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O destaque na capa da edição portuguesa de Uma história do mundo em 47 fronteiras onde se lê “para leitores de Tim Marshall” não poderia ser mais certeiro. Marshall, um jornalista britânico, tal como Jonn Elledge, é autor de quatro livros de sucesso – todos eles editados em Portugal pela Desassossego – sobre a influência dos factores geográficos na história, na política, a demografia, na economia e na cultura, Prisioneiros da geografia, de 2015 (ver Prisioneiros da geografia: Quem dividiu o mundo e porquê?), A era dos muros, de 2018 (ver Sitiados: O que nos leva a querer construir muros em vez de pontes e estradas), O poder da geografia, de 2021, e O futuro da geografia, de 2023.
É também a Desassossego que agora nos traz Uma história do mundo em 47 fronteiras: A história por trás das linhas nos nossos mapas, editado originalmente em 2024 com o título A history of the world in 47 borders: The stories behind the lines on our maps e traduzido por Carlos Pereira Martins, cuja primeira parte destaca o papel que o estabelecimento, a dissolução e a alteração de fronteiras desempenharam na marcha da história, começando no Egipto da Antiguidade Clássica e terminando na Cortina de Ferro.
Na segunda parte do livro, Elledge trata da história das fronteiras que constituem focos de debate, tensão e até conflito aberto no mundo actual. Enquanto as duas primeiras partes consideram a fronteira do ponto de vista geopolítico, a terceira parte ocupa-se de outro tipo de delimitações espaciais, nomeadamente as que envolvem fusos horários, zonas de radiodifusão e espaços aéreos e marítimos.
Pode, pois, afirmar-se com razoável segurança, que quem gostou dos livros de Marshall irá também achar proveitoso o livro de Elledge. Porém, tal não significa que este se limite a seguir as pegadas de Marshall: Elledge faz questão de realçar “quão grande é o papel desempenhado pelo acaso” na história das nações e na definição das suas fronteiras e não dá à geografia a importância capital que Marshall lhe confere: “A geografia é obviamente um grande factor para criar uma nação, mas é igualmente óbvio que não é suficiente” (pg.61).
O tardio despertar do nacionalismo
Algumas das considerações de Elledge sobre fronteiras ganham particular pertinência neste nosso tempo, em que o nacionalismo tem conhecido um rápido recrudescimento, associado quase sempre à ascensão da extrema-direita populista. O nacionalismo funda-se numa noção exacerbada de identidade nacional, estabelece uma separação nítida entre “nós” e “os outros” e, consequentemente, dá grande importância às fronteiras, advogando o reforço e impermeabilização destas, de forma a impedir o afluxo de estrangeiros de diluir e desvirtuar a pura, ancestral e imutável essência da nação, ignorando, convenientemente, o facto de todas as civilizações e nações que existem e existiram no mundo serem fruto de sucessivos e desordenados fluxos de estrangeiros, munidos de culturas e tradições diversas, o que faz com que a “essência da nação” seja uma fantasia colectiva em incessante mutação.
Elledge começa por lembrar-nos que o Estado-nação – uma forma de organizar o mundo de maneira que as fronteiras políticas e etnolinguísticas se alinhem – […] chegou mais tarde do que por vezes imaginamos” e que “até ao início da era moderna, […] a nação era um conceito claramente difuso: as pessoas podiam movimentar-se livremente, desde que não fossem servos ou escravos”, e que “as cidades e os territórios eram constantemente negociados entre famílias nobres através de conquistas, tratados de paz ou alianças matrimoniais” (pg. 15-16). Soma-se a esta indefinição e fluidez o facto de o poder do governante e das instituições da capital se fazer sentir de forma muito atenuada nos seus territórios periféricos, cuja pertença à nação era, muitas vezes, meramente nominal.
Na Europa dos séculos XVI-XVII, o progresso na ciência cartográfica e o desenvolvimento de uma máquina administrativa mais abrangente e centralizada contribuíram para que a representação do continente sob o vago conceito de “Cristandade” desse lugar à ideia de um puzzle de estados soberanos independentes, que terá começado a consolidar-se, segundo alguns autores (de que Elledge diverge), com a Paz de Vestefália (1648), que pôs termo à Guerra dos Trinta Anos. A verdade é que os conceitos de Estado-nação e de identidade nacional se mantiveram incipientes e difusos muito tempo depois da Paz de Vestefália, como se explanou, tomando como exemplo o caso da França da viragem dos séculos XVIII-XIX, no capítulo “Identidade civilizacional e identidade nacional” em Civilização ocidental: Um conceito volátil), e só em meados do século XIX cristalizaram numa forma próxima daquela que hoje se tornou padrão, não só na Europa como no resto do mundo. Esta cristalização foi concomitante com o triunfo da ideia de “que as fronteiras entre [países] são, não apenas claras, como também a única verdadeira forma de dividir o planeta” (pg. 17).
“A lição de geografia” ou “A mancha negra” (1887), por Albert Bettanier: O quadro não representa uma aula de geografia em abstracto, pois a “mancha negra” que o professor aponta no mapa são as províncias francesas da Alsácia e da Lorena, perdidas para a Prússia na Guerra Franco-Prussiana de 1870 – uma perda com que a França nunca se conformou
Uma disputa mal explicada
No capítulo “Espanha e Portugal dividem o mundo”, que tem por tema os tratados estabelecedores de árias de influência firmados entre as potências ibéricas e as bulas papais que os alteraram ou confirmaram, a história do antimeridiano de Tordesillas é tratada de forma extremamente sumária: Elledge limita-se a escrever que, algumas décadas após o papa Júlio II ter ratificado a divisão do mundo entre Portugal e Espanha pelo Tratado de Tordesillas (mediante a bula “Ea quae pro bono pacis”, de 1506), “quando os dois lados se encontravam a lutar um contra o outro naquilo que é a moderna Indonésia, concordaram com mais um tratado, que criava um antimeridiano e também dividia a região do Pacífico entre eles” (pg. 79).
Esta formulação pode levar o leitor a crer que se travou uma guerra entre Portugal e Espanha no que é hoje a Indonésia, mas estes confrontos não passaram do patamar da escaramuça e não envolveram toda a Indonésia, mas umas ilhas minúsculas no seu extremo oriental.
O conceito de antimeridiano estava implícito, desde o princípio, no Tratado de Tordesillas, ainda que, em 1494, quando o documento foi assinado, nem portugueses nem espanhóis fizessem ideia de onde passaria o antimeridiano, já que nunca um europeu se aventurara até tão remota paragem e o conhecimento europeu sobre ela se cingia a lendas e rumores nebulosos. A localização exacta do antimeridiano só se tornou pertinente quando os portugueses, após se terem estabelecido na Índia e estendido as suas redes comerciais e o seu domínio dos mares mais para oriente, localizaram a fonte exclusiva do cravinho e a noz-moscada num pequeno número de ilhas na parte norte do arquipélago das Molucas (Maluku), perto da Nova Guiné, que Portugal se apressou a reclamar como pertencendo à sua metade do mundo.
Mapa das Molucas (Moluccae Insulae Celeberrima) pelo holandês Willem Blaeu, publicado em 1630
Espanha fez o mesmo, mas, como os métodos de determinação de longitude eram, à data, incipientes, não foi possível apurar, à luz do Tratado de Tordesillas, quem tinha direito às Molucas. Cabendo a cada um dos reinos ibéricos metade do planeta, poderá parecer absurda a disputa que então se seguiu entre Portugal e Espanha – acontece que, até à descoberta das minas de prata da Bolívia, o comércio de especiarias era, por larga margem, o elemento mais lucrativo do comércio global inaugurado pela expansão ultramarina ibérica e que, entre as várias especiarias, o cravinho e a noz-moscada eram as mais raras e preciosas. Elledge omite todo este contexto, pelo que o leitor que não possua alguns conhecimentos de história ficará alheado da principal motivação na disputa pela localização do anti-meridiano.
Para colmatar a omissão de Elledge pode dizer-se que a resposta de Carlos I de Espanha à determinação de Portugal em assegurar a exclusividade do comércio de cravinho e a noz-moscada foi o envio da Armada das Molucas, capitaneada por Fernão de Magalhães, para averiguar se o “arquipélago das especiarias” poderia ser alcançado pela rota ocidental, através do Pacífico (que nunca antes fora cruzado por europeus), já que o Tratado de Tordesillas interditava aos navios espanhóis a parte oriental do Atlântico Sul e todo o Índico. A expedição, que partiu em 1519, conseguiu chegar às Molucas, mas já sem Magalhães, morto nas Filipinas; dos cinco navios e 270 homens que tinham partido, só um navio e 18 homens conseguiram regressar a Espanha, em 1522. O retorno foi feito pela rota do Índico, o que teve como consequência – não planeada – ser esta a primeira circum-navegação do planeta, o que torna assaz insólito que Elledge não mencione o feito no livro.
Carlos I de Espanha, que, em simultâneo, era, com o nome de Carlos V, sacro imperador germânico, retratado por Bernard van Orley c.1519, pela altura da constituição da primeira Armada das Molucas
A expedição de Magalhães nada adiantou quanto à resolução da disputa, pelo que, em 1524, as duas potências ibéricas iniciaram negociações, que ficaram conhecidas como Conferência de Badajoz-Elvas, para tentar determinar a localização do antimeridiano de Tordesillas. Os diplomatas, astrónomos e cartógrafos presentes não conseguiram chegar a uma conclusão, o que Carlos I de Espanha aproveitou para enviar novas armadas às Molucas, em 1525 e 1528 (esta a partir do México), que sofreram perdas devastadoras – nem um único navio regressou – e não abalaram o domínio português sobre as Molucas e o seu fabuloso comércio. O impasse acabou por ser desfeito em 1529 pelo Tratado de Zaragoza, que atribuiu as Molucas a Portugal, ao fazer o antimeridiano passar a 297 léguas e meia a oriente do dito arquipélago. Porém, esta decisão decorreu, não de uma conclusão científica, mas de um acordo político, já que a coroa portuguesa teve de pagar à coroa espanhola 350.000 ducados pela posse das Molucas. Se nesta época existissem métodos fiáveis de determinação da longitude, ter-se-ia concluído que as Molucas ficavam, efectivamente, na metade portuguesa do mundo, tal como definida pelo Tratado de Tordesillas.
Detalhe da edição de 1529 do Padrón Real, colocando as Molucas dentro do hemisfério espanhol
Para mais detalhes sobre esta questão, ver Magalhães e a viagem que Portugal tentou impedir, capítulo “O outro lado do mundo” em De Ptolemeu ao Google Earth: Como os mapas reflectem e moldam a percepção do mundo, capítulo “Viagem de Fernão de Magalhães” em Quem anda a falsificar a História de Portugal?, A Armada del Maluco: Uma nova história da volta ao mundo em 1082 dias e Pimenta, canela e noz-moscada: Como os prazeres da mesa moldaram a história pt. 1.
O nascimento da Bélgica
Quando trata a reconfiguração do mapa da Europa que teve lugar em resultado da Revolução Francesa, das Guerras Napoleónicas e do Congresso de Viena (1814-15), Elledge escreve que uma das medidas aplicadas pelas potências vitoriosas para, no futuro, manter a França dentro das suas fronteiras pré-revolucionárias foi a criação de “uma Holanda maior, que duraria apenas quinze anos, até os belgas fazerem a sua própria revolução e se separarem” (pg.109).
Esta visão dos eventos omite o papel decisivo da Grã-Bretanha na independência belga. Acontece que, durante as Guerras Napoleónicas, a Grã-Bretanha se apoderara de duas colónias holandesas, a ilha de Ceilão (o actual Sri Lanka) e a Colónia do Cabo (que viria a dar origem à África do Sul), e, consciente do valor económico e estratégico destes territórios, se recusara a devolvê-los à Holanda, o que levou o Congresso a compensar esta entregando-lhe os (maioritariamente francófonos) Países Baixos Austríacos – correspondendo, aproximadamente, à moderna Bélgica. Porém, esta solução reforçou consideravelmente o poderio e influência da Holanda, que, durante os séculos XVII e XVIII fora a grande rival marítima e comercial da Grã-Bretanha, o que levara inclusive a que travassem quatro guerras – em 1652-54, 1665-67, 1672-74 e 1780-84. Assim, a Grã-Bretanha apoiou a causa da independência belga com o intuito de evitar que os belgas pudessem reforçar quer a Holanda quer a França. A “inactivação” da Bélgica foi formalizada pelo Tratado de Londres (1839), em que o novel país se comprometeu a assumir estatuto neutral, que seria garantido pelas grandes potências europeias da época (Grã-Bretanha, França, Áustria, Prússia e Rússia).
“Retirada da cavalaria holandesa em Vlaamsesteenweg, em 1830”, por Joseph van Severdonck (c.1830-39)
Uma prova cabal do fracasso do comunismo
Hoje em dia, a extrema-esquerda dos países ocidentais costuma ser favorável a políticas migratórias permissivas, mas há que reconhecer que, nos séculos XX-XXI os regimes comunistas não só foram os que mais se afadigaram a erguer muros, como conseguiram que estes alcançassem um grau de impermeabilidade inédito na longa história das fronteiras muradas. No capítulo “A Cortina de Ferro e a divisão de Berlim”, Elledge sublinha que “pelo menos 12 milhões de alemães [orientais] haviam desertado para [para Ocidente] via Berlim Ocidental nos 12 anos anteriores” à construção do Muro de Berlim, em 1961, mas que “apenas 5000 conseguiram atravessar o Muro de Berlim nos 28 anos seguintes. Milhares de outros foram apanhados na tentativa; quase 200 não viveram para contar a história” (pg. 163).
Controlo fronteiriço na Porta de Brandenburg, Berlim, 13 de Agosto de 1961, o dia em que, oficialmente, foi iniciada a construção do Muro de Berlim
Elledge dedica um capítulo à Zona Desmilitarizada (ZDM) de 238 km que, desde 1953, separa as Coreias do Norte e do Sul, mas nada diz sobre a sua eficácia de retenção – esta é superior ao do Muro de Berlim, uma vez que, desde 1996, apenas uma vintena de norte-coreanos conseguiu fugir através da ZDM, enquanto, no mesmo período, c.34.000 lograram fazê-lo através da fronteira com a China ou por outros meios.
Mais invulgar do que o grau de impermeabilidade atingido pelos muros comunistas é o propósito destes: “Muitas civilizações construíram muros à sua volta para manter o inimigo fora, ou à volta de outros [inimigos] para os manter dentro [dos muros]. O que era único no Muro de Berlim […] era que não fazia nenhuma destas coisas. O mundo que os [governantes da Alemanha de Leste] e os seus patrocinadores soviéticos enclausuraram, o povo que eles aprisionaram, era o seu” (pg.163-64). A formulação de Elledge não prima pelo rigor e pela clareza, mas tem o mérito de destacar um aspecto comum a boa parte dos regimes de extrema-esquerda: a necessidade premente de impedir os seus cidadãos de escapar do “paraíso socialista”. Longe de ser “único”, o Muro de Berlim não era mais do que o trecho mais famoso da Cortina de Ferro, que se estendia, por cerca de 6800 km, do Mar de Barents ao Báltico e do Báltico ao Mar Negro, e, por sua vez, esta não era mais do que a componente mais imediatamente palpável das políticas de restrição da movimentação dos cidadãos que vigoraram em toda a Europa do Pacto de Varsóvia e na URSS. E pode acrescentar-se que, nos nossos dias, tais políticas ainda vigoram na Coreia do Norte e que o regime cubano continua a punir os cidadãos que tentam “sair ilegalmente” do país.
A linha que separa as duas Coreias, numa foto tirada da Estação Espacial Internacional a 24.01.2024. A linha luminosa que atravessa a Península da Coreia é a Zona Desmilitarizada; o diferente nível de prosperidade entre as duas Coreias é patente na intensidade da iluminação nocturna
O que é de uma amarga ironia é que o comunismo começou por proclamar-se internacionalista e o programa do Partido Bolchevique russo propunha a abolição dos passaportes. Porém, quando conquistaram o poder, o que os bolcheviques fizeram foi tornar os passaportes dos soviéticos praticamente inúteis, já que o direito destes a sair do país foi drasticamente cerceado: no início da década de 1920, a emigração legal tornara-se quase impossível e os Código Penais de 1928 e 1934 foram ainda mais longe, ao estabelecerem que a saída não-autorizada da URSS era uma das acções consideradas como traição ao Estado, crime cuja punição mínima eram dez anos de prisão.
É usual apontar-se a queda do Muro de Berlim como sendo o símbolo do fracasso do comunismo, mas o verdadeiro comprovativo do seu fiasco foi a construção do Muro de Berlim – ou, melhor, o início da construção da Cortina de Ferro, uma década antes do Muro de Berlim. Reciprocamente, os muros – físicos ou legislativos – que os regimes democráticos assentes na economia de mercado (que a extrema-esquerda designa, desdenhosamente, por “democracias burguesas”) têm vindo a erguer nos últimos anos, a fim de limitar significativamente a entrada de migrantes provenientes do chamado “Sul Global” em busca de melhores condições de vida, podem ser vistos como um comprovativo do sucesso destes regimes.
“O campo de batalha definidor do século XXI”
No capítulo “A Linha dos Nove Traços da China e os seus descontentes”, que trata das pretensões territoriais da China no Mar do Sul da China, plasmadas na Linha dos Nove Traços, Elledge sublinha o carácter exorbitante destas pretensões, mas não menciona um facto histórico que lhes rouba sustentação: até há poucas décadas, a China viu-se a si mesma como uma potência essencialmente terrestre e raramente mostrou interesse por reclamar como chineses territórios que não ficassem perto do litoral do continente.
Mesmo quando a China deteve uma esmagadora superioridade naval sobre qualquer nação do mundo – ou seja, nas quatro primeiras décadas do século XV, quando o imperador Yongle, da dinastia Ming, ordenou a construção da intimidante “frota do tesouro” e esta empreendeu, sob o comando de Zheng He, sete longas viagens pelo Mar do Sul da China e pelo Oceano Índico – não fez uso desse formidável poderio para tomar posse de outros territórios, limitando-se a angariar novos Estados para o seu “sistema tributário”, o que implicava o reconhecimento da superioridade civilizacional e da centralidade geopolítica da China, o pagamento de tributo e o estabelecimento de relações comerciais nos padrões definidos pela China.
O Império Chinês na dinastia Ming (c.1415): a amarelo, território da China; a outras cores, Estados integrados no “sistema tributário” chinês
Não há prova mais cabal do desdém da China pela conquista de territórios ultramarinos do que o facto de a ilha de Taiwan, situada a 180 km do continente e povoado por povos austronésios, não ter presença chinesa oficial quando os portugueses lá chegaram em 1542 e de apenas em 1661 um general chinês – Zheng Chenggong, também conhecido como Koxinga – ter reclamado a ilha, expulsando os holandeses que, entretanto, lá se tinham instalado e fundando o pequeno reino de Tungning (que duraria até 1683). Porém, o interesse dos sucessivos governos chineses em Taiwan manteve-se limitado durante os anos seguintes, de forma que Taiwan só ganhou uma verdadeira administração e registou desenvolvimento significativo quando, em 1895, se tornou numa colónia japonesa (ver Formosa mas não segura: Taiwan, uma ilha no limbo). É um historial que contradiz as veementes proclamações dos recentes governos da República Popular da China, que alegam que Taiwan sempre foi uma parte inalienável da China e a ela há-de regressar brevemente, a bem ou a mal.
Se Taiwan, com 23 milhões de habitantes, um PIB per capita equivalente a 2.5 vezes o da China continental e a mais avançada indústria de microchips do mundo, é um naco apetecível, são mais bizarras as reclamações tonitruantes que Pequim tem feito sobre ilhotas inabitadas, bancos de areia e recifes (alguns deles submersos!) espalhados pelo Mar do Sul da China e situados a centenas ou até milhares de quilómetros da costa chinesa – o mais meridional dos “territórios reclamados”, o banco submerso Zheng-mu Asha (também conhecido) como James Shoal, situa-se a 83 km da costa malaia da ilha de Bornéu e a 2000 km da China (ver capítulo “O futuro próximo” em Do Celeste Império ao “imperador” Xi: Uma história da China). Nenhum destes minúsculos “territórios” tem valor em si mesmo – o fito da Linha dos Nove Traços é arrogar-se soberania sobre quase todo o Mar do Sul da China, ainda que colidindo com as mais elementares regras da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.
Reivindicações territoriais da República Popular da China no Mar do Sul da China. Os traços da Linha dos Nove Traços estão assinalados a rosa e existe um décimo traço que engloba Taiwan
Uma das motivações da China para estas reivindicações é o desejo de se converter numa superpotência marítima, talvez pela lição amarga aprendida no século XIX e início do século XX, quando a sua condição de superpotência terrestre declinante pouco pôde fazer perante a ganância e prepotência de potências marítimas como a Grã-Bretanha, a França ou o Japão. Tendo ainda bem presente estas experiências humilhantes, China do século XXI tem vindo a fazer um robusto investimento na sua marinha de guerra, que, em 2024 se tornou na maior do mundo, se o critério for o número de navios – ainda que a marinha de guerra dos EUA continue a ser o n.º 1 pelo critério tonelagem e, sobretudo, pelos critérios capacidade de projecção de força, poder de fogo e sofisticação tecnológica.
Outra motivação para a pressão chinesa para impor a Linha dos Nove Traços é adiantada por Elledge: “A Agência de Informação Energética dos EUA estimou que o Mar do Sul da China continha até 33.000 milhões de barris de petróleo e 14 biliões de barris [sic] de gás natural” (11.000 milhões de barris e 5.4 biliões de metros cúbicos de gás, segundo outras fontes).
A Europa tende a ver os conflitos (em curso ou potenciais) no Leste da Europa e no Próximo Oriente como as maiores ameaças à estabilidade mundial, mas o especialista em relações internacionais e geopolítica Robert Kaplan entende que o Mar do Sul da China é o “campo de batalha definidor do século XXI” – alerta que lançou, em 2011, num “artigo muito discutido para o Foreign Policy com o título ‘O Mar do Sul da China é o futuro do conflito’” (pg. 193).
Sobreposição das reclamações territoriais no Mar do Sul da China, pela parte das duas Chinas (a vermelho), do Vietnam (a azul), da Malásia (a amarelo), das Filipinas (a violeta) e do Brunei (a verde)
O bizarro caso das fronteiras elásticas
A criação do Estado de Israel, no pós-II Guerra Mundial, num território onde estava instalado, há muitos séculos, outro povo deu origem a um inextricável e sangrento imbróglio, que nos últimos dois anos tem dominado a actualidade internacional, não poderia deixar de ser tratado num livro desta natureza. Elledge consagra-lhe o capítulo “As fronteiras incertas entre Israel e a Palestina”, mas, compreensivelmente, evita tomar partido ou fazer declarações assertivas sobre o assunto. Se as fronteiras físicas do moderno Estado de Israel – ou até a própria existência deste – têm vindo a ser energicamente contestadas, com palavras ou armas, desde a sua fundação, em 1948, as suas fronteiras imateriais também se prestam a disputas.
Nos últimos anos, a actuação do Estado de Israel em relação ao povo palestino tem suscitado apelos à exclusão do país do Festival da Canção da Eurovisão (FCE) e ameaças de boicote, pela parte de alguns países, no caso de Israel não ser excluída. Tais reacções atribuem uma importância descabida a um suposto concurso de talentos musicais que mais não é uma bambochata camp, colorida, espalhafatosa e frívola, particularmente apreciada pela comunidade gay, e, ao mesmo tempo, ressumam a hipocrisia, já que os países que ameaçam boicotar o festival têm ao seu dispor “armas” diplomáticas e económicas bem mais eficazes (e dignas) para punir Israel, mas não fazem uso delas. Os zeladores da correcção geográfica entendem que o que é questionável é que Israel tenha participado regularmente no FCE desde 1973 (aliás, com apreciável sucesso, dado que o venceu por quatro vezes, em 1978, 1979, 1998 e 2018), uma vez que o país se situa, inequivocamente, no Próximo Oriente. Porém, Elledge observa, no capítulo “A outra Europa maior e mais musical”, que o que determina a possibilidade de participar no FCE é a pertença à Área Europeia de Radiodifusão e esta inclui, não só o território a que se convencionou chamar Europa, como a Ásia Menor, o Cáucaso, o Próximo Oriente e a orla mediterrânica do Norte de África.
Área Europeia de Radiodifusão
A Área Europeia de Radiodifusão inclui na íntegra a Turquia, a Arménia, o Azerbaijão, a Geórgia, o Líbano, a Síria e a Tunísia e parte do território de Marrocos, Argélia, Líbia, Egipto, Jordânia, Iraque, Arábia Saudita e Rússia e se alguns destes países nunca participaram no FCE (ou apenas o fizeram esporadicamente) foi por falta de interesse ou, no caso de países com governos hostis à comunidade LGBT, por não quererem promover um evento conotado com esta comunidade.
Elledge não o menciona, mas as fronteiras imateriais da Europa também sofrem deformações difíceis de justificar no domínio do futebol, já que a UEFA, embora exclua a orla sul do Mar Mediterrâneo e o Próximo Oriente – com excepção de Israel – também abarca o Cáucaso e, o que é mais extraordinário, estende-se até ao Cazaquistão, ainda que esta país pertença indubitavelmente à Ásia Central: a Oriente, faz fronteira com a China, o seu extremo ocidental fica a c.2300 km a leste de Kyiv, em linha recta, e a sua capital, Astana, fica a 6200 km a leste de Lisboa, 1800 km a norte de Kabul e 480 km a sul de Omsk, na Sibéria.
O Cazaquistão no mundo
O mundo do futebol tem uma leitura livre das fronteiras: fracciona o Reino Unido em quatro entidades – Inglaterra, Escócia, Gales e Irlanda do Norte – e reconhece as selecções “nacionais” de micro-estados como Andorra, San Marino, Lichtenstein e de possessões ultramarinas como Gibraltar, a Guiana Francesa, as ilhas Faroe e as Ilhas Falkland. A FIFA foi particularmente generosa com a região do Caribe, onde existem selecções “nacionais” de futebol em Anguilla, Montserrat, Turcas e Caicos (Turks and Caicos), Curaçao, Aruba & Bonaire e nas Ilhas Virgens Britânicas. As ilhas do Pacífico também são um viveiro de selecções nacionais de futebol, umas correspondentes a micro-Estados independentes (como é o caso das Ilhas Cook, Fiji, Marshall, Samoa, Salomão, Tonga, Vanuatu e os Estados Federados da Micronésia) e outros a possessões ultramarinas (como Guam, Samoa Americana, Nova Caledónia e Taiti).
É difícil encontrar argumentos racionais para justificar que entre as 210 selecções actualmente reconhecidas pela FIFA existam 24 territórios desprovidos de soberania, bem como várias dezenas de micro-Estados com uma população tão exígua que dificilmente será capaz de gerar uma equipa com nível para competir na Liga 3 portuguesa, mas esta opção torna-se compreensível quando se considera que as federações de futebol destes pseudo-países (e também as dos micro-países) são propensas a recompensar a “generosidade” dos dirigentes da FIFA votando a favor das propostas destes –e o seu voto pesa tanto quanto o da federação brasileira ou alemã.
A selecção “nacional” de futebol das Ilhas Turcas e Caicos em 2004. Em 2025, a selecção ocupa o 206.º lugar no ranking da FIFA
Volta ao mundo com um engraçadinho no banco do lado
Basta folhear Uma história do mundo em 47 fronteiras para perceber que enferma de duas falhas. Uma é a escassez de mapas: o autor providencia 23, mas cada um dos 47 capítulos necessitaria de pelo menos um, com alguns a requererem dois ou três, para mostrar detalhes ou evolução no tempo. Este livro é um dos casos em que o duvidoso ditado “uma imagem vale mil palavras” se torna válido. Nalguns casos, é mesmo ridículo que Elledge gaste parágrafos inteiros a descrever linhas de fronteira que o leitor não pode ver e que, seguramente, não fazem parte do seu arquivo de imagens mentais.
A outra falha que é detectável antes mesmo de iniciar a leitura é a supressão, na edição portuguesa, da dezena de páginas do índice remissivo que faz parte da edição original e que é particularmente útil numa obra por onde desfilam centenas de lugares e de figuras históricas.
Mas o maior obstáculo à fruição de Uma história do mundo em 47 fronteiras seja a propensão de Elledge para o “engraçadismo”. O humor na escrita, de ficção ou de não-ficção, é bem-vindo, desde que seja inventivo, pertinente e realmente divertido. Os “apartes” de Elledge não têm nenhum destes predicados e o seu tom jocoso e coloquial, ainda que possa ser adequado a uma palestra perante uma plateia de adolescentes, não funciona num livro para adultos. Quando menciona a bula “Dudum siquidem” (1493), promulgada pelo papa Alexandre VI, acrescenta: “nomes caricatos, o destas bulas papais”. Quando descreve a unificação da Coreia por Wang Kon (o fundador da dinastia Goryeo), observa que este “tinha um nome divertido”. A ideia de que todas as línguas que não a nossa língua materna são caricatas, incompreensíveis e impronunciáveis revela uma mundividência provinciana, tacanha, chauvinista e, em última análise, xenófoba – o que está nos antípodas da atitude que deve nortear um livro sobre a fascinante variedade do mundo.
Noutras ocasiões, Elledge comporta-se simplesmente como um tagarela incontinente, animado pela presunção de ser irresistivelmente divertido. A fim de dar ideia de quão fria é a Antártida, escreve que, no Inverno, “a temperatura média no Polo Sul desce para os –49ºC. Isto é, literalmente, inimaginavelmente frio. Não faço ideia de como é essa sensação. Espero nunca descobrir”. Quando relata a competição de mastros de bandeiras na fronteira entre as Coreias do Norte e do Sul, escreve que o maior mastro norte-coreano, com 160 metros de altura, “é certamente maior do que qualquer coisa que a Coreia do Sul tem para oferecer […], por isso, toma, toma, toma, perdeste”. O que corre o risco de se perder, graças a este pulular de infantilidades, é a paciência do leitor.