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Olhar para trás pode ajudar-nos a caminhar para a frente? O filósofo social Roman Krznaric pensa que sim e parte do princípio de que, nalgum momento da história da humanidade e nalgum lugar do planeta, já alguma sociedade enfrentou desafios análogos aos que hoje se colocam à humanidade e desenvolveu estratégias para lhes fazer frente. Embora muito tenha mudado desde o tempo em que essas estratégias foram postas em prática, Krznaric entende que há sempre algo a aprender com elas, e foi com o intuito de as analisar e divulgar que escreveu History for tomorrow: Inspiration from the past for the future of humanity (2024), que chegou a Portugal poucos meses depois da edição original, com o título História para amanhã: Inspiração do passado para o futuro da humanidade e tradução de Miguel Martins, pela mão das Edições 70.
O livro procura “perspectivas em exemplos positivos daquilo que correu bem, mas também em histórias que nos advertem quanto ao que correu mal”, e aplica-as a dez questões relacionadas com “ameaças ecológicas, sociopolíticas e tecnológicas fundamentais para a sobrevivência e o florescimento das sociedades humanas”. Como “antídoto contra a tirania do agora”, Krznaric propõe-se estimular “o poder de pensar historicamente”.
Nota: Este é o primeiro de três artigos sobre História para amanhã.
A capa da edição portuguesa de “História Para Amanhã”, de Roman Krznaric (Edições 70)
O radicalismo promove o progresso civilizacional?
No capítulo 1, “Romper com o vício dos combustíveis fósseis”, Krznaric preconiza que, a fim de atingir este desiderato, se ponham os olhos nos movimentos rebeldes do passado e no “poder da desobediência”. Krznaric postula que a existência de uma “ala radical” num movimento ou organização que pugna por determinadas causas é eficaz na promoção destas, por as suas posições mais extremadas fazerem com que, aos olhos do poder, as proclamações e reivindicações do “mainstream” desse movimento ou organização até pareçam aceitáveis ou razoáveis. No limite, argumenta, o poder é levado a pensar que, “se não ceder às exigências dos moderados, os radicais se limitarão a tornar-se mais fortes e a situação poderá ficar fora de controlo” (pg. 32). Assim sendo, no entender de Krznaric, “a ala radical é uma das chaves para o desbloqueio da vontade política”.
Krznaric passa então ao elogio das posições radicais de Malcolm X e dos Black Panthers como campeões da justiça racial, por contraste com a posição moderada de Martin Luther King, que pregava “a excelente via do amor e das manifestações não-violentas”, dá exemplos análogos nas lutas pela abolição da escravatura e pela emancipação das mulheres e pergunta se “deverá o actual movimento pelo clima tirar mais partido do poder da ala radical?”.
Martin Luther King Jr. (à esquerda) e Malcolm X (à direita): uma atitude moderada e uma atitude radical na luta pelos direitos dos afroamericanos. A foto foi tirada na única ocasião em que os dois líderes se encontraram, a 26.03.1964, no Senado dos EUA, durante uma sessão em que foi debatido o Civil Rights Act de 1964
A resposta de Krznaric é afirmativa não só no domínio teórico como no prático, uma vez que descreve, com orgulho, a sua participação em protestos do Extinction Rebellion (XR), grupo ambientalista radical similar no credo, no discurso e no modo de actuação ao Just Stop Oil e aos “nossos” Climáximo, Fim ao Fóssil e Greve Climática Estudantil (ver capítulo “Altercações climáticas” em COP28: Estamos mais perto de uma mudança ou “abriram-se as portas do inferno”?).
Krznaric atribui alguma rejeição que possa existir na sociedade à actuação destes grupos ao facto de os “meios de comunicação convencionais” serem “exímios a demonizar as organizações mais radicais que lutam contra as alterações climáticas”. Esta última acusação poderá aplicar-se a alguns órgãos da comunicação social e, em particular aos mass media conservadores britânicos, mas não a toda ela. Em Portugal pode até afirmar-se o contrário: os jornalistas dos media de referência tendem a manifestar simpatia por este tipo de activismo, a retratar os seus protagonistas como heróis indómitos e de crenças nobres e firmes e a julgar com benevolência as suas arruaças. A expressão “David contra Golias” assoma frequentemente nos textos na imprensa portuguesa para descrever a luta dos jovens ambientalistas, mas o paralelismo bíblico não costuma ser aprofundado e a imagem dos activistas que é projectada fica mais próxima de Che Guevara (na versão branqueada e romantizada) e dos activistas da Intifada. Esta última associação viria, em 2024, a ser reforçada pela eclosão de manifestações, em Portugal e no resto do mundo Ocidental, em que se exige “Fim ao genocídio [em Gaza] e fim ao fóssil” e alguns manifestantes envergam o keffiyeh palestino (ver, por exemplo, Dezenas juntam-se em Lisboa para exigir fim das mortes na Palestina e dos combustíveis fósseis). O estudo The power of protest in the media: Examining portrayals of climate activism in UK news, publicado na revista Nature em 2024, sobre a forma como os mass media têm feito a cobertura das acções do ambientalismo radical e sobre a sua repercussão na opinião pública, concluiu que as acções de natureza mais disruptiva são as que granjeiam maior cobertura noticiosa, mas que são as de que decorrem dentro do respeito pelas leis que geram cobertura noticiosa mais favorável.
Lisboa, c.2023: Manifestação três-em-um, visando simultaneamente os combustíveis fósseis, o capitalismo e o “patriarcado”
Uma argumentação frágil
Krznaric reconhece que há quem alegue que as alas radicais podem ter efeitos contraproducentes, pois “não só afastam o público como também contaminam os movimentos moderados, provocando-lhes danos reputacionais por associação” (pg. 35). Embora cite estudos sobre o “efeito da ala radical” que dão indicações contraditórias, Krznaric prefere acreditar que “nos movimentos sociais focados em mudanças políticas […] os flancos radicais desempenharam papéis essenciais para a obtenção de desfechos bem-sucedidos” (pg. 37) e vê os ambientalistas radicais como herdeiros de “uma distinta tradição histórica, que remonta a alguns dos movimentos mais célebres dos últimos séculos em prol dos direitos humanos e da justiça social” (pg. 42) e como “uma tecnologia de sobrevivência que é vital num mundo em chamas” (pg. 42).
Krznaric argumenta que “os indícios existentes até agora sugerem que o movimento climático global tem, de igual modo, beneficiado da sua presença disruptiva” e afirma que “os levantamentos de dados revelam que as acções do XR [Extinction Rebellion] levaram a percentagem de pessoas para as quais a questão do ambiente é uma prioridade máxima para níveis recorde” (pg. 37) e que “os dados sugerem que em resultado dos protestos [do movimento Just Stop Oil] o número de pessoas que dizem estar dispostas a participar nalguma forma de activismo climático aumentou de 8.7% para os 11.3% da população do Reino Unido” (pg. 38).
Na primeira acção de rua promovida pelo Extinction Rebellion, que teve lugar a 31.10.2018, em Parliament Square, Londres, mais de um milhar de pessoas juntou-se para ouvir a leitura da “Declaração de Rebelião” contra o Governo do Reino Unido; esta leitura foi enquadrada por vários discursos, um dos quais foi proferido por Greta Thunberg, então com 15 anos
Esta argumentação tem numerosas falhas:
1) Krznaric não pode esperar ser visto como juiz isento dos méritos ou deméritos das alas radicais na área das causas ambientais quando ele próprio é simpatizante de uma ala radical do movimento ambientalista e participa (ou participou) nas suas iniciativas.
2) A avaliação do efeito dos protestos do Extinction Rebellion e do Just Stop Oil incidiu, não na medição de um parâmetro objectivo, mas na manifestação de uma opinião subjectiva pela população: a percentagem de pessoas que declara que o ambiente é a sua prioridade máxima e que está disposta a juntar-se a “alguma forma de activismo climático”.
3) A sinceridade das respostas a este tipo de perguntas é muito duvidosa, pois uma coisa é o que as pessoas apregoam e a imagem de si mesmas que pretendem projectar e outra é o que realmente fazem ou estão dispostas a fazer. Os habitantes da Europa Ocidental seriam, se déssemos crédito às respostas que dão aos inquéritos de opinião, os mais ambientalmente conscientes do mundo, mas, na prática, estão entre os maiores consumidores de recursos e os que exibem maiores pegadas ecológicas. E quando lhes é perguntado se estariam dispostos a pagar ou a fazer sacrifícios na sua vida quotidiana para suster as alterações climáticas e preservar o planeta, a sua “consciência ambiental” cai a pique. O que é irónico é que, no capítulo 3, o próprio Krznaric põe em causa a sinceridade das manifestações de apoio a causas ambientais pelos habitantes dos países desenvolvidos, quando cita “um levantamento feito em dez países com rendimentos elevados [que] revelou que ¾ das pessoas acreditavam ser importante haver mais regulamentos ambientais, mas que quase metade achava que não havia qualquer necessidade de alterar os seus hábitos pessoais”. Com efeito, o cidadão comum não se converteu ao ambientalismo, limitou-se a interiorizar que manifestar publicamente preocupação pela crise climática e pela “biodiversidade” é, hoje em dia, socialmente bem visto. Trata-se de mera “sinalização de virtude” (virtue signalling) e não implica qualquer alteração significativa no estilo de vida e nas expectativas de consumo (ver capítulo “Ambiente” em “Antes é que era bom”: Um filósofo nascido em 1930 dá graças por viver em 2018, capítulo “Coletes amarelos vs. ursos brancos” em Europa: Esta Torre de Babel vai aguentar?, capítulo “O que pensam as massas de tudo isto” em Alterações climáticas, ideologia e sectarismo: O que está afinal em jogo em Sharm El Sheikh?). Para muitas pessoas, ter “alguma forma de activismo climático” significa deixar um like num post do Facebook que apela ao salvamento dos ursos polares, não deixar de usar o carro para ir ao ginásio a cinco quarteirões de distância.
5) O facto de a percentagem de pessoas que declara que o ambiente está no topo das suas prioridades ter vindo a aumentar ao mesmo tempo que o Extinction Rebellion e o Just Stop Oil têm empreendido acções disruptivas não significa que o primeiro fenómeno seja consequência do segundo – correlação não implica causalidade.
Royal Academy of Arts, Londres, 05.02.2022: Activistas da Just Stop Oil colam-se à moldura da réplica, a óleo, da autoria de Giampetrino (Giovanni Pietro Rizzoli) e datada de c.1520, do fresco “A última ceia”, de Leonardo da Vinci
6) Parte do incremento do número de pessoas que se dizem preocupadas com as alterações climáticas decorre do tom melodramático e tremendista com que algumas figuras públicas e até instituições internacionais falam do tema (ver capítulo “Carnificina climática” em Alterações climáticas, ideologia e sectarismo: O que está afinal em jogo em Sharm El Sheikh?) e da forma acrítica e sensacionalista com que a maioria dos mass media trata estas declarações e cobre a temática climática e meteorológica e, em particular, os seus fenómenos extremos. O catastrofismo climático suscita frisson, sobretudo nas populações urbanas, habituadas a viver numa bolha de conforto climatizado e higienizado, e, logo, cativa audiências, atrai cliques, vende jornais e molda as percepções do público – embora seja incapaz de lhe alterar os comportamentos (ver capítulo “A mente dividida” em Areia, sal, ferro, cobre, petróleo e lítio: Como os transformámos nos pilares da civilização?).
Doutrina de Frei Tomás
Na pg. 38, Krznaric, ao tentar apresentar exemplos convincentes do efeito positivo do radicalismo, acaba, involuntária e desastradamente, por denunciar a insinceridade da sociedade ocidental face às causas ambientais: “o Just Stop Oil está, inclusivamente, a obter o apoio de importantes figuras públicas: Lewis Hamilton, o grande piloto de Fórmula 1, apoiou a sua [do Just Stop Oil] interrupção do Grande Prémio da Grã-Bretanha e Gary Lineker, comentador desportivo da BBC – que tem oito milhões de seguidores no X – defendeu publicamente o facto de os seus [do Just Stop Oil] apoiantes terem invadido os campos de ténis de Wimbledon […] [dizendo] ‘A história diz-nos, mais ou menos [!], que as únicas manifestações que, na verdade, funcionam são as disruptivas’”. Conclui Krznaric, visivelmente satisfeito, que “quando começamos a ter heróis do desporto do nosso lado, algo está a mudar”.
Para começar, Krznaric falta à verdade: o que Hamilton disse relativamente às manifestações ambientalistas no Grande Prémio de Silverstone, em 2023, foi que compreendia os argumentos do Just Stop Oil e apoiava “manifestações pacíficas”, mas deixou claro que os manifestantes não deveriam empreender acções disruptivas, como invadir a pista ou zonas interditas do circuito e colocar em perigo a sua segurança e a dos pilotos – que foi precisamente o que o Just Stop Oil fez.
[Activistas da Just Stop Oil invadem a pista do Grande Prémio de Silverstone, em 2023:]
Pode também perguntar-se que credenciais possuem os “heróis do desporto” no domínio das alterações climáticas para que algumas palavras de compreensão ou apreço pelas acções dos ambientalistas radicais funcionem como vindicação da causa destes. Ora, não só as opiniões dos “heróis do desporto” sobre alterações climáticas são tão irrelevantes quanto as opiniões dos climatologistas sobre o novo desenho da asa dianteira do carro de Fórmula 1 da Mercedes ou a eficácia da defesa do Aston Villa em lances de bola parada, como Lewis Hamilton e Gary Lineker são duas vozes isoladas entre muitos milhares de “heróis do desporto”, que se abstêm, em geral, de emitir alvitres sobre alterações climáticas e sobre acções de ambientalistas radicais que pretendem chamar atenção para as suas causas. Mas, empregando a lógica de Krznaric, se Lando Norris e David Beckham, por hipótese, manifestassem reprovação pelos protestos do Just Stop Oil, poderia a ExxonMobil proclamar que tinha os heróis do desporto do seu lado?
O uso que Krznaric faz das palavras de Hamilton e Lineker é ainda mais infeliz quando se considera a legitimidade moral dos “heróis do desporto” no domínio climático e ambiental. É de uma gritante incongruência que Hamilton exprima simpatia pelos protestos contra um espectáculo desportivo que contribui significativamente para a dissipação de recursos e para as emissões de CO2, quando Hamilton é um dos principais actores, promotores e beneficiários desse espectáculo. Para tornar a posição de Hamilton ainda mais inconsequente, o piloto alinhou, entre 2013 e 2024, pela equipa Mercedes-AMG Petronas, sendo a Petronas uma das maiores empresas petrolíferas mundiais (ver capítulo “Petronas” em Do Senhor Cinco por Cento ao Nord Stream). Durante essas 12 temporadas, Hamilton pavoneou-se pelos mass media e redes sociais, perante milhares de milhões de olhos, envergando vestuário com o logótipo da Petronas e rodeado por logótipos da Petronas.
Lewis Hamilton numa acção promocional da Petronas, marcando a sua despedida da equipa Mercedes-AMG Petronas, na sede da companhia, nas Petronas Towers, em Kuala Lumpur, Malásia, 12.12.2024
Para tornar a posição de Hamilton ainda mais insustentável, “o grande piloto de Fórmula 1” é o desportista britânico mais rico de sempre, com uma fortuna avaliada (em 2024) em 300 milhões de libras, e o seu estilo de vida é condizente com a fortuna e inclui iate, uma colecção de automóveis de luxo e residências opulentas espalhadas pelo mundo (uma delas na Suíça, onde tem o domicílio fiscal, de forma a beneficiar de uma tributação mais “suave”). É verdade que não tem jacto privado – vendeu-o em 2019, “em coerência com os seus valores ambientais” (!) – mas isso não quer dizer que não se desloque de jacto privado. As suas assíduas declarações públicas em prol do ambiente não merecem ser levadas a sério – atente-se no seu anúncio, em 2020, de que pretendia atingir, pessoalmente, a neutralidade carbónica no ano seguinte: “Não permito que ninguém, nem no meu escritório nem na minha casa, compre quaisquer plásticos. Quero que tudo seja reciclável, até o desodorizante, até a escova de dentes”. Será que Hamilton crê mesmo que um zelo extremo em domínios irrelevantes e marginais é capaz de compensar o que é, essencialmente, uma vida de luxo e dissipação?
As emissões estimadas de CO2 da temporada de Fórmula 1 de 2019 rondaram as 256.000 toneladas. Ainda que os carros de Fórmula 1 sejam extraordinariamente vorazes, as emissões resultantes do combustível consumido por estes são irrisórias: 0.7% do total. O grosso das emissões provém da logística (transporte de carros, pneus, peças e equipamentos à volta do mundo), das viagens e estadias das equipas, do funcionamento das instalações das equipas (oficinas e escritórios) e das múltiplas operações associadas à realização dos Grandes Prémios (transmissão televisiva, funcionamento das boxes, acolhimento dos espectadores, etc.)
Quanto a Lineker, passou de futebolista de sucesso a entertainer televisivo de sucesso (é, por larga margem, a estrela mais bem paga da BBC), pelo que amealhou uma fortuna estimada em 40 milhões de libras, reside numa casa de 4 milhões de libras e tem o estilo de vida e a pegada ecológica expectáveis em alguém com tal desafogo financeiro.
Que Hamilton exprima apoio ao Just Stop Oil e Lineker incite a “manifestações disruptivas” é de uma hipocrisia nauseante. Que Krznaric eleja as declarações de Hamilton e Krznaric como comprovativos do êxito do ambientalismo radical só pode explicar-se por sectarismo ou por estultícia.
A pretensa legitimidade do ambientalismo radical
Hoje em dia, o ambientalismo radical recorre a três tipos principais de pressão:
1) Manifestações ordeiras e greves estudantis.
2) Acções de protesto disruptivas que incluem bloqueio de vias de comunicação e da entrada de edifícios públicos e de sedes de empresas, ocupação de edifícios públicos (usualmente escolas), perturbação de eventos oficiais (ou em que governantes estão presentes ou discursam) e de certames vários, “ataques” com tintas, sopas e molhos a obras de arte em museus e a governantes no desempenho das suas funções, etc.
3) Interposição de acções em tribunais nacionais e supranacionais contra os Estados, por “omissão de acção gravíssima” no campo das políticas ambientais gerais ou por incumprimento de legislação ambiental específica, comprometendo assim (alegam) o futuro da humanidade, ou, mais particularmente, a saúde física e mental e o “direito à vida” dos indivíduos que interpõem a acção – uma actuação que, quando diz respeito a alterações climáticas, é usualmente designada por “litigância climática”.
“Vemo-nos no tribunal, Shell!”: Em 2019, o ramo holandês da Friends of the Earth e várias outras ONG ambientalistas holandesas moveram uma acção, em nome de 30.000 pessoas de 70 países, contra a multinacional holandesa Royal Dutch Shell, intimando-a a cessar a extracção de combustíveis fósseis
As pressões do primeiro tipo inserem-se no exercício da liberdade de expressão e são inteiramente legítimas; já as do segundo tipo (que são ilegais) e as do terceiro tipo pressupõem que os Estados e as empresas agem, de má-fé, contra a vontade e os interesses do povo e que o único e lídimo intérprete e representante deste seriam os ambientalistas radicais. Ora, nos regimes democráticos os governantes são escolhidos pelos eleitores e nas economias de mercado as empresas disponibilizam os bens e serviços desejados pela maioria dos consumidores. Se a vontade do povo fosse, efectivamente, dar prioridade máxima ao combate às alterações climáticas e à preservação do ambiente, os partidos ditos “ecologistas” seriam os mais votados e seriam governo na maioria dos países; do mesmo modo, os bens e serviços cuja produção, uso e consumo fossem vistos pelo povo como lesivos para o clima (ou para o ambiente e a saúde, em geral) não seriam adquiridos e as empresas ver-se-iam obrigadas a reduzir ou cessar a sua produção.
Porém, não é isso que se passa: por um lado, a representação dos partidos “ecologistas” (convictos ou meramente oportunistas) em quase todos os parlamentos dos regimes democráticos é pouco significativa (com excepção da Alemanha) e tem estado a recuar nos anos mais recentes, apesar de, supostamente, a consciencialização ambiental das massas nunca ter sido tão forte. Por outro lado, os cidadãos, embora possam proclamar que nada lhes tira mais o sono do que as alterações climáticas e a sorte da lagartixa-da-montanha, só não adquirem mais bens e serviços que, directa ou indirectamente, promovem o aquecimento global e a destruição de habitats porque os seus rendimentos não o permitem (ver capítulo “Suster o aquecimento global na secretaria” e “Um quarto de século de tergiversação” em COP28: Estamos mais perto de uma mudança ou “abriram-se as portas do inferno”?).
A reivindicação perpétua
O activismo enferma de um problema estrutural: uma vez posto em movimento, é incapaz de parar. Se logra ver satisfeitas as suas primeiras – e, amiúde, justas e sensatas – reivindicações, logo se afadiga a inventar outras, cada vez mais radicais e disparatadas. A partir de certa altura, o activismo deixa de ser um meio e converte-se num fim e o objectivo primordial do activista passa a ser a busca de pretextos para a continuação do activismo (ver capítulo “Quando é que Martin Luther King se tornou racista?” em “Todos os brancos são racistas”: O wokismo na América). O activismo não tem “desfechos bem-sucedidos”, para usar a expressão de Krznaric, porque no activismo não há “desfechos” – apenas etapas numa escalada interminável que, muitas vezes, acaba por desviar-se dos seus ideais e princípios iniciais.
Consideremos alguns exemplos, provenientes de diversos domínios da sociedade, dessa deriva radical:
● A linguagem politicamente correcta começou por ser uma cautela em evitar termos e expressões susceptíveis de serem interpretadas como insultuosas, depreciativas ou marginalizadoras para com grupos definidos por etnia, sexo, orientação sexual ou incapacidade física, com o argumento – válido – de que a linguagem não só exprime (ainda que implicitamente) relações assimétricas de poder, como contribui para as perpetuar. Porém, a linguagem politicamente correcta tornou-se, com o precioso contributo das redes (ditas) sociais, num instrumento de vigilância e repressão do discurso no espaço público, que não cessa de descobrir novos agravos e susceptibilidades, de impor novas interdições e de introduzir novas formulações, supostamente mais inclusivas (como “todos, todas e todes” e “pessoas que menstruam”) e que começam por se apresentar como recomendações e tendem a tornar-se obrigações. Em resultado deste zelo fundamentalista, falar no espaço público tornou-se mais arriscado e angustiante do que caminhar sobre gelo fino, pelo menos se se for figura pública com uma reputação a preservar – já entre os internautas anónimos que barafustam no faroeste digital a linguagem tende a ser desabrida e torpe (ver capítulo “O policiamento do discurso” em “Somos perfeitos sem ter de fazer nada”: O wokismo e as redes (ditas) sociais). Pode ver-se neste patrulhamento cada vez mais apertado da linguagem um sucedâneo preguiçoso e estulto do que deveria ser o propósito de um genuíno activista: mudar a realidade – como observou o linguista e estudioso das relações raciais John McWorther, “Martin Luther King não nos disse para mudarmos as palavras, o que ele pretendia era mudar o mundo” (Real Time with Bill Maher, 10.03.2023).
● A abolição de toda a discriminação formal com base na etnia ou país de origem foi uma grande conquista, ainda que, claro, não tivesse anulado instantaneamente atitudes e preconceitos entranhados (por vezes a nível subconsciente), nem desigualdades socioeconómicas transmitidas de geração para geração. O racismo não foi abolido, mas foi mitigado, e o Ocidente reconheceu que a sua “gloriosa” história de expansão e colonização comportara arrepiantes doses de brutalidade, pilhagem, escravatura, exploração e arbitrariedade.
Londres, Junho de 2020: Estátua de Robert Milligan, no exterior do Museum of London Docklands, nas West India Docks, após ter sido “intervencionada” por activistas. Robert Milligan (1746-1809) foi um comerciante, armador e negreiro escocês que teve papel decisivo na construção das West India Docks. A estátua, erguida em 1813 e que já passara o período 1943-97 num depósito, foi removida pela autarquia londrina pouco depois desta “intervenção”
Os activistas anti-racistas aproveitaram esta admissão tácita para atribuir ao homem branco europeu a autoria de todas as iniquidades da história da humanidade, para exigir a obliteração do espaço público de qualquer homenagem ou referência (sob a forma de estátuas, quadros ou monumentos ou de nomes de ruas, edifícios e instituições) aos protagonistas desse passado vergonhoso e para exigir aos actuais Estados europeus (mas não aos restantes Estados com passado esclavagista) a apresentação de pedidos formais de desculpas e o pagamento de vultosas indemnizações financeiras aos descendentes dos que foram brutalizados, espoliados, escravizados e explorados (ver Escravatura: Culpa, ressentimento e histórias mal contadas). O debate cordato e racional sobre quem são as figuras históricas em que a sociedade se revê e que merecem ser homenageadas na arte pública e na toponímia é, claro, perfeitamente legítima, mas o radicalismo costuma ter pouca inclinação para o debate cordato e racional e extravasa rapidamente as fronteiras da sensatez, começando a ver “racistas” e “escravocratas” por todo o lado e em todos os tempos, o que é uma consequência inevitável de se julgar o passado pelos critérios éticos do presente (ver capítulo “O fardo do homem branco vs. A culpa do homem branco” em O que o mundo moderno deve à exploração de África e dos africanos).
Estátua de Winston Churchill, na Parliament Square, Londres. Em Junho de 2020, durante a vaga de manifestações associadas ao movimento Black Lives Matter, ao nome “Churchill” foram acrescentadas as palavras “era racista”
● Nos países ocidentais com relevantes minorias de origem africana, a ala radical do anti-racismo propôs-se combater o “racismo estrutural” através de medidas que supostamente reporiam o equilíbrio numa sociedade fortemente enviesada em favor dos brancos, como seja a imposição de quotas raciais no ensino superior e em postos na administração e serviços públicos (iniciativa que algumas empresas também puseram em prática), e a introdução nos curricula escolares da “etnomatemática” e outros “conteúdos” em sintonia com os “saberes”, capacidades, interesses, vivências e origem étnica dos alunos. Nos EUA, perante a real e preocupante propensão das autoridades policiais para escrutinar, deter e exercer violência sobre cidadãos afroamericanos, a ala radical do anti-racismo entendeu que a melhor forma de pôr termo a esta prática seria cortar drasticamente o financiamento das forças da ordem (um conceito absurdo, cristalizado no slogan “Defund the police”). A deriva radical levou o anti-racismo para águas tão distantes dos ideais que presidiram ao movimento pelos direitos cívicos dos afroamericanos, nas décadas de 1950-60, que Martin Luther King se arrisca hoje a ser acusado de ter defendido ideias racistas (ver capítulo “Quando é que Martin Luther King se tornou racista?” em “Todos os brancos são racistas”: O wokismo na América).
Manifestação do movimento Black Lives Matter, Ottawa, Canadá, 05.06.2020
● A abolição de todas as limitações formais à plena autonomia e cidadania das mulheres pecou por tardia e os seus efeitos práticos têm progredido com lentidão, pelo que, mesmo no Ocidente, a maioria dos países está ainda longe da igualdade de género. Na tentativa de corrigir erros do passado, não tardaram a cometer-se excessos, nomeadamente com a imposição de rígidas “quotas de género” em múltiplas instâncias do Estado e da sociedade (mas não nos trabalhadores das minas e da construção civil, ou nas forças armadas). Entretanto, o feminismo radical desencantou o conceito de “masculinidade tóxica”, uma condição inerente aos machos que os predispõe a comportamentos misóginos e agressivos, que assumem a forma de bullying, abuso sexual, violência doméstica, violência no namoro, etc., e que justificam que, à partida, cada rapaz ou homem deva ser encarado como um opressor e um canalha em potencial (ver capítulo “Por uma ‘antibiologia ginocêntrica’” em O wokismo: A ideologia que nasceu na universidade para se espalhar pelo mundo). A ala radical do feminismo foi tão longe, na sua deriva impelida pelo ressentimento azedo contra a “sociedade patriarcal”, que acabou, num movimento análogo ao empreendido pela ala radical do anti-racismo, a acusar as feministas moderadas de serem, na verdade, falsas feministas e até inimigas do feminismo.
● O combate à homofobia e à transfobia levou, na esmagadora maioria dos países ocidentais, a que a homossexualidade deixasse de ser criminalizada; possibilitou, nalguns desses países, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adopção de crianças por casais homossexuais; e aprovou legislação destinada a proteger da discriminação as pessoas transgénero e não-binárias. A homofobia e a transfobia não se extinguiram, claro, mas perderam parte do estigma que lhes estava associado, para o que contribuiu o “coming out” de figuras públicas que assumiram a sua sexualidade “não-ortodoxa”. Após essas conquistas, o combate à homofobia e à transfobia no Ocidente deslizou para terrenos menos consensuais e razoáveis, como sejam a obrigação de tratar as pessoas transgénero e não-binárias pelos “pronomes” (“preferred gender pronouns”) que elas escolham para si mesmas; o acesso de pessoas transgénero, segundo a sua inclinação, às variantes feminina e masculina das casas de banho e das competições desportivas; e a substituição da expressão “sexo biológico” por “sexo atribuído à nascença”, no pressuposto de que o sexo é uma construção social, não um dado biológico objectivo (ver capítulo “Quatro anos de wokismo: Uma breve resenha” em Entre estátuas, palcos e penteados: O wokismo em Portugal).
Evolução da proporção da população mundial a viver em países em que os actos homossexuais não são criminalizados, 1760-2020
● As pressões exercidas pelas alas radicais fizeram com que as questões identitárias, de etnia, género e orientação sexual ganhassem expressão desproporcionada nas faculdades de humanidades e ciências sociais e se tenham tornado fulcrais nas artes & letras, resultando numa proliferação de obras (frequentemente panfletárias e rudimentares) sobre colonialismo, neocolonialismo, decolonialismo, racismo, escravatura, extractivismo, invisibilidade dos africanos na arte ocidental, ausência de artistas do sexo feminino nos compêndios de história da arte, subalternização da mulher na sociedade e outros temas que realcem a secular opressão de certos grupos pela perfídia e ganância do cis-heteropatriarcado branco. A exploração académica, artística e literária da vitimização tornou-se, num ápice, numa indústria florescente (ver capítulo “A atomização da humanidade” em De Amanda Gorman a Lucky Luke: Correcção ou excesso? e capítulos “O estado das artes num Estado imperial”, “A eterna queixa da invisibilidade” e “Uma maré que tudo submerge?” em Entre estátuas, palcos e penteados: O wokismo em Portugal).
● Ao mesmo tempo que impuseram as suas perspectivas nos meios académicos e artísticos, as alas radicais também têm manobrado para, com a ajuda das redes sociais e da propensão destas para estimular a irreflexão e o “efeito de rebanho”, estender sobre toda a sociedade e o espaço público a chamada “cultura de cancelamento”, em que qualquer indivíduo ou instituição que, ainda que inadvertidamente, exprima ideias ou use palavras e expressões que não sejam conformes ao cânone da correcção política hoje aceite pelas alas radicais, pode tornar-se alvo de uma vaga de indignação nas redes sociais e de uma campanha de “cancelamento”. Esta passa por apelos a que os seus livros, filmes, discos, espectáculos ou produtos sejam boicotados e as suas intervenções públicas sejam banidas, e pela exigência de pedidos de desculpas pela parte do “infractor” e da sua demissão do(s) cargo(s) que ocupa.
● Os movimentos animalistas começaram por lutar contra o tratamento cruel dos animais, o que levou à interdição de “desportos” sanguinolentos e boçais como lutas de cães e lutas de galos; à imposição de regras mínimas de conforto e bem-estar animal que, na prática, fizeram desaparecer os números com animais não-domésticos dos espectáculos de circo; e à atribuição de estatuto jurídico aos animais de companhia, que deixaram de ser “coisas” que o proprietário poderia tratar e descartar como lhe aprouvesse. Depois, deu-se o usual deslizar insidioso, que desembocou, por exemplo, em propostas para que aos trabalhadores que tenham animais sob a sua “tutoria” sejam concedidos dias de dispensa para lhes prestar assistência em caso de doença e de um dia de nojo em caso do seu falecimento, ou para a criação de um homólogo do Serviço Nacional de Saúde destinado a animais de companhia.
● O veganismo, que surge frequentemente associado ao animalismo, começou por reivindicar que o menu das cantinas de instituições estatais ofereça uma opção vegan, o que parece, à partida, ser razoável, mas abre portas a que qualquer grupo com um mínimo de representação na sociedade possa exigir algo similar – assim, veríamos também surgir a obrigatoriedade de opções de menu conformes aos preceitos halal, kosher e jhatka, aos requisitos dos celíacos e dos intolerantes à lactose e às regras das dietas paleolítica, keto, mediterrânica, volumétrica, low-carb e de Atkinson, entre outras (o leque do delírio ortoréxico é vastíssimo). Seja como for, uma vez atendida a sua primeira exigência, os vegan/animalistas passaram a exigir a remoção total da carne dos menus das cantinas ou a existência de dias da semana em que só estão disponíveis opções vegan. Se estas forem aceites, há propostas mais descabeladas que só aguardam ocasião propícia para entrar no debate político, como exigir que o Estado subsidie os “tutores” que pretendam alimentar os seus cães e gatos com rações vegan.
Manifestação do grupo animalista Direct Action Everywhere apela ao fim do consumo de produtos de origem animal e à libertação de todos os animais (com excepção, claro, dos que estão encarcerados na qualidade de “animais de companhia”), em frente a uma loja da cadeia Whole Foods, San Francisco, Julho de 2015
Os exemplos acima contradizem as alegações de Krznaric sobre o efeito positivo das alas radicais e evidenciam a estratégia genérica destas: dão os primeiros passos a coberto dos nobres pretextos da diversidade, da igualdade, da inclusão, da tolerância, da compaixão e do humanismo, e, se conseguirem ver atendidas as exigências iniciais, o afã reivindicativo e proselitista ganha ímpeto e empáfia e tende a evoluir para a intolerância e para o totalitarismo. Ao contrário do que argumenta Krznaric, este constante “esticar da corda” pela ala radical nem sempre conquista a adesão do cidadão médio para as suas causas – pelo contrário, muitos ficam tão incomodados ou assarapantados com as exigências irrealistas, o sectarismo, a intransigência e o tom estridente e “self-righteous” dos radicais que acabam por também rejeitar as propostas dos sectores moderados dos respectivos movimentos.
Há um radicalismo bom e um radicalismo mau?
O capítulo inicial de História para amanhã é menos uma análise do que um panfleto e nada o atesta melhor do que o facto de os exemplos de conquistas decorrentes da existência de alas radicais que Krznaric apresenta estarem todos conotados com causas “progressistas”, ou seja, de esquerda – não há uma linha sequer sobre o papel e efeito da ala radical dos movimentos conservadores. Considerará Krznaric que a ala radical de direita também “é uma das chaves para o desbloqueio da vontade política”? Se os activistas da Just Stop Oil que atiraram sopa de tomate à versão dos “Girassóis” de Van Gogh patente na National Gallery, em Londres, são dignos de louvor, sê-lo-ão também os activistas do grupo de extrema-direita Habeas Corpus que (entre outras intervenções similares) tentaram impedir (ou, pelo menos, perturbar) o lançamento, na Livraria Buchholz, em Lisboa, de um “guia para pais de crianças e jovens LGBTQIA+”? Se é legítimo recorrer a acções disruptivas para que a opinião pública compreenda que “temos de acabar com os combustíveis fósseis antes que eles acabem connosco”, causando o “colapso climático”, como alerta o Just Stop Oil, não será também legítimo recorrer a acções disruptivas para impedir o que, na óptica dos activistas de extrema-direita, é a proliferação de livros que “normalizam a degeneração e estigmatizam a família” e constituem “um atentado do marxismo cultural à nação portuguesa”? Se a actividade das alas radicais é benéfica, os EUA devem congratular-se pelo crescimento de movimentos como o Antifa (à esquerda) e os Proud Boys (à direita)?
[Activistas da Just Stop Oil vandalizam o quadro “Girassóis” (1888), de Van Gogh, National Gallery, Londres, 14.10.2022:]
Provavelmente, Krznaric não considerou sequer este ângulo da abordagem, porque, do seu ponto de vista, refestelado na presunção de superioridade moral típica da esquerda (e, em particular, da extrema-esquerda), as causas de esquerda são inerentemente bem intencionadas e conduzem inevitavelmente a um mundo melhor e quem não o aceita só pode ser um imbecil ou um canalha, uma crença que dispensa quem a professa de a estribar em argumentos sólidos e pertinentes. Nietzsche já alertava, em Humano, demasiado humano (1848, Menschliches, allzumenschliches), que “da paixão nascem opiniões e a preguiça mental faz estas empedernirem-se como convicções”, a que pode acrescentar-se que, por efeito de ainda mais preguiça mental, as convicções cristalizam como dogmas – como corolário, pode estabelecer-se que o dogmatismo é tanto maior quanto mais nos aproximamos dos extremos, sejam elas à direita ou à esquerda. Porém, como o nazismo se apropriou de partes escolhidas do pensamento de Nietzsche e as moldou à sua abjecta e rudimentar mundividência, a esquerda arrumou liminarmente toda a obra de Nietzsche ao lado de Mein Kampf, prescindindo assim de ter um guia para a compreensão de algumas das suas debilidades estruturais.
A presunção da esquerda de ser o fiel da balança moral é evidente quando Krznaric afirma que a ala radical do ambientalismo “tem a história do seu lado, desde os escravos rebeldes, até às sufragistas” (pg. 42-43). Krznaric poderia ter escrito que os ambientalistas radicais têm a ciência do seu lado, mas preferiu alinhá-los com a história, o que lhes confere a egrégia aura de combatentes pela justiça social (“social justice warriors”) e insere a sua luta numa trajectória inexorável que só pode desembocar no triunfo da sua causa (embora, por outro lado, o argumento possa também fazer recordar frases similares proferidas por Stalin e Fidel Castro para justificar a sua questionável actuação).
Quando discute possíveis efeitos negativos das alas radicais, Krznaric não só comete o erro de minimizar os “danos reputacionais por associação” infligidos ao sector mainstream dos movimentos, como omite um efeito não menos relevante, que é essas alas radicais suscitarem o aparecimento ou fortalecimento de alas radicais de sinal contrário. Esta omissão é difícil de compreender num livro datado de 2024, quando, em quase todo o Ocidente, se assiste ao declínio da popularidade da esquerda e da extrema-esquerda e à ascensão da extrema-direita e de um centro-direita fortemente conservador e nacionalista, ao mesmo tempo que o debate político se torna mais polarizado, com os radicais de ambos os lados a atiçarem um clima generalizado de intransigência que acaba por estender-se a todo o espaço público. Ora estes fenómenos são, em parte, uma reacção dos sectores mais conservadores da sociedade às reivindicações pouco razoáveis das alas radicais de esquerda, nas quais vêem uma ameaça à família, à religião e à identidade nacional (ver capítulos “O wokismo como motor da polarização da sociedade americana” e “A reacção conservadora ao wokismo” em “Todos os brancos são racistas”: O wokismo na América).
Posições dos estados dos EUA face à inclusão de conteúdos LGBTQ nos curricula escolares: vermelho-escuro, proibida; rosa-escuro, proibida até uma certa idade e, a partir desta, permitida na condição de dar conhecimento aos pais; rosa-claro, permitida após dar-se conhecimento aos pais e estes não manifestarem oposição; azul, obrigatória
A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais de 2024 (bem como as maiorias conquistadas pelos Republicanos no Senado e na Câmara dos Representantes) é disso um exemplo paradigmático, ainda que muitos outros factores tenham contribuído para estes resultados eleitorais. Na sua ânsia insensata de reparar injustiças históricas, o wokismo – promovido ou apoiado pela franja mais à esquerda dos Democratas – parece pretender liquefazer as fundações da sociedade, ao defender que o género é, antes de mais, uma construção social e tem natureza fluida, que todos os brancos são estruturalmente racistas, e que todos os homens são estruturalmente misóginos.
Pelo seu lado, a propaganda da alt-right encarrega-se de distorcer e empolar as ideias absurdas (e, por arrasto, também as ideias merecedoras de debate e as ideias razoáveis) do sector woke e pinta cenários grotescos, como aquele em que os meninos saem de manhã para a escola e, após uma operação de mudança de sexo decidida por entidades nunca identificadas (“eles”) e sem consentimento (ou sequer conhecimento) dos pais, regressam a casa à tarde como meninas, o que lhes trará, infalivelmente, crises de identidade, angústias e amargos dissabores. Nem todos os eleitores acreditam realmente neste tipo de atoardas, mas a maioria acaba por votar em quem promete devolver a “normalidade” ao país. Ou seja, por trás da promessa “make America great again”, há também a promessa “make América normal again”, uma América ordeira, temente a Deus, maioritariamente branca (sobretudo nos círculos de poder, decisão e prestígio) e repartida em apenas dois géneros bem definidos e sem possibilidade de transição entre eles, em que homens e mulheres têm os papéis e atribuições consagrados pela tradição, e em que é possível adquirir pick ups e SUVs de duas toneladas sem se ser atormentado pela culpa de estar a contribuir para extinguir a raposa-do-Árctico e aumentar o poder destruidor dos furacões.
Quando a extrema-direita e a direita ultraconservadora alcançam o poder, usualmente não se contentam em tomar medidas para bloquear as propostas extravagantes da ala radical esquerdista – tentam também reverter conquistas obtidas sob a liderança da esquerda moderada (e, nalguns casos, confirmadas pelo voto popular em referendo), nomeadamente no domínio dos direitos sexuais e reprodutivos da mulher e dos direitos dos homossexuais e pessoas transgénero. Nalguns países em que a extrema-direita e a direita ultraconservadora alcançaram a maioria absoluta, como a Hungria de Orbán (de 2010 ao presente) e a Polónia do período em que foi governada pelo PiS (2015-2023), é o próprio conceito de democracia liberal que é minado, mediante o controlo dos órgãos de comunicação social (públicos e privados), do cerceamento da liberdade de expressão e da subjugação do poder judicial ao poder executivo e legislativo.
Os frutos do radicalismo: O comício Unite the Right, reunindo grupos de supremacistas brancos, neonazis e afins, em Charlottesville, North Carolina, em Agosto de 2017, atraiu contramanifestantes de extrema-esquerda e gerou atritos e confrontos, que produziram uma vítima fatal e 35 feridos quando um simpatizante do nazismo e do supremacismo branco arremeteu com um carro contra os contramanifestantes
Pelo mundo fora, as alas radicais de esquerda, inabaláveis na convicção de “terem a história do seu lado”, fervem de indignação perante os sucessivos triunfos das alas radicais de direita, que denunciam como retrocessos civilizacionais, sem se darem conta que são as suas reivindicações excessivamente “progressistas” que alimentam o radicalismo de sinal oposto.
Breve nota sobre um episódio histórico
Na pg. 50, Krznaric escreve que o ataque japonês à base aeronaval americana de Pearl Harbor, a 7 de Dezembro de 1941, representou uma “inesperada reviravolta” nas relações dos EUA com a China e o Japão. O ataque foi “inesperado”, mas não foi uma “reviravolta” – na verdade foi o culminar de um crescendo de tensão nas relação entre o Japão e os EUA. Em Julho de 1940, numa tentativa para conter o expansionismo nipónico na Ásia, o presidente Roosevelt já impusera várias sanções ao Japão, nomeadamente embargando a exportação de aço e combustível para aviação dos EUA para aquele país, limitando a exportação de petróleo bruto (o petróleo americano representava 75% do consumo japonês) e interditando o acesso de navios japoneses ao Canal do Panamá (então sob concessão aos EUA). Ainda assim, o Governo dos EUA manteve a neutralidade em relação à Segunda Guerra Sino Japonesa, em curso desde 1937. Esta posição alterar-se-ia a 24 de Julho de 1941, quando, em reacção à ocupação da parte meridional da Indochina Francesa pelo Japão, três dias antes, o presidente Roosevelt exigiu a retirada das tropas japonesas destes territórios. Quando esta solicitação não foi atendida, o Governo dos EUA congelou os activos japoneses em bancos americanos, suspendeu o fornecimento de petróleo ao Japão, criou o American Volunteers Group, um conjunto de unidades de aviação contando com pilotos americanos e aviões de fabrico americano, cuja missão era auxiliar a China na luta contra o Japão (os Flying Tigers seriam a sua faceta mais célebre), e transferiu a Esquadra do Pacífico de San Diego para Pearl Harbor. O embargo total do petróleo americano deixou os “falcões” japoneses com duas opções: submeter-se às exigências americanas e abandonar a política expansionista, ou apoderar-se das regiões produtoras de petróleo do Sudeste Asiático sob controlo britânico e holandês. A segunda opção, que foi a escolhida pelo Governo japonês, pressupunha a neutralização do poderio aeronaval americano no Pacífico (ver Pearl Harbor: O Dia da Infâmia foi há 75 anos).
Próximo artigo: História para amanhã, parte 2 — Migrações, sustentabilidade e redes sociais