Mais de 15 mil horas de trabalho a cada dia, a uma média de 43 euros por hora, e mais de 660 mil euros de despesa diária. Este é o balanço, em números, do peso dos médicos tarefeiros nos hospitais do SNS. Em muitas unidades, principalmente nas regiões do sul e do interior, os prestadores de serviço representam mais de metade dos médicos das urgências hospitalares (nalguns casos cerca de 60% e mesmo 100%), o que torna estes profissionais indispensáveis ao funcionamento de muitos serviços de urgências. Na semana em que teve lugar a reunião decisiva entre a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, e a associação que representa os médicos tarefeiros (que ameaçaram paralisar as urgências hospitalares), o Observador faz o raio-x da dependência do SNS dos médicos tarefeiros.
Segundo dados da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), enviados ao Observador, os hospitais e IPO do SNS gastaram cerca de 181,8 milhões de euros com médicos prestadores de serviços entre janeiro e setembro de 2025. Ou seja, por dia, os hospitais públicos gastam cerca de 666 mil euros/dia com estes profissionais. Ao todo, os médicos prestadores de serviços fizeram cerca de 4,2 milhões de horas nos hospitais.
A Unidade Local de Saúde do Algarve — que se debate há anos com uma carência crónica de profissionais — é aquela que mais verbas gasta em tarefeiros. Só nos primeiros nove meses do ano, foram 16,1 milhões de euros, a uma média de cerca de 59 mil euros por dia. Neste período, só nesta ULS (que integra os hospitais de Faro, Portimão e Lagos) os prestadores de serviço realizaram cerca de 353 mil horas de trabalho.
Em segundo lugar, surge a ULS do Médio Tejo (que abarca os hospitais de Tomar, Abrantes e Torres Novas), com uma despesa de cerca de 9,9 milhões de euros. Aqui, os tarefeiros realizaram cerca de 258 mil horas entre janeiro e setembro. De seguida, a ULS do Oeste (que integra os hospitais das Caldas da Rainha, Torres Vedras e Peniche), com 9,3 milhões de euros e um registo de 221 mil horas realizadas.
Hospitais admitem dificuldade em contratar e em fixar profissionais
No caso da ULS do Oeste, cerca de 60% das horas dos vários serviços de urgências são asseguradas por tarefeiros, uma realidade que esta ULS justifica com a falta de médicos nos quadros. “Cerca de 60% das horas de trabalho necessárias aos serviços de urgência da ULS do Oeste são asseguradas por prestadores de serviço, dada a exiguidade do número de trabalhadores médicos do mapa de pessoal e a dispersão de respostas”, diz o gabinete de imprensa, lembrando que os médicos asseguram o funcionamento de “duas Urgências Médico Cirúrgicas, uma Urgência Básica, duas Urgências Pediátricas e uma Urgência Obstétrica”.
Esta ULS admite que, dada a “dificuldade em contratar novos trabalhadores médicos”, o recurso a prestadores de serviço tem sido a “solução encontrada”, principalmente nas urgências gerais, básicas, pediátricas e de obstetrícia, e “especialmente nas especialidades de Medicina Interna, Anestesia, Pediatria, Ginecologia/Obstetrícia e médicos não diferenciados”.
No caso do Médio Tejo, a ULS reconhece a elevada dependência de médicos tarefeiros, tidos como essenciais para garantir as escalas das urgências e a prestação de cuidados. “O recurso a prestadores permanece necessário para assegurar escalas completas e garantir o acesso da população aos cuidados”, sublinha a ULS, lembrando as dificuldades criadas pela “dispersão geográfica” dos serviços de urgência — que são atualmente cinco. Neste momento, esta ULS conta com cerca de 100 prestadores no quadro (o que compara com os 358 médicos do quadro), sendo que estes profissionais trabalham essencialmente nos serviços de urgência, nos quais representam a maioria da força de trabalho. A ULS garante estar a investir na melhoria das instalações e adianta que criou uma equipa dedicada à urgência, para estabilizar os serviços.
▲ A ULS do Algarve, liderada por Tiago Botelho, é, por larga margem, a que mais gasta em tarefeiros
DAVID PEREIRA/OBSERVADOR
Quanto ao Algarve, a ULS admite um elevado recurso à prestação de serviços, não só nas urgências (Geral, de pediatria e de ginecologia/obstetrícia) mas também em especialidades como ortopedia ou anestesiologia. O Conselho de Administração, liderado por Tiago Botelho, reconhece que a fixação de médicos nos quadros é difícil, tendo em conta também a proliferação de hospitais privados na região. “Com a abertura de vários hospitais privados na região, alguns profissionais desvincularam-se do SNS“, diz a ULS, ressalvando que, ainda assim, “tem proativamente procurado recrutar e fixar no seu quadro mais médicos com a abertura de concursos para várias áreas”.
No topo das ULS que mais despesa têm com médicos tarefeiros surgem, em 4º e 5º lugares, as ULS do Alto Alentejo e da Arrábida. No primeiro caso, a ULS (que abarca o hospital de Portalegre e Elvas) pagou a estes profissionais, nos três primeiros trimestres de 2025, cerca de 8,8 milhões de euros, por 153 mil horas de trabalho. Já a ULS da Arrábida, com sede no Hospital de São Bernardo (em Setúbal), teve uma despesa de 8,2 milhões de euros, por 205 mil horas.
Média do valor/hora está nos 43 euros. Mas há hospitais a pagar mais de 60 euros/hora
Apesar de ter um menor número de horas realizadas por tarefeiros, a ULS do Alto Alentejo teve um nível de despesa superior à ULS da Arrábida. Os dados enviados pela ACSS mostram que há uma grande discrepância entre os valores/hora pagos por cada uma das ULS e revelam que é precisamente nos hospitais com maior carência de médicos que o preço a pagar pelos tarefeiros é mais elevado. Com exceção da ULS de Gaia (que paga 63 euros/hora aos tarefeiros, embora tenha um baixo nível de recurso a prestadores), as restantes ULS que surgem no topo da tabela são todos no interior do país ou em zonas com elevada carência de clínicos.
Em segundo lugar, surge a ULS do Nordeste (com sede em Bragança), com uma média de 62 euros/hora, seguida da ULS do Estuário do Tejo (com sede em Vila Franca de Xira), com 61 euros/hora. A fechar o top 5, seguem-se as ULS do Tâmega e Sousa (com sede em Penafiel) e a ULS de Trás os Montes e Alto Douro (com sede em Vila Real), com 54 euros/hora. Em sentido contrário, as unidades que menos pagam são a de Santa Maria, em Lisboa, com apenas 12 euros/hora em média e a ULS do Alto Minho (com sede em Viana do Castelo) com 23 euros/hora.
A média do valor/hora das 39 ULS e dos 3 IPO do país (que ronda os 43 euros) é superior àquele que deveria ser, em condições normal, o máximo a pagar a um médico tarefeiro — 34 euros, o valor/hora que o SNS paga a um assistente graduado sénior, o grau mais alto da carreira. No entanto, nos últimos anos, nomeadamente antes do verão e das épocas festivas de final de ano, o Ministério da Saúde tem autorizado o aumento do valor/hora a pagar, de forma a garantir o preenchimento das escalas dos serviços de urgência. Em 2025, o aumento permitido chegou aos 50%, o que fez com que, durante alguns meses, o teto tivesse sido fixado nos 51 euros/hora. No entanto, em situações excecionais, as ULS podem ultrapassar os limites definidos, o que faz com que, em alguns casos, alguns hospitais cheguem a pagar valores próximos dos 100 euros/hora a estes médicos.
Para além do decreto-lei que pretende regulamentar e restringir o acesso dos médicos à prestação de serviços no SNS, o Ministério da Saúde está também a preparar uma portaria que regulamenta esse mesmo decreto-lei e que vai definir os valores/hora a pagar aos prestadores de serviço. Numa lógica de tornar menos atrativo o trabalho à tarefa (e tentar aliciar os médicos a vincularem-se aos hospitais, integrando os quadros), a tutela prepara-se para reduzir o teto dos valores/hora a pagar — uma decisão que não agrada aos tarefeiros.
À saída da reunião na quinta-feira no Ministério da Saúde, o presidente da recém-criada Associação dos Médicos Prestadores de Serviços (AMPS), Nuno Figueiredo e Sousa, referiu que a tutela ainda se encontra a trabalhar no decreto-lei e que os pontos principais dos diplomas não foram relevados pela equipa ministerial. “Continuamos sem saber [os pontos do decreto-lei]. Deram-nos uma visão geral sobre o decreto-lei em que falámos sobre as nossas preocupações mas em concreto ninguém sabe o que está no decreto-lei”, disse o responsável, que trabalha como prestador de serviços no Hospital de Santo António, no Porto, e em duas clínicas privadas. “Agora vamos trabalhar no terreno. Isto foi discutido na generalidade, mas agora temos de passar à especialidade e perceber ponto por ponto quais são as formas de levar isto a bom porto”, afirmou, adiantando que estão previstas mais reuniões entre a associação que lidera e a tutela.
Quanto ao valor/hora, o médico referiu que o tema não foi abordado e comparou o valor pago a um médico ao de um picheleiro. “Em relação ao valor/hora, não foi abordado diretamente. Acreditamos quem, em cada ULS, possa ser negociado com os contratos de prestação de serviços […] Com todo o respeito por todas as profissões, permitam-me que vos cite o exemplo de um picheleiro da Soraia, que, em 40 minutos, ganhou 75 euros. Que nos permitam, pelo menos, ganhar metade desse valor“, sublinhou Nuno Figueiredo e Sousa, mostrando-se contra a diminuição do valor/hora. Questionado sobre os pontos de que os médicos tarefeiros não abdicam, o responsável apontou a “qualidade de serviço [de saúde prestado] aos portugueses”.
Dificuldades de tesouraria impedem hospital de Castelo Branco de pagar a médicos tarefeiros
À saída da reunião com a ministra Ana Paula Martins, que classificou como “extremamente cordial e afável”, Nuno Figueiredo e Sousa adiantou que a associação de médicos tarefeiros prevê entregar à tutela até ao final do ano as suas propostas para regulamentar a prestação de serviços nos hospitais públicos e manifestou também solidariedade com os médicos da Unidade Local de Saúde de Castelo Branco, que avisou os médicos tarefeiros de que não irá pagar este mês na íntegra, alegadamente devido a um problema de tesouraria.
Urgência geral do Hospital de Setúbal depende a 100% de tarefeiros
A excessiva dependência de muitos serviços de urgência dos médicos tarefeiros não é uma realidade nova mas tem-se vindo a agravar nos últimos anos. Segundo o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, “praticamente todas as urgências têm prestadores de serviço e em várias urgências os tarefeiros representam 50, 60 e até 70% dos médicos”.
No caso da ULS da Arrábida, a quinta no ranking de gastos, a dependência de prestadores de serviços nos balcões da urgência geral (que atendem os doentes menos graves) é total, ou seja, de 100%, confirma ao Observador a própria ULS — embora nas restantes valências da urgência (como na medicina interna, cirurgia e ortopedia, a maioria dos médicos pertençam aos quadros). Na urgência de ginecologia/obstetrícia (uma área crítica na Península de Setúbal), 60% da carga horária é assegurada por tarefeiros. Na urgência pediátrica, a dependência é de 55%.
A ULS da Arrábida salienta que a proximidade à cidade de Lisboa tem dificultado o recrutamento de profissionais e lembra que o envelhecido quadro de médicos afetos ao hospital também é um fator que cria dificuldades no funcionamento das urgências. “O envelhecimento do grupo profissional médico leva a que, por motivos de idade, os médicos solicitem a dispensa de realização de trabalho noturno quando completam 50 anos de idade e a dispensa total de serviço de urgência quando perfazem 55 anos”, vinca a ULS, acrescentando que “à grande área de Lisboa constitui uma dificuldade para captar profissionais”.
O Conselho de Administração diz que tem “desenvolvido todos os esforços para tentar reforçar o mapa de pessoal médico da Instituição” mas adianta que “a oferta disponível no mercado apresenta-se, na sua grande maioria, para um colaboração em regime de prestação de serviços”. Para além disso, os concursos abertos para a contratação de médicos têm ficado, em grande parte, por preencher. “Nas especialidades onde existem mais carências tem sido difícil contratar profissionais por falta de opositores aos procedimentos concursais”.
No topo das ULS que mais gastam com prestadores estão também as ULS do Nordeste e Amadora-Sintra, com 8,1 e 7 milhões de euros, respetivamente. A ULS do Nordeste não respondeu em tempo útil às questões enviadas pelo Observador. Já a ULS Amadora-Sintra refere que os tarefeiros representam 57% da carga horária das urgências. No final de outubro, a ULS contava com 78 tarefeiros nas várias urgências. Apesar de o número de médicos nos quadros até ter aumentado nos últimos três anos, a ULS justifica o aumento do recurso à prestação de serviços médicos com “o aumento da procura da urgência”.
Do lado oposto da tabela de gastos, surgem as ULS universitárias, que têm muito menor dificuldade em contratar médicos para os quadros, seja por se localizarem nas grandes cidades seja pelo nível de diferenciação de serviços que conseguem oferecer. Assim, a ULS que menos verba gastou até ao final do terceiro trimestre de 2025 foi a ULS de Santa Maria, com apenas cerca de 590 mil euros. No penúltimo lugar, figura a ULS de Coimbra, com 770 mil euros, e, em antepenúltimo, a ULS de Santo António, no Porto, com quase 990 mil euros.
Os gastos do SNS com médicos prestadores de serviços (mais conhecidos por tarefeiros) têm batido sucessivos recordes nos últimos anos. A despesa voltou a aumentar, no ano passado, e ultrapassou, pela primeira vez, a barreira dos 200 milhões de euros — ascendeu aos 213,3 milhões de euros, segundo dados da ACSS. Em 2025, a despesa apurada até setembro, de 181,8 milhões de euros, representa um aumento de cerca de 14% em relação ao ano passado. Entre 2019 e 2024, a despesa subiu praticamente 80%, passando de cerca de 119 para 213 milhões de euros.
O número de horas realizadas por estes profissionais também aumentou entre 2019 e 2024, mas de forma bem menos acentuada, tendo passado de cerca de 4,1 para cerca de 5,2 milhões de horas, um aumento de 26%.