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Com grandes constrangimentos nos transportes, os portugueses continuaram, no entanto, a deslocar-se. Recorreram a outros meios.
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▲Com grandes constrangimentos nos transportes, os portugueses continuaram, no entanto, a deslocar-se. Recorreram a outros meios.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

▲Com grandes constrangimentos nos transportes, os portugueses continuaram, no entanto, a deslocar-se. Recorreram a outros meios.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Dois milhões de pessoas mudaram rotinas. Consumo de eletricidade foi normal. O impacto da greve geral medido nas deslocações e na indústria

Um estudo da Ipsos Apeme para o Observador mostra que a greve teve impacto na mobilidade mas não fez parar Portugal. Também os níveis de consumo de eletricidade mostram que a indústria não parou.

A guerra de números em relação à greve geral de quinta-feira, 11 de dezembro, levou a duas leituras distintas em relação ao impacto da paralisação. Se por um lado o Governo considerou ter havido uma adesão inexpressiva — Leitão Amaro, ministro da Presidência, chegou a dizer que parecia “mais uma greve da função pública, parcial de alguns sectores da função pública” –, os sindicatos falaram em ação histórica.

Os dados finais só mais tarde poderão ser conhecidos, nomeadamente através do processamento de salários — quem faz greve tem falta justificada, mas não recebe a remuneração desse dia (ainda que por isso muitas pessoas prefiram meter o dia de férias ou folga para que não lhe seja descontado o dia, mas acabe a associar-se aos protestos). O Governo deu dois indicadores para tentar provar o impacto ligeiro da greve — as transações da SIBS e o movimento nas pontes sobre o Tejo.

O Observador foi procurar dados de várias atividades para aferir de alterações que possam dar indicações da adesão. Mas há poucos indicadores disponibilizados por agora. Na eletricidade, notou-se um consumo que não fugiu aos valores normais registados nos dias úteis mais recentes. Com algumas exceções, incluindo a empresa bandeira Autoeuropa, a produção nas principais empresas industriais não parou.

Contra “retrocesso” laboral, mas a picar pouco o ponto à greve geral. Nestas indústrias a revolta nem sempre converteu trabalhadores

As deslocações mostram, no entanto, algum impacto, expresso na redução de tráfego nas autoestradas geridas pela Brisa ou nas pontes em Lisboa. Por outro lado, a greve geral de quinta-feira, 11 de dezembro, provocou alterações nos padrões de mobilidade de quase dois milhões de portugueses, apontam os dados recolhidos pela Ipsos Apeme para o Observador, tendo, ainda, concluído que em Lisboa seguiram do Rossio a São Bento entre 10 mil e 35 mil pessoas.

Com um intervalo de confiança de 95% (e uma taxa de erro de 1,62%), o painel de mobilidade da Ipsos Apeme (com uma amostra média semanal de três mil indivíduos para um universo de 7.389.733 pessoas) aponta para a presença estimada de entre 10 mil e 35 mil pessoas na manifestação que foi do Rossio à Assembleia da República, com o ponto médio a ficar nas 23.430 pessoas. 

▲ A Ipsos Apeme estima que tenham estado entre 10 mil e 35 mil manifestantes na marcha do Rossio à Assembleia da República, em Lisboa.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Dois milhões de portugueses mudaram padrões e quase meio milhão optou por ficar em casa (quando habitualmente sai de manhã)

A rotina de mobilidade dos portugueses sofreu, no dia da greve geral, alterações. Numa análise às deslocações dos portugueses da Ipsos Apeme, partilhada com o Observador, conclui-se que “as diversas perturbações ao nível dos transportes levaram a que cerca de 1.974.687 portugueses alterassem os seus padrões habituais de mobilidade”.

Nas mudanças de rotina notou-se que cerca de meio milhão de pessoas (448.898) ficou, no dia da greve geral, em casa de manhã, quando em dias normais sai do domicílio. Aliás, segundo os dados da empresa de estudos de mercado do grupo Ipsos, a quinta-feira da greve foi o dia útil de dezembro em que mais pessoas (com mais de 15 anos, que são as que compõem o painel de análise) ficaram em casa. Os dados mostram que o dia da greve assemelhou-se, nesse ponto, a um dia não útil.

Normalmente os domingos e feriados são os dias em que mais população opta por ficar em casa. Nos feriados de 1 e 8 de dezembro, 33% dos portugueses não saiu. No domingo 7 de dezembro foi de 32%. No dia da greve a percentagem de pessoas que ficou no domicílio foi de 29%, um valor próximo dos feriados e domingos. Nos restantes dias úteis de dezembro a média de pessoas a permanecer no lar foi de 22%, caindo para 20% a percentagem que o fez no dia anterior ao da greve, dia 10 de dezembro.

Planos de contingência com teletrabalho e monitorização para minimizar impactos: como as empresas se preparam para a greve

Tendo havido empresas a sugerir aos seus trabalhadores (que não quisessem aderir à greve) ficarem em teletrabalho, nos casos em que tal era viável, não é possível verificar por estes dados se quem ficou a casa esteve a trabalhar.

Fonte: Ipsos APEME

Além do universo dos que habitualmente saem de casa de manhã e que nesse dia não o fez (448.898), a Ipsos Apeme detetou que 241.962 foram forçadas a optar por carro (veículo individual, não sendo possível aferir se foi carro particular, táxi ou TVDE), quando habitualmente optam por outro meio. Um dos principais efeitos da paralisação foi reduzir a oferta de transportes públicos a serviços mínimos e o Metro de Lisboa esteve fechado.

Mas, por outro lado, 366.909 pessoas que costumam utilizar o carro na saída matinal no dia da greve não o fizeram. Não quer dizer que tenham sido essas 366 mil pessoas a ficar em casa. Os números analisam movimentações distintas.

As alterações de rotina notaram-se ainda nas distâncias médias percorridas nesse dia. 920.745 percorreram  menos 10 quilómetros do que o habitual. Mas, pelo contrário, 217.172 pessoas tiveram de fazer mais 20 quilómetros do que o normal num dia útil.

Acesso às escolas com menos gente, centros comerciais na mesma

O impacto da greve geral nas escolas, nomeadamente públicas, foi forte. E, agora, os dados da Ipsos Apeme comprovam que no acesso às escolas “o impacto da greve foi extremamente significativo”. A procura por estes espaços caiu cerca de 42% face ao habitual num dia útil.

O painel de mobilidade Ipsos Apeme monitoriza a localização e meios de deslocação, através de uma aplicação móvel, e de um painel com uma amostra média semanal de três mil indivíduos composto por um universo de pessoas com mais de 15 anos, residentes no Grande Porto, Grande Lisboa, Litoral Norte, Litoral Centro e distrito de Faro.

Os indicadores não estão ligados nos dados partilhados com o Observador, no entanto, o encerramento de muitas escolas pode justificar outro dado da Ipsos Apeme: as mulheres entre os 35 e os 54 anos foram dos grupos mais afetados pelas alterações de padrões de mobilidade impostas pela greve.

Além do acesso às escolas foram ainda analisadas as deslocações para centros comerciais. Em época natalícia não se notou, no entanto, um acréscimo de procura destes espaços. “Não se registou diferenças significativas na afluência a centros comerciais no dia da greve geral, dado que os valores estão na média, tendo em conta o histórico dos últimos 15 dias”, indica ao Observador a Ipsos Apeme.

Como é feita a análise da Ipsos Apeme

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A Ipsos Apeme tem um painel de mobilidade que recolhe dados pela monitorização de localização e deslocações através de uma aplicação móvel.

A aplicação móvel rastreia os movimentos de uma amostra média semanal de três mil pessoas, representativas de um universo total de 7.389.733 pessoas residentes no Grande Porto, Grande Lisboa, Litoral Norte, Litoral Centro e distrito de Faro e com mais de 15 anos.

Os dados são obtidos via GPS e com o consentimento da amostra. O estudo implica a instalação de uma aplicação nos telemóveis para se monitorizar as 24 horas dos sete dias de semana.

A margem de erro é de 1,62% e o intervalo de confiança de 95%.

Afluência normal nas principais vias de Lisboa e Porto

Nos dados obtidos, a Ipsos Apeme conclui que houve uma “ligeira redução do tráfego total rodoviário no dia da greve geral”, mas “nos principais eixos e vias de trânsito” os valores de tráfego foram “perfeitamente alinhados com o padrão habitual no mês de dezembro”.

Em Lisboa, a Ponte 25 de Abril, a A5, a Segunda Circular e o IC19 tiveram índices de afluência ligeiramente acima da média de dezembro (sendo 100 a média, nessas vias registou-se, nesse dia, valores de 109, 107, 109 e 106, respetivamente). No Porto, a A20 (ponte do Freixo) e A4 tiveram índices de 108 e 96.

Olhando para as horas de ponta da manhã e da tarde permitiu-se concluir que “apesar da ligeira redução do número de portugueses em circulação nas estradas, quem se deslocou manteve de forma geral o mesmo perfil horário da sua rotina, principalmente, nas horas de saída de casa”. Assim, o dia começou com menos trânsito que o normal num dia útil. Habitualmente entre as seis e as 10 horas da manhã há cerca de 3,2 milhões de pessoas a circularem de carro. Na quinta-feira o número desceu para 2,54 milhões, “provocando uma redução de média do tráfego automóvel de cerca de 21% nessa manhã”.

Greve geral. Tráfego nas pontes para Lisboa caiu 4,5% face a 2024, mas foi o mesmo da quinta-feira da semana passada

No dia da greve, a Lusoponte indicou ao Observador que o tráfego rodoviário nas pontes sobre o Tejo no sentido sul-norte (em que há portagens) no período da manhã (até às 13 horas) registou uma queda de 4,5% face ao mesmo dia do ano passado, mantendo-se quase na mesma em relação a quinta-feira da semana anterior.

Já na hora de ponta da tarde a Ipsos Apeme revela que entre as 17 e as 19 horas as pessoas em circulação automóvel desceu dos habituais 3,442 milhões para 2,86 milhões, uma redução de 17%.

Considerando todo o dia da greve geral (até às 21 horas), a redução de pessoas a utilizar automóvel foi de 14%, encolhendo dos 5.350.145 para 4.576.686.

A Ipsos Apeme recolhe dados através de uma aplicação móvel que monitoriza a deslocação da amostra durante 24 horas em todos os sete dias da semana.

Fonte: Ipsos Apeme 

Queda nas viagens realizadas por hora nas autoestradas da Brisa

A queda no número de viagens por hora na rede de autoestradas geridas pela concessão Brisa foi, no dia 11 de dezembro, de 3,4%, quando comparado com o mesmo dia do ano passado. Este ano, contudo, o dia 11 calhou numa semana que começou com um feriado. No ano passado o feriado de dia 8 calhou no fim de semana.

Nos dados enviados pela Brisa ao Observador, olhando para a totalidade da rede, verifica-se que, apesar da queda no dia todo, houve, em algumas horas, acréscimo de viagens, o que aconteceu, de forma notória, às seis da manhã, hora a que o número de viagens subiu 13,4%. Houve igualmente acréscimos à uma, duas e três da manhã. Nesse período o número de viagens aumentou, respetivamente, 8,7%, 5,9% e 6,3%.

Olhando à região Lisboa, a Brisa contabiliza uma queda de 4,5% no número de viagens nas entradas em Lisboa. A medição foi feita nas portagens da A5 Carcavelos, A5 Oeiras, A9 Queluz, A9 Odivelas e A1 Alverca. Também na Grande Lisboa notou-se um aumento de movimento às seis da manhã de 15,9% e de 10,9% à uma da manhã. Neste caso registaram-se subidas também às 15, 16 e 17 horas, embora menos acentuadas.

Na região do Porto, a queda foi mais expressiva. As entradas recuaram 11,4% no dia da greve geral em comparação com igual dia do ano passado. Ainda assim, no Grande Porto houve mais horas em que o número de viagens subiu em termos homólogos. Neste caso foi às três da manhã que o número de viagens mais cresceu — 30,1%. Nas horas anteriores também houve aumentos. À meia noite cresceu 9,9%, à uma 19,3% e às duas 8,4%. A subida às seis da manhã foi de 4,8%. No Porto, que mediu as viagens à passagem nas portagens de A1 Grijó, A3 Maia e A4 Ermesinde, houve ainda subidas ao meio dia (3,9%), às 14 horas (2,1%) e às 15 horas (0,3%). Voltou a subiu às 21 horas, de 8,8%.

▲ A Autoeuropa parou no dia da greve geral

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Indústria representa 50% do consumo de eletricidade (que foi normal) e com algumas exceções continuou a produzir

A greve geral conseguiu paralisar algumas empresas bandeira da economia portuguesa, como a Autoeuropa mas os dados sobre o consumo de eletricidade na quinta-feira parecem estar mais do lado da narrativa do Governo e das associações empresariais que procuraram desvalorizar o impacto económico da greve.

A procura de energia elétrica manteve-se ao nível dos dias anteriores e muito próxima da registada na quinta-feira comparável do ano passado. E, apesar de em termos reais, o consumo ter ficado um pouco aquém da previsão para aquele dia — 171 GWhora previstos para os 168 GWh reais  — essa queda é ultrapassada quando se faz a conta ao consumo corrigido com o efeito da temperatura. A informação diária sobre o setor elétrico do data hub da REN (Redes Energéticas Nacionais) mostra até um consumo superior ao estimado, de 175 GW hora.

Considerando o consumo médio dos dias úteis nas últimas duas semanas, na casa dos 172 GW hora, a procura registada no dia da greve geral não destoa deste valor. Se tivesse havido uma paralisação generalizada da atividade industrial, o consumo estaria mais alinhado com os fins de semana e feriados que nos últimos registos têm estado cerca de 15% abaixo do verificado em dias úteis.

Representando os consumidores industriais cerca de 50% do consumo de eletricidade em Portugal, a estabilidade na procura dá mais razão aos que dizem que a greve teve pouco impacto. Pelo menos no que toca à atividade industrial. As estimativas avançadas pela CIP (Confederação Empresarial de Portugal) apontam para uma média de adesão de 3%. Associações setoriais, como a dos têxteis, alinharam pelo mesmo padrão — 98% das empresas tiveram zero adesões à greve e as que tiveram algumas foram residuais.

No total, os grandes consumidores de eletricidade, onde estará a Autoeuropa, mas também empresas públicas como a Infraestruturas de Portugal e o Metropolitano de Lisboa, valem 20% da procura. Mas a paralisação ou a redução de atividade de algumas destas empresas não chegou para fazer cair de forma material o consumo de energia.

Não só a indústria não parou em peso, como a maior parte dos grandes consumidores industriais de eletricidade esteve a trabalhar, “business as usual”.  Segundo a ronda feita pelo Observador,  Navigator, Cimpor, Galp, Somincor, Bondalti, HyChem e Altri não tiveram ruturas na produção e os níveis de adesão foram pouco expressivos.

São empresas que fazem parte do clube dos maiores clientes de eletricidade, representado pela associação de industriais grandes consumidores de energia elétrica. O universo da APIGCEE, que inclui ainda a Megasa, a Secil, a Air Liquide, as grande empresas de vidro BA Glass e Vidrala, a Finsa e a Aapico, representa cerca de 10% do consumo de energia elétrica em Portugal.

Indústria automóvel, transportes públicos e aviação entre os mais afetados

Ainda assim, na tournée dos sindicatos pelo tecido industrial não faltaram empresas paralisadas. Além da já referida Autoeuropa, a Visteon, a Mitsubishi Fuso, a Bimbo, a Continental e a Tabaqueira fazem parte da lista divulgada por fontes sindicais. De acordo com as mesmas fontes, o setor automóvel, em particular as empresas de componentes que o fornecem, foi dos mais afetados.

A estas empresas industriais juntam-se as principais empresas de transportes públicos, praticamente todas as públicas, onde a greve teve fortes impactos. Mesmo que a adesão possa não ter sido esmagadora, o facto de estas empresas terem recorrido a tribunais arbitrais para a fixação dos serviços mínimos fez com que o seu nível de atividade ficasse limitado a esses serviços. Independentemente do nível de adesão.

O nível dos serviços mínimos fixados variou entre os 25% e os 30% na Infraestruturas de Portugal, a empresa que gere a rede ferroviária e da qual depende a circulação da CP e da Fertagus (passageiros) e dos operadores de carga Medway e Captrain.

Transtejo, STCP e Metro do Porto tiveram a operação muito condicionada. E o Metro de Lisboa teve mesmo de fechar as portas. O setor dos transportes foi um dos mais afetados pela greve com redução de oferta, mas esta foi uma situação que afetou sobretudo as empresas públicas. Os operadores privados (rodoviários) continuaram a circular, apesar de alguns incidentes.

Igualmente muito afetados foram os aeroportos e a aviação, apesar de a maioria dos operadores serem privados. A TAP é pública, mas terá sido tão afetada quanto as companhias privadas.

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