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Europa Press via Getty Images

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Espanha saiu à rua para ir à missa e beber "a primeira caña do estado de emergência" /premium

No primeira dia do desconfinamento, houve esplanadas cheias — na Galiza, até houve fila. Na missa em Sevilha recordou-se São Paulo: "Levante-te e põe-te de pé". Foi o que os espanhóis tentaram fazer.

Nos últimos tempos, só com muita ironia é que espanhóis poderiam citar uma das expressões mais conhecidas do duo humorístico Sacapuntas, em que cada um interpretava um toureiro, e que ficou célebre na década de 1980. Num sketch dessa época, um deles perguntava: “Como estava a praça?”. E o outro, num gesto teatral de abundância, respondia: “A abarrotar!”.

Não foi por acaso que as praças (seja as da rua ou dos touros) estiveram completamente vazias. Espanha tem sido, de longe, um dos países mais afetados pela pandemia da Covid-19. São 268.143 pessoas contagiadas pelo novo coronavírus no país vizinho — e destas 26.744 morreram. São números quase sem comparação no resto do mundo, mas que ainda assim têm vindo a abrandar. Esta segunda-feira, registaram-se mais 1.880 contágios (um dos mais baixos da pandemia, comparando com o recorde de 26 de março, 8.271) e as mortes subiram em 143 — o número mais baixo desde que a curva achatou, após um pico de 961 mortes a 2 de abril.

Perante estes números, que sugerem um otimismo cauteloso, algumas praças em Espanha começaram a encher timidamente. Se é certo que em algumas zonas do país continua o confinamento que até aqui tem estado em vigor (como Madrid ou Barcelona, ainda na chamada Fase 0), já houve outras que saíram porta fora, se sentaram numa esplanada e fizeram, pese embora os limites desta Fase 1, Espanha voltar ao que era antes.

Sevilha. Na primeira missa pós-confinamento, ouviu-se “levanta-te e põe-te de pé”

“Espero que não tenham estado dois meses sem rezar”, disse o padre da Catedral de Sevilha, Carlos González Santillana, que tem a seu cargo uma das maiores e mais emblemáticas de Espanha, na primeira missa com fiéis do desconfinamento. Aquela frase levava mais tom de pressa do que de reprimenda. Isto porque, nos novos tempos que agora se iniciam, os lugares daquela catedral terão de ser desinfetados entre rezas — e para isso convém que elas se mantenham curtas, de maneira a facilitar a limpeza do espaço.

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De acordo com o ABC de Sevilha, na primeira missa, a das 7h30, só ficaram por ocupar cerca de dez dos 80 lugares dispostos para os fiéis, que à entrada desinfetaram todos as mãos com gel à base de álcool, distribuído à entrada por voluntários. Depois de entrarem, os fiéis sentaram-se não nos habituais bancos corridos de madeira, mas antes em cadeiras individuais dobráveis, de metal.

Numa homilia “rápida e direta”, o pároco fez questão de lembrar todas as vítimas da Covid-19, além daqueles que têm trabalhado ao longo da pandemia. Nas leituras, recordou um episódio bíblico referente a São Paulo. Em Listra, pregando a um grupo de pessoas, reparou que nele se encontrava um homem coxo de nascença. Reconhecendo que ele tinha fé de que seria curado, São Paulo disse-lhe: “Levanta-te e põe-te de pé”. Neste episódio bíblico, foi quanto bastou para o homem em causa se erguer e caminhar com normalidade.

É um episódio bíblico repleto de significado neste dia, que ofereceu algum otimismo à região da Andaluzia, da qual Sevilha é capital. Esta segunda-feira, pelo segundo dia consecutivo, não houve qualquer internamento em cuidados intensivos e só houve 26 novos contágios — os melhores números desde o pico da pandemia naquela região.

Galiza. Ir a uma esplanada — e, a seguir, a outra

Não há fome que não dê em fartura. Foi assim para Marina Prieto e Paloma García, ambas estudantes, que sentadas numa esplanada em Pontevedra, disseram ao Voz de Galicia que aquela nem era a primeira do dia: “É a segunda esplanada a que vimos. Precisamos de desligar um pouco, porque passar o dia a estudar é muito pesado”. O dia foi de sol, o que terá ajudado a arrumar os livros e sair à rua.

Os cafés e as esplanadas voltaram a ter pessoas, mas sem as enchentes de outrora — para já, só poderão ter 50% do espaço ocupado. Desta forma, alguns preferem não abrir, porque assim não terão lucro

M. Dylan/Europa Press via Getty Images

Estão longe de terem sido as únicas a saírem às ruas da Galiza, comunidade autónoma que, no conjunto das suas quatro províncias, entrou esta segunda-feira na chamada Fase 1 do desconfinamento. De acordo com aquele jornal, em Ferrol chegou até a haver filas para as pessoas poderem sentar-se nas esplanadas. “Abrimos às oito da manhã e a essa hora já havia gente”, disse Ankha, empregada de um café naquela cidade, acrescentando que a manhã de trabalho foi “esgotante”.

Em Ferrol, na Galiza, chegou a haver fila para algumas esplanadas. "Abrimos às oito da manhã e a essa hora já havia gente", disse Ankha, empregada de um café naquela cidade. 

Mas nem todos poderão dizer o mesmo. Alguns bares decidiram não abrir, por acharem que a regra de limite da ocupação a 50% do espaço lhes traria mais despesa do que receita. “Abrir agora é economicamente inviável e as medidas de segurança para abrir são extremamente confusas. Preferimos esperar, o problema é quanto é que conseguimos aguentar até voltarmos a abrir”, informou ao La Voz de Galicia a proprietária de um bar de Pontevedra.

País Basco. Uma Fase 0,5, onde mesmo em casa não há ajuntamentos

“O País Basco parece que está sempre debaixo de todas as atenções.” Foi esse o desabafo de Aitor Esteban, parlamentar do Partido Nacionalista Basco (PNV, na sigla espanhola), depois de a comunidade autónoma que representa no Congresso dos Deputados ter entrado para a lista das que entraram esta segunda-feira na Fase 1.

A suspeita foi lançada por alguns políticos regionais do PP, que acusavam o governo de Pedro Sánchez de favorecer o País Basco no calendário de desconfinamento por razões políticas. É que além de o PNV governar no País Basco com a ajuda dos votos do PSOE, o PSOE só governa (com o Unidas Podemos) Espanha porque o PNV o permite com o seu beneplácito.

No País Basco, o governo regional aceitou entrar em Fase 1, mas aprovou medidas adicionais. Por isso, ainda não será possível transitar entre municípios e as reuniões em espaços fechados (incluindo em casas privadas) não podem ser com mais de dez pessoas. Na oposição, há quem chame a isto a "Fase 0,5".

Portanto, por um lado, há o descontentamento de quem vê de fora o País Basco a ir da Fase 0 para a Fase 1. Porém, dentro da região, também há quem aponte que, na verdade, não é de Fase 1 que se trata, mas antes de Fase 0,5. Isto porque o governo autónomo aprovou medidas-extra que não estão em vigor noutros sítios, como é, por exemplo, o impedimento de circular entre municípios, salvo algumas exceções. Além disso, não será permitido que se juntem mais de 10 pessoas no mesmo espaço fechado — incluindo nas casas.

Isso não impediu, porém, que num espaço fechado em específico mais de 10 pessoas se tivessem juntado para gritar “fora!” ao presidente do governo regional basco, Iñigo Urkullu. Aconteceu no Hospital de Cruces, de Bilbau, onde aquele político do PNV esteve na manhã desta segunda-feira. Aquela visita foi interpretada por alguns como um ato de campanha — isto apesar de as eleições autonómicas, que estavam marcadas para 5 de abril, terem sido adiadas sine die por causa da pandemia.

“A falta de material de proteção foi o grande problema. Houve um grande número de infeções entre profissionais”, queixou-se, em declarações ao El Correo, a sindicalista Esther Saavedra naquela reunião espontânea de mais de dez de pessoas empunhando cartazes.

Já nas esplanadas bascas, a regra das dez pessoas não se aplica — apenas se exige, tal como noutros sítios que também entraram na Fase 1, que a ocupação seja até 50% daqueles espaços. “Fomos às compras e agora estamos a beber a nossa primeira caña [cerveja de pressão] do estado de emergência”, disse um grupo de jovens na casa dos 20 anos ao jornal basco El Correo, numa esplanada na Plaza Nueva de Bilbao, uma das principais daquela cidade. A proprietária daquele espaço conta que abriu logo de manhã. “Mais do que vontade, havia necessidade”, disse. Entre os 22 bares e cafés daquela praça, só abriram três.

Badajoz. Um bom dia para sair de casa, apesar de tudo

Em Badajoz, foi um bom dia para sair de casa — mas não foi melhor para ninguém do que para um homem sobre o qual os principais jornais da Extremadura escrevem esta segunda-feira, sem nunca lhe referirem o nome. É que, pouco depois de ele ter saído de casa, esta desmoronou-se de tal forma que dela já só restam os escombros. O colapso deu-se na passada madrugada, da noite de domingo para segunda-feira, e não houve quaisquer vítimas.

Sabendo disso ou não (os vizinhos notam à imprensa que a casa estava em muito mau estado), ao ter saído de casa aquele homem ter-se-á muito provavelmente poupado à morte — uma desfecho irónico, depois de tantos dias em que em Espanha muitos se fecharam em casa, precisamente para escaparem a tal desfecho.

"Desinfetámos a roupa com uma máquina de vapor, temos gel com álcool e luvas para todas as pessoas que entrarem."
Paqui Macías, lojista de Badajoz

E, já com o sol levantado e apesar da chuva, foram muitos os que simplesmente saíram à rua em Badajoz para continuarem as suas vidas — e os seus negócios. Foi o caso do Centro Comercial Abierto de Menacho, um conjunto de lojas ao ar livre, que abriu portas pela primeira vez desde que foi decretado o estado de emergência. Ali, aprendem-se novos hábitos. “Desinfetámos a roupa com uma máquina de vapor, temos gel com álcool e luvas para todas as pessoas que entrarem”, disse ao jornal Hoy Paqui Macías, que trabalha na loja Tara.

Madrid. Impacientemente à espera para poder sair

Em Espanha, o início do desconfinamento desta segunda-feira não nasceu para todos — e uma das grandes exceções é a Comunidade de Madrid. E essa exclusão não se fez sem polémica, já que cabe aos governos regionais fazer o pedido de desconfinamento e à Governo central decidir se o aceita ou não. E, neste caso, o pedido feito pelo governo regional de Madrid (liderado por Isabel Díaz Ayuso, do PP) foi negado pelo Governo de Pedro Sánchez, aumentando ainda mais a tensão entre aqueles dois centros de poder.

Esta não é uma questão pacífica sequer dentro do próprio governo da Comunidade de Madrid.

Por um lado, Isabel Díaz Ayuso tem insistido numa abertura de portas o quanto antes. “Ou saímos de casa ou será a ruína”, disse numa entrevista à RNE na semana passada, negando, porém, estar a agir com pressa. “Eu não quero ter pressa para nada, porque fui a primeira a ver o que se passou na Comunidade”, diz, em alusão ao facto de Madrid ter sido o local de todo o país com mais mortes e contágios em absoluto. Por outro, a conselheira de Saúde de Madrid, Yolanda Fuentes, demitiu-se na semana passada, perante a insistência de isabel Díaz Ayuso em pedir ao Governo central a passagem à Fase 1.

No sábado, em entrevista à Telecinco, Isabel Díaz Ayuso disse que a próxima data que tem em mente para a passagem à Fase 1 é 18 de maio. Não é garantido que o Governo central dê luz verde a essa alteração. Até poderem sair à rua com total liberdade, as crianças madrilenas mais desfavorecidas vão continuar a receber apoio — refeições de fast-food gratuitas, pagas pelo governo regional.

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