Escola da Floresta. Para aprender é preciso enterrar os pés na lama /premium

06 Março 20198.805

O namoro com a Parques de Sintra era antigo, mas o financiamento da Gulbenkian foi decisivo. A Escola da Floresta nasceu para ligar os miúdos à natureza e eles aprendem enquanto abraçam árvores.

“Se pusermos o pé dentro de uma poça de lama ou de água, só podemos pôr até à linha branca.” Gabriel aponta para a tira fluorescente, quatro dedos acima do tornozelo, bem marcada naquela espécie de fato macaco impermeável que todos os miúdos vestiram assim que entraram na Quintinha Pedagógica de Monserrate. Um de cada vez, os alunos do 1.º ano da Escola Básica da Várzea de Sintra, com idades entre os 6 e os 7 anos, explicam aos visitantes do Observador as regras da Escola da Floresta, uma Academia de Conhecimento da Gulbenkian. Ninguém entra na mata sem ser em segurança.

“Podemos pegar em paus?”, pergunta Mónica Franco, fundadora do Movimento Bloom, uma das várias organizações envolvidas na Escola da Floresta Bloom e promotora do Dia de Aulas ao Ar Livre.
“Sim!”, gritam mais de 20 crianças em uníssono.
“Pequenos, médios ou grandes?”
“Sim!”
“Desde que…”
“Estejam virados para baixo.”

As regras sobre segurança continuam e várias vozes ao mesmo tempo explicam-nos o que devemos fazer se nos perdermos. “Ficam no mesmo sítio, como se fossem estátuas, e gritam: um, dois, três, onde estão vocês?” O grupo, se ouvir esse grito de socorro, responde: “Estamos aqui, vamos já para aí.” E a lengalenga, dizem-nos, é para repetir bem alto até nos encontrarem. Durante essa espera, nem pensar em mexer um milímetro.

Há muitas coisas importantes que é preciso saber antes de entrar na floresta, principalmente sobre o que vamos vendo pelo caminho, no chão, mesmo que tenha um ar apetitoso: “Não pegar, não comer, não lamber.” E tudo isto é dito acompanhado por uma mímica bem estudada para que as regras sejam mais fáceis de memorizar. Agora já só falta a mais importante, dizem Lorena e Santiago, atropelando-se: “A coisa mais importante de todas é divertirmos-nos.” É a euforia geral e a gritaria de felicidade atinge os decibéis de uma soprano.

E está feito. Já todos podem começar a caminhada, depois de relembrar as regras e de ser dado o primeiro passo do flow learning: acordar o entusiasmo. Para percebermos o que é a pedagogia do flow learning, que ainda não tem uma tradução adequada em português, Magda Ferro, amiga de infância de Mónica e co-fundadora do Movimento Bloom, faz gestos com as mãos, como que a imitar a corrente de um rio ou as ondas do mar. “A aprendizagem vai acontecendo”, explica, enquanto as mãos dançam. Ou seja, em fluxo, lemos nós naqueles movimentos ondulantes.

O flow learning é um conceito criado por Joseph Bharat Cornell, um educador ambiental que fundou a associação Sharing Nature Worldwide, que o movimento Bloom representa em Portugal.

Em traços largos, defende o fortalecimento da ligação emocional das crianças com a natureza, através de jogos e atividades ao ar livres. E esse flow learning passa por quatro estádios que não têm, necessariamente, de seguir sempre a mesma ordem. Acordar o entusiasmo, focar a atenção, experiência direta e partilhar a inspiração. Ao mesmo tempo, é um modelo educacional alternativo e que permitiu à Escola da Floresta tornar-se Academia de Conhecimento, um projeto da Fundação Gulbenkian.

“O concurso para a criação de academias mobilizou perto de 600 candidaturas, foi muito competitivo. Foram escolhidos os projetos melhor estruturados, mais inovadores, com maior potencial de replicabilidade e de obter impactos nas competências objeto do concurso: a promoção da adaptabilidade, autorregulação, comunicação, pensamento criativo, pensamento crítico, resiliência e resolução de problemas”, explica Pedro Cunha, responsável pelo projeto na Gulbenkian.

Para chegar ao acampamento base é preciso uma boa caminhada. Antes de novas atividades, faz-se o lanche da manhã (ANDRÉ DIAS NOBRE/OBSERVADOR)

Para Mónica Franco, uma das grandes vantagens de ser Academia de Conhecimento — para além de ter acelerado o aparecimento da Escola da Floresta — é que todo o processo está a ser monitorizado e avaliado, como mandavam as regras do concurso, o que vai permitir testar e comprovar uma pedagogia que empiricamente já sabia ser boa. “As academias deram-nos a oportunidade de testar a metodologia flow learning e comprovar os efeitos que tem no desenvolvimento das competências sócio-emocionais das crianças com quem estamos a trabalhar. Isso é um reconhecimento fundamental porque credibiliza cientificamente aquilo que para nós é visível, o impacto que tem nas crianças o contacto com a natureza.”

A Escola da Floresta Bloom funciona sob o mote “À Descoberta da tua Natureza” e pretende voltar a ligar as crianças aos espaços naturais e ao ar livre. Como? “Através da brincadeira livre e de experiências divertidas, regulares e continuadas ao ar livre, com uma abordagem holística desenhada em função de cada criança. É uma pedagogia emocionante e um processo inspirador que oferece às crianças e jovens oportunidades regulares de aquisição de competências sócio-emocionais, como a adaptabilidade, comunicação, pensamento criativo ou resolução de problemas em contacto regular com a natureza e assim criar-lhes uma atitude mental positiva e confiante, de forma a contribuir para que cresçam mais capacitadas para as exigências da sua vida futura, conscientes e felizes”, explica Mónica.

Explicações dadas, voltamos a centrar-nos nas crianças e no flow learning. Para acordar o entusiasmo — que, na verdade, nem parecia ser necessário, dada a animação com que as crianças chegaram à quinta — cantou-se e dançou-se a Música do Pato, que acabou com adultos e miúdos a cair ou a rebolar no chão. Entusiasmo acordado, é altura de começar a caminhada pela quinta até estarmos bem no meio da serra de Sintra, num dos dois acampamentos base, dentro dos dois hectares da quintinha, cujos limites estão vedados.

“Sigam a mochila amarela.” Entre as adultas que dividem entre si as crianças em dois grupos, uma dúzia para cada lado, há duas mochilas amarelas, outra das regras da Escola da Floresta. “Dentro da mala está o estojo de primeiros-socorros, caso seja necessário. E se molharem as meias, também podem vir falar connosco que nós resolvemos”, diz Mónica a sorrir. Também há ferramentas, cordas e “outros tesouros”, como instrumentos musicais que podem vir a ser necessários. E foram mesmo.

As líderes da floresta: Joana Barroso, Magda Ferro, Mónica Franco, Filipa Meireles e a voluntária Catarina Gonçalves. A equipa é maior, mas os restantes não estiveram nessa sessão

As crianças estão em casa. Foi pouco depois do início do ano letivo que começaram a frequentar a Escola da Floresta, mas parece que a visitam desde sempre. O Movimento Bloom existia há vários anos — desde 2010 — e sonhava com uma iniciativa deste género. “O namoro com a Parques de Sintra já era antigo”, conta-nos Mónica, mas foi só em 2018, quando ganharam a bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, passando a ser Academia de Conhecimento, que tudo se tornou possível. Para já, tem a duração de um ano letivo.

“No momento em que a Gulbenkian lançou as academias, nós estávamos precisamente no processo de procura de espaço para a escola e tínhamos desenvolvido contactos com a Parques de Sintra — Monte da Lua. As Academias de Conhecimento surgiram no momento ideal. Para além de ter sido um motor impulsionador, agregou parceiros como a Escola Básica da Várzea de Sintra e a Associação Forest School Portugal, que representam uma enorme mais-valia para a Escola da Floresta Bloom”, sublinha Mónica Franco.

O financiamento vem da Gulbenkian e da empresa, sem fins lucrativos, que gere o património de Sintra. Esta última cede também o espaço da quinta pedagógica onde a Escola da Floresta desenvolve as suas atividades. A bolsa recebida serve para, quatro dias por semana, trazer todas as turmas da escola básica até à serra e aprenderem na natureza. O aprender, claro, é diferente do da sala de aula. “Hoje observámos a evaporação, o processo do ciclo da água que nos faltava ver”, lê-se numa das publicações que a escola fez no Facebook. E se há dias, aqueles em que faz mais frio, em que se aproveita o gelo para fazer bolos de faz de conta, quando a chuva cai fazem-se bolos de lama. A criatividade está a ser desenvolvida, a motricidade fina também e, claro, o foco.

Antes de entrar na parte mais cerrada de floresta, os miúdos gostam sempre de parar no que chamam de sítio mágico. Desta vez, pensaram ter encontrado a pele de uma cobra. Afinal, não era

Por isso mesmo, Mónica diz-nos que na natureza as aprendizagens acontecem de forma muito natural. “A nossa escola é um lugar onde a brincadeira é altamente valorizada e entendida como crítica para a aprendizagem e desenvolvimento saudável das crianças. Incentivamos as crianças a terem confiança para desenvolver as suas próprias perspetivas e a capacidade de continuarem a adquirir novos conhecimentos e competências. Aqui aprendem a pensar, a questionar e a justificar o que pensam, a ir atrás de uma curiosidade, a tentarem e a tentarem de novo e a aceitarem o erro. O erro é absolutamente permitido e valorizado, pois só por tentativa/erro se aprende a tomar decisões, a fazer escolhas. É assim que nos responsabilizamos por elas, a partilhar e a exprimir o que sentimos, a conhecer limites, a dar largas à imaginação.”

Aqui, o currículo tradicional não existe. “O nosso ‘currículo’ é criado em torno de áreas-chave de competências baseadas em habilidades e atributos que acreditamos serem fundamentais para o desenvolvimento das crianças. Em todas as sessões, oferecemos um conjunto de atividades, oficinas e jogos de aquisição de conhecimentos de forma interdisciplinar e divertida, promovendo o gosto pela aprendizagem sobre as questões ambientais e de conservação da natureza. A brincar, e sem se darem conta, há todo um currículo de aprendizagem adquirido. As atividades, oficinas e jogos proporcionam apurar os sentidos, partir à descoberta do ambiente natural — observando e identificando alguns animais mais comuns, conhecendo e ouvindo sons da floresta, reconhecendo e observando fenómenos naturais e aspetos físicos do meio local — introduzindo também conceitos como biodiversidade, ecologia, relações simbióticas, cadeia alimentar, mimetismo, entre outras.”

Finda a caminhada das crianças, com direito a visita aos animais da quinta, o nosso grupo chega ao acampamento base. Os lanches saltam das mochilas e cada um é responsável por guardar o seu lixo. É preciso repor energias para dar seguimento a uma tarefa de continuidade, que já começou há algumas semanas: a construção de abrigos.

Nesta fase do projeto das Academias do Conhecimento, como explica Mónica, as crianças estão a construir abrigos. “Consequentemente, fazem projetos, negoceiam ideias e avaliam riscos. Criam obras de arte com elementos da natureza, investigam habitats, usam ferramentas para a construção, tiram medidas. Estão basicamente a aprender sobre engenharia, cálculos e contagem, simetrias, design e arte, desenvolvendo a imaginação e criatividade.”

Filipa e Magda, responsáveis pelo grupo de 11 crianças, tentam organizar a assembleia de jovens para se discutir e distribuir tarefas, mas isso não parece possível porque todos estão muito dispersos. Há, porém, truques que as adultas trazem na manga. E é assim que chegamos ao segundo estádio, focar a atenção. Filipa puxa de uma pandeireta em meia lua e dá início a um jogo, ao estilo macaquinho do chinês. Enquanto toca a pandeireta e vai andando floresta fora, as crianças devem segui-la. Quando o instrumento fica em silêncio, todos devem ficar como estátuas, de preferência escondidos.

A Quintinha Pedagógica de Monserrate recria as antigas explorações rurais da serra de Sintra. Há animais, horta e um forno para cozer pão (ANDRÉ DIAS NOBRE/OBSERVADOR)

Magda explica: “Percebemos que eles estavam muito desorganizados e, com este jogo, estão a trabalhar o foco. Daqui a pouco vai ser possível voltarmos aos abrigos, que é um projeto de continuidade. Era importante perceber se eles conseguiam fazê-lo, voltar ao mesmo trabalho, todas as semanas. E, enquanto discutem, estão a trabalhar várias competências: o trabalho colaborativo, a criatividade, a estratégia. Antes de começarem a construí-los, tiveram de tomar várias decisões, recolher material. Houve duas miúdas que decidiram que queriam fazer um escorrega ao lado do abrigo e fizeram-no. Outros estavam mais focados nos detalhes, a pensar na decoração.”

Desde que os abrigos começaram a ser construídos, já passou por Sintra a tempestade Helena. Uns foram destruídos, outros continuam de pé, a resistir a tudo.

Quando o jogo acaba, as crianças estão completamente focadas. Percebem que não cabem todas no último abrigo que construíram e mergulham de cabeça na construção de um condomínio que vai dar garantidamente cama a 12 pessoas, dizem. Pelo caminho, estão a aprender a fazer vários tipos de nós e até há quem dê uso ao serrote para cortar os ramos de árvores até atingirem o tamanho ideal. É o estádio três: a experiência direta.

Apesar de serem pensadas pelos líderes da floresta, como se autodenominam as monitoras, a sessões podem sofrer variações, sublinha Mónica. “São desenhadas em função do que observamos em cada criança e da dinâmica do grupo na qual está inserida, de forma a apoiá-la no desenvolvimento das suas competências. Mas o que planeamos nem sempre acontece porque, acima de tudo, temos como foco uma aprendizagem liderada pelas crianças. Nós, adultos, estamos presentes para as apoiar. É uma abordagem completamente diferente, nós estamos presentes a suportar e apoiar a aprendizagem, não interferimos nos processos. Podemos e devemos somente interagir.”

Durante as duas horas que ali passam, poucas são as vezes em que é necessária a intervenção do adulto. Organizam-se entre eles, há alguns amuos e discussões, mas as crianças também fazem as pazes e voltam ao trabalho. No final, a assembleia volta a reunir-se na base. Sobre as nossas cabeças, há uma corda que une duas árvores. Será um rappel? Não. É para colocar uma gigantesca lona e proteger o acampamento em dias de chuva, já que nada trava as sessões na floresta.

“Há um ditado norueguês que diz: ‘Não há mau tempo, só há mau equipamento.’ Nós investimos nestes fatos impermeáveis, que permitem às crianças brincarem à chuva e sujarem-se. Temos também uma lista de equipamento/roupa por estação que fornecemos aos pais de forma a garantir que as crianças têm as camadas de roupa suficientes para estarem confortáveis. A chuva é sinónimo de poças de água e lama… Haverá coisa mais divertida do que poder chapinhar?”, questiona Mónica.

Para focar a atenção do grupo, Filipa dá início a um jogo. Enquanto toca a pandeireta, os miúdos devem tentar chegar até si. Quando pára, devem ficar como estátuas (ANDRÉ DIAS NOBRE/OBSERVADOR)

Com todas as crianças dispostas em círculo, e com o relógio a marcar o fim da sessão, cada uma é desafiada a fazer um gesto que simbolize o que mais gostaram ou o que aprenderam na Escola da Floresta. É o estádio quatro: a partilha da inspiração.

Para além dos dias passados na serra, as monitoras também fazem sessões na escola. É engraçado, conta Magda, como é mais fácil trabalhar com eles na natureza. “Dentro da escola são mais competitivos e isso sente-se. Há grupinhos que estão feitos, há rivalidade. Aqui, tudo isso se desconstrói.”

Embora o objetivo final não seja influenciar as aprendizagens tradicionais, feitas na escola, Mónica Franco, acredita que isso acaba por acontecer: “As nossas sessões pretendem que cada criança se desenhe, se expresse, se descubra, cada uma ao seu ritmo e respeitando a sua própria natureza. Há um contacto direto e experiencial interligando-a com tudo o que nos rodeia. Tudo isto tem influência no seu dia-a-dia e, sem dúvida nenhuma, ajuda a consolidar as outras aprendizagens.”

No final do contacto com a natureza, as crianças estão mais felizes, acredita Mónica. “As crianças são mais espertas, cooperantes, felizes e saudáveis quando têm a oportunidade de brincar livremente na natureza. Quando as crianças passam tempo ao ar livre, num ambiente natural, há mudanças significativas nos seus índices de stress, hiperatividade e défice de atenção. Estas crianças revelam uma maior autoestima, disciplina, criatividade, capacidade de resolução de problemas e motivação para aprender.”

Ao mesmo tempo, está-se a combater um problema dos tempos modernos, o chamado défice de natureza, que já levou a Associação Americana de Pediatra a aconselhar os seus associados a receitarem horas de brincadeira às crianças.

“Hoje, as crianças estão cada vez mais desligadas e longe da Natureza”, sustenta Mónica Franco. “Nos últimos 20 a 30 anos, sem nos apercebermos, as mudanças no nosso estilo de vida acumularam-se, com efeitos devastadores nas crianças: obesidade, défice de atenção, deficiências ao nível das competências sociais. Tudo isto contribui para elevados níveis de stress e está a ter um impacto severo nos miúdos. A estes fatores associam-se o boom do entretenimento eletrónico e pouco tempo livre, não estruturado. Calcula-se que a área para brincar de uma criança de 9 anos, o raio à volta de casa onde pode andar sozinha, tenha diminuido para 1/9 do que era em 1970. As crianças passam grande parte do seu tempo sentadas em salas de aula ou em casa à frente de ecrãs, com o seu tempo todo organizado e estruturado entre escola e atividades extra-curriculares. É urgente que os adultos se apercebam das verdadeiras consequências disto.”

As mães e os pais também têm lugar na Escola da Floresta

A Escola da Floresta não se esgota na bolsa da Gulbenkian que traz os estudantes da Escola Básica da Várzea de Sintra a Monserrate de segunda a quinta-feira, duas horas seguidas por semana para cada turma, do 1.º ao 4.º ano.

Todas as sextas-feiras são reservadas a outras escolas, de Sintra ou de outros cantos do país, que queiram trazer os seus alunos à Quintinha Pedagógica de Monserrate. Para essas, a experiência não dura um ano letivo inteiro, como acontece com a escola parceira do Movimento Bloom. O que Mónica Franco aconselha, e tem sido essa a prática, é que o plano de atividades dure um mínimo de oito semanas para que as crianças possam sentir os benefícios do contacto com a natureza.

Chegado o fim de semana, os bancos desta escola abrem-se também aos pais e às mães. Aos terceiros sábados de cada mês, a equipa está na quinta para receber as sessões “Famílias na Floresta”, que esgotam quase no momento em que são anunciadas. E Magda Ferro conta que, muitas vezes, os adultos entusiasmam-se ainda mais do que as crianças e vivem intensamente aquela experiência. “Parece que são miúdos de novo.”

Depois de concluírem que o abrigo construído na semana anterior era um T0, e que não havia lugar para todos, o grupo decidiu construir um novo condomínio (ANDRÉ DIAS NOBRE/OBSERVADOR)

Por último, ainda há os campos de férias que padecem do mesmo mal — “felizmente”, diz Mónica Franco a sorrir — dos dias reservados às famílias. O de abril, que coincide com as férias da Páscoa, já não tem uma única vaga. No verão, haverá pelo menos mais dois campos de férias durante o mês de julho.

Esta oferta irá sempre manter-se, já que é autónoma, mesmo que não consigam nova bolsa da Gulbenkian — à qual Mónica Franco garante que vão novamente candidatar-se, embora ainda estejam a acertar detalhes, podendo vir a apresentar um projeto ligeiramente diferente do atual. O que a bolsa da Gulbenkian garante é o financiamento do projeto com a escola da Várzea de Sintra, permitindo que as crianças não tenham de pagar nada para viver a experiência. “Curiosamente, o que sai mais caro são os transportes”, conta a fundadora da Escola da Floresta.

Pedro Cunha, da Gulbenkian, garante que a continuação do projeto é uma possibilidade: “Um dos critérios de seleção das academias é precisamente o da sua sustentabilidade. O apoio que a fundação presta destina-se sobretudo à qualificação das intervenções, à validação científica e disseminação dos resultados.”

Outra parte do financiamento é garantido pela Parques de Sintra — Monte da Lua, que faz parte do consórcio que pôs a Escola da Floresta a funcionar. Para além disso, cedem o espaço da quinta pedagógica que, apesar de servir de casa à Escola da Floresta, tem vida própria, tendo começado a sua existência como pequena exploração rural que servia o Parque e Palácio de Monserrate, mesmo ali ao lado. Recria, em todos os sentidos, uma verdadeira quinta, que faz parte da herança cultural de Sintra, e as crianças que a visitam podem passear pelas hortas, ver os animais ao vivo e até cozer pão na antiga casa do caseiro do século XIX.

O espaço, que funciona através de energias renováveis, não dependendo do sistema de rede elétrica, também recebe festas de aniversários.

Para construir abrigos resistentes é preciso a ajuda de corda. Filipa ensina o seu grupo a fazer vários tipos de nós (ANDRÉ DIAS NOBRE/OBSERVADOR)

Academias do conhecimento, parte 2

Depois de, em 2018, ter disponibilizado 2,5 milhões de euros em bolsas para as Academias de Conhecimento, a Gulbenkian abriu em fevereiro um novo processo de candidaturas que decorre até 7 de março, desta vez com um valor total de 1 milhão de euros. O ano passado, conta Pedro Cunha ao Observador, o valor distribuído pelos 32 projetos que ganharam o selo de Academias de Conhecimentos, e que beneficiam 13 mil crianças e jovens, acabou por não ultrapassar o milhão de euros.

A distribuição de valores não foi hierarquizada: “Os projetos foram apoiados em face das propostas apresentada e dos limites de cofinanciamento pré-estabelecidos”, explica o responsável pelo projeto da Fundação Calouste Gulbenkian.

O objetivo continua a ser o mesmo: em 5 anos, chegar a 10 mil crianças e jovens através destas academias. O que se espera que elas ofereçam às crianças? Que sejam novas formas de educar os jovens para um futuro onde as máquinas vão competir com humanos no mercado de trabalho.

Às vezes, a natureza não oferece a matéria prima no tamanho certo para a construção. Aí, é preciso a ajuda do serrote (ANDRÉ DIAS NOBRE/OBSERVADOR)

Os dados têm vindo a acumular-se e mostram como o futuro é imprevisível: quatro em cada cinco crianças que agora entraram na escola terão empregos que ainda não existem, segundo o Banco Mundial; metade de todos os empregos que existem atualmente estão em risco de ser tomados pela automação e pelos robôs, revela a OCDE; no futuro, 40% das competências-chave serão diferentes das de hoje, diz o Fórum Económico Mundial; e em Portugal, segundo o Fórum para a Competitividade, 10% a 15% dos empregos na indústria vão desaparecer no espaço de 10 anos.

“A grande questão é como é que vamos preparar esta geração de crianças e jovens para uma realidade que nós não fazemos a menor ideia de qual é. Temos de educá-los para o seu futuro e não para o nosso passado”, defendeu Pedro Cunha, em entrevista ao Observador na primeira edição das academias. Há já seis qualidades identificadas que os humanos terão de ter no futuro para se distinguirem no mercado de trabalho e que estão na génese do projeto Academias de Conhecimento: pensamento criativo e crítico, resiliência, capacidade de resolver problemas complexos, ser-se bom comunicador, bom a adaptar-se e, claro, a autoregular-se.

À semelhança do que aconteceu no ano anterior, na primeira fase do concurso pede-se apenas um rascunho muito genérico para não perder boas ideias por causa da burocracia. Se o projeto for, de facto, bom, então a fundação ajudará a candidatura a apresentar um projeto com o nível de exigência a que a Gulbenkian está obrigada.

No ato da candidatura, obrigatoriamente feito online, as organizações têm duas possibilidades: ou escolhem uma das quatro metodologias já identificadas pela fundação e que comprovadamente levam à aquisição daquelas seis competências ou escolhem metodologias experimentais, como fez a Escola da Floresta. Se for esse o caso, a Gulbenkian irá procurar parceiros que façam o mesmo tipo de mentoria e tutoria que no caso anterior. No final, seja qual for o caminho seguido, e porque a avaliação acontece antes, durante e depois, será possível medir o alcance da academia e saber em que medida as crianças e jovens desenvolveram aquela competência.

Texto de Ana Kotowicz, fotografia de André Dias Nobre.

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