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Espanha é o terceiro país do mundo com mais mortos (atrás de Itália e EUA) e o segundo com mais casos (atrás dos EUA) de Covid-19

SOPA Images/LightRocket via Gett

Espanha é o terceiro país do mundo com mais mortos (atrás de Itália e EUA) e o segundo com mais casos (atrás dos EUA) de Covid-19

SOPA Images/LightRocket via Gett

Em Espanha, acabou a paz podre em torno de Sánchez — e este suspira por um opositor como Rui Rio

A união em torno de Sánchez durou pouco e a oposição cerca-o pela gestão da Covid-19. O PP usa o momento para se afirmar na direita. Esquerda queixa-se de oportunismo e pede postura igual à de Rio.

De repente, o Governo de Espanha e a esquerda do país vizinho começou a suspirar por Rui Rio. Aos poucos, os espanhóis deram pela intervenção do líder do PSD no passado 18 de março na Assembleia da República. Discutia-se então a aplicação do Estado de emergência e Rui Rio dizia a António Costa: “Desejo-lhe coragem, nervos de aço e muita sorte, porque a sua sorte é a nossa sorte”.

Um dos primeiros a fazê-lo foi o jornalista Ibon Perez, que partilhou o vídeo desse momento no Twitter – enganando-se, porém, no nome de Rui Rio, trocando-o com o do fotojornalista da Lusa, José Sena Goulão. Mas a mensagem subliminar para a audiência em Espanha não escapava: “Enquanto noutros países a oposição luta contra o coronavírus, em Espanha luta contra o Governo”.

Não tardou a que aquele excerto corresse um pouco por todos os cantos das redes sociais e da imprensa mais à esquerda em Espanha. E, esta quinta-feira, na sessão do Congresso dos Deputados em que foi aprovada uma nova extensão do estado de emergência em Espanha, foi a vez de o Presidente de Governo, Pedro Sánchez, suspirar por uma oposição como a de Rui Rio.

“Esta semana ouvimos o líder da oposição conservadora em Portugal a fazer um discurso emocionante a desejar sorte ao primeiro-ministro António Costa, porque a sua sorte seria a sorte de todo o Portugal”, disse Sánchez, que ao dizer “esta semana” deixa claro que também ele soube daquela intervenção recentemente, quando ela chegou às redes sociais espanholas, e não quando ela verdadeiramente aconteceu, a 18 de março.

"Esta semana ouvimos o líder da oposição conservadora em Portugal a fazer um discurso emocionante a desejar sorte ao primeiro-ministro António Costa, porque a sua sorte seria a sorte de todo Portugal."
Pedro Sánchez, Presidente de Governo de Espanha

A mensagem ficou a ecoar pela Câmara dos Deputados, àquela hora vazia como em poucas ocasiões, com os poucos parlamentares a manterem distância uns dos outros. Porém, por mais que a acústica daquele hemiciclo leve aquelas palavras a fazer tabelas de um lado para o outro, o remate de Pedro Sánchez tinha um alvo bem definido: a direita.

Numa altura em que muitos procuram o regresso a um “normal”, remetendo para a simplicidade que os tempos pré-Covid-19 pareciam ter a esta distância, em Espanha já se verificou um regresso a outro “normal”: o da crispação política.

Depois de um período de paz podre entre os vários partidos que compõem o complexo tecido do poder em Espanha (nunca é demais dizer que este foi o primeiro governo de coligação do país e que, com 16 partidos, o atual Congresso dos Deputados é o mais dividido da democracia espanhola), em que tanto a oposição de direita como os partidos independentistas impuseram a si mesmos uma trégua ao governo de Pedro Sánchez, o combate político voltou à casa de partida.

Pablo Casado: à procura de um lugar entre a crítica e o estadismo

Pablo Casado está de volta ao ataque – e isso ficou claro nas palavras desta quinta-feira, no Congresso dos Deputados. Num discurso duro para o Presidente de Governo socialista, o líder do PP acusou-o de mentir aos espanhóis antes e durante a crise do novo coronavírus em Espanha.

“A sério que mantém que fez tudo bem? Crê que este Governo não tem nada que se arrepender? Não vai pedir perdão a ninguém? Seria bem-vindo que da sua parte houvesse um discurso um pouco menos voluntarista e com um pouco de sensibilidade”, lançou-lhe. “Os espanhóis merecem um Governo que não lhes minta, merecem um Governo que lhes diga sempre a verdade.”

Pablo Casado, líder do PP, teve um discurso muito duro para Pedro Sánchez, acusando o Governo de mentir aos espanhóis

Getty Images

Depois, atirou-lhe com os números oficiais do novo coronavírus, sugerindo, de caminho, que os números verdadeiros podem ser ainda mais altos.

“Não vai pedir perdão a ninguém?”, perguntou. “É o que merecem os mais de 14.500 falecidos, segundo os seus próprios dados oficiais. Merecem também as suas famílias, destroçadas de dor por não terem podido despedir-se deles nem acompanhá-los nos seus últimos momentos. Merecem os 150 mil contagiados e os 60 mil hospitalizados que continuam a lutar contra o vírus”. E continuou, referindo também o “meio milhão de profissionais da saúde que põem a vida em risco para salvar os outros em condições lamentáveis” e os “47 milhões milhões de espanhóis confinados há um mês que hoje recebem com resignação o seu pedido para se manterem fechados nas suas casas por mais 15 dias.”

"Os espanhóis merecem um Governo que não lhes minta, merecem um Governo que lhes diga sempre a verdade."
Pablo Casado, líder do Partido Popular

Este foi o culminar de um crescendo do coro de críticas à direita de Pedro Sánchez, com o partido de Pablo Casado à cabeça, do qual não têm faltado acusações de mentiras e deslealdade da parte do Presidente de Governo.

De forma recorrente, o PP tem acusado o Governo de não dialogar com o seu partido e de ignorar as comunidades autónomas onde este governa – como é o caso da Comunidade de Madrid, onde se verifica o maior foco de Covid-19 em Espanha. “Abunda a propaganda e escasseia a gestão e a liderança”, resumiu, ainda no final de março, o secretário-geral do PP, Teodoro García Egea.

“Em estado de choque , o Governo vive na ilusão de que tem maioria absoluta, quando na verdade não se pode esquecer de que é uma coligação minoritária”, diz ao Observador o politólogo Pablo Simón. “Numa situação destas deve negociar com os restantes partidos e tem de facilitar a criação de uma comissão parlamentar com todos os partidos para acompanhar a situação, já que muitos deles governam nas comunidades autónomas, desde a direita aos independentistas”, continua. “Mas nada disto foi feito e agora o resultado está à vista.”

"Em estado de choque , o Governo vive na ilusão de que tem maioria absoluta, quando na verdade não se pode esquecer de que é uma coligação minoritária."
Pablo Simón, politólogo

Algum dia a crispação política teria de voltar – e esta máxima aplica-se a todas as democracias onde, umas mais tarde ou mais cedo, o regresso à normalidade levará a que os governos sejam chamados a responder pela sua reação à pandemia. Contudo, em Espanha, o segundo país com mais mortes por Covid-19 no mundo, esse acerto de contas parece já ter começado antes de qualquer outro país.

Para Luis Cornago, analista de risco político da consultora Teneo, esta particularidade espanhola deve-se em grande parte ao clima político pré-Covid-19. “Isto relaciona-se com o que já tínhamos antes, que é uma polarização forte nos últimos três ou quatro anos, que tem vindo a aumentar desde a crise de 2017 na Catalunha e que culminou com o crescimento do Vox”, assinala, numa entrevista por telefone ao Observador. “Além disso, há um parlamento muito fragmentado e um governo que foi investido porque contou com a abstenção de independentistas.”

"O PP de Casado é um PP que ainda não sabe se quer ser um partido mais radical para ganhar votos à direita ou se quiser ser um partido de Estado para ganhar votos ao centro."
Luis Cornago, analista de risco político

No entanto, o subir do tom liderado pelo PP não é apenas a reação às várias falhas do Governo de Pedro Sánchez na gestão desta crise. É, para além disso, uma prova de fogo para um partido tradicional em busca de uma posição naquela que é a sua primeira crise de grande escala desde que perdeu o monopólio da direita espanhola.

Esta crise, continua Luis Cornago, apanhou o PP a meio de uma crise de identidade que tem início na liderança de Pablo Casado e até hoje perdura: “O PP de Casado é um PP que ainda não sabe se quer ser um partido mais radical para ganhar votos à direita ou se quiser ser um partido de Estado para ganhar votos ao centro”.

Também o politólogo Pablo Simón sublinha essa ideia, dizendo que “o PP nunca teve concorrência à sua direita” e que isto “é tudo muito novo para eles”. “Ainda não entenderam ao certo como pode ser possível fazer oposição a este governo de forma construtiva e ao mesmo tempo não se deixar arrastar pelo Vox”, resume.

Esta quinta-feira, apesar do tom, o PP acabou por votar a favor do prolongamento do Estado de emergência até 26 de abril — tal como o Governo tinha pedido. Porém, essa luz verde foi dada com a promessa de que, daqui em diante, não será tão fácil a Pedro Sánchez contar com a ajuda dos populares. Ainda assim, por mais crítico que seja o seu tom, não alinha com o Vox, que votou contra o estado de emergência e exigiu a demissão de Pedro Sánchez e a instituição de um governo de salvação nacional.

Assim, Pablo Casado parece dar com uma mão aquilo que tira com a outra. O politólogo Pablo Simón comenta essa dualidade remetendo para uma sondagem da GAD3 publicada pelo jornal ABC esta segunda-feira. Nela, apenas 27,7% dos inquiridos qualificaram como “boa” a atuação do Governo durante esta crise — em tendência de descida das sondagens anteriores. Porém, esses mesmos entrevistados também fizeram uma avaliação negativa da atuação do PP: apenas 17% disseram aprovar a gestão do partido de Pablo Casado desta crise.

“Isto pode ser uma onda de fundo, que aponta para uma certo descontentamento com a classe política em Espanha, perante a ideia de que haja crispação num momento tão complicado”, diz. “O PP vai ter de acertar no tom.”

Para o politólogo Fernando Vallespín, o PP de Pablo Casado “viu aqui uma oportunidade para fazer oposição da única maneira que sabe, que é sendo destrutiva e desqualificando o adversário”.

As falhas de Sánchez, apanhado na curva do coronavírus

A dureza das críticas da direita espanhola, e em particular a subida de tom por parte do PP, surgiu ao mesmo tempo que a imprensa foi dando conta de vários passos em falso por parte do Governo de Pedro Sánchez na gestão da crise do novo coronavírus.

Com o primeiro caso a ser registado a 1 de fevereiro (um turista alemão na ilha de Maiorca) e a primeira morte a 3 de março (na Comunidade Valenciana), Espanha chega um mês mais tarde, em abril, como o terceiro país com mais mortes em todo o mundo (atrás apenas de Itália e EUA) e o segundo com mais casos diagnosticados (atrás dos EUA). Como é que tudo pode ter mudado tanto e tão depressa?

Esta quinta-feira, Pedro Sánchez defendeu que Espanha adotou medidas de confinamento antes de vários países, mas a sua gestão revela várias falhas (MARISCAL/POOL/AFP via Getty Images)

(MARISCAL/POOL/AFP via Getty Images)

Uma das chaves para essa resposta parece ser a descoordenação dentro do Governo espanhol antes do pico da crise. A 6 de março, altura em que já se encontravam alguns surtos preocupantes no país, como na região da La Rioja e no País Basco, o ministro da Saúde, Salvador Illa, participou numa reunião em Bruxelas do Conselho Europeu de Emprego, Política Social, Saúde e Consumo (EPSCO).

Ali, Salvador Illa disse que a Covid-19, à altura ainda considerada uma epidemia, representava “uma situação preocupante” e que “comportava um risco sério”. A mensagem era, sobretudo, para a Europa, à qual o ministro espanhol pediu uma ação conjunta. “Deve garantir-se que aquilo que for proibido dentro de um país não seja permitido fora dele”, sublinhou.

Porém, apesar de essa ser a mensagem adotada pelo Governo de Espanha para a Europa, para dentro do seu próprio território as diretivas foram muito menos claras e bem mais difusas. Um exemplo disso foi a medida anunciada a 3 de março pelo Governo de recomendar que as competições desportivas decorressem à porta fechada, de forma a evitar grandes aglomerações. Porém, dias depois, a 8 de março, o Governo não só permitiu como apoiou a realização da manifestação do Dia Internacional da Mulher. Nela, estiveram presentes várias ministras e também ministros do Governo espanhol, que se juntaram a uma multidão de 120 mil pessoas, de acordo com a contagem das autoridades.

Nos dias seguintes, pelo menos três ministras que estiveram presentes (Carmen Calvo, Irene Montero e Carolina Darias) testaram positivo para o novo coronavírus — não se sabendo se foram contagiadas ou não durante a manifestação. O PP, que também se fez representar naquela manifestação, exigiu a criação de um comité científico independente para avaliar até que ponto aquela manifestação pode ter contribuído para alastrar o vírus em Madrid e nos seus arredores.

A manifestação do 8 de março juntou 120 mil pessoas em Madrid quando o novo coronavírus já estava instalado em Espanha e contou com a participação de vários ministros (Sergio Belena / VIEWpress)

Corbis via Getty Images

Além daquele evento, houve ainda outros de amplas dimensões em Madrid, como o congresso do Vox (a seguir ao qual o líder Santiago Abascal, o número dois Javier Ortega Smith e o deputado Carlos Zambrano testaram positivo).

E embora o ministro espanhol pedisse aos governos europeus para agirem de forma coesa perante o novo coronavírus, o mesmo não aconteceu no seu país. Prova disso foi que as comunidades autónomas se apressaram a fechar escolas e universidades perante a hesitação do Governo central de tomar essa decisão. As primeiras a dar esse passo foram a Comunidade de Madrid e La Rioja a 10 de março, seguindo-se nos dois dias seguintes as restantes 15 comunidades autónomas de Espanha. Só no dia 15, um domingo, o Governo central decretou o estado de emergência.

Além disso, Espanha cometeu o mesmo erro de outros países: não se abasteceu atempadamente de materiais essenciais para a pandemia, como são os testes e também as máscaras e os ventiladores, acabando por correr atrás do prejuízo num mercado selvagem. Como resultado, custou caro a Espanha uma encomenda de 58 mil testes a uma empresa chinesa através de um intermediário espanhol — que, soube-se depois após a análise de alguns deles, eram de muito fraca qualidade, identificando apenas 30% dos casos positivos.

O politólogo Pablo Simón teme que o Governo esteja à beira de cometer ainda mais um erro: permitir que alguns setores não essenciais (como a indústria, a construção e outras atividades do setor primário) voltem a trabalhar a partir dos dias 13 e 14 de abril, conforme ficou determinado em reunião do conselho de ministros esta quarta-feira. “Nem quero imaginar no que isto pode resultar”, teme aquele politólogo. “Daqui a duas semanas, podemos estar iguais ao que estamos agora ou ainda piores.”

E depois da Covid-19?

Se a crise de saúde durante a pandemia da Covid-19 está a afetar Espanha de forma particularmente grave, o futuro depois dela, chegue ele quando chegar, também não faz adivinhar tempos fáceis. E isso também se aplica ao Governo de Pedro Sánchez. Entre uma população traumatizada e uma economia arrasada, restará ainda saber que estabilidade poderá ter um governo de coligação minoritário inserido no Congresso dos Deputados.

Esta quinta-feira, Pedro Sánchez parecia já começar a antecipar esse futuro de disputa ainda mais acesa – preparando-o com a mesma astúcia que lhe tem permitido ao longo dos últimos anos sobreviver e triunfar, apesar de todas as dificuldades, no ardiloso terreno da política espanhola.

Essa jogada teve início com os acordos firmados em outubro de 1977, em plena Transição, que permitiram ao então Presidente de Governo, Adolfo Suárez, juntar à mesa vários setores da política e da sociedade civil espanhola para fazer chegar a consensos em três frentes — política, económica e social — assentando assim os primeiros tijolos da construção da Constituição de Espanha de 1978.

Tiros no parlamento, terrorismo e independentismo. Em 40 anos, a Constituição de Espanha abanou, mas (ainda) não caiu

Esse espírito, porém, dificilmente será replicado em 2020, afirmam unanimemente os especialistas consultados pelo Observador. Ainda assim, apontam razões distintas.

“Creio que não vai dar em nada, porque não há condições políticas para tal”, sublinha Fernando Vallespín. “O PP já garantiu que não se senta à mesa com o Podemos e Pedro Sánchez quer que o Podemos esteja lá. Depois, o Podemos há-de vetar sempre a presença do Vox. Ora, isto dificulta que haja uma solução ampla”, diz, referindo que de qualquer modo há espaço para um acordo do tipo económico entre o Governo e o PP. “O PP terá de entender aquele que é o seu eleitorado natural, que é o empresariado espanhol, quando este lhe disser que chegou o momento de salvar a economia. Nessa altura, poderá chegar a um acordo, mas nada como os Pactos da Moncloa.”

Luis Cornago vê nesta medida uma saída estratégica “interessante” de Pedro Sánchez. “Se daqui para a frente, na posse de mais ferramentas, pudermos concluir que as medidas sociais e sanitárias não funcionaram, Sánchez será mais penalizado por isso se trabalhar sozinho este tempo todo”, diz. Por isso, ao explorar uma via de diálogo – por mais improvável que ela seja – pode ficar “menos sozinho” quando chegar a hora de voltar às urnas.

"Em Espanha somos assim: gostamos muito de falar em pactos, porque dá muito boa imprensa, mas depois volta tudo ao normal."
Pablo Simón, politólogo

Do seu lado, Pablo Simón vê este anúncio como “uma viragem estratégica do Governo, que percebeu finalmente que está em minoria e que por isso tem de ter uma comunicação mais fluída”. Porém, acredita que o instrumento invocado por Pedro Sánchez é “mais cosmético do que outra coisa”

“Por uma razão muito simples”, explica. “Quem quer fazer pactos, tem de ter tido um contacto fluído com todos os grupos antes de propô-los. E isso simplesmente não aconteceu. Nem vai acontecer. Eles puseram o nome aos pactos mas nem sequer disseram o que é que querem negociar”, aponta. “Em Espanha somos assim: gostamos muito de falar em pactos, porque dá muito boa imprensa, mas depois volta tudo ao normal”. Ou seja, à crispação.

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