816kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

GettyImages-1995844248
i

Nome de Ebrahim Raisi, um político que foi jurista e que se dedicou ao estudo da lei islâmica, estava a ser cogitado para substituir Ali Khamenei, sendo considerado a sucessão mais natural

Anadolu via Getty Images

Nome de Ebrahim Raisi, um político que foi jurista e que se dedicou ao estudo da lei islâmica, estava a ser cogitado para substituir Ali Khamenei, sendo considerado a sucessão mais natural

Anadolu via Getty Images

Ebrahim Raisi: um Presidente "impopular" e "ultraconservador" e um acidente de helicóptero que deixa dúvidas sobre o futuro do Irão

O Presidente e o chefe da diplomacia iranianos morreram a bordo do helicóptero que caiu em Varzaghan. Acidente pode moldar a sucessão de aiatolá e o futuro do Irão, que atravessa uma crise económica.

Na manhã deste domingo, o Presidente do Irão, Ebrahim Raisi, fez uma visita oficial à província do Azerbaijão Oriental para inaugurar uma barragem. Foi acompanhado por uma delegação composta pelo ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Hossein Amir-Abdollahian, e outros responsáveis pela diplomacia de Teerão. Levantaram voo de regresso à capital no início da tarde. Horas depois, chegavam as primeiras notícias, que indicavam que tinha caído um helicóptero que fazia a escolta presidencial. Mas a televisão estatal iraniana vinha depois confirmar a informação: afinal tinha sido a aeronave que transportava a delegação presidencial e diplomática que sofreu uma “aterragem forçada” na região iraniana do Azerbaijão Oriental, perto da cidade de Varzaghan.

Equipas de resgate foram imediatamente mobilizadas para o local. Porém, cedo enfrentaram várias dificuldades. Chovia, estava nevoeiro e frio — na ordem dos 7 graus. Com uma agravante: o terreno era montanhoso, com poucos acessos, o que complicava os esforços. O Irão enviou as forças armadas para o local e vários países prontificaram-se a ajudar as autoridades iranianas. A Turquia enviou uma equipa de 32 homens e a União Europeia providenciou o sistema de satélites Copernicus para localizar o helicóptero. Até ao momento, sem grande sucesso.

Até ao final da noite de domingo, apenas se obtiveram as coordenadas da localização onde se despenhou o helicóptero. Além disso, o regime iraniano, através da televisão estatal, mudou — ao longo da tarde — a narrativa: passou de “aterragem forçada” a acidente, causado pelo mau tempo na região. Na madrugada desta segunda-feira foram encontrados os destroços do helicóptero, sem sinais de sobreviventes, segundo o presidente do Crescente Vermelho.

Descartou-se, em teoria, um atentado planeado pelos opositores internos ou externos de Ebrahim Raisi, um Presidente ultraconservador eleito em 2021 e que não é particularmente popular entre a sociedade iraniana.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

GettyImages-2153163121

Presidente Ebrahim Raisi ao lado do homólogo do Azerbaijão, Ebrahim Raisi, este domingo

Office of the President of the I

Mesmo sem mais detalhes, inevitavelmente começaram a desenhar-se cenários futuros. De acordo com a Constituição iraniana, no caso da morte do Presidente, será o vice Mohammad Mokhber que o substituirá no imediato e convocará eleições num prazo de 50 dias. No entanto, contrariamente a vários regimes, o cargo de Presidente não é assim tão importante. Acima está o líder supremo, ocupado atualmente pelo aiatolá Ali Khamenei, atualmente com 85 anos.

O nome de Ebrahim Raisi, um político que foi jurista e que se dedica ao estudo da lei islâmica, tem sido cogitado para substituir Ali Khamenei, sendo considerado a sucessor mais natural. Se se confirmar a morte do Presidente, terá de haver alterações aos planos originais. Num comunicado emitido na tarde deste domingo, o aiatolá garantiu, ainda assim, que o acidente não causará qualquer “disrupção” à governabilidade do país.

“O segundo homem mais importante no Irão” que não é “particularmente popular”

Nascido em 1960, Ebrahim Raisi nasceu numa família conservadora e religiosa na cidade de Mashhad. Não é de admirar que, em 1979, tenha apoiado abertamente a revolução islâmica, enquanto estudava Direito em Teerão. Doutorado em jurisprudência e lei islâmica, o jovem de 25 anos, como conta o Guardian, ocupou logo um cargo de destaque: foi nomeado vice-procurador de Teerão. 

GettyImages-2153189433

O helicóptero que transportava a delegação iraniana

IRNA/AFP via Getty Images

Foi progredindo na carreira jurídica e, em 1988, enquanto aliado do regime, integrou a chamada “comissão da morte”, nomeado pelo antigo líder supremo, Ruhollah Khomeini. De acordo com organizações humanitárias, Ebrahim Raisi, juntamente com outro quatro juristas, foi o responsável pela execução de 4.500 a 5.000 prisioneiros ligados à oposição. Aqueles reclusos já estavam a cumprir penas, mas o governo queria eliminar-se dos elementos que considerava desleais.

Questionado mais tarde pelo que foi classificado por diferentes organizações internacionais como “massacre”, Ebrahim Raisi não se mostrou arrependido. Muito pelo contrário. “Se um juiz ou um procurador defendeu a segurança do seu povo, deve ser elogiado… Estou orgulhoso de defender os direitos humanos em todas as posições que ocupei até agora”, afirmou, citado pela Reuters.

Sempre ligado à revolução islâmica, Ebrahim Raisi tornou-se procurador de Teerão, liderou o Gabinete de Inspeção Geral Anticorrupção, foi o procurador-geral do Tribunal Clérigo Especial e chegou a procurador-geral do Irão. Ao longo dos anos, o atual Presidente iraniano tem adotado um pulso firme contra todos aqueles que ousam desafiar o regime. Em 2009, como lembra o Guardian, apoiou a repressão policial contra manifestantes.

epa11015891 Iranian President Ebrahim Raisi listens to Russian President Vladimir Putin (unseen) during their meeting at the Kremlin in Moscow, Russia, 07 December 2023.  EPA/PAVEL BEDNYAKOV / KREMLIN POOL / POOL MANDATORY CREDIT

Presidente do Irão defendeu sempre a Revolução Islâmica

PAVEL BEDNYAKOV / KREMLIN POOL / POOL/EPA

A porta para a política estava sempre entreaberta. Num regime teocrático em que a justiça está ao serviço do poder político, Ebrahim Raisi candidata-se ao cargo de Presidente em 2017, angariando o apoio de vários partidos conservadores. Perde as eleições, vencendo-as Hassan Rouhani, com 57% dos votos, um candidato mais moderado. Apesar de acabar derrotado, ganhou visibilidade no espaço público e também junto do aiatolá.

Em 2021, Ebrahim Raisi, sancionado pelos Estados Unidos dois anos antes, volta a tentar tornar-se Presidente do Irão — e, desta vez, sagra-se vencedor com um resultado na ordem dos 72%, numas eleições em que o aiatolá o apoiou abertamente, assim como a maioria dos clérigos iranianos. Apesar da vitória expressiva, estas eleições foram as menos votadas de sempre: apenas 48% dos eleitores iranianos votaram — uma forma de contestação a umas presidenciais cujo desfecho parecia já ser conhecido antes da divulgação dos resultados. Quatro anos antes, tinham votado 73% dos iranianos.

Contrariamente ao seu antecessor, o então novo líder, incentivado pelo aiatolá, rompeu todas as ligações com o Ocidente, incluindo o acordo nuclear de 2015, e deu mais força ao chamado “eixo da resistência”, composto pelo Hamas, pelo grupo libanês Hezbollah e pelos iemenitas Houthis. Apostando no endurecimento de medidas mais repressivas, Ebrahim Raisi herdava, no entanto, um país que sofria uma profunda crise económica, potenciada pela pandemia de Covid-19.

epa09389894 A handout picture made available by Iran's Supreme Leader Office shows Iranian supreme leader Ayatollah Ali khamenei (L) handing over the presidential precept to new Iranian president Ebrahim Raisi (R), in Tehran, Iran, 03 August 2021. Iranian presidents are first approved by the supreme leader, who according to constitution is the actual head of state, and then take the oath before parliament. Ebrahim Raisi has been inaugurated as the new president of the Islamic Republic of Iran on 03 August 2021, as the country is facing an economic crisis along with the coronavirus disease (COVID-19) pandemic.  EPA/IRAN'S SUPREME LEADER OFFICE HANDOUT  HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES

Ebrahim Raisi na tomada de posse em 2021

IRAN'S SUPREME LEADER OFFICE HANDOUT/EPA

À Sky News, o correspondente no Médio Oriente adjetivou Ebrahim Raisi como uma “figura de relevo na política iraniana e na sociedade religiosa”, mas não é “universalmente popular” pelas suas “atitudes” mais conservadoras e radicais. Adicionalmente, tem sido sempre um representante das vontades do aiatolá, quase nunca se demarcando do líder supremo.

Em 2022, a morte da jovem de 22 anos Mahsa Amini, detida por violar o código de vestuário imposto precisamente por Ebrahim Raisi, causou uma onda de manifestações no Irão, as maiores revoltas no país desde a revolução de 1979. Tal como tinha feito no passado, o Presidente iraniano ordenou à polícia para suprimir à força os protestos, detendo arbitrariamente manifestantes com o recurso à violência.

Na política externa, durante o mandato do Presidente, o Irão aproximou-se da Rússia, tornando-se um dos seus maiores aliados. Forneceu inclusivamente drones a Moscovo para atacar a Ucrânia. Já sobre o conflito entre Telavive e o Hamas, a maneira como Teerão geria as suas relações internacionais foram colocadas no centro das atenções da comunidade internacional. Para o regime iraniano, Israel é considerado o maior rival geopolítico. A tensão foi escalando ao longo dos meses e, em abril, o Irão atacou território israelita com drones e mísseis, numa retaliação a Israel pelo ataque ao complexo diplomático iraniano em Damasco, na Síria.

Protests Continue In Iran Despite Crackdowns

Os protestos no Irão em 2022

Getty Images

As dificuldades económicas do Irão e os problemas de umas novas eleições

Tensões com Israel, dificuldades económicas — como o rial iraniano a afundar-se e a pobreza a grassar — e um país praticamente isolado no seio da comunidade internacional alvo de sanções pelo Ocidente. Este é o retrato atual do Irão, que está a atravessar tempos difíceis, como relata o New York Times. A realização das eleições daqui a 50 dias será um problema para o regime, aponta àquele jornal Ali Vaez, diretor iraniano do International Crisis Group.

“Será um grande desafio para um país que está no meio de uma crise severa de legitimidade”, afirmou o especialista, que recorda as últimas eleições parlamentares em março de 2024. Ainda que os partidos leiais ao Presidente e ao aiatolá tenham vencido, milhões de iranianos boicotaram novamente o ato eleitoral. “Isto mostra o quão impopular a República Islâmica é. Existe uma profunda divisão entre o Estado e a sociedade.”

Por tudo isto, não é de estranhar que próximas eleições possam ser motivo para novos protestos. No X, o think tank norte-americano Instituto para a Guerra escreve que a eventual morte de Ebrahim Raisi pode causar “implicações significativas e de longo termo para o regime”. Contudo, o impacto não mudará a configuração do atual governo iraniano. “Não vai mudar a trajetória do regime.”

epa11257600 A handout picture made available by the Iranian supreme leader's office shows Iranian supreme leader Ayatollah Ali Khamenei speaking during a ceremony meeting with the Iranian government in Tehran, Iran, 03 April 2024. According to the leader's official website, Khamenei said that 'Israel will be slapped' following the strike against the Iranian consulate in Syria. According to Iranian state media quoting the Islamic Revolutionary Guard Corps, at least seven IRGC military advisors, including generals Mohammad Reza Zahedi and Mohammad Hadi Haj Rahimi, were killed in an airstrike on the Iranian consulate building in Syria's capital Damascus on 01 April. Iran has blamed Israel for the attack and vowed to respond.  EPA/Iranian supreme leader office HANDOUT  HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES

Aiatolá Ali Khamenei

Iranian supreme leader office HANDOUT/EPA

think tank salienta, ainda assim, que a eventual morte de Ebrahim Raisi pode alterar a sucessão do aiatolá, que “confia profundamente” no atual Presidente. “Raisi tem sido o grande favorito para suceder a Ali Khamenei como líder supremo, apesar da sua impopularidade. A morte de Raisi pode ter, por isso, implicações significativas para a sucessão do líder supremo e da visão de Khamenei para o futuro do regime.”

Quem vai suceder ao aiatolá tornar-se-á, assim, uma incógnita. Entre os nomes falados, Ahmad Khatami, veterano político na Assembleia de Peritos, pode ser o escolhido. Mas tudo dependerá se Ebrahim Raisi continua vivo, após o acidente nas montanhas do Azerbaijão Oriental — que pode mudar o rosto de um regime cada vez mais contestado.

* atualizado às 5h31 com a informação de que os destroços do helicóptero foram localizados sem haver sobreviventes

 
Assine o Observador a partir de 0,18€/ dia

Não é só para chegar ao fim deste artigo:

  • Leitura sem limites, em qualquer dispositivo
  • Menos publicidade
  • Desconto na Academia Observador
  • Desconto na revista best-of
  • Newsletter exclusiva
  • Conversas com jornalistas exclusivas
  • Oferta de artigos
  • Participação nos comentários

Apoie agora o jornalismo independente

Ver planos

Oferta limitada

Apoio ao cliente | Já é assinante? Faça logout e inicie sessão na conta com a qual tem uma assinatura

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

Ofereça artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.

Vivemos tempos interessantes e importantes

Se 1% dos nossos leitores assinasse o Observador, conseguiríamos aumentar ainda mais o nosso investimento no escrutínio dos poderes públicos e na capacidade de explicarmos todas as crises – as nacionais e as internacionais. Hoje como nunca é essencial apoiar o jornalismo independente para estar bem informado. Torne-se assinante a partir de 0,18€/ dia.

Ver planos