Mísseis, sistemas de defesa aéreos, helicópteros, barcos, veículos blindados, centenas de milhares de projéteis de artilharia e informação secreta. Os EUA abastecem a Ucrânia com ajuda militar desde fevereiro de 2022 quando a Rússia invadiu o território. Mesmo sendo apenas parte da solução para se defender da ofensiva lançada por Vladimir Putin, é uma parte significativa — cerca de um terço da defesa utilizada pelos ucranianos, incluindo a produção interna. E que fica em causa após a suspensão de apoio anunciada por Donald Trump esta segunda-feira.
A interrupção do envio de armas e outros recursos coloca em causa a posição militar da Ucrânia n guerra. Com menos recursos, fica à mercê da capacidade militar russa, ou da capacidade da União Europeia em compensar as “baixas” norte-americanas na disponibilização de armamento. Há ainda uma terceira opção — ficar dependente da sua própria capacidade em produzir mais e melhor armamento e tecnologia de guerra.
Trump e a sua administração avançaram com a medida de suspensão, que não é nova enquanto ideia para pressionar a Ucrânia, por entenderem que Volodymyr Zelensky não se mostra “agradecido” perante os esforços dos EUA para uma solução de paz.
Depois de o Presidente ucraniano ter saído à pressa de Washington, expulso da sala oval depois de discussão com Trump e o seu vice Vance, sem assinar o acordo para a exploração de minerais e terras raras em território ucraniano, o Presidente dos EUA decidiu que era tempo de parar: até que exista um “compromisso de boa-fé com a paz” por parte da Ucrânia toda a assistência militar norte-americana pendente fica impedida de chegar a bom porto.
Esta quarta-feira, Trump ainda não decidiu retomar o fluxo de assistência militar, segundo o The Wall Street Journal, mesmo depois de ter feito um discurso mais brando em relação à Ucrânia no Congresso norte-americano após uma carta em que Zelensky recuou e admitiu novas negociações que podem estar para breve. O republicano quer estar totalmente convencido de que o homólogo ucraniano está disponível para negociar o fim do conflito com a Rússia antes de restabelecer o apoio.
Entretanto, como fica a Ucrânia? O que pode perder o país se existir uma suspensão prolongada da ajuda militar norte-americana? E poderá a União Europeia compensar tal corte no abastecimento bélico e logístico?
Quanto deram os EUA à Ucrânia desde o início da invasão? E quanto estava previsto enviarem em 2025?
Desde o início da guerra, o equivalente a 67 mil milhões de dólares (62 mil milhões de euros) em ajuda militar foram enviados pelos EUA à Ucrânia. Todos os países europeus, em conjunto, enviaram pouco menos do que isso — cerca de 60 mil milhões de euros,
Os dados são do Instituto Kiel para a Economia Mundial, citados pelo New York Times, e traçam um cenário claro em relação à dependência ucraniana do apoio norte-americano, que está agora em causa. O dinheiro disponibilizado pelos EUA serve principalmente para financiar o fabrico de armas enviadas para a Ucrânia, mas também para repor o stock militar enviado “de urgência” nos primeiros meses de guerra ao país invadido.
OLEG PETRASYUK/EPA
Quando anunciou a suspensão do envio de ajuda militar, Trump não especificou o tipo de armamento ou a quantidade que fica em risco de não chegar à Ucrânia, mas há pistas claras em relação ao que mais fará falta à Ucrânia no campo de batalha, sendo que a pausa na ajuda militar não se esgota no fornecimento de armas propriamente ditas.
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Quais os pontos mais críticos da suspensão de envio de armamento?
Com exceção para os drones, a Ucrânia é inferior à Rússia na produção de todo o restante armamento e equipamento de defesa militar de que necessita para lutar contra o ataque inimigo. Como destaca o El País, a suspensão do auxílio da Casa Branca pode causar danos significativos à defesa da Ucrânia, através do congelamento do envio de munições de artilharia, defesas antiaéreas Patriot, mísseis de médio e longo alcance e, sem menos importância, das informações dos serviços secretos que, soube-se esta quarta-feira, foram suspensas do lado dos EUA.
O último lote de ajuda a Kiev aprovado por Joe Biden, em janeiro, mesmo antes de Donald Trump tomar posse, incluía 500 milhões de dólares (463 milhões de euros) em munições antiaéreas, mísseis ar-solo e componentes para caças F-16 dos EUA que foram entregues à Força Aérea Ucraniana. Parte deste arsenal está temporariamente impedido de chegar à Ucrânia e isso terá um impacto direto que será sentido gradualmente na frente de batalha nas próximas semanas e meses.
Além disso, há também armas norte-americanas, de grande valor estratégico, cuja utilização pelo exército ucraniano fica dependente da vontade da administração Trump. É o caso dos mísseis de médio e longo alcance, que só após largos meses de negociações foram autorizados a ser utilizados pelos EUA.
Em novembro, Joe Biden deu a luz verde que Kiev tanto esperava e permitiu que as tropas ucranianas usassem os mísseis ATACMS, com capacidade para atingir alvos em território russo a cerca de 300 quilómetros. Tendo em conta o recuo no apoio militar, Trump pode mesmo acabar por reverter a decisão do seu antecessor.
Já em relação à suspensão da partilha de informações secretas com a Ucrânia, trata-se de um golpe duro na capacidade de a Ucrânia se defender da invasão e é, sobretudo, insubstituível por parte da Europa, já que o Pentágono recebe diariamente informações exclusivas dos serviços secretos que, até agora, partilhava com o exército ucraniano, ou com a NATO, que fazia a ponte.
Tais informações permitem, por exemplo, que a Força Aérea Ucraniana saiba quando e de onde mísseis de longo alcance são disparados a partir de território russo e também o momento em que bombardeiros russos levantam voo e qual a rota que seguem. Trata-se de informação estratégica que, uma vez suspensa, terá impacto imediato no campo de batalha. Segundo o El País, as principais potências europeias têm os seus próprios recursos para identificar os movimentos russos, mas esta capacidade informativa é consideravelmente inferior à norte-americana.
Outro recurso disponibilizado pelos EUA à Ucrânia, que se tornou fundamental nos últimos três anos no campo de batalha foi o sistema de internet via satélite Starlink da SpaceX detida por Elon Musk, empresário que faz agora parte da administração Trump. Segundo a Axios, há no país invadido cerca de 42.000 terminais Starlink operacionais para servir os militares.
▲ Terminal de internet via satélite da Starlink instalado em Odessa
Future Publishing via Getty Imag
Esta conexão via satélite é, por exemplo fundamental para pilotar drones na frente de guerra –recursos que a Ucrânia até tem capacidade de produzir, mas que não funcionarão sem a rede dos EUA. No final de fevereiro, chegou a ser avançado que o governo dos EUA estava a ameaçar fazer com que a Starlink desconectasse o seu sinal na Ucrânia, mas Musk tem vindo a negar, pelo menos até agora, tal realidade.
Europa tem capacidade de colmatar corte de apoio dos EUA?
“O apoio dos EUA não é imediatamente resolúvel apenas pela Europa”, diz Arnaut Moreira, ao Observador. O major general esclarece que a dimensão do apoio norte-americano é tão grande que a Europa “não tem, num curto espaço de tempo, capacidade para resolver ou remediar a situação”, logo, as implicações no campo de batalha são certas.
Até agora, os esforços europeus para financiar a Ucrânia ficaram aquém. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, já reconheceu a “urgência de curto prazo para agir” e anunciou um plano para “rearmar a Europa“.
Mesmo traçando medidas concretas com um plano da UE, foi a própria representante a admitir que o verdadeiro senão é a capacidade da Europa em “agir tão decisivamente quanto a situação exige”, e principalmente com a “rapidez e ambição” necessárias.
“Rearmar a Europa”. Os 5 pontos-chave do plano europeu para gastar mais em defesa e apoiar a Ucrânia
Como destaca o New York Times, a produção de armamento mais simples na Europa até pode ser capaz de dar resposta às exigências da guerra a leste, verificando-se um progresso positivo em relação à atrofia da indústria após o fim da Guerra Fria em 1991, mas ainda não está preparada e evoluída para dar resposta à produção, por exemplo de sistemas de defesa antiaéreos que até agora estavam a ser principalmente garantidos pelos EUA.
Para desenvolver o fabrico em massa deste tipo de armas e produtos de defesa é preciso não só a captação de profissionais especializados, como da expansão de fábricas e da obtenção de matérias-primas, num mercado mundial competitivo, a que a União Europeia não tem conseguido fazer frente nos últimos três anos.
E a Ucrânia, pode valer-se a si própria?
O reforço do apoio europeu pode ser um dos meios de colmatar uma eventual quebra prolongada do apoio dos EUA à Ucrânia, mas não é de somenos notar que o país em guerra garante pelo menos um terço do armamento utilizado atualmente no campo de batalha.
“A Ucrânia já produz muito material e isto será um estímulo para que produza ainda mais“, considera Arnaut Moreira, notando a vantagem futura da substituição de quem está a produzir os equipamentos bélicos. “Dá tecnologia e capacidade de produção à Ucrânia”, garante, vendo vantagens nesta necessidade criada pelo recuo dos EUA.
▲ Um drone fabricado na Ucrânia com fibra-ótica em janeiro de 2025, perto de Kiev
VITALII NOSACH/EPA
Além disso, o major-general não deixa de destacar que “80% das baixas russas são produzidas por drones ucranianos“, meios estes que já são de produção própria. “A capacidade de continuar a produzir efeitos de desagaste sobre as forças russas mantém-se inalterável neste sentido”, acrescenta.
A Ucrânia está também a tentar produzir defesas aéreas como o famoso sistema Patriot, de fabrico norte-americano, muito importante para intercetar mísseis balísticos. Um dos recorrentes apelos de Kiev é a ajuda na defesa dos céus ucranianos. Mas, frisa o The New York Times, cada sistema Patriot pode custar mil milhões de dólares e demora até dois anos a ser produzido. E tanto quanto se sabe, segundo o jornal norte-americano, que cita o site Oryx, que localiza armas, dos sete Patriot que os EUA e a Alemanha enviaram para a Ucrânia, pelo menos dois foram destruídos.
O especialista em geopolítica Arnaut Moreira destaca ainda que a suspensão, mesmo que prolongada, do apoio norte-americano à Ucrânia, não deve ser vista como uma “conclusão imediata de um colapso. Não haveria hipótese para a Ucrânia se a Federação Russa também não estivesse imensamente desgastada”, diz, garantindo que o problema é que a “capacidade do dispositivo militar russo em conseguir resultados muito concretos mesmo perante uma fraqueza da Ucrânia não é igual ao que conseguiria se tivesse o seu dispositivo militar intacto”.
EUA estão só a fazer aviso à Ucrânia ou a suspensão do apoio pode vir a prolongar-se?
A suspensão da ajuda militar norte-americana surgiu na sequência da desavença diplomática entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky e para Arnaut Moreira é nada mais do que “uma medida de pressão adicional para a assinatura do acordo dos minerais” ao Presidente ucraniano.
“A ser resolvido o acordo, muito provavelmente estarão reunidas as condições para que esta suspensão caia e seja entregue o material que ainda falta entregar”, assegura o Major-General ao Observador. E tudo indica que seja esse o caminho. No Congresso norte-americano, esta terça-feira, Trump fez referência ao facto de Zelensky ter agradecido numa carta o apoio dado pelos EUA nos últimos três anos, bem como revelou que o país está “pronto para assinar o acordo de minerais numa altura que seja conveniente” para a administração Trump.
Mesmo que este conflito em específico termine, através da assinatura do acordo e da anulação da suspensão de apoios, a verdade é que os EUA governados por Trump parecem estar “na disponibilidade de utilizar todos os instrumentos que têm à sua disposição para mostrarem uma posição de força e com isso condicionar as opções dos seus amigos aliados e parceiros“, garante Arnaut Moreira.
“Eles sabem que são uma potência e que têm instrumentos disponíveis para moldar o ambiente geopolítico mundial e condicionar os seus aliados. Este é um pensamento que me parece bem consolidado nestas semanas da administração Trump, que vai certamente ser utilizado mais vezes”, garante o Major-General, dando como provável a repetição de episódios como este.
Mas, recorda: “Os EUA não são o único ator no mundo, está na altura de encontrarmos também soluções alternativas relativamente ao que são as propostas da administração Trump.”