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À frente de uma plateia de milhares, na Web Summit Lisboa de 2021, estão apenas duas pessoas. Douglas Leone, o então líder global da Sequoia Capital, e Assaf Rappaport, o co-fundador e CEO da startup Wiz. O homem esguio e irrequieto, que parece algo desconfortável com a dimensão da plateia, pergunta ao veterano Leone o que levou uma das maiores capitais de risco do mundo a investir na empresa de cibersegurança cloud quando mal tinha acabado de sair do papel.
“Por tua causa. A resposta curta é essa”, dispara Douglas Leone. “Tínhamos um fundador espevitado, que é demasiado ambicioso — e digo isto como um elogio, não como uma farpa —, criaste um negócio, que vendeste à Microsoft, tens conhecimento… Era simplesmente óbvio.” A questão, feita por Rappaport, não era descabida. Em 2020, a Sequoia liderou em conjunto com a Cyberstarts a primeira ronda de investimento seed na Wiz, que tinha sido criada em março desse ano. O historial do quarteto de fundadores da startup, mas principalmente de Rappaport, foi meio caminho andado para conquistar os primeiros 20 milhões de dólares. Mais tarde, seguiram-se muitos milhões vindos de outros investidores.
Esta semana, a história do empreendedor em série Assaf Rapport e da jovem startup de cibersegurança na cloud estão nas bocas do mundo. É um negócio “ressuscitado”: a Wiz vai ser comprada pela Google, por 32 mil milhões de dólares, depois de em julho ter dito não aos 23 mil milhões oferecidos… pela mesma Google. É uma aquisição de marcos — não só é a compra mais cara da história da gigante de internet como também é o maior negócio que envolve uma empresa nascida em Israel. A aquisição vai ter de passar pelo crivo dos reguladores, mas as empresas esperam que fique fechada em 2026.
Google avança para compra de empresa de cibersegurança Wiz por 32 mil milhões
Mais de três anos depois da conversa no palco da Web Summit, em Lisboa, Douglas Leone não escondeu a alegria gerada pela venda à Google. “Não podíamos estar mais orgulhosos do Assaf, do Yinon, do Roy e do Ami e de toda a equipa da Wiz. Tem sido uma honra sermos parceiros há mais de uma década”, escreveu no Linkedin. É fácil perceber o entusiasmo do responsável da Sequoia: caso a venda seja bem sucedida, a capital de risco pode encaixar 3 mil milhões de dólares, pela participação de cerca de 10% na empresa, avançou a Bloomberg.
O negócio poderá deixar investidores e fundadores da Wiz de bolsos cheios. Cada um dos quatro fundadores — Assaf Rappaport, Yinon Costica, Ami Luttwak, todos com 41 anos, e Roy Reznik, de 36 anos — tem 10% da empresa e, depois de impostos, poderão ganhar até 2,2 mil milhões de dólares. Já a Index Ventures, a maior acionista da empresa, com uma participação entre 13 e 14%, ganhará ainda mais: pelas contas do Wall Street Journal, o total de 245 milhões de dólares investidos na Wiz poderão render 4,3 mil milhões de dólares.
No centro deste turbilhão multimilionário está sempre o mesmo rosto — o do CEO Assaf Rappaport. Nos últimos cinco anos, desdobrou-se em entrevistas centradas no curto e acelerado percurso da startup e a explicar como é que criar uma empresa em plena pandemia global se transformou na receita para o sucesso. “A Wiz começou a 1 de março de 2020. Se se lembrarem desse dia, foi quando percebemos que uma pandemia, que não ia ser só algo na Ásia, ia afetar o mundo”, afirmou na Web Summit 2021. “Vou ser sincero: os primeiros dias, embora tenhamos conseguido bons parceiros, achei que talvez tivesse cometido um erro ao ter uma startup que é arriscada e estar a geri-la durante uma pandemia”, confidenciou. “Mas, em retrospetiva, acho que foi a melhor altura para começar uma empresa.”
O ano de 2020 ficou marcado por confinamentos, teletrabalho e muitas empresas a passarem de forma acelerada para a computação cloud e a alterar processos de negócio para continuarem a funcionar. “O timing foi ótimo para nós”, recordou Rappaport sobre o início da empresa. Numa altura em que era imperativo ter segurança na cloud, a Wiz chegou ao mercado com uma solução de instalação rápida, que analisa tudo o que é executado e está armazenado na nuvem. Ao mesmo tempo, faz alertas para tudo o que possa representar uma vulnerabilidade e identifica os riscos mais urgentes. “Queremos tornar a cloud menos nublada”, resumiu o fundador.
A juntar à necessidade do momento, a equipa de fundadores já tinha nome no mercado e contactos — a startup anterior, a Adallom, que venderam à Microsoft em 2015, também estava na área da cibersegurança. O crescimento da Wiz foi rápido e a empresa tornou-se um unicórnio em pouco mais de ano e meio, com Assaf Rappaport ao leme. Em maio de 2024, a última vez em que fechou uma ronda, liderada pela Andreessen Horowitz, Lightspeed Venture Partners e pela Thrive Capital, a Wiz estava avaliada em 12 mil milhões de dólares.
Da academia militar até à primeira startup vendida à Microsoft
Assaf Rappaport nasceu em Telavive, em Israel, a 28 de agosto de 1983. É assumidamente introvertido e tímido. Num perfil feito pela Forbes, em 2023, é relatado o visível incómodo quando abordado para tirar selfies durante a parada Pride em Telavive. Afinal, é um dos empresários do mundo da tecnologia mais conhecidos de Israel.
O retrato traçado por executivos com quem já se cruzou tem mais adjetivos, como “extremamente encantador e afável”, como afirmou Gili Raanan, um dos investidores da Cyberstarts, ao Financial Times. “E também pode ser muito decisivo, orientado por dados, analítico, impiedoso. Esses dois lados existem”, acrescentou.
Com 41 anos, é frequente vê-lo com a “farda” de um fundador de uma startup: t-shirts simples ou camisolas de capuz, dependendo da época do ano, calças de ganga e ténis Golden Goose. Mantém os “hábitos alimentares de uma criança de cinco anos”, assumiu à Forbes: adora comida de plástico, não come vegetais, dispensa especiarias e não bebe café. Também não é fã de símbolos mais tradicionais de status, como carros, mas só viaja de avião se for em classe executiva. O executivo namora há vários anos com Ofir Hadary, que também trabalha na indústria tecnológica. Tem poucos hobbies e passou o último ano e meio a viver em Nova Iorque, a promover o negócio da Wiz.
Rappaport é filho único e foi criado apenas pela mãe, Tzipi, já que a separação dos pais aconteceu quando era ainda muito novo. Segundo a imprensa local, mantém através de telefonemas diários uma relação muito próxima com a mãe, a quem comprou uma casa no complexo Park Bavli, em Telavive. Muitos dos perfis mencionam o facto de continuar a preferir um apartamento arrendado na cidade, apesar de ter feito cerca de 25 milhões de dólares com a venda da Adallom à Microsoft por aproximadamente 320 milhões de dólares, em 2015.
O nome da primeira startup é uma abreviatura em hebraico de uma expressão que pode ser traduzida como “até aqui” ou “última linha de defesa”. A empresa foi criada em 2012, com os três amigos que conheceu durante o serviço militar obrigatório — Yinon Costica, Roy Reznik e Ami Luttwak, os mesmos co-fundadores da Wiz.
O quarteto conheceu-se no autocarro a caminho do centro de instrução das Forças de Defesa de Israel (IDF), em julho de 2001, e nunca mais se largaram. Ainda antes disso, Rappaport passou pela academia militar Talpiot, que tinha um pequeno número de cadetes. Deu nas vistas pelas suas capacidades nas áreas da matemática e da física; estudou ciências da computação na Universidade de Jerusalém.
Durante o serviço militar, os quatro fundadores integraram a Unidade 8200, descrita como o equivalente israelita à Agência de Segurança Nacional dos EUA, a NSA. Receberam treino em áreas ligadas à cibersegurança. Curiosamente, passaram por esta unidade vários fundadores de empresas de cibersegurança, como a Palo Alto Networks ou a Check Point. Durante algum tempo, Rappaport esteve ainda noutra unidade, a 81, descrita pela Forbes como um grupo de elite dedicado à cibersegurança.
Após seis anos nas IDF, Assaf Rappaport passou dois anos na consultora McKinsey, na Austrália. Uma experiência “que não o realizou“, confessou mais tarde. Regressado a Israel, em 2012, contactou os amigos do serviço militar para fazer nascer a Adallom.
Começaram por se focar na proteção dos ficheiros Microsoft SharePoint e conquistaram os primeiros milhões da Sequoia Capital — o acordo foi assinado de forma pouco convencional, num guardanapo, numa bomba de combustível nos arredores de Telavive. Rappaport mudou-se, em 2013, para São Francisco, para contactar outras empresas e alargar os serviços da empresa até outros serviços de partilha de ficheiros, como o Dropbox, ou tecnológicas como a Salesforce (que também se tornou cliente e investidora da Wiz). Deram nas vistas ao ponto de receberem uma oferta da Microsoft.
Fechado o negócio, as soluções da Adallom foram integradas na divisão de segurança cloud da Microsoft. Os quatro fundadores passaram a ser funcionários da tecnológica e Rappaport regressou a Israel. Satya Nadella quis encontrar-se pessoalmente com o antigo CEO da Adallom para lhe dar instruções: “Eu estou aqui para definir as regras e tu estás aqui para quebrá-las”. Rappaport passou a liderar uma unidade de segurança cloud da Microsoft.
Nem aí quis comprar um carro, como a mãe tanto ambicionava. “O cargo vem com um carro…?”, ouviu da mãe. O executivo preferiu usar o shuttle disponibilizado pela tecnológica para os funcionários se deslocarem do centro de Telavive para Herzliya, a alguns quilómetros de distância, onde ficava o escritório. Foi no shuttle que conheceu Raaz Herzberg, a mulher então com o cargo mais elevado na estrutura da Microsoft Israel. A amizade entre os dois mantém-se e Herzberg é hoje em dia diretora de marketing da Wiz.
A intenção de Rappaport era passar apenas dois anos na Microsoft. Até que, em 2018, quando tinha 34 anos, foi nomeado diretor-geral do centro de investigação e desenvolvimento da Microsoft em Israel. Foi o mais jovem a assumir o cargo, notou a imprensa local na altura. Mika, a sua cadela border collie castanha, que morreu no ano passado, era uma presença tão assídua nos escritórios da Microsoft que até tinha um contrato de trabalho. Na Wiz, foi promovida a chief dog officer e o seu perfil no LinkedIn tinha mais de três mil seguidores.
No voo de regresso a Israel após a primeira viagem a Redmond, onde fica a sede da Microsoft, Rappaport escreveu “num guardanapo uma lista de tudo o que queria fazer na Microsoft, e que era importante cumprir”. “Quando acabei tudo o que estava no guardanapo, saí da empresa”, contou à Forbes. Era janeiro de 2020.
Uma startup orientada por um “plano suicida” que disse um não (temporário) à Google
Rappaport decidiu voltar a reunir a “banda” da Adallom e formar mais uma empresa, novamente na área da cibersegurança, onde já eram considerados especialistas. Não sabiam bem o que queriam criar: oscilaram entre pagamentos online até segurança de redes (durante pouco tempo, a Wiz teve o nome de Beyond Networks). Mas tinham a certeza de uma coisa — qualquer que fosse a atividade, era para ser uma empresa grande.
A diferença é que agora, além de serem nomes conhecidos na indústria, já tinham uma lista de contactos de muitos investidores. O Wall Street Journal escreveu que, para o investimento da Index Ventures, Rappaport teve apenas de pegar no telefone e dizer “está na altura”. O investimento era garantido só pela equipa de fundadores. Tiveram também reuniões com responsáveis de segurança de empresas grandes para perceber quais é que eram as necessidades do mercado até chegaram à ideia da segurança na cloud.
Rappaport e os fundadores adotaram um “plano suicida”, como lhe chamaram, para gerir a Wiz. O plano, que desta vez não foi escrito num guardanapo, queria acelerar o crescimento da empresa ao contratar de forma rápida, angariar vastas quantias de dinheiro e conquistar as maiores empresas do mercado. A lista de clientes da Wiz inclui atualmente a Fox, o Morgan Stanley, a gigante LVMH, a BMW e tecnológicas como a Salesforce e o Slack. A Cotsco também é cliente: o CISO Jon Raper testou a Wiz no verão de 2020 e, no espaço de um dia, tinha a ferramenta a correr nas apps internas e bases de dados da retalhista.
▲ A equipa de fundadores da Wiz com a cadela Mika
Wiz
A Wiz começou a anunciar sucessivas rondas de investimento. Em dezembro de 2020, numa série A, levantou 100 milhões de dólares. Em março de 2021, uma série B de 130 milhões. Dois meses depois, 120 milhões de dólares. Em outubro de 2021, mais uma ronda, agora uma série C: 250 milhões de dólares. Em fevereiro de 2023, uma série D que garantiu à empresa mais 300 milhões. Em maio de 2024, a maior ronda já recebida pela empresa: mil milhões de dólares. Feitas as contas, em oito rondas conquistou pelo menos dois mil milhões de dólares de financiamento, com 20 investidores (dados da Crunchbase).
Nas entrevistas, as perguntas eram recorrentes: para quê levantar tanto capital? A Sequoia, por exemplo, não era fã de que a empresa fizesse tantas rondas de financiamento. “Estamos a lutar contra gigantes”, disse Rappaport à Forbes quando questionado sobre o tema, com um encolher de ombros. “Tenho de ter a capacidade de investir para conseguir competir, porque a oportunidade [no mercado de cibersegurança] é enorme.” Além de dinheiro para contratações, Rappaport tinha outra ideia em mente: aquisições. No espaço de um ano, entre 2023 e 2024, comprou três empresas — a Raftt (valor não divulgado), a Gem Security (350 milhões de dólares) e a Dazz (450 milhões de dólares).
Um executivo que não foge das afirmações políticas
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Assaf Rappaport não se coíbe de fazer afirmações contra o governo israelita. Em 2018, quando o governo de Israel se recusou a apoiar a gestação através de barriga de aluguer para homossexuais, Rappaport anunciou que a Microsoft iria apoiar financeiramente os empregados locais que quisessem viajar para o estrangeiro para ter acesso a isso. Na altura, surpreendeu os gestores globais da empresa com a decisão. “A partir de hoje, qualquer um dos nossos trabalhadores que decidam que querem ter uma família através de barriga de aluguer vão receber 60 mil novos shekels [15 mil euros] independentemente do género, etnia, orientação sexual, idade ou estado civil”, citou o Times of Israel.
Mais recentemente, tomou outras medidas contra o governo de Benjamin Netanyahu. Embora a empresa tenha nascido em Israel, transferiu a sede para os EUA, assim como todo o dinheiro, numa ação de protesto contra a reforma judicial defendida por Netanyahu.
Rappaport foi um dos executivos israelitas mais conhecidos a estar ao lado dos manifestantes contra Netanyahu e a contestar algumas das leis laborais do país, notou a Forbes.
Não se cresce assim tão depressa sem criar inimizades. “Eles são ultra-agressivos e nem toda a gente gosta disso”, afirmou Nadav Zafrir, da incubadora israelita Team8 à Forbes. Uma das rivais da Wiz, a israelita Orca Security, revoltou-se e, em julho de 2023, processou a Wiz, um processo no tribunal do Delaware. Há queixas desde alegadas infração de patentes até relatos de cópias no marketing. Tamar Harel, porta-voz da Wiz, considerou que o processo “não tinha fundamentação”.
Rappaport passou a ser presença habitual em grandes eventos de tecnologia e negócios, sempre com o ângulo de ter criado uma das startups com o crescimento mais rápido da indústria. Em 2023, a CNBC colocava a startup no top 5 de disruptores do ano, ao lado de nomes como a OpenAI ou a Canva. Em 2024, Rappaport entrou para a lista dos Time 100 Next da revista Time, num perfil assinado por Howard Schultz, chairman emérito da Starbucks e também investidor da Wiz.
Com tanta atenção, a Wiz passou a estar na mira de uma gigante, a Google. Segundo a imprensa especializada, a tecnológica até tentou adoçar o acordo com Rappaport com mais do que milhares de milhões de dólares: um contrato para a cadela Mika. Mas havia mais em causa. A lista de investidores da Wiz estava apreensiva com o facto de a Google estar a ser investigada pelo Departamento de Justiça dos EUA (DOJ), num dos maiores casos de antitrust das últimas décadas. E se o negócio era chumbado como aconteceu com a aquisição da Figma pela Adobe, por 20 mil milhões?
No dia do prazo para resposta, Rappaport seguiu o instinto e recusou os 23 mil milhões da Google. Segundo a Bloomberg, desistiu às quatro da manhã e enviou um email aos muitos funcionários ansiosos que passaram a noite no escritório à espera de saber o que aconteceria à Wiz.
“Não acredito que disse não a uma aquisição de 23 mil milhões de dólares”, disse numa entrevista, mais tarde. Na altura, decidiu que não queria abdicar da “oportunidade que aparece uma vez na vida de ser a maior empresa de cibersegurança do mundo”.
▲ A Google ofereceu 32 mil milhões pela Wiz
ERIK S. LESSER/EPA
Após o chumbo do negócio, tentou descansar os funcionários. “Vamos ser tão grandes, vamos fazer tanto dinheiro no futuro que não se vão arrepender disto”, citou o Financial Times, a partir de afirmações de Rappaport feitas durante as reuniões gerais com os escritórios de Nova Iorque e Telavive. Na altura, declarou que queria que a empresa se focasse numa oferta pública inicial (IPO) e que se mantivesse independente.
Oito meses depois da nega à Google, a soma de mais nove mil milhões de dólares ao valor inicial, perfazendo 32 mil milhões de dólares, fizeram os fundadores e os investidores da Wiz a mudarem de ideias. O novo governo nos EUA (e o novo líder no regulador Comissão Federal de Comércio) poderá ter também contribuído para a reversão do “não” em “sim” à gigante Google.