Diz o provérbio que “a necessidade aguça o engenho”. E a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) deu-lhe — e dá-lhe — razão. Da necessidade de complementar as respostas que já presta no dia a dia, no âmbito dos serviços de saúde e sociais que oferece, e sempre tendo em conta a melhoria da qualidade de vida dos mais vulneráveis, a SCML criou, em 2013, os Prémios Santa Casa Neurociências, investindo, assim, na investigação científica. “Apesar da dimensão e diversidade da nossa atividade, existem, obviamente, limitações não só inerentes à nossa capacidade, mas também impostas pelos limites da ciência atual.
Não podemos apoiar a recuperação total de alguém que sofre de uma lesão medular, não conseguimos regredir os sintomas de patologias neurodegenerativas, como o Alzheimer. Mas podemos ajudar a catalisar essas respostas, assumindo um compromisso com o seu futuro e envolvendo a nossa comunidade de cientistas e investigadores”, refere Rita Paiva Chaves, diretora do Departamento da Qualidade e Inovação da SCML e responsável pela implementação de programas de financiamento em ciência na área da saúde, como os Prémios Santa Casa Neurociências. Além destes, a SCML lançou, em 2017, um outro prémio ligado às neurociências: o Prémio João Lobo Antunes. Um prémio que visa não só homenagear o médico e cientista João Lobo Antunes — considerado uma das figuras mais marcantes da saúde, ciência e investigação biomédica em Portugal —, mas também fomentar a investigação na carreira médica.
No próximo ano, a SCML cumpre 10 anos de apoio à ciência pela atribuição anual destes prémios. Em jeito de balanço, o Provedor da SCML, Edmundo Martinho, refere: “Creio que este contributo estendeu, de facto, a nossa missão, presente e futura, no apoio às diferentes necessidades com que nos vamos debatendo.”
Mas, afinal, que necessidades são essas? E como contribuem estes prémios para a saúde da população?
Das lesões vertebromedulares às doenças neurodegenerativas
Pensar no trabalho da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa remete-nos, quase sempre, para um campo mais humanitário. Mas não é só esta a área de atuação da instituição. E os Prémios Santa Casa Neurociências confirmam-no. Mas porquê a aposta em campos tão específicos como as lesões vertebromedulares (no caso do Prémio Melo e Castro) e as doenças neurodegenerativas (com o Prémio Mantero Belard)? “São duas áreas críticas, presentes na atividade da SCML.
Por um lado, em relação às lesões vertebromedulares [dano ao nível da espinal medula que origina uma paraplegia ou tetraplegia], importa recordar o serviço que é feito no Centro de Medicina e Reabilitação de Alcoitão — em paralelo com a Escola Superior de Saúde de Alcoitão — na reabilitação de doentes que, por sofrerem acidente vascular cerebral [ACV], traumatismo crânioencefálico ou lesão vertebromedular, são acompanhados, quer em internamento quer em ambulatório”, explica Rita Paiva Chaves. De relembrar que a Santa Casa fez parte da inauguração deste centro de medicina, aquando da sua criação, em 1966.
No que às doenças neurodegenerativas diz respeito, “essa relação consegue ser um pouco mais intuitiva”, avança a responsável pelos prémios. “A SCML apoia cerca de 60 mil pessoas em resposta de ação social ou saúde na área da grande Lisboa, sendo que uma parte substancial desta população é idosa”, relembra. Ora, sendo este tipo de doenças prevalente na população portuguesa, sobretudo em idosos, é fácil perceber a relação entre a SCML e este campo da ciência. “É uma realidade cada vez mais presente no nosso dia a dia, com impactos muito significativos para o próprio [doente] e para os seus familiares ou cuidadores. A SCML conhece bem, e de perto, esta realidade. Foi também nesta área que sentimos o imperativo de poder ir mais além (das respostas atuais) e aliarmo-nos à capacidade e destreza científica nacionais”, justifica Rita Paiva Chaves.
Prémio Melo e Castro
Implementado em 2013 e com um valor pecuniário de 200 mil euros, o Prémio Melo e Castro — integrado nos Prémios Santa Casa Neurociências — visa promover a descoberta de soluções para a reabilitação de pessoas que sofrem de lesões vertebromedulares, reduzindo, de forma significativa, as limitações motoras e fisiológicas associadas. Por se tratar de uma área tão específica e com pouca incidência, “não é uma área atrativa para financiadores privados, como a indústria de dispositivos ou farmacêuticas, uma vez que a sua incidência é relativamente baixa e o seu mercado potencial não justifica, por si só, esse investimento”, reconhece Rita Paiva Chaves, salientando, assim, a importância do financiamento da SCML nesta área.
Por carência económica, nem sempre é possível os investigadores verem as suas ideias progredirem. Nuno Sousa, vencedor da edição de 2018 do Prémio Melo e Castro, corrobora a responsável dos galardões da SCML: “Com este foco, especificamente neste tipo de patologias vertebromedulares, com este envelope financeiro [200 mil euros], são muito poucas as fontes a que podemos recorrer para fazer vingar estas ideias.”
Nuno e a sua equipa da Universidade do Minho propuseram-se a descobrir estratégias para melhorar a qualidade de vida de pacientes com lesões vertebromedulares, através de treino prolongado com um exoesqueleto controlado por atividade cerebral. “Nas lesões vertebromedulares, a maior parte das pessoas está muito focada no défice motor, esquecendo-se que as pessoas também têm, a acompanhar esse défice motor, um défice sensorial.
E esse défice sensorial obviamente que interfere, em primeiríssima mão, na qualidade de vida destas pessoas; e em segundo, interfere também na percepção que elas têm da realidade e até na recuperação motora. A estratégia que montámos foi tentar encontrar formas de curto-circuitar esse défice motor, garantindo que as pessoas têm sensibilidade na parte que deixaram de ter sensibilidade, e, por essa forma, condicionar-lhes uma melhor percepção da realidade que os envolve”, explica o também médico especialista em neurorradiologia.
Mas para chegar até aqui, Nuno Sousa reconhece que “se não fosse o financiamento que o prémio garantiu, estes trabalhos não podiam ser realizados”, e adianta: “É absolutamente crítico para o seu desenvolvimento. Nós podemos ter muito boas ideias, mas sem ter os recursos, nomeadamente os financeiros e os estímulos que isto representa — como o reconhecimento de pares da qualidade de ideia —, nós nunca a poderíamos concretizar.”
9
Número de edições dos Prémios Santa Casa Neurociências até 2021.
Prémio Mantero Belard
Também Sandra Morais Cardoso, vencedora, em 2016, do Prémio Mantero Belard, no valor de 200 mil euros, realça a sua importância: “Este prémio foi, sem dúvida, essencial para podermos provar a nossa hipótese.”Hipótese, essa, que tinha como premissa descobrir a relação do efeito toxinogénico da microbiota intestinal na doença de Parkinson esporádica. Cinco anos depois de vencer o prémio — que reconhece e dinamiza a investigação científica ou clínica desenvolvida sobre doenças neurodegenerativas associadas ao envelhecimento, como a doença de Parkinson e a doença de Alzheimer —, Sandra e a sua equipa da Universidade de Coimbra avançaram que a doença de Parkinson pode, efetivamente, ter origem no intestino.
1900
No total das 9 edições dos Prémios Santa Casa Neurociências, já participaram mais de 1900 investigadores candidatos.
“Sabendo que muitos doentes de Parkinson apresentam sintomas intestinais anos antes do diagnóstico clínico, e, também, porque parece existir uma associação direta entre tóxicos ambientais e o aparecimento desta, colocámos a hipótese de que moléculas produzidas por bactérias ambientais — neste caso o BMAA — podiam atacar bactérias do intestino, mas também as suas descendentes, as mitocôndrias, e levar a um processo inflamatório: primeiro, no intestino; depois, sistémico; e, por fim, a nível do cérebro, a que se associa o processo neurodegenerativo característico da doença de Parkinson”, explica a investigadora e neurobióloga.
Prémio João Lobo Antunes
Integrado nas iniciativas que a Santa Casa tem vindo a desenvolver, desde 2013, para incentivar a investigação na área das neurociências, sob o lema “Investigação por Boas Causas”, nasceu, em 2017, o Prémio João Lobo Antunes. Ao contrário dos Prémios Santa Casa Neurociências, este destina-se apenas a licenciados de medicina em regime de internato médico. Rita Paiva Chaves justifica esta particularidade com o facto de a SCML se querer comprometer também com a vertente da educação. “A componente de investigação clínica deve ser promovida (e incentivada) desde cedo na carreira médica, para que a curiosidade, o rigor e o ‘ceticismo saudável’ coexistam e prevaleçam na prática clínica, ao longo da carreira”, adianta.
Na sua quinta edição, este Prémio, no valor pecuniário de 40 mil euros, pretende, assim, estimular a cultura científica e a investigação clínica na área das neurociências, ao mesmo tempo que homenageia o médico e cientista João Lobo Antunes — um mentor que muito contribuiu para esta área na SCML, tendo inclusive feito parte da arquitetura do programa dos Prémios Santa Casa Neurociências. “Com todos os benefícios que a atividade de investigação clínica, dinâmica e competitiva aportam para um país, é, sem dúvida, o alinhamento pela potencial melhoria dos cuidados de saúde, o que mais nos cativa nesta iniciativa. Isto traduz-se não apenas na existência de profissionais de saúde mais bem preparados, como também no acesso a novas e mais eficazes terapias e medicamentos, que possibilitem o aumento da qualidade e tempo de vida do doente”, salienta Rita Paiva Chaves.
4.000.000€
É o investimento global, desde 2013 e até ao final de 2021, da SCML em matéria de investigação científica.
Uma missão “por boas causas”
O investimento em projetos de ciência acarreta sempre algum risco, pois a única certeza que se tem é, precisamente, a incerteza. Isto porque os “impactos da ciência só são visíveis, com relativa segurança, a longo prazo. Dez a 15 anos é o intervalo de tempo consensualmente aceite pela comunidade médica e científica, em termos de obtenção de retorno no investimento em ciência. E mesmo assim, é incerto”, avança Rita Paiva Chaves. “A única certeza que temos é a de que se não houver esse investimento, não haverá, seguramente, resultados. É um ato de altruísmo no futuro”, salienta. Um ato de altruísmo reconhecido pelos próprios investigadores: “A Santa Casa, ao financiar projetos ‘high risk/high gain’ [alto risco/alto ganho] como este [descobrir a relação do efeito toxinogénico da microbiota intestinal na doença de Parkinson esporádica], isto é, um projeto que conta principalmente com a ideia inovadora e disruptiva, que ainda não se apoia em resultados preliminares, é diferenciador”, aponta Sandra Morais Cardoso.
Também Nuno Sousa partilha esta ideia em relação ao prémio, ao qual aponta haver “um toque especial”: o da inovação. “Esta é uma ideia arriscada [a de descobrir estratégias para melhorar a qualidade de vida de pacientes com lesões vertebromedulares]. E este risco, às vezes, não é bem apreciado pelas agências financiadoras, porque aporta uma probabilidade de insucesso que também é maior. Este tipo de atitude que o Prémio Melo e Castro nos criou é um espaço de liberdade para o risco, que é muito importante quando nós queremos fazer coisas um pouco mais disruptivas”, realça o investigador da Universidade do Minho.
Para o Provedor da SCML, Edmundo Martinho, este investimento é visto, antes, como um apoio à ciência que permite à instituição colocar-se “lado a lado de quem sofre, acreditando poder fazer mais, poder chegar mais longe”, refere. “Possibilita-nos incluir, neste nosso caminho, o trabalho meritório dos médicos e cientistas nacionais. Eleva a nossa missão, ‘por boas causas’, e em prol de quem mais precisa”, afirma. Por essa razão, o Provedor adianta: “Entendemos, na medida do que nos for possível, que a intensidade do apoio à ciência deverá ser mantida, bem como a colaboração, em proximidade, envolvendo doentes, profissionais de saúde, familiares e investigadores”.