, a polícia conseguiu identificar o suspeito e “acompanhá-lo até conseguir perceber o tipo de carro que conduzia e onde é que estava a morar”. Foi possível perceber que desta vez o burlão operou junto da Amadora, Sintra-Oeiras, Cascais, Vila Franca, Loures, mas também em zonas do Barreiro, Seixal e Almada. Deixou de se posicionar junto a bancos e passou a optar por zonas residenciais, em áreas tipicamente mais ricas.
As vítimas eram abordadas à entrada dos prédios e moradias, com o burlão a dispensar o uso dos anteriores cartões de apresentação. Mas nem por isso a PSP notou uma menor cautela: “Acompanhámo-lo quer numa operação quer noutra durante alguns dias e ele é uma pessoa extremamente alerta.” Aliás, nos crimes cometidos no final de 2024 e no início deste ano foi sempre acompanhado por um parceiro. O homem ficava no interior do carro, desta vez um BMW 530, já que o anterior tinha sido apreendido, com a função de vigiar.
Durante uma das vigilâncias, a 29 de janeiro, os agentes da PSP seguiram o burlão até uma zona de moradias em Algés, onde convenceu uma idosa a ceder-lhe o cartão bancário e o PIN. Dali não perdeu tempo e seguiu até à Estrela, tentando fazer levantamentos pelo caminho. Ainda conseguiu retirar 200 euros da conta da mulher, mas as várias tentativas de transferências, no valor de 7.850 euros, foram sendo rejeitadas pelo sistema. Apanhado novamente em flagrante, não foi preciso esperar pelo mandado de detenção, que as autoridades já tinham pedido, e em coordenação com uma magistrada detiveram o homem pela segunda vez. Questionada sobre se o parceiro também foi detido, fonte da PSP indica apenas que “as investigações prosseguem.”
O autor principal soma aos crimes anteriores mais oito burlas qualificadas e 95 utilizações indevidas de cartão bancário. No total, deu um prejuízo de 163.912,40 euros às vítimas. Durante as buscas à casa do homem, foram apreendidos 1.350 euros, diversos documentos e também o BMW. Presente a juiz, voltou a ficar em prisão preventiva.