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Trovador, cofundadores Marta Bernardino e Sebastião Mendonça
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▲Marta Bernardino e Sebastião Mendonça têm 19 anos e conheceram-se numa conferência sobre o espaço

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▲Marta Bernardino e Sebastião Mendonça têm 19 anos e conheceram-se numa conferência sobre o espaço

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E se D. Dinis fosse Trovador, o robô? A aposta de dois jovens para reflorestar Portugal

Marta e Sebastião querem criar um robô para reflorestar áreas onde as pessoas e os tratores não chegam. Para construir o primeiro protótipo, os jovens de 19 anos precisam de angariar 14 mil euros.

Marta Bernardino construiu o primeiro robô aos nove anos. Era feito com uma caixa de cartão, “abanava os braços e falava de uma forma muito estranha”. A partir daí, recorda, nunca mais parou. Leu livros, viu vídeos no YouTube e aprendeu sobre programação. Uma década depois, prepara-se para começar a universidade em setembro. Por considerar que já domina as áreas de robótica e engenharia, vai estudar Gestão e Tecnologia, numa escola internacional, com o objetivo de “aprender mais sobre a expansão e escalabilidade de soluções climáticas de forma sustentável”.

O primeiro semestre de Marta na faculdade será passado no Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, os restantes em países diferentes. Sebastião Mendonça, também de 19 anos, ficará em solo europeu. Vai rumar aos Países Baixos, para estudar na Universidade de Delft, que descreve como uma das melhores escolas de engenharia da Europa. Com “muito interesse” pelo espaço e por astronomia, tem no currículo a participação em competições e projetos que envolveram entidades como a NASA e a Agência Espacial Europeia.

Os dois jovens conheceram-se no ano passado, numa conferência sobre o espaço em que participaram enquanto oradores, e começaram a trabalhar juntos e “a tempo inteiro” no Trovador, um projeto com que Marta arrancou sozinha com o objetivo de reinventar a reflorestação com robótica e que a fez ser reconhecida pela National Geographic como conservation roboticist (roboticista que desenvolve sistemas para apoiar a conservação ambiental). “O Trovador vai continuar, mesmo estando nós na faculdade. Temos um plano para isso”, revelam, explicando que a ideia passa por uma incubação na universidade neerlandesa, com Sebastião a dedicar-se a melhorar a tecnologia e Marta a ficar encarregada da “parte de gestão e expansão” do negócio.

Arrancaram com o Trovador como um projeto, mas já são uma startup. A empresa foi registada a 21 de março de 2025, no Dia da Árvore. Três meses depois, Marta e Sebastião precisam de 14 mil euros para construir o primeiro protótipo do robô que querem desenvolver para reflorestar áreas de difícil acesso, como encostas íngremes, onde as pessoas e os tratores não chegam. O angariar de fundos começou esta semana, através da plataforma Indiegogo (em que qualquer pessoa pode doar), e a dupla ambiciona alcançar o montante ainda este verão, estação em que também querem terminar o protótipo. E se falharem a corrida contra o tempo? “Continuamos, nem que tenhamos de pôr dinheiro nosso, que era algo que queríamos evitar”, garantem.

O nome inspirado no rei D. Dinis e uma viagem a Pedrógão Grande

Marta Bernardino cresceu numa aldeia perto da Ericeira e assistir ao impacto das “alterações climáticas e da urbanização expansiva” fez com que quisesse utilizar a “paixão pela robótica” com um propósito, “proteger os ecossistemas”. “Eu cresci no campo e isto era só floresta. Cresci rodeada de pinhais e é notório o contraste entre ter uma aldeia verde e agora ter uma aldeia que é só casas ou só cinzas à volta”, afirma, em declarações ao Observador através de videochamada, antes de recordar uma viagem que fez até Pedrógão Grande.

Em 2023, visitou essa região com os pais. Tinham-se passado seis anos dos incêndios, que se alastraram a concelhos vizinhos e fizeram 66 mortos, mas a floresta “não tinha voltado”. “Eu percebi que não era só perto de mim que não estava a acontecer a reflorestação. Isso foi muito óbvio. Lembro-me de estar a olhar para as paisagens e perceber que alguém tinha de fazer alguma coisa. E depois comecei a pesquisar e senti que conseguia [fazer parte da] solução.”

O projeto começou nessa altura, há cerca de dois anos, quando Marta estava a terminar o secundário, e recebeu o nome de Trovador, um dos cognomes do rei D. Dinis, que era mais conhecido como “O Lavrador”. “D. Dinis fez imensos progressos a nível da economia e da educação em Portugal, mas acima de tudo plantou o Pinhal de Leiria. Uma das frases que nós dizemos é que Portugal precisa de outro Trovador, alguém que venha agora no século XXI plantar mais árvores e fazer disso algo que seja replicável pelo mundo e mudar as paisagens”, justifica a jovem, explicando que o processo de escolha de um nome não foi complexo ou demorado.

Trovador, cofundadores Marta Bernardino e Sebastião Mendonça

▲ Sebastião e Marta foram distinguidos como líderes em robótica sustentável pelo Comité Europeu de Robótica

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A ambição de construir um robô autónomo capaz de plantar 200 árvores/hora

Marta Bernardino e Sebastião Mendonça perceberam que a ideia que têm para aplicar a robótica à reflorestação pode ser viável depois de terem construído uma prova de conceito, com materiais reciclados, por 15 euros. Esta versão foi capaz de plantar 32 árvores em menos de 20 minutos, “mais rápido do que a mão de obra humana”, o que fez com que os jovens percebessem que se fizessem isto “à escala industrial” poderiam “conseguir cobrir ainda mais área e plantar floresta de uma forma ainda mais agressiva, entre aspas”.

Nessa altura, ao falar com várias pessoas do setor, Marta percebeu que “havia interesse, para além de uma organização sem fins lucrativos ou de um projeto tecnológico universitário, que isto fosse um serviço, [algo] em que as pessoas viam utilidade”. Receber essa “validação”, fez com a jovem tivesse a certeza de que fazia sentido “mergulhar de cabeça” no projeto. A prova de conceito era “pequena e frágil”, o que já não acontecerá com o protótipo que querem construir este verão, que “tem quase um metro cúbico de volume”.

Trovador, prova de conceito

▲ A prova de conceito desenvolvida pelos jovens

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Durante a conversa com o Observador, os dois jovens referem-se sempre ao protótipo e ao robô que ainda não construíram no presente. Dizem, por exemplo, que “tem seis pernas” (quatro para andar e duas para plantar), que consegue carregar entre 170 e 200 árvores para plantar (o anterior só carregava seis) e que tem uma autonomia de bateria de três a cinco horas (face aos 20 minutos da outra versão). A primeira versão “escalava superfícies de 20 graus de inclinação e esta consegue 45 graus de inclinação”. Desde que exista cobertura de rede móvel, a dupla garante que consegue controlar o robô remotamente e que este “tem vários sensores” que permitem que adapte o caminho se encontrar obstáculos.

No fundo, o processo de reflorestação que propõem funciona em três passos: planeamento, com uma análise do local escolhido e a definição da área em que o robô vai atuar, através de uma aplicação, disponível apenas internamente; o robô é transportado para o local e começa a plantação de forma autónoma; ao longo de todo o processo, é monitorizado à distância e pode receber mais plântulas ou novas baterias, para ser recarregado.

Trovador, imagem de como será o robô Trovador, imagem de como será o robô

▲ O robô terá seis "pernas", incluindo um mecanismo de plantação

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Mas como podem os jovens ter a certeza das métricas que apresentam se a ideia ainda não ganhou vida? Marta e Sebastião dizem ter “alguns contactos na EPFL, uma universidade na Suíça, e de outras pessoas na área da robótica, inclusive no Técnico, que, através da sua experiência de já terem trabalhado com este tipo de robôs [que parecem cães], conseguem assegurar que os números são mais do que viáveis”. “Obviamente que tudo o que é performance a nível ecológico, só conseguimos testar e ter a certeza depois de o colocar no terreno. São as únicas [métricas] que ainda não conseguimos argumentar a 100%”, ressalvam.

É para conseguirem essa validação, mas também “ganhar confiança” para arranjar parceiros e uma equipa, que precisam de desenvolver o protótipo este verão e “não esperar por mais um concurso” em que daqui as uns meses poderiam receber capital. Desde que arrancaram com o Trovador, os jovens arrecadaram 26 mil euros em prémios, foram nomeados “líderes em robótica sustentável pelo Comité Europeu de Robótica” e participaram em vários eventos, como a Web Summit em Lisboa e a conferência global da National Geographic em Washington.

Questionados pelo Observador sobre o porquê de terem optado por uma angariação de fundos ao invés de falar com investidores, Marta e Sebastião reiteram que precisam “de ter avaliação da performance do robô” para perceberem quanto é que a empresa vale, uma das questões que seria colocada por potenciais investidores. “Essa interação toda só faz sentido ser feita após estes testes e este piloto”, acrescentam, indicando que querem começar a testar o protótipo em Mafra.

“Olhar para o futuro tem sido um bocadinho intangível. Precisamos mesmo de validar”

A necessidade de validação do projeto volta a ser manifestada quando se fala no futuro. Olhar para os próximos tempos “tem sido um bocado intangível”, confessam os jovens, mas a perspetiva é, após validar o robô, conseguir “melhorá-lo no espaço dos próximos cinco anos”. “O robô, como está [planeado] agora, não poderia simplesmente ser entregue a alguém que não tenha formação técnica para ser capaz de o operar se algum problema acontecesse. Portanto, a ideia é mesmo focarmo-nos no seu desenvolvimento”, afirmam.

Quando estiver “user-friendly“, o objetivo passa por “expandir os serviços”, escalar não só na Europa como noutros continentes, e “depois vendê-lo enquanto produto”. “O nosso sonho a longo prazo é, de facto, conseguir reflorestar não só em Portugal, mas no mundo, porque é um problema urgente. Mas para fazermos isso vamos precisar de vários robôs, vamos ter que, eventualmente, vender os robôs. Mas para sequer pensarmos em vender o robô, temos de o desenvolver e testar devidamente”, salienta Sebastião.

Trovador, cofundadores Marta Bernardino e Sebastião Mendonça
"Uma das frases que nós dizemos é que Portugal precisa de outro Trovador, alguém que venha agora no século XXI plantar mais árvores"
Marta Bernardino e Sebastião Mendonça

Desta forma, a startup pretende começar por prestar serviços a municípios e empresas que precisem de utilizar o robô e eventualmente, após serem feitas melhorias, perceberem “o que funciona e não funciona” e chegarem a um ponto em que está “super funcional”, avançar para uma possível venda do produto. Para já, Marta e Sebastião preferem não partilhar a estratégia de preços que planeiam implementar.

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