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A loja Colis Colis abriu no UBBO a 6 de dezembro de 2024
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▲A loja Colis Colis abriu no UBBO a 6 de dezembro de 2024

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

▲A loja Colis Colis abriu no UBBO a 6 de dezembro de 2024

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Filas de quatro horas, compras de 900 euros e 22 toneladas vendidas: a febre das encomendas perdidas na Colis Colis

Secretas, vendidas ao quilo e abanáveis. As encomendas perdidas da nova loja do UBBO são como um jogo de apostas, onde calha sempre qualquer coisa a quem compra. Só não há batotas.

Veem-na como um jogo. Estão a comprar ou a ganhar? Por dia são, em média, 500 as pessoas que chegam a esta loja para tentar a sua sorte. Às cegas, apostam o dinheiro, confiando no seu tato e num muito poderoso sexto sentido que identifique se terão ou não retorno. Qual raspadinha, lotaria ou casino, a Colis Colis é a mais recente loja do centro comercial UBBO, na Amadora, que vende encomendas (colis, em francês) perdidas, extraviadas ou recusadas ao quilo — sem que se saiba o que vai lá dentro — e que se tornou um fenómeno quase imediato quando abriu portas em dezembro. Como funciona? Sem um tempo limite para explorar o que se vende, o cliente pode apalpar e abanar — com cuidado, não vá o conteúdo ser frágil — qualquer um dos pacotes. A regra é só uma neste jogo: não há batota.

Criada em 2023, em França, por Marc Colpart e Alexis Meideck, a Colis Colis vem dar uma nova vida a encomendas que teriam como destino o lixo. Quando perceberam que na Europa havia milhares de pacotes não reclamados guardados em armazéns de distribuidoras como a DPD, a DHL e a GLS viram aí uma oportunidade de negócio — tal como acontece com várias empresas nos Estados Unidos que vendem as mystery boxes. Compram às toneladas e vendem de seguida a revendedores ou a consumidores, tanto em loja como online.

Por entre abanões e apalpões, havia sempre quem exclamasse convicto de que tinha na mão uma caixa de um iPhone, contrariado por quem lhe dizia que era demasiado pesado para ser um. "Isto é um banco de bicicleta. Toque lá. É daqueles em gel. Isto tens de puxar pela mente".

Depois de terem expandido o negócio por todo o país de origem, passando por feiras e centro comerciais, decidiram que estava na hora de ultrapassar as fronteiras. Espanha e Portugal eram as duas opções — e a hospitalidade dos portugueses e a facilidade do processo fez com que Lisboa fosse a cidade escolhida. O valor pelo qual adquirem estas toneladas “é segredo”, diz-nos Marc, comparando o seu negócio a outro tipo de apostas: “O efeito surpresa é o que faz com que isto seja espetacular. É como no casino. A casa é sempre o vencedor final. Com estes pacotes, nós podemos ganhar e o cliente pode ganhar. Talvez todos os pacotes contenham ouro. É possível.”

Se num casino o dinheiro apostado pode ser ou não recuperado, aqui pode surgir em forma de desentupidor de canos, de packs de pilhas AAA ou de selim de bicicleta. Em caso de sorte, há smartphones, óculos de realidade virtual ou sapatilhas de edição limitada na rifa. Apenas quem arrisca é que pode “ganhar”. Com liberdade para mexer nas embalagens à vontade, os clientes da Colis Colis só não podem rasgar ou furar os pacotes na tentação de espreitar e descobrir o que têm lá dentro. Quem o fizer é convidado a comprar o item e a sair da loja. “As pessoas pensam que nós não vemos. Vão para junto das caixas, enfiam a encomenda lá para baixo, rasgam, veem o que está lá dentro e depois escondem. As furadas ficam sempre no fundo”, exemplifica Tomás, ao balcão da Colis Colis.

▲ Marc Colpart, um dos criadores da Colis Colis

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Também os funcionários desta loja francesa não sabem o que vai dentro da colis. “Estão sempre a pedir-me para dizer onde estão os telemóveis. Se eu soubesse…”, comenta Marília Lavigne, garantindo que, ao contrário do que os clientes pensam, não têm “uma máquina de raio-x lá atrás” para conseguirem ver o conteúdo. Este apenas é revelado quando as encomendas já chegam da distribuidora rasgadas. Nesse caso, têm o cuidado de repará-las. Se os pacotes chegarem completamente abertos ficam de lado para um eventual giveaway. Quanto à privacidade da pessoa que terá feito a encomenda, tanto a morada como o nome são riscados.

“Calhou-me uma capa de telemóvel e um ambientador lá para casa”, revelou um dos funcionários que fez uma compra, ao contrário de Marília, Tomás e até mesmo Marc que, afirmam, se não trabalhassem na empresa, não estariam interessados em fazer uma compra sem saber o que estão, efetivamente, a comprar — ou a ganhar, como dizem os clientes. Foram esses que durante o mês de dezembro limparam a loja.

▲ Nas encomendas perdidas ou recusadas que se encontram na Colis Colis os dados do remetente estão riscados

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

De portas abertas desde o dia 6, a Colis Colis recebeu uma avalanche de pessoas cuja curiosidade era extrema. Que loja era esta? Como funcionava? O que podiam encontrar aqui? Estas questões fizeram com que, de 6 a 22 de dezembro, Marc e Alexis conseguissem vender 22 toneladas de encomendas, ao ponto de terem de fechar a loja ao público durante dois dias por falta de stock.

“Foi uma loucura. No primeiro dia as pessoas ficaram mais de quatro horas na fila“, confessa Marília, relembrando a febre que por aqui se viveu nos primeiros tempos — e com o Natal a ajudar o consumo. Com tantas horas na fila, era de esperar que, uma vez dentro da loja, o cliente quisesse aproveitar, deixando-se ficar a explorar as encomendas durante cerca de uma hora e fazendo compras que chegavam aos três dígitos. “Gastam rios de dinheiro. Ao início era ridículo. Fiz vendas de 700 e tal euros”, comentam os funcionários. “Houve uma senhora que gastou comigo 930 euros“.

▲ As sapatilhas Air Jordan de mais de 2 mil euros

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Passada a época natalícia, a febre baixou, com as filas a formarem-se apenas durante o fim de semana e “em um quarto de hora está tudo a andar”. Conta-nos Marília, são mais os homens-clientes — “as mulheres gostam de saber o que estão a comprar” — e procuram por caixas e caixinhas que possam ter um telemóvel lá dentro. Quais foram os melhores pacotes que já venderam? Apesar de a maioria das pessoas levar o suspense até casa, já houve quem não conseguisse esperar e abrisse as encomendas logo ali. Por menos do que comprariam numa loja usual, revelam que já “ganharam” aqui Airpods da Apple, um Samsung Galaxy S24, uma Nintendo, smartwatches, uns óculos de realidade virtual e umas sapatilhas Air Jordan de edição limitada com o rapper norte-americano Travis Scott. “A senhora questionou se seriam falsas. Foi lá a cima à loja e eram verdadeiras. Valiam mais de 2.000 euros“, recorda Marília.

Para evitar as longas filas, houve quem recorresse a um método — que levou também a queixas no livro de reclamações. “No início, as pessoas que traziam bebés e crianças e emprestavam-nas a outras na fila para que pudessem entrar mais cedo”

E se o cliente comprar algo que não valia o dinheiro? Marc responde que é possível que aconteça e que já viu quem saísse a chorar: “Nós temos muitas coisas muito boas e às vezes não. É assim que funciona. É o jogo.”

O que “ganhámos” na nossa visita à Colis Colis

Foi numa quinta-feira de janeiro, à hora de almoço, que passámos por lá. Sem grandes elementos para distrair atenções, a Colis Colis apresenta-se exatamente como imaginámos que uma loja só de encomendas se apresentaria: grande, de paredes brancas e com pacotes amontoados dentro de caixas-palete de madeira. Começamos por perceber o valor por quilo. Afixadas nas caixas estão posters que indicam que até dois quilos são 25,99€/kg, mais de dois quilos são 23,99/kg e mais de quatro quilos correspondem a 20,99€/kg. Apesar de estar bem explicado, por vezes os clientes assumem que são quatro quilos por 20,99 euros: “Chegam à balança com os quatro quilos à espera de verem 20,99€ e depois são 80 e tal euros”, afirma Marília, sustentada pelo exemplo que Tomás dá sempre: “Se fosse 20,99€ por encomendas acima de quatro quilos então levavam a loja toda por esse valor. Não pode ser.”

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Familiarizados com o sistema de preço por quilo começámos a vasculhar por entre as caixas da loja. Procurávamos encomendas pequenas, leves e que contivessem vários objetos. Encontrámos pacotes vindos de cidades como Hong Kong, Nova Iorque e Madrid, alguns recusados outros devolvidos e casos em que o remetente “no atiende el movil” ou “não abriu a porta”. “Também acontece o remetente ter morrido”, revela Marc. “É verdade. Ou ter mudado de casa, ou a morada estar errada ou totalmente destruída”, descreve.

▲ O que saiu nas duas encomendas que o Observador comprou na Colis Colis

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Depois de muito abanar e apalpar percebemos quais as embalagens que continham peças de roupa, sapatos, frascos e caixas, acabando por escolher duas encomendas que, ao todo, pesaram 460 gramas e ficaram por 11,96 euros. Depois de muita expectativa, foi na redação que as abrimos. Bitaites à parte, “ganhámos” dois pares de óculos de sol — e um paninho para limpar as lentes —, um fio com um pendente, cinco pares de meias coloridas, um recipiente de plástico, duas pequenas peças de utilidade desconhecida e um limpador de patas de cão.

Os clientes habituais

Como em qualquer outra loja, também aqui há quem venha regularmente. Se no mês de dezembro a fila de quatro horas podia afugentar quem não tivesse esse tempo para gastar, agora a falta  de pessoas à porta convida a entrar, vasculhar e sair sem nada. Quem o faz, muitas vezes, é um cliente habitual que passa quase diariamente, mas que nem sempre compra alguma coisa. “A mulher dele trabalha aqui no centro e ele vem só para ver o que há. Já lhe saiu duas ou três coisas, mas não compra obrigatoriamente. Vem, apalpa, não tem coisas que lhe chamem a atenção e não compra”, explica Marília.

@observador_

Qual raspadinha, lotaria ou casino, a Colis Colis é a mais recente loja do centro comercial UBBO, na Amadora, que vende encomendas (colis, em francês) perdidas, extraviadas ou recusadas ao quilo — sem que se saiba o que vai lá dentro — e que se tornou um fenómeno quase imediato quando abriu portas em dezembro. Como funciona? Sem um tempo limite para explorar o que se vende, o cliente pode apalpar e abanar — com cuidado, não vá o conteúdo ser frágil — qualquer um dos pacotes. A regra é só uma neste jogo: não há batota. A jornalista do observador Carolina Sobral e nosso fotojornalista Diogo Ventura estiveram na loja e trouxeram encomendas para abrir na redação. Podes ler o artigo completo em observador.pt #ColisColis #unboxing #FYP #encomendas #UBBO

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Em cima do balcão, na zona da caixa, há um cesto com pequenas encomendas até acima. Estão ali separadas porque ficavam perdidas por entre as grandes dentro das caixas-palete que decoram a loja e porque, quando fazem compras, há quem goste de arredondar o valor a pagar, e se faltar um bocadinho uma destas leves encomendas salta do cesto diretamente para a balança. Mas, têm outra utilidade, pelo menos para um cliente que marca presença todas as semanas, sem falta. “Chega aqui, pega no cesto, vai ali para a mesa e despeja tudo”, descreve Tomás, afirmando que é sempre esse o método. Depois de passadas a pente fino, escolhe uma ou duas, compra e depois revende. “Já sacou umas coisas de pesca. Mas são sempre coisas mais pequenas”, acrescenta.

▲ A loja recebe em média 500 pessoas por dia

No dia em que fomos, não nos cruzámos com os habituais. Em vez disso, encontrámos clientes que visitavam a loja pela primeira vez, comentando entre eles: “Isto é uma animação”. Por entre abanões e apalpões, havia sempre quem exclamasse convicto de que tinha na mão uma caixa de um iPhone, contrariado por quem lhe dizia que era demasiado pesado para ser um. “Isto é um banco de bicicleta. Toque lá. É daqueles em gel. Isto tens de puxar pela mente”. Na caixa, um casal deixava para trás 47,95€ por 2,84 quilos, enquanto que uma família deixou-se ficar pelos 910 gramas a 23,85€. “Eu fui dar uma volta enquanto o meu marido esteve aqui”, comenta a mulher, rapidamente interrompida pelo entusiasmo do parceiro, que afirmava que dentro dos pacotes levava um relógio e um telemóvel. “Fui com os olhos fechados a imaginar o que podia estar lá dentro. Agora vamos lá ver se imaginei bem”, deixa a dica.

O livro de reclamações

Numa loja onde se compra às cegas, é de esperar que alguns clientes saiam insatisfeitos. Com uma política que não aceita trocas nem devoluções, Marc Colpart deixa claro que “vendem os pacotes e não o que está lá dentro”. Há apenas um caso em que, confessa Marília, estão dispostos a abrir uma exceção: com brinquedos sexuais. A funcionária de 53 anos recorda o dia em que uma cliente veio à Colis Colis e quando abriu o pacote se deparou com um vibrador. “Eu não estava cá, mas acho que lhe deram outra coisa”, comenta.

▲ As encomendas repostas despertam ainda mais a curiosidade dos clientes

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Mas, e no livro de reclamações? Há já quem tenha reclamado pela falta de trocas e devoluções? Por enquanto ainda não. O maior motivo para as pessoas deixarem uma queixa é o tempo que ficam à espera na fila. A chegar às quatro horas no início, houve quem recorresse ao livro vermelho indignado com o tempo que os outros clientes demoravam na loja. “Ficam lá fora a reclamar mas depois quando chegam cá dentro esquecem-se e fazem igual”, afirma Marília, dando ainda nota de que o tempo de espera dentro da loja aumenta quando os funcionários fazem reposição de stock: “Nós não podemos ter o azar de ir lá meter coisas porque as pessoas saltam para lá e prolongam o tempo”.

Para evitar as longas filas, houve quem recorresse a um método — que levou também a queixas no livro de reclamações. “No início, as pessoas que traziam bebés e crianças emprestavam-nas a outras na fila para que pudessem entrar mais cedo”, recorda Marc, acrescentando que “foi uma loucura. Davam o bebé a outra pessoa para que tivesse prioridade“. “Uma vez apareceu aqui um cliente com dois bebés nos braços. Como é que vai pegar nas encomendas?”, questiona Marília. O jogo torna-se mais difícil.

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