Índice

    Índice

Enquanto o progresso tecnológico não permite concretizar o sonho/pesadelo de Raymond Kurzweil e de outros profetas tecnólatras de fazer o upload da mente para a cloud e de toda a humanidade passar a desfrutar de uma existência desmaterializada e eterna (ou, pelo menos, tão longa quanto o contrato de alojamento na cloud), vamos ter de continuar a viver no Mundo Material e a dedicar boa parte do nosso tempo a satisfazer as necessidades básicas que, desde sempre, presidem à vida do Homo sapiens: água, alimento, abrigo, aquecimento/arrefecimento, deslocação, comunicação.

Para provir a estas necessidades, a civilização tem recorrido, desde os primórdios, a alguns materiais essenciais, como areia, sal, ferro e cobre; outros materiais, como o petróleo, o carvão e o gás natural, só se tornaram relevantes nos últimos dois séculos; outros ainda, como o lítio, quase não tiveram uso durante a maior parte da história da humanidade, mas ganharam recentemente papel preponderante. Embora o petróleo (e restantes combustíveis fósseis) e o lítio andem hoje nas bocas do mundo, o entendimento do cidadão comum sobre eles costuma ser restrito e superficial (no caso dos combustíveis fósseis, a atenção esgota-se no preço do litro da gasolina). Outros materiais, como a areia e o sal, são vistos como “banais” e considerados como “adquiridos”, pelo que raramente merecem um segundo de reflexão.

Com Material world: A substancial history of our past and future, publicado originalmente em 2023, o britânico Ed Conway (n.1979), editor de economia da Sky News (cargo que já desempenhou nos jornais Daily Mail, The Daily Telegraph e Sunday Telegraph), propõe-se desfazer este alheamento e mostrar quanto a civilização deve (ou, no caso do lítio, irá dever) a estes materiais e quão surpreendente e complexa é a sua história; o livro chegou a Portugal no final de 2024, pela mão da Temas & Debates, com o título Mundo Material: Uma história substancial do nosso passado e futuro e tradução de Isabel Mafra.

A capa da edição portuguesa do livro de Ed Conway, com o título “Mundo Material” (Temas & Debates)

Algumas coisas que deveríamos saber sobre o mundo

O único livro de Conway (até agora) editado em Portugal, 50 ideias que precisa mesmo de saber: Economia (50 economic ideas you really need to know, 2009), não dava azo a grandes expectativas. É uma obra com o louvável propósito de fornecer ao cidadão médio conceitos basilares de economia, mas que fracassa em quase todas as frentes: a prosa é pedestre, muitos exemplos são desajeitados ou inadequados, fazem-se afirmações peremptórias sem a necessária fundamentação (por exemplo: “o capitalismo é inerentemente democrático”), alguns factos objectivos estão errados (por exemplo: o austríaco Joseph Schumpeter é apresentado como australiano) e cada capítulo é rematado por uma “ideia condensada” que oscila entre a tautologia e a sabedoria lilicaneciana (por exemplo: “os preços das casas tanto aumentam como diminuem”).

Ora, Mundo Material é uma agradável surpresa: a exposição é clara e equilibrada, a prosa é fluida, os aspectos técnicos são explicados de forma a torná-los compreensíveis a quem não tenha formação em geologia, química ou engenharia industrial, a narrativa conecta habilmente o uso histórico dos materiais ao seu papel na crise ambiental e na geopolítica do mundo actual. Contribuindo para a acessibilidade do livro está o facto de ser condimentado com as experiências pessoais de Conway, que se deu ao trabalho de visitar alguns dos mais importantes locais onde se faz a extracção e processamento dos seis materiais em apreço, alguns deles em paragens remotas e inóspitas, outros rodeados de medidas de segurança estritas, e a que poucas pessoas terão oportunidade de aceder.

A mina de Mount Whaleback, uma das várias e gigantescas minas de ferro na região de Pilbara, na Austrália, deve o seu nome a um monte que já não existe – no seu lugar está a cratera que se vê na foto. Segundo Conway, “a Ásia do século XXI foi construída com o ferro de Pilbara”

Se estes méritos de Mundo Material são inquestionáveis, há que reconhecer – e Conway fá-lo – que o livro é tributário da extensa e pertinente obra que Vaclav Smil (n.1943), um cientista checo há muito radicado no Canadá, tem vindo a publicar nas últimas três décadas sobre energia, ambiente, materiais, civilização e ambiente. Na verdade, pode ver-se o livro de Conway como uma versão condensada e mais facilmente digerível (com a ajuda do excipiente que é a experiência pessoal das visitas de Conway a minas, salinas e unidades fabris) da obra de Smil e, em particular, de Making the modern world: Materials and dematerialization (2013). Infelizmente, dos mais de quarenta livros de Smil, apenas três estão publicados em Portugal: Os números não mentem: 71 coisas que precisa de saber sobre o mundo (Crítica), Energia e civilização: Uma história (BookBuilders) e Como o mundo realmente funciona (Crítica) – o último foi alvo de um artigo no Observador. Conway coloca Como o mundo realmente funciona à cabeça das leituras recomendadas a quem queira aprofundar os assuntos abordados em Mundo Material e presta tributo a Smil, “cuja investigação deu origem a muitas secções deste livro” (pg. 473). Atesta-o o facto de a bibliografia fundamental de Mundo Material incluir oito títulos de Smil, enquanto os restantes autores estão representados com uma obra cada (com excepção de Adam Hochschild, com dois títulos).

No artigo publicado no Observador sobre Como o mundo realmente funciona, argumentava-se que o facto de o debate sobre as grandes opções a tomar no domínio do desenvolvimento e do ambiente ser cada vez mais estridente, extremado e improdutivo resulta, em boa parte, do desconhecimento geral sobre “o funcionamento dos sistemas biofísicos da Terra e da maquinaria e dos processos que asseguram a nossa alimentação, abrigo, conforto, segurança, deslocação, comunicação e restantes conveniências da civilização contemporânea”. Este desconhecimento aflige quer os “ambientalistas” (ver capítulos “Ignorância na Era do Google e do smartphone” e “Na altura não se falava tanto desses temas”, no artigo supracitado) quer os “decisores políticos” (ver capítulos “A bolha em que vivem os decisores” e “Não há adultos na sala?”, no mesmo artigo).

Pelo seu lado, os “decisores empresariais” também não costumam trazer contributos positivos para este debate, já que o seu interesse primordial não é o bem comum numa óptica de longo prazo mas a remuneração dos accionistas a curto prazo (ou a dilatação da sua fortuna pessoal, no caso de serem proprietários das empresas, ou dos seus prémios de desempenho, no caso de serem gestores contratados), ainda que, publicamente, estes decisores (ou os seus departamentos de comunicação) se afadiguem a perorar apaixonadamente sobre “responsabilidade social” e “sustentabilidade” (ver capítulos “Quem nos guia por este caminho sinuoso?”, “Ecologistas e economistas”, “A casta dos meta-barões” e “Os gurus das elites” em Estará na História a origem da desigualdade entre países ricos e países pobres?).

Evolução dos lucros anuais das grandes empresas do sector energético, 2007-2022, em milhares de milhões de dólares

Da areia à fibra óptica

Na parte I, dedicada à areia, Conway lembra que este humilde material está na base de dois materiais centrais nos edifícios e infra-estruturas do mundo moderno: o vidro e o betão. O fabrico de vidro tem cerca de seis mil anos, mas, durante muito tempo, foi um produto dispendioso e limitado por uma série de condicionantes – mesmo os melhores mestres vidreiros eram incapazes de produzir painéis de grandes dimensões e isentos de deformações. Como escreve Conway, “o vidro liso apenas foi desenvolvido no século XIX, e tivemos de esperar por meados do século XX para termos painéis verdadeiramente planos e finos” (pg. 49).

Ânfora de vidro grega, século II a.C., encontrada em Olbia, Sardenha

A areia poderá parecer o menos crítico dos materiais eleitos por Conway – existe em abundância, em quase todas as geografias, é fácil de extrair e, consequentemente, é muito barata – mas nem todas as areias são adequadas a todos os fins. Conway dá o exemplo do fabrico de instrumentos ópticos de precisão, que requer areia com características muito particulares e processos de fabrico sofisticados, que são ciosamente guardados pelas empresas que os desenvolvem. E se a óptica de precisão dificilmente é um sector com peso na economia de um país, Conway lembra que ela teve papel crucial no início da I Guerra Mundial, quando as forças armadas britânicas se viram em apuros perante a óbvia superioridade da óptica de precisão alemã, maioritariamente fabricada pela firma Zeiss, que produzia binóculos, periscópios, miras telescópicas e dispositivos de telemetria de qualidade superior, que permitiam que os atiradores e artilheiros alemães fossem consideravelmente mais precisos do que os britânicos..

O Burj Khalifa, no Dubai, o mais alto edifício do mundo (830 metros), está revestido por painéis de aço inoxidável e 26.000 painéis de vidro. Cada um dos painéis de vidro pesa, em média, 360 kg, e a sua área somada é de 74.000 m2

Se os arranha-céus são a manifestação mais espectacular do vidro no mundo moderno, a verdade é que uma das aplicações mais cruciais deste material no presente é também a mais discreta: são os cabos de fibra óptica em que assentam as comunicações, a curta distância – estabelecendo ligações entre computadores numa mesma sala, por exemplo – e a longa distância – nomeadamente nos cabos de comunicações submarinos que suportam a Internet, cuja segurança se tornou, recentemente, num assunto fulcral da geopolítica. Conway lembra que “a Internet é feita de vidro”, só que não é um vidro qualquer: quando, em 1965, Charles K. Kao propôs que a fibra óptica poderia substituir, com vantagem, o fio de cobre na transmissão de informação, “os melhores vidros ópticos apenas podiam transportar a luz ao longo de dez metros” (pg. 70) e foi necessário desenvolver vidros ultrapuros e ultratransparentes para que a ideia de Kao vingasse.

Silício, smartphones e geopolítica

A trivial areia está também na origem de outro dos prodígios e sustentáculos da civilização hipertecnológica do século XXI: os chips de silício. O capítulo que Conway lhes dedica, com o título “A viagem mais longa”, deve muito a A guerra dos chips: O combate pela tecnologia mais crucial do mundo (Chip war: The quest to dominate the world’s most critical technology, 2022), de Chris Miller, publicado em 2024 pela D. Quixote – Miller fornece dados (que Conway reproduz) que dão ideia da relevância dos chips no mundo moderno: “O valor da importação de chips pela China – 260.000 milhões de dólares em 2017 […] – é muito superior ao das exportações de petróleo pela Arábia Saudita ou da exportação de automóveis pela Alemanha. O dinheiro que a China gasta, todos os anos, a importar chips excede o volume anual de negócios da indústria aeronáutica. Nenhum outro produto é mais central no comércio internacional do que os semicondutores”.

Monocristal de silício produzido através do processo de Czochralski (descoberto em 1916 pelo engenheiro polaco Jan Czochralski), um dos passos no longo e delicado processo de fabrico de semicondutores

E, uma vez que “os chips fabricados em Taiwan asseguram 37% do incremento da capacidade global de computação a cada ano” (Miller) e que, para mais, Taiwan detém uma posição ainda mais dominante no segmento dos chips avançados, é fácil compreender o tom cada vez mais ameaçador da República Popular da China (RPC) em relação a esta dissidência insular. Os argumentos para a absorção de Taiwan pela RPC podem fundar-se em razões históricas, mas a principal motivação está no presente e no futuro e, em particular, na cada vez mais acesa disputa entre a RPC e os EUA pelo posto de potência económica e militar n.º 1 (ver capítulo “Nuvens negras sobre o Estreito de Taiwan” em Formosa mas não segura: Taiwan, uma ilha no limbo).

Perante o discurso cada vez mais agressivo de Xi Jinping e dos media chineses e das manobras cada vez mais ostensivas das forças armadas da RPC em torno de Taiwan, poderá haver quem se interrogue sobre o que impede a RPC, com os seus 1.400 milhões de habitantes e um território de 9.6 milhões de km2, de apoderar-se de uma ilha com 24 milhões de habitantes e um território de 36.000 km2 e tomar conta das suas fábricas de chips hi-tech. A resposta está na extraordinariamente longa e geograficamente dispersa cadeia que vai da areia aos chips, como explica Conway: “Mesmo que a China invadisse a Formosa e que as ‘fabs’ da TSMC [as fábricas da Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, a mais valiosa empresa de semicondutores do mundo e líder incontestada no segmento dos chips hi-tech] sobrevivessem ao ataque [ou à sabotagem], isso não resolveria o seu problema”.

O Centro Global de Investigação e Desenvolvimento da TSMC, em Hsinchu, Taiwan, inaugurado em 2023. Qualquer semelhança entre o design do edifício e um smartphone não é mera coincidência

“A Fab 18 [em Anding, município de Tainan, na costa sudoeste de Taiwan] poderá ser o local onde se produzem os chips mais avançados do mundo, mas estes são na sua maior parte concebidos noutros pontos do mundo, sobretudo nos EUA, e a sua propriedade intelectual pertence a uma empresa sediada em Cambridge, na Inglaterra: a ARM. As ‘fabs’ da TSMC não funcionariam sem as máquinas-ferramenta dos Países Baixos e do Japão [nomeadamente a holandesa ASML, única fabricante mundial das máquinas de fotolitografia de luz ultravioleta extrema, indispensáveis ao fabrico dos chips mais avançados], nem sem os químicos da Alemanha e outros elementos de um conjunto de nações. Há apenas um punhado de companhias capazes de produzir bolachas de silício perfeitas [onde, depois, são “impressos” os circuitos] e nenhuma está sediada nos EUA ou na China. E existe apenas um local no mundo capaz de produzir a areia de quartzo para os cadinhos onde essas bolachas são cristalizadas [o quartzo de elevada pureza provém de duas minas no Spruce Pine Mining District, na Carolina do Norte, uma da empresa belga Sibelco, outra da empresa norueguesa Quartz Corp.]. Quando os políticos falam sobre relocalização, denotam com frequência uma ignorância profunda acerca do que está a acontecer lá fora, no Mundo Material” (pg. 127).

Robert Noyce, inventor do primeiro circuito integrado monolítico, em 1959, e co-fundador, com Gordon Moore, da Intel, em 1968

Sal, salitre e potassa

A parte II do livro é dedicada a um material que, nos dias de hoje, é, como a areia, visto pelos urbanitas dos países desenvolvidos como abundante, inesgotável e de escasso valor: o sal. Conway não se limita a tratar o sal no sentido mais corrente do termo – o de cloreto de sódio (NaCl) – e mostra como outros sais, no sentido lato – carbonato de sódio (Na2CO3), nitrato de potássio (KNO3), nitrato de sódio (NaNO3), cloreto de potássio (KCl) – são absolutamente vitais para a agricultura e indústria.

Luca Galuzzi

Pilhas de sal no Salar de Uyuni, na Bolívia, é o maior deserto de sal do mundo (12.000 km2) e também o mais elevado (situa-se a 3650 metros de altitude

Deve salientar-se que, como é frequente entre os divulgadores de ciência, Conway se abstém de indicar também a fórmula molecular dos compostos químicos de que fala (como se fez no parágrafo acima). É uma opção que, provavelmente, pretende evitar que o leitor sem formação na área da química (ou que esqueceu há muito tudo o que aprendeu na adolescência) que folheie o livro numa livraria fique intimidado, mas é contraproducente, uma vez que a fórmula molecular explicita a proporção de átomos de cada elemento no composto e dá indicações sobre a natureza do composto. Provavelmente, é também o receio de induzir o leitor potencial a crer que se encontra perante um livro “demasiado científico” que leva a que Conway não recorra a gráficos ou qualquer tipo de infografia, nem sequer tabelas, embora estas sejam formas compactas, expeditas e iluminadoras de transmitir informação quantitativa. Mais de seis décadas após a célebre conferência em Cambridge em que C.P. Snow chamou a atenção para a escassa comunicação entre os mundos das Humanidades e das Ciências, continua a haver quem evite que os livros de divulgação de ciência recorram, ainda que de forma comedida, pontual e pedagógica, à linguagem da ciência.

Na parte II, o autor comete um deslize quando, na pg. 183, afirma que a elevada salinidade do Mar Mediterrâneo – 38 partes por mil, contra as 35 partes por mil típicas da água do mar – é um “legado” do tempo em que a comunicação do Mediterrâneo com o Atlântico foi interrompida “e secou quase por completo”, dando lugar a depressões cobertas de sal. Porém, o Estreito de Gibraltar voltou a abrir-se já lá vão 5.33 milhões de anos (a Inundação Zancleana), tempo mais do que suficiente para diluir o seu “legado” hipersalino. A explicação para a salinidade do Mediterrâneo não está no passado remoto, mas no presente: é um mar quase fechado, com elevada evaporação e modestos afluxos de água doce (o Ródano, o Adige e o Nilo – por esta ordem – são os rios de maior caudal que nele desaguam). São razões similares que levam o Mar Vermelho a ter uma salinidade de 36-41 partes por mil. Não fosse pelo afluxo de água do Atlântico pelo Estreito de Gibraltar, o nível do Mediterrâneo cairia cerca de um metro por ano. O efeito do afluxo de água do Atlântico é evidente nas diferenças geográficas da salinidade à superfície, que varia entre 36 partes por mil no extremo ocidental do Mediterrâneo e 39 no extremo oriental.

Salina em Trapani, na Sicília. A extracção de sal marinho na região remonta pelo menos ao século XII e nos séculos XVI-XVIII Trapani foi o principal porto de comércio de sal do Mediterrâneo

O lítio e as incertezas da transição energética

A parte VI do livro é consagrado ao lítio, um elemento de que, há 20 anos, o cidadão-comum não teria ouvido falar, a não ser que estivesse a par do seu uso como antidepressivo – para um grande número de pessoas seria apenas o título de uma canção dos Nirvana que fez furor nos anos 90. Embora as baterias de iões de lítio já tivessem amplo uso em dispositivos electrónicos portáteis, foi a adopção maciça da bateria de fosfato de ferro e lítio (LFP) pelos fabricantes de automóveis eléctricos (as LFP representam hoje um terço deste mercado) que tornou o lítio num material crítico.

Embora o lítio seja relativamente abundante na Terra – só a água dos oceanos conterá 230.000 milhões de toneladas e é frequente nas rochas ígneas – as suas concentrações são muito baixas e as ocorrências de minerais contendo lítio num teor que torne a sua exploração viável são raras e desigualmente distribuídas: as reservas de lítio estão concentradas no Chile (9.2 milhões de toneladas), Austrália (5.7 milhões), Argentina (2.2 milhões) e China (1.5 milhões).

A mina de Greenbushes, na Austrália, é a maior mina de lítio do mundo. A Austrália é o maior produtor mundial de lítio, com 61.000 toneladas/ano (dados de 2022)

O detentor da 5.ª maior reserva é Portugal, mas surge a grande distância do quarteto da frente, com apenas 60.000 toneladas. Para mais, não é seguro que alguma vez sejam exploradas, já que a simples prospecção do recurso tem vindo a enfrentar oposição determinada das populações locais e dos partidos e organizações ambientalistas (ver capítulo “Não no meu quintal” em Como a pequena Greta salvou o planeta). Conway nem sequer menciona Portugal, mas dá conta de que, na Sérvia, as intenções de abrir uma mina em Jadar “indignaram tanto as comunidades locais que desencadearam os maiores protestos em massa na Sérvia em décadas”, o que levou o governo a revogar as licenças de exploração (pg. 390). A regulamentação ambiental e a contestação das populações locais restringem hoje fortemente a mineração em larga escala nos países desenvolvidos, com excepção dos EUA, Canadá e Austrália, que possuem vastos recursos minerais em áreas remotas e despovoadas. Quanto aos europeus, são, genericamente, a favor do progresso e da transição energética, desde que esta não lhes perturbe o sossego, nem desfeie a paisagem.

Nos capítulos sobre o lítio, Conway sublinha que, tal como a Apple não fabrica os seus próprios computadores e smartphones, nem os chips que estão no seu coração, “as baterias que se encontram na maior parte dos veículos eléctricos – tragam eles os emblemas da Tesla, Ford, GM ou VW – são quase invariavelmente fabricadas por um conjunto de outras empresas pouco conhecidas”. Vale a pena conhecer estas “empresas obscuras”, argumenta Conway, porque, “se o planeta puder ser salvo do motor de combustão interna isso será em grande medida tanto à Panasonic, LG Chem, Northvolt e BYD quanto às marcas automóveis que dominam as manchetes” (pg. 404).

Este trecho é um testemunho (involuntário) da volatilidade e vertiginosa velocidade de mudança a que hoje se assiste no campo da mobilidade eléctrica: a BYD foi fundada em 1995 como fábrica de baterias, criou a sua divisão automóvel, BYD Auto, em 2003, lançou o seu primeiro híbrido plug-in em 2008 e o seu primeiro veículo 100% eléctrico em 2009. Em 2021 a BYD Auto subiu ao 10.º lugar entre os fabricantes automóveis chineses, com 754.000 unidades vendidas e começou a comercializar os seus modelos na Noruega, e no ano seguinte entrou nos restantes países europeus. Em 2023, quando Conway escreveu as linhas acima transcritas, a BYD Auto já deixara de ser uma “empresa obscura” e, no quarto trimestre desse ano, arrebatou à Tesla o posto de maior fabricante mundial de veículos eléctricos, em número de veículos produzidos (ainda que, em termos de volume de vendas, a Tesla continuasse à frente, por o preço médio dos seus modelos ser muito superior ao dos modelos da BYD). Em 2023, a produção da BYD Auto foi de 3 milhões de unidades e a sua quota no mercado automóvel chinês atingiu os 36%. Em 2024, as vendas da BYD Auto atingiram 4.3 milhões de unidades (um aumento de 41% face a 2023), o BYD Qin Plus (que começou a ser comercializado em 2021), foi o automóvel eléctrico mais vendido no mundo, com 709.000 unidades, e a BYD Auto ultrapassou a Honda e a Nissan em número de unidades vendidas, guindando-se ao 7.º lugar do top global de fabricantes automóveis. Mesmo os mais alheados das movimentações na indústria automóvel terão reparado que a BYD foi o principal patrocinador e o “parceiro de mobilidade” do Campeonato da Europa de Futebol de 2024 (substituindo a Volkswagen nesse papel, o que é tanto mais sintomático da mudança dos tempos por o Euro 2024 ter decorrido na… Alemanha). Ao mesmo tempo, a BYD continua a ser um dos maiores fabricantes mundiais de baterias para veículos, só atrás da (também chinesa) CATL, equipando veículos da Tesla, Toyota e Kia, e é também um dos maiores fabricantes mundiais de autocarros e camiões eléctricos.

User3204

O BYD Qin Plus, na variante DM-i, lançada em 2024

Já o fabricante sueco de baterias Northvolt, que Conway também menciona entre as empresas-chave da transição energética que trabalham na “obscuridade”, teve sorte bem diferente: no final de 2024 apareceu nas manchetes, mas não por boas razões. A Northvolt, que foi fundada por dois ex-executivos da Tesla e se perfilava como alternativa europeia ao domínio chinês nas baterias para veículos eléctricos, opera a maior fábrica de baterias na Europa, em Skellefteå, no norte da Suécia, e planeava construir uma refinaria de lítio em Setúbal, em consórcio com a Galp (um investimento de 1100 milhões de euros); todavia, actualmente enfrenta sérias dificuldades financeiras: viu-se forçada a dispensar milhares de trabalhadores, o ramo norte-americano da firma apresentou um pedido de protecção de credores e Peter Carlsson, o seu CEO, demitiu-se (ver Cancelamento de encomendas de baterias levam Northvolt à falência). Após estas notícias nada encorajadoras terem surgido, em Novembro de 2024, a Galp anunciou o cancelamento da refinaria em Setúbal; resta saber se, face à tenaz contestação à exploração de lítio em Portugal, haveria matéria-prima para a alimentar.

A “Fábrica Um” da Northvolt, em Skellefteå

A lição a retirar dos surpreendentes trajectos da BYD e da Northvolt é que é muito arriscado prever a evolução a curto e médio prazo quer da indústria do lítio quer da indústria automóvel, em resultado 1) da indefinição que reina em torno das vias para a transição energética, 2) dos rápidos progressos tecnológicos na área da energia e mobilidade, 3) da crise que se declarou em 2024 nalgumas marcas históricas do sector automóvel, 4) do facto de a China ter emergido como superpotência do sector automóvel, e 5) do aumento da tensão na geopolítica mundial.

A epidemia de obesidade de que ninguém fala

Num dos capítulos dedicados ao ferro, Conway debruça-se sobre o fabrico de aço e sobre a sua íntima ligação à indústria automóvel. Um dos momentos-chave nesse casamento foi a escolha por Henry Ford do aço-vanádio como material de construção do Ford Model T, que contribuiu para que este “ultrapassasse a concorrência, por ser mais leve, mais fácil de manobrar e com um rácio potência-peso superior ao de outros automóveis, a maioria dos quais era produzida com os aços pesados” (pg. 231). Mais de um século após o lançamento do Model T, os automóveis “são muito mais pesados do que os de há décadas, mas isso tem menos a ver com o aço e mais com tudo o resto. O peso do quadro e da carroçaria tem diminuído nos últimos anos, mas em vez de usarem metais mais leves para obter um automóvel mais leve, os fabricantes tendem a produzir veículos maiores e com mais características” (pg. 232).

A formulação não é elegante nem rigorosa, mas percebe-se o que Conway pretende dizer: no século XXI, o automóvel médio tem vindo a dilatar-se em todas as dimensões (comprimento, largura e altura), a ganhar peso e potência e a vir equipado de série com uma parafernália de gadgets e mordomias (a que o automobilista endinheirado poderá adicionar extravagâncias várias segundo o seu capricho). Uma das principais razões para o aumento da dimensão do automóvel médio é a extraordinária popularidade conquistada pelo formato SUV junto dos consumidores.

Repartição da produção de automóveis ligeiros nos EUA segundo o tipo de veículo, 1975-2022. Neste gráfico os SUVs de grande dimensão são designados por “truck SUV” e arrumados na grande categoria “truck”, enquanto os SUVs de menor dimensão são designados por “car SUV” e arrumados na grande categoria “car”

O SUV começou por implantar-se nos EUA, depois conquistou os restantes países desenvolvidos e agora está também a triunfar nos países “emergentes” (ver A caminho do Inferno, ao volante de um SUV e capítulo “Os reis do asfalto (e, de quando em vez, da terra batida)” em Promessas, ilusões e falácias da mobilidade eléctrica). Estima-se que as vendas globais de automóveis de passageiros em 2025 atinjam os 2.52 biliões de dólares (“biliões europeus”, ou seja “milhões de milhões”), dos quais 1.06 biliões de dólares (42%) serão de SUVs.

Repartição do mercado europeu de automóveis ligeiros segundo o tipo de veículo, dados de 2022

Para mais, muitos dos veículos não-SUV, incluindo os do segmento citadino, têm vindo a assumir traços de design dos SUVs e a ficar mais encorpados. É instrutivo comparar a evolução do Volkswagen Golf entre a 1.ª geração, surgida em 1974, e 8.ª geração (a mais recente), surgida em 2020: o Golf de 1974 tinha 3.70 m de comprimento, 1.61 m de largura e 1.39 m de altura e pesava 790-970 kg (consoante as variantes); o Golf de 2020 tem 4.28 m de comprimento, 1.80 m de largura e 1.46 m de altura e pesa 1255-1465 kg. O contraste é ainda mais evidente quando se comparam os modestíssimos automóveis que dominavam as estradas da Europa nas décadas de 1960-70, como o Volkswagen Carocha, o Fiat 500, o Morris Mini e o Renault 5, com as suas reencarnações musculadas do século XXI – respectivamente, o Volkswagen New Beetle (1997-2012), o Fiat 500 (2007-presente), o Mini Countryman (2010-presente) e o Renault 5 E-Tech (2024-presente). Deve ainda considerar-se que os automóveis eléctricos, devido ao peso das baterias, tendem a contribuir para a continuação da escalada dos pesos: o Volkswagen ID.3, um modelo eléctrico lançado em 2019 e com dimensões similares às do Golf de 2020 (4.26 m de comprimento, 1.81 m de largura e 1.55 m de altura) pesa 1772-1935 kg, ou seja cerca de meia tonelada mais do que o seu congénere a gasolina. Claro que o aumento do peso do automóvel médio, aliado à inclinação dos construtores para oferecer veículos com desempenhos mais “ágeis”, induziu o aumento da potência e, logo, dos consumos, sejam os veículos movidos a combustíveis fósseis ou a electricidade.

O Chevrolet Suburban LT de 12.ª geração, lançado em 2021, tem 5.73 m de comprimento, por 2.06 m de largura e 1.92 m de altura e pesa 2620-2720 kg. É um dos maiores SUVs no mercado, rivalizando com o seu irmão aristocrático, o Cadillac Escalade, também produzido pela General Motors

Há 50 anos, apenas os modelos desportivos vinham equipados com um motor debitando mais de 100 HP, hoje é frequente que banais modelos familiares ultrapassem os 200 HP. A esmagadora maioria dos automobilistas emprega apenas uma fracção desta vasta coudelaria – o uso quotidiano dominante passa por levar os miúdos à escola, ao treino de futebol e às aulas de ballet e por ir ao ginásio, ao cabeleireiro/barbeiro e ao hipermercado, muitas vezes em longas filas que se arrastam a 5 km/hora – mas os “marqueteiros” da indústria automóvel convenceram os consumidores de que necessitam mesmo de motores transbordantes de potência, sejam eles de combustão interna ou eléctricos (ver capítulo “Tesla” em Tesla, Rivian, Lucid: Serão estas marcas o futuro da mobilidade eléctrica? e capítulo “As novas bestas eléctricas em contexto” em Promessas, ilusões e falácias da mobilidade eléctrica). No caso dos automóveis eléctricos, os “marqueteiros” ao serviço das marcas cujos modelos oferecem mais luxo e melhores desempenhos até conseguem convencer os consumidores de que aqueles atributos são, não uma espectacular dissipação de recursos, mas um generoso contributo para um planeta mais saudável e uma civilização mais harmoniosa e sustentável (ver capítulo “Um futuro em que os céus são azuis” em Promessas, ilusões e falácias da mobilidade eléctrica).

Salve o planeta e ajude Greta Thunberg a ter menos pesadelos trocando o seu obsoleto automóvel a gasolina por um “ecológico” Porsche Taycan Turbo S eléctrico, com 952 HP de potência, aceleração de 0-100 km/h em 2.4 segundos e preço a partir de 220.000 euros

Soluções tecnológicas para problemas que não são tecnológicos

Conway apresenta o aumento da dimensão, potência e equipamentos do automóvel médio como “um exemplo em pequena escala daquilo a que os economistas chamam por vezes o Paradoxo de Jevons, nome do economista novecentista [na verdade, oitocentista] William Stanley Jevons, que afirmou que, por muito eficientes que tornemos os motores e as máquinas, arranjaremos sempre novos pretextos para queimar o mesmo (ou mais) carvão” (pg. 231-32).

William Stanley Jevons (1835-1992)

Porém, na curva imediatamente a seguir, Conway despista-se, uma vez que afirma que “o desfecho desta competição pela redução de peso das carroçarias automóveis […] é estarem os fabricantes de aço envolvidos numa batalha com a física e com os seus congéneres da indústria do alumínio, para produzirem ligas ainda mais leves”. Ora, o investimento no desenvolvimento de ligas ainda mais leves pouco ou nada fará para reduzir o peso dos automóveis: por um lado porque os notáveis progressos feitos na indústria do aço e alumínio já estão perto dos limites impostos pela física dos materiais e quaisquer ganhos adicionais na leveza ou na robustez dos aços e dos alumínios serão necessariamente marginais e cada vez mais dispendiosos. Por outro lado, porque o aumento do peso do automóvel médio ao longo dos últimas duas ou três décadas ocorreu ao mesmo tempo que a construção automóvel foi recorrendo a ligas metálicas cada vez mais leves (e até a materiais compósitos ultraleves, à base de carbono). Se o peso médio do automóvel médio aumentou apesar dos progressos substanciais na tecnologia dos materiais, porque iriam progressos residuais nesse campo levar à sua diminuição?

Montagem de um Model S na fábrica da Tesla em Fremond, Califórnia

O incremento de peso do automóvel médio não decorre da falta de investimento no desenvolvimento de novas ligas metálicas, mas do apetite dos consumidores por ostentação e afirmação social. Ora este apetite nunca poderá ser saciado, uma vez que, a partir do momento em que também os outros automobilistas adquirem um SUV (ou um simulacro de SUV), a posse de tal veículo deixa de ser uma marca de distinção – a resposta previsível é a aquisição de um novo SUV ainda mais imponente.

Conway também realça que os fabricantes de aço também têm feito grandes progressos no domínio da resistência à corrosão, mas isto pouco alívio trará para a pressão que a indústria automóvel representa para os recursos naturais do planeta, já que o que determina o período de vida dos automóveis que estão hoje a sair das linhas de montagem é menos a corrosão da sua carroçaria do que 1) a degradação e obsolescência da parafernália de componentes electrónicas que controlam todas as suas funções, vitais e acessórias; e 2) a pulsão do consumidor para trocar o seu carro “velho” mas funcional por um modelo mais “à la page” e mais prendado com gadgets e mordomias (ver capítulo “O mundo que a propaganda criou” em Edward Bernays, a arte da propaganda e os donos (invisíveis) disto tudo e capítulo “A ansiedade da corrida” em Estaremos a andar depressa demais?).

Interior do Tesla Roadster de 2.ª geração, cuja comercialização será iniciada em 2025-26. Este modelo será capaz de acelerar de 0 a 100 km/h em cerca de um segundo e o seu preço-base rondará 200.000 dólares

O paradoxo que explica o impasse

A evolução do mercado automóvel nas últimas décadas é um excelente exemplo do Paradoxo de Jevons: os ganhos obtidos graças aos desenvolvimentos no campo dos motores e da aerodinâmica e que permitiriam baixar o consumo de energia, têm sido devorados pela escalada de potência associada ao aumento da dimensão e peso dos veículos; ao mesmo tempo, a cada vez maior preponderância da componente electrónica nos modelos automóveis mais recentes (sobretudo nos veículos eléctricos) requer quantidades crescentes de cobre, cobalto, níquel, lítio e “terras raras”, cuja extracção, processamento e transporte implicam custos energéticos e ambientais adicionais.

Na verdade, ainda que raramente seja mencionado, o Paradoxo de Jevons é um conceito crucial para a compreensão da evolução da tecnologia e da sociedade desde a Revolução Industrial e tem ganho ainda maior pertinência nas décadas recentes (ver capítulos “O Paradoxo de Jevons” e “Avanços que nos deixam no mesmo sítio (ou nos fazem recuar)” em Mark Stoll, a economia e a natureza: É o capitalismo que está a devorar o planeta?). Ele é o nó górdio onde se enlaçam os desejos e expectativas do cidadão/consumidor, os desígnios do mundo empresarial, a preservação/destruição dos sistemas naturais e as decisões (e também as procrastinações, ziguezagues e evasivas) dos governantes e é ele que explica o impasse em que está o mundo do século XXI, dividido entre a pressão para prosseguir o crescimento económico e a pressão para fazer algo para preservar os recursos naturais e os sistemas biofísicos.

Se um dos eixos do Paradoxo de Jevons é a insaciabilidade do apetite pelo consumo (ver capítulos “Uma besta que compra e compra e compra” e “O capitalismo e a natureza humana” em Mark Stoll, a economia e a natureza: É o capitalismo que está a devorar o planeta?), o outro é a ilimitada capacidade do ser humano para dançar na corda bamba da dissonância cognitiva e da auto-ilusão e para congeminar justificações para as cedências que faz para satisfazer esse apetite (ver capítulo “O que pensam as massas de tudo isto” em Alterações climáticas, ideologia e sectarismo: O que está afinal em jogo em Sharm El Sheikh?). Este segundo eixo permite-nos encontrar sempre fundamentações pseudo-racionais para o nosso comportamento consumista e apresentar este – perante os outros e perante nós próprios – como natural, inevitável ou até virtuoso.

Os “desenvolvimentistas” e ultraliberais mais sensatos reconhecem a realidade das alterações climáticas e a sua origem antropogénica, mas tendem a opor-se a medidas que moderem o desenvolvimento económico e arrepiam-se quando ouvem falar da promoção de estilos de vida mais frugais. A sua justificação é que o progresso tecnológico há-de encontrar, infalivelmente, uma forma de conciliar o aumento ilimitado da produção de riqueza, do consumo de recursos e da produção de poluentes e detritos com a preservação da qualidade do ambiente e do funcionamento dos sistemas biofísicos. Os “desenvolvimentistas” invocam em seu favor os sucessivos fiascos das lúgubres e catastróficas previsões do Ensaio sobre o princípio da população (1798), de Thomas Malthus (ver capítulo “Presos na “armadilha malthusiana” em Estará na História a origem da desigualdade entre países ricos e países pobres?), de The population bomb (1968), de Paul Ehrlich, e do relatório Os limites do crescimento (The limits of growth, 1972), encomendado pelo Clube de Roma, falhanços que resultaram, em grande medida, de se limitarem a extrapolar a realidade conhecida, sem prever a entrada em cena de novas tecnologias que permitiram aumentar a eficiência da extracção de matérias-primas, dos processos industriais e da produção e distribuição de energia.

Thomas Robert Malthus (1766-1834), pioneiro dos “profetas apocalípticos” e alvo favorito da chacota dos “desenvolvimentistas”, que crêem que a humanidade se escapou definitivamente da “armadilha malthusiana”

Conway recapitula o velho debate entre “desenvolvimentistas” e “catastrofistas” e sumariza as posições e argumentos dos principais intervenientes – um deles é Friedrich Engels, o que serve, colateralmente, para nos lembrar que a crença no crescimento económico ilimitado, que costuma ser associada a fãs da desregulação e do capitalismo selvagem e a admiradores de Milton Friedman e Javier Milei, também tem defensores no extremo oposto do espectro político.

“De acordo com os mais competentes economistas e estatísticos”

Vale a pena remontar à origem das linhas de Engels citadas por Conway, provenientes do artigo intitulado “Esboços de uma crítica da economia nacional” (“Umrisse zu einer Kritik der Nationalökonomie”), redigido em Manchester em 1843 e publicado no Deutsch-Französische Jahrbücher, em 1844, e reproduzir uma parte mais substancial do trecho: “O poder produtivo ao dispor da humanidade é incomensurável. A produtividade do solo pode ser aumentada ad infinitum pela aplicação de capital, trabalho e ciência. De acordo com os mais competentes economistas e estatísticos […], a ‘sobrepovoada’ Grã-Bretanha pode vir a ser capaz, em dez anos, de produzir cereais suficientes para alimentar uma população seis vezes maior do que a actual. O capital é incrementado todos os dias; a força de trabalho cresce com a população; e, dia após dia, a ciência coloca, cada vez mais, as forças da natureza ao serviço do homem”.

Friedrich Engels c.1840-45, com 20-25 anos, pela altura em que escreveu o ensaio “Esboços de uma crítica da economia nacional”

Por aqui se vê que Engels percebia tão pouco de agricultura e de plantas como o seu camarada Marx percebia de indústria e de operariado, pelo que não é de espantar que a ideologia política que a dupla engendrou tivesse conduzido a tão funestos resultados nas várias ocasiões em que foi posta em prática. Na sua mais duradoura concretização, a URSS, a fé cega na tecnologia e a ideia sobranceira da subjugação da natureza, aliadas a um regime totalitário e repressivo, a decisores megalómanos e desligados da realidade e a uma burocracia monolítica operada por apparatchiks subservientes, redundou numa pavorosa série de calamidades ambientais, sem a contrapartida de, ao menos, ter sido capaz de gerar bens e serviços em quantidade e qualidade suficientes para providenciar uma vida digna aos seus cidadãos (ver capítulo “Sob a bandeira verde do comunismo” em Como a pequena Greta salvou o planeta).

Após a dissolução da URSS, a República Popular da China mostrou ser possível fazer coexistir no mesmo país capitalismo selvagem e uma rígida autocracia comunista (confirmando – se tal fosse necessário – que não é verdade que “o capitalismo é inerentemente democrático”) e, ao mesmo tempo que elevou substancialmente o nível de vida dos chineses, fez declinar vertiginosamente os indicadores de qualidade ambiental em muitas regiões do país e passou a ser a campeã mundial do consumo de recursos naturais e de emissões de dióxido de carbono. Desnecessário será dizer que as prodigiosas mutações que ocorreram na China nas últimas quatro décadas se estribaram na inovação tecnológica, primeiro “pirateando” artefactos e patentes ocidentais, depois desenvolvendo a sua própria tecnologia ainda em termos modestos e depois passando a dar cartas na tecnologia de ponta.

Índice de Qualidade do Ar (AQI, na sigla inglesa) da EPA (Agência de Protecção Ambiental dos EUA) em Pequim durante o ano de 2016: verde, excelente; amarelo, bom; laranja, ligeiramente poluído; vermelho, moderadamente poluído; violeta, muito poluído; vermelho-escuro, extremamente poluído

A verdade é que, em 2025, a tecnolatria está mais difundida e robusta do que alguma vez esteve e, por todo o mundo, governantes, empresários, economistas, analistas políticos e especialistas em prospectiva, dos mais diversos quadrantes ideológicos, estão unidos na crença de que a tecnologia é resposta para todas as questões, e, sobretudo, para a conciliação do crescimento económico ilimitado com a sustentabilidade. O que a elite que decide o destino da civilização parece incapaz de compreender é que o progresso tecnológico, ainda que tenha, conjugado com o capitalismo e a globalização, incrementado vastamente a produção de riqueza, tirado milhões de pessoas da miséria e melhorado substancialmente a esperança média de vida e praticamente todos os indicadores de bem-estar material à escala planetária, não é capaz – em resultado do Paradoxo de Jevons – de nos salvar de nós mesmos.

O mito mais perigoso

A velocidade vertiginosa do progresso tecnológico e o concomitante crescimento da quantidade, qualidade e variedade dos bens e serviços que as empresas colocam ao dispor dos consumidores têm vindo a instilar na humanidade uma sensação de embriaguez e de omnipotência. Os “desenvolvimentistas” mais afoitos até alvitram que já não está longe o momento em que, graças à sua inteligência superior, a humanidade será capaz de libertar-se dos constrangimentos do Mundo Material – uma ideia que Conway rotula como sendo “talvez o mito mais perigoso” do nosso tempo. Escreve Conway que “alguns economistas referem dados oriundos dos EUA e do Reino Unido que mostram que consumimos cada vez menos recursos por cada dólar ou libra de rendimento que geramos. […] Durante a maior parte da história humana, o rendimento económico acompanhou de perto a exploração de recursos naturais – e o consumo de energia – mas nas últimas duas décadas as duas linhas divergiram: o PIB continuou a crescer enquanto o consumo de recursos estagnou. Isto, afirmam os economistas, é a prova segura de que ‘obtemos mais a partir de menos’” (pg. 24).

Intensidade energética na União Europeia, expressa em quilogramas de petróleo-equivalente consumidos para gerar 1000 euros de riqueza. Note-se que todos os países-membros registaram um declínio da intensidade energética entre 2012 e 2022

Tal como houve físicos e engenheiros mecânicos a tentarem construir uma máquina de movimento perpétuo, também os “desenvolvimentistas” têm (desde que as questões do esgotamento dos recursos, da poluição e da sustentabilidade ganharam protagonismo) difundido a ideia de que é possível desacoplar a produção de riqueza do consumo de recursos – porém, se o moto-contínuo é interditado pelas leis da termodinâmica, a desacoplagem é sabotada pelo Paradoxo de Jevons. Ou seja, até podemos estar a “obter mais a partir de menos”, mas se a produção de riqueza também aumentar – para satisfazer a ambição por consumir mais e com maior luxo, requinte e “exclusividade” – a pressão sobre os recursos e a emissão de poluentes não se reduzirão tanto quanto seria expectável; nos países em desenvolvimento, com elevas taxas de crescimento do PIB, poderão não se reduzir de todo e até aumentar. O gráfico abaixo, respeitante à União Europeia no período 2020-23, mostra que as emissões de gases de efeito de estufa e o PIB estão a divergir, ainda que de forma pouco pronunciada – e claramente insuficiente para poder falar-se de “desacoplagem”.

Emissões de gases de efeito de estufa repartidos por sector de actividade (em milhões de toneladas de CO2-equivalente) e PIB (em biliões de euros) na União Europeia, 2020-23

Se analisarmos o consumo de energia final na União Europeia em 1990-2022 (gráfico abaixo), constatamos que o valor de 2022 pouco difere do de 1990: registou-se um ligeiro declínio no consumo de combustíveis fósseis (a diminuição no consumo de petróleo foi parcialmente compensada pelo aumento no consumo de gás natural) e um aumento do contributo das energias renováveis. Porém, o ritmo de mudança registado até agora sugere que o objectivo de atingir emissões de carbono zero em 2050 está completamente fora do nosso alcance, salvo colapso civilizacional em resultado de calamidades naturais ou conflito generalizado. Um estudo realizado por Jefim Vogel & Jason Hickel, intitulado “Is green growth happening? An empirical analysis of achieved versus Paris-compliant CO2-GDP decoupling in high-income countries”, publicado em Setembro de 2023 em The Lancet: Planetary Health, debruçou-se sobre os 11 países altamente desenvolvidos que conseguiram alcançar algum grau de desacoplagem entre as emissões de CO2 e o PIB no período 2013-19 e concluíram que, mesmo no cenário mais favorável imaginável, iriam precisar de 220 anos para reduzir as suas emissões CO2 em 95%.

Consumo de energia final na União Europeia em 1990-2022, em petajoules (o prefixo “peta” corresponde a um “1” seguido de 15 zeros)

Para mais, há que considerar que apenas uma parte da modesta redução de consumo de energia e de emissões de carbono na Europa resultou do incremento da produção de energia renovável e do aumento de eficiência energética. A outra parte resultou de a Europa (tal como os EUA) se ter desindustrializado maciçamente, nomeadamente em sectores altamente poluentes, como a produção de aço e outros metais e ligas metálicas e de cimento, e de essa produção industrial estar hoje concentrada na Ásia – e, em particular, na China. O Ocidente pode orgulhar-se de ter desactivado minas de carvão e centrais eléctricas alimentadas a carvão ou a petróleo, mas elas continuam em funcionamento na Ásia Oriental – e até a multiplicar-se – de forma a alimentar as indústrias que processam e refinam matérias-primas e produzem bens que são exportados para o Ocidente (ver capítulo “O cavaleiro verde (murcho) da descarbonização” em As alterações climáticas e a conferência das Nações Unidas: O Grande Circo Carbónico).

Consumo de energia na China, repartida por fontes, 1965-2020 (em terawatts-hora). Cor-de-rosa, petróleo; cinzento, carvão; verde, gás natural; cor-de-laranja, nuclear, azul claro, energia hidroeléctrica; violeta, vento; amarelo, solar

Assim, a redução do consumo de combustíveis fósseis no Ocidente é largamente superada pelo aumento no resto do mundo, pelo que o consumo global tem continuado a aumentar. Quando confrontados com estes factos, os “desenvolvimentistas” argumentam que é positivo que o aumento do consumo global de combustíveis fósseis entre 2000 e 2010 tenha sido de 25% e entre 2011 e 2021 tenha sido “apenas” de 15%, mas é um fraco consolo: a taxa de aumento diminuiu, mas não deixa de ser um aumento, e o objectivo dos acordos internacionais e das sucessivas COPs sobre alterações climáticas é que a queima de combustíveis fósseis diminua drasticamente, até se tornar nula (ou perto disso). Ora, as únicas ocasiões em que o consumo global de combustíveis fósseis se reduziu ligeiramente ou estagnou foi quando a actividade económica se contraiu ou estagnou – em 2009-10 devido à crise financeira global espoletada pelo rebentamento da “bolha” das hipotecas subprime nos EUA; em 2015, quando da crise das dívidas soberanas na Europa; e em 2020, quando da pandemia de covid-19.

Mesmo que os decisores políticos e empresariais tivessem uma genuína vontade de caminhar para a neutralidade carbónica, há que considerar o tremendo obstáculo que são os pesados investimentos que governos e empresas necessitam de realizar nesse sentido, sobretudo no sector da produção e distribuição de energia. De acordo com um estudo de 2023 pela New Economics Foundation (NEF), apenas quatro dos 27 membros da União Europeia dispõem de margem orçamental para fazê-los (ver capítulo “’Desenvolvimento sustentável’ é um oxímoro?” em Mark Stoll, a economia e a natureza: É o capitalismo que está a devorar o planeta?).

A miragem da neutralidade carbónica

Ainda que, contra todas as circunstâncias e estimativas, se alcançasse a neutralidade carbónica em 2050, tal não significaria o fim da crise climática, já que o CO2 emitido para a atmosfera permanece por lá durante cinco a 200 anos (ver capítulo “Os mestres do ilusionismo” em As alterações climáticas e a conferência das Nações Unidas: O Grande Circo Carbónico). A ideia de que atingir emissões zero em 2050 equivale a solucionar a crise climática é uma perigosa falácia: alcançar essa meta significa apenas que deixámos de aumentar a concentração de CO2 a cada ano que passa. Mas continuaremos a sofrer as consequências climáticas de todo o CO2 emitido desde a Revolução Industrial. A concentração atmosférica de CO2 passou de 280 partes por milhão (ppm) na era pré-industrial para 422 ppm no presente. Se atingirmos o objectivo de emissão zero, o teor de CO2 começará a baixar muito lentamente, mas ninguém é capaz de prever quantas décadas ou séculos serão necessários para que regresse aos 280 ppm, nem com que rapidez as alterações climáticas dele resultantes serão revertidas (se é que o serão – muitos climatologistas alertam para o risco de se ultrapassar um ponto em que os padrões climáticos sofrem mudanças irreversíveis).

Se um obeso mórbido, que há 20 anos segue uma dieta hipercalórica que o faz engordar um quilograma por mês, se submeter a um regime rigoroso em que a ingestão de calorias é progressivamente reduzida, de forma a tornar-se caloricamente neutra dentro de dois anos, tal não significa que o obeso mórbido irá, daqui a dois anos, começar a perder peso, muito menos que, nessa data, irá, instantaneamente, ficar com um corpo apolíneo ou que os problemas de saúde decorrentes de duas décadas de obesidade se irão dissipar sem deixar sequelas; significa apenas que deixará de engordar ainda mais. Ao contrário do que muitos pensam, a neutralidade carbónica não representará o fim dos nossos problemas, é somente a primeira etapa – e nem sequer a mais difícil – no longo e árduo caminho para a verdadeira sustentabilidade.

Mas as “más notícias” não se ficam por aqui: Conway lembra que o facto de o debate em torno da crise ambiental estar hoje focado nas alterações climáticas e nas emissões de carbono nos faz esquecer que os “combustíveis fósseis representaram sempre apenas uma fracção do volume total de recursos que extraímos da Terra. Por cada tonelada de combustíveis fósseis, exploramos seis toneladas de outros materiais – sobretudo areia e pedra, mas também metais, sais e químicos” (pg. 26).

ERIC PRADO

A Bingham Canyon Mine, no Utah, EUA, iniciou actividade em 1906 e produz minério de cobre; ocupa uma área de 770 hectares, tem uma profundidade de 1200 metros e é a maior escavação criada pelo homem

O padrão na evolução da extracção de matérias-primas tem afinidades com o padrão referido para as emissões de carbono: o Ocidente reduziu algumas actividades extractivas mais deletérias para o ambiente, em resultado de 1) já ter esgotado os depósitos minerais mais acessíveis e rentáveis (uma vez que, sendo o berço da Revolução Industrial, começou a extraí-los primeiro) e de 2) a adopção de normas ambientais e a contestação das populações locais e organizações ambientalistas inviabilizarem ou tornarem pouco rentável (ver capítulo “A deslocalização de tudo o que é desagradável” em Como a pequena Greta salvou o planeta e o último ponto do capítulo “A crise ambiental: Um optimismo assente em falácias” em Estará na História a origem da desigualdade entre países ricos e países pobres?), mas essa redução tem sido mais do que compensada pelo aumento da extracção noutras geografias.

Neste domínio, a discrepância entre a realidade da voracidade humana e o discurso optimista sobre sustentabilidade é ainda maior do que nos combustíveis fósseis: “em 2019 […] minerámos, escavámos e fizemos explodir mais materiais da superfície da Terra do que extraímos entre a alvorada da humanidade e o ano de 1950 […]. E 2019 não foi uma excepção. Na realidade, podemos afirmar precisamente o mesmo para quase todos os anos desde 2012” (pg. 25).

Arne Müseler

Mina de lenhite (carvão castanho) de Garzweiler, na Alemanha: labora desde 1983, estende-se por 4800 hectares, tem uma profundidade máxima de 120 metros e produz anualmente 35 milhões de toneladas de carvão

A lei dos retornos decrescentes

Aos motivos já invocados para que não se deposite excessiva esperança na ciência e na tecnologia para solucionar os grandes problemas da humanidade há que somar mais um: os cientistas e os especialistas têm escassa influência na condução dos destinos da humanidade. Esta está nas mãos de decisores políticos e dos ideólogos que os inspiram e boa parte deles (como se apontou no primeiro capítulo deste artigo) tem noções vagas, parcelares ou até equivocadas sobre o funcionamento do Mundo Material – e há poucas demonstrações mais cabais desta ignorância do que o excerto de Friedrich Engels acima transcrito. Ao afirmar que “a produtividade do solo pode ser aumentada ad infinitum pela aplicação de capital, trabalho e ciência”, o co-autor do Manifesto Comunista revela desconhecer um conceito fulcral da economia – o de produtividade marginal decrescente (“law of diminishing returns”), que dita que o acréscimo de rendimento de uma actividade produtiva que se obtém do incremento de um dos factores de produção (mantendo tudo o resto igual) diminui a cada novo incremento.

Consideremos um exemplo hipersimplificado envolvendo o cultivo de batatas: se adicionarmos ao solo 30 kg de adubo azotado por hectare, a produção irá aumentar; se incrementarmos a adubação para 60 kg/ha a produção irá aumentar novamente, ainda que um pouco menos do que quando se passou de 0 para 30 Kg/ha; se aplicarmos 90 kg/ha, a produção será apenas marginalmente superior à obtida com a adubação de 60 kg/ha; e se aplicarmos 120 kg/ha, a produção de batatas não registará incremento algum face à obtida com 90 kg/ha; aplicações de adubo mais elevadas podem ser nocivas para as batateiras e fazer a produção cair.

Evolução típica da produção de um dado cultivo (eixo vertical) em função da quantidade de adubo azotado aplicada (eixo horizontal). Note-se que, como a adubação tem custos, a dose óptima do ponto de vista económico (Oe) é inferior à dose óptima do ponto de vista da maximização da produção (Op)

Algo de similar se passaria se, em vez de aumentarmos a adubação, aumentássemos a irrigação, o número de trabalhadores ou a aplicação de meios de controlo de pragas, ou outro factor de produção. A partir de um certo patamar, o incremento dos factores de produção não só não aumenta a produção como pode ter efeitos negativos noutros domínios (que os economistas costumam designar por “externalidades negativas”): no exemplo do adubo azotado e das batatas, o adubo em excesso, que as plantas não são capazes de absorver, escorre para o meio aquático e infiltra-se no subsolo, podendo causar eutrofização em lagos e cursos de água, mortalidade de peixes e outra fauna aquática, crescimento explosivo de cianobactérias produtoras de substâncias tóxicas (com as consequentes limitações no uso dessas águas) e contaminação das águas subterrâneas.

O mesmo se passa com o investimento de um país em infra-estruturas de transportes: se este possuir uma rede viária rudimentar, o desenvolvimento económico será fortemente estimulado com a construção de uma rede de auto-estradas conectando as principais cidades e centros de produção e o PIB tenderá a aumentar. A extensão dessa rede básica a cidades secundárias, com modesta dinâmica económica e demográfica, também induzirá algum aumento do PIB, mas não tanto quanto o primeiro investimento. Se, numa terceira fase de expansão, se construírem auto-estradas redundantes, se aumentar o número de faixas de rodagem nas auto-estradas construídas nas fases 1 e 2 e se construírem auto-estradas para lugares ermos, é provável que o PIB pouco ou nada beneficie deste investimento, ainda que possa, nalguns casos, favorecer a coesão territorial (como os portugueses sabem, este exemplo não é meramente imaginário).

A Auto-estrada A4, ou Auto-estrada Transmontana (na foto, junto ao Túnel do Marão), liga Matosinhos a Quintanilha, numa extensão de 222 km. Dos cinco sublanços das auto-estradas nacionais com menor tráfego médio diário, quatro pertencem à A4

Na verdade, a lei dos retornos decrescentes (designação que soa mais abrangente do que produtividade marginal decrescente) extravasa largamente a área da economia e descreve muitos aspectos do funcionamento do mundo e das vidas de cada um de nós: ela manifesta-se na relação horas passadas a jogar matraquilhos vs. proficiência nos matraquilhos; no investimento em aparelhagem de alta fidelidade vs. qualidade de som obtida; nas horas dedicadas à prática do trombone vs. desempenho como trombonista; no dinheiro despendido pelo Estado no sector da educação vs. competências efectivamente adquiridas pelos alunos; no montante investido na contratação de novos jogadores vs. resultados desportivos do clube.

A lei dos retornos decrescentes condiciona fortemente actividades como a produção de energia, a exploração e gestão de recursos naturais e a poluição, que são temas centrais do livro de Conway. Quando um país começa a promover a instalação de parques eólicos, é natural que os primeiros a serem construídos sejam localizados nos locais onde o vento é mais forte e constante; depois, à medida que se instalam turbinas em regiões de ventos menos propícios, os acréscimos na produção de energia eólica por cada novo parque vão diminuindo. O mesmo se passa com a energia hidroeléctrica: as primeiras centrais hidroeléctricas são construídas em rios de caudal elevado e cujo curso inclui vales encaixados, que facilitam o represamento; à medida que os rios mais “rentáveis” ficam represados, os novos aproveitamentos hidroeléctricos terão de estender-se a rios de caudais fracos ou irregulares e em que os custos – financeiros ou ambientais – de construção das barragens são mais elevados.

Considere-se agora a reciclagem de plástico: atingir taxas de reciclagem de cerca de 50% não é meta impossível de alcançar (alguns – poucos – países já lá chegaram), mas daí para a frente, cada ponto percentual extra requer maior esforço, tempo e empenho dos cidadãos e das entidades envolvidas nos programas de reciclagem e maior dispêndio em sofisticados mecanismos de recolha, triagem e processamento de plásticos; para mais, há certos tipos de plástico que nem sequer são passíveis de reciclagem, pelo que, mesmo que todos os cidadãos fossem paradigmas de zelo ambiental, nunca se chegará perto dos 100% de reciclagem de plástico.

Evolução da produção e destino do plástico a nível global no período 1950-2015, em milhões de toneladas por ano: a azul, produção; a castanho, deposição em aterro; a vermelho, incineração; a verde, reciclagem; a amarelo, soma dos três destinos anteriores

Também as águas residuais (domésticas e, nalguns casos, industriais) podem ser recicladas (e já o são nalgumas regiões do mundo) e há muito que existe tecnologia que permite obter água reciclada apta para todos os fins, incluindo o consumo humano. Porém, os custos (energéticos, materiais e financeiros) de obter água quase pura a partir de efluentes são proibitivos, pelo que tal só é realizado em situações em que não existe outra opção e os volumes envolvidos são irrisórios, como é o caso de astronautas no espaço. Nas situações correntes, o mais razoável será limitarmo-nos a transformar efluentes em água adequada à irrigação de culturas agrícolas, campos de golfe e espaços ajardinado, à lavagem de ruas e à recarga de aquíferos. Na verdade, já deveríamos ter começado a fazê-lo há décadas, pelo menos nas regiões de precipitação mais escassa e irregular, antes mesmo de o tema das alterações climáticas ter saído dos gabinetes das universidades e ter chegado ao espaço público.

Projectos de reutilização de água na Europa, segundo uso final, em 2017. Os números dizem respeito ao número de projectos em cada país. Note-se que Portugal soma 19 projectos (nenhum deles para fins agrícolas) e Espanha 361 (176 para fins agrícolas)

O paradoxo do esgotamento

A extracção de minérios e combustíveis fósseis tem seguido, desde sempre, o mesmo padrão: primeiro exploram-se as jazidas mais ricas e mais acessíveis e, após esgotar estas, a exploração transita para jazidas com teores inferiores de minério e localizadas a profundidades maiores ou cuja mineração é mais perigosa ou requer tecnologia mais sofisticada e dispendiosa ou mais mão-de-obra, e assim sucessivamente. De certo modo, também este tipo de actividades parece subordinada a uma tendência de retornos decrescentes, que há-de desembocar, inevitavelmente, no ponto em que a receita obtida com a venda do minério é igualada pelo custo de o extrair. Em meados do século XX, começou a emergir o receio de que parte substancial das reservas conhecidas de minérios e combustíveis fósseis fossem esgotar-se em poucas décadas, com o inevitável resultado de uma travagem no crescimento económico e demográfico. Foram estas considerações que levaram às previsões “catastrofistas” de The population bomb e de Os limites do crescimento e ao consequente tom apocalíptico dos apelos dos activistas ambientais desde então. Porém, as datas fatídicas anunciadas por estas projecções já ficaram para trás e as minas e os poços de petróleo não só continuam a operar, como extraem maiores volumes de matérias-primas do que em qualquer época da história, pelo que, embora a procura tenha aumentado, os preços daquelas não atingiram os valores exorbitantes previstos pelos “catastrofistas”.

Evolução da produção mundial de cobre, em milhões de toneladas/ano, 1900-2015

Como puderam os cálculos dos “catastrofistas” falhar tão redondamente?

Conway explica-o no capítulo 11, “O buraco”, cujo tema de partida é Chuquicamata, no Chile, uma mina de cobre em laboração desde 1882, que ocupa 950 hectares e atinge 850 metros de profundidade (o que faz dela a segunda mina a céu aberto mais profunda do mundo). Uma das razões aduzidas por Conway é termo-nos tornado “cada vez melhores a produzir mais coisas com menos mão-de-obra”.

Diego Delso

Mina de cobre de Chuquicamata, Chile

“Na época do Império Romano, o preço de uma tonelada de cobre puro equivalia a cerca de 40 anos de salário médio. […] Em 1800, este número baixara para seis anos por tonelada. Nos 200 anos subsequentes desceu para apenas 0.06 anos por tonelada” (pg. 288). Conway omite que, a partir de 2003-04, o preço do cobre tem vindo a sofrer forte aumento, puxado pela omnipresença da electrónica na vida quotidiana e, em particular, pela ascensão dos veículos eléctricos. Ainda assim, o preço real (isto é, corrigido do efeito da inflação) do cobre no final de 2024 – 9000 dólares/tonelada – continuava a ser inferior ao registado no início do século XX. Boa parte dos ganhos de eficiência que permitiram a baixa do preço foram obtidos pela entrega de tarefas que requeriam imensa mão-de-obra a maquinaria, uma mudança que está longe de estar concluída: “a próxima grande novidade neste negócio é automatizar os camiões e as escavadoras gigantescas, para que não precisem de condutores nem de operadores” (pg. 289).

Evolução do preço (em dólares) da tonelada de cobre, 1850-2012, em termos nominais (a azul) e reais (a vermelho)

A segunda razão para o falhanço das previsões, é “termos descoberto processos mais eficientes de extrair o metal da rocha” (pg. 299), o que permitiu explorar jazidas de baixo teor metálico, que há meio século seriam vistos como economicamente inviáveis, e até reprocessar a escória rejeitada em minerações anteriores. Conway recorre ao exemplo do cobre: no século XVIII, o teor de cobre do minério extraído nas minas rondava, tipicamente, os 12%; esgotados os filões mais ricos, em 1913, o teor médio de cobre no minério já baixara para 2.4% e desceria “para menos de 2% em meados do século e para menos de 1% no fim do mesmo” (pg. 286). As inovações que tornaram possível “espremer” mais metal de jazidas já conhecidas fizeram dilatar as reservas globais totais de cobre, sem que tenham sido descobertas novas jazidas. Foi assim que “entre 2010 e 2020 extraímos 207 milhões de toneladas de cobre do planeta, mas as reservas globais totais de cobre, longe de estarem a diminuir, cresceram 240 milhões de toneladas” (pg. 290).

Evolução do teor de cobre no minério extraído, 1770-2010

Economia ciclópica

Só que há um preço pesado a pagar por este “milagre da multiplicação”: a exploração de jazidas cada vez mais pobres obriga a remover e processar volumes cada vez maiores de minério para obter a mesma quantidade de metal. “Entre 1900 e os nossos dias, a quantidade de minério que era necessário remover e tratar de modo a produzir uma só tonelada de cobre subiu de 50 para 800 toneladas. O volume de água consumido no processo passou de 75 para 150 m3. A energia necessária para todo este trabalho cresceu de 250 para 4000 kWh [valores relativos a uma tonelada de cobre]” (pg. 286). Como é possível que o preço da tonelada de cobre tenha baixado entre o início e o fim do século XX se os custos energéticos aumentaram 16 vezes e o consumo de água duplicou e a maquinaria usada é mais sofisticada e dispendiosa e requer operários mais qualificados e, logo, mais bem pagos?

Vagão de transporte de minério, final do século XIX, Copper Queen Mine, Bisbee, Arizona

A explicação está noutro conceito económico fulcral e nem sempre bem compreendido (e frequentemente mal visto): a economia de escala. As modernas minas só são economicamente viáveis porque operam a uma escala colossal: no início do século XX, os minérios eram usualmente explorados em minas em profundidade, sendo o minério transportado em pequenos vagões com capacidade para cerca de uma tonelada de minério; estas minas deram lugar, em muitos casos, a vastas explorações a céu aberto, os vagões deram lugar a camiões que foram crescendo de capacidade até atingirem cerca de 40 toneladas no final da década de 1980, quando foram substituídos pelos megacamiões hoje correntes, com capacidade para mais de 400 toneladas; as escavadoras e as unidades de processamento do minério de hoje têm dimensões proporcionais às dos camiões.

O maior camião mineiro actualmente em serviço, o BelAZ 757109, de fabrico bielo-russo e lançado em 2013, tem 20.6 metros de comprimento, 9.9 metros de largura, 8.3 metros de altura e capacidade para 450 toneladas de minério

A economia de escala é também a razão de as centrais solares tenderem a ocupar áreas cada vez maiores – em Junho de 2024, entrou em funcionamento uma central que se espraia por 200.000 hectares, numa região árida perto de Urumqi, a capital da província chinesa de Xinjiang, e cuja capacidade instalada é de 5 GW, arrebatando o título de maior central solar do mundo a outro empreendimento chinês.

Também as dimensões e a potência do aerogerador médio têm vindo a aumentar: o diâmetro dos rotores duplicou entre 1990 e 2016 (de 50 metros para 109 metros), o que tornou o seu fabrico e instalação muito mais desafiante e dispendioso, mas os ganhos de eficiência compensam largamente este acréscimo de custos, pois a potência gerada por cada turbina aumentou, no mesmo período, mais de 50 vezes (de 0.05MW em 1990 para 2.84 MW em 2016).

Evolução do aerogerador médio entre 1998 e 2022 nos EUA: diâmetro do rotor a verde, altura do eixo do rotor a azul e potência a cinzento

As limitações físicas irão, mais tarde ou mais cedo fazer o crescimento dos aerogeradores abrandar e estagnar, mas, por enquanto, os recordes de dimensão e potência continuam a cair com poucos meses de intervalo: o aerogerador mais potente do mundo, com um rotor de 310 metros de diâmetro, eixo a 185 metros de altura e uma potência de 26 MW entrou em funcionamento em Outubro de 2024 ao largo da costa da província de Fujian, mas talvez já tenha sido destronado pela altura em que estas linhas estão a ser escritas.

Foi a combinação da economia de escala e da inovação tecnológica que permitiu que o custo da electricidade produzida por painéis solares e aerogeradores caísse vertiginosamente nas últimas décadas, sendo hoje mais barata do que qualquer dos seus concorrentes, nomeadamente o petróleo, o carvão e a energia nuclear, que já não têm margem para obter ganhos da economia de escala (uma vez que há muito operam em grande escala) e cuja tecnologia atingiu a maturidade há muito.

Custo nivelado da electricidade (LCOE : levelized cost of eletricity) de diferentes formas de geração entre 2009 e 2023, nos EUA, em dólares por MWh. O LCOE integra todos os custos inerentes à forma de geração de electricidade em apreço ao longo de todo o seu ciclo de vida

Os leviatãs que transportam a sua air fryer e a sua smart TV

O gigantismo não se limita ao sector primário, está também presente na manufactura de produtos, na logística e no retalho. Conway dá o exemplo dos modernos navios porta-contentores, cada um dos quais “consegue transportar mais carga do que aquela que toda a marinha mercante inglesa transportou no século XVI” (pg. 444).

Conway poderia ter acrescentado que as dimensões leviatânicas dos navios que hoje asseguram o grosso do transporte de carga e que tanto abespinham os ambientalistas e alguma esquerda, trazem também vantagens do ponto de vista das emissões de carbono. No total de emissões de CO2 à escala planetária, os transportes representam 20%, dos quais 11% correspondem a transporte marítimo, 39% a automóveis de passageiros e 23% a camiões. No transporte marítimo, as emissões repartem-se assim entre os diferentes tipos de navios: 30% para porta-contentores (o que significa que estes representam 0.6% das emissões totais de CO2), 28% para graneleiros (entre os quais se contam os navios que transportam minérios), 21% para petroleiros e 8% para navios de transporte de gás; os (justamente) contestados navios de cruzeiro ficam-se por uma quota de 0.5%. Ora, não só o transporte de carga por via marítima é vital para a economia, como é o meio que emite menos carbono por tonelada transportada e por quilómetro percorrido, com 5-60 gramas de CO2, contra 10-120 gramas no transporte ferroviário, 75-160 gramas no transporte rodoviário e 500 gramas no transporte aéreo. Dentro do transporte marítimo, as emissões de CO2 por tonelada transportada e por quilómetro percorrido diminuem – como seria de esperar – à medida que a tonelagem dos navios aumenta (ver capítulo “O mundo arrumado em caixas coloridas” em O que não sabemos (e aquilo que julgamos saber) sobre a História da Humanidade nos oceanos). Ou seja, se os 20.000 contentores transportados por um ULCV (Ultra Large Container Vessel) fossem repartidos por dez Feeders (navios com capacidade para 1000-2000 contentores), o consumo de combustível e as emissões de CO2 da segunda opção seriam muito superiores (e os gastos com a tripulação também). Essas economias estão, aliás, patentes na designação “Triple E” que a Maersk deu à sua segunda geração de ULCV, iniciada em 2013 com o Maersk Mc-Kinney Møller: os três “E” de “Triple E” aludem a “economia de escala”, “eficiência energética” e “environmental impact improvement” (impacto ambiental atenuado).

O Maersk Mc-Kinney Møller, na sua viagem inaugural através do Canal do Suez, em 2013

A contestação da extrema-esquerda e dos partidos e grupos ambientalistas aos navios porta-contentores gigantes faz parte da aversão mais lata ao “Grande Capital” e aos empreendimentos de grande dimensão: acusam-nos de práticas monopolistas, de lobbying junto do poder legislativo e executivo, de recorrerem a artifícios evasivos para se furtarem ao cumprimento das suas obrigações fiscais e sociais, de oposição à sindicalização dos seus trabalhadores, de abuso de posição dominante, de perseguição, intimidação e absorção das empresas concorrentes de menor dimensão, de distorções na funcionamento dos mercados e de fixação de preços artificialmente altos, que prejudicam o consumidor final. Estes comportamentos do Grande Capital são reais e frequentes e cabe aos Estados e às organizações que supervisionam o comércio internacional produzir regulamentação adequada e zelar para que esta seja estritamente cumprida. Porém, ao demonizarem, indiscriminadamente e por princípio, toda a actividade económica de grande envergadura, a extrema-esquerda e os ambientalistas parecem não se dar conta de que, em muitas áreas de actividade, sem as economias de escala que o gigantismo propicia, o custo das matérias-primas e dos produtos que com elas são fabricados seriam exorbitantes. Sem as economias de escala, os bens e serviços que hoje fazem parte do quotidiano da classe média – automóvel particular, máquinas de lavar roupa e louça, forno de microondas, air fryer, televisor HD 4K de 50 polegadas, ar condicionado em casa, férias em destinos turísticos da moda – ficariam apenas ao alcance das classes possidentes e a “classe trabalhadora”, de que a extrema-esquerda se reclama estrénua defensora, viveria na semi-indigência ou morreria à míngua.

Se tomarmos como ponto de partida simbólico do capitalismo moderno a “oferta pública inicial” da Companhia das Índias Orientais (VOC, na sigla holandesa), em 1602, e a concomitante criação da Bolsa de Valores de Amesterdão, pode concluir-se, decorridos mais de quatro séculos, que o capitalismo tem sido manifestamente incapaz de resolver os problemas da desigualdade da distribuição de rendimentos e da sustentabilidade ambiental, mas que, em contrapartida, provou que, no que respeita à produção, tem sido superior a qualquer outro sistema político-económico (ver O capitalismo faz o trabalho de Deus ou do Diabo?).

Os “químicos” que nos envenenam (e alimentam)

O outro grande ódio de estimação da extrema-esquerda e dos partidos e grupos ambientalistas são os produtos agroquímicos – frequentemente designados, simploriamente, como “os químicos” – que, como seria de esperar, são associados ao “Grande Capital”. “Os químicos” também são execrados por outros dois grupos de natureza bem diversa: o dos gourmets (ou foodies) e o dos ortoréxicos (vítimas de uma perturbação do foro psiquiátrico caracterizada pela preocupação obsessiva com a alimentação “saudável” e “natural”). Para uns e outros, não basta que a aplicação de “químicos” se faça segundo as regras estabelecidas pelas autoridades competentes em função do conhecimento científico disponível – há que evitar “corromper” as culturas agrícolas com quaisquer produtos “não-naturais”, o que significa, na prática, um retorno às práticas agrícolas da era pré-industrial. A devoção à “agricultura biológica” (e às suas derivações mais ou menos esotéricas, como a “agricultura biodinâmica”, a “agricultura holística” e a “permacultura”) e aos “produtos naturais” tende a ser tanto mais intensa quanto menos se sabe sobre agronomia e biologia e mais longe se vive da natureza, e assume por vezes contornos dignos de seita religiosa, com cada guru a tentar impor regras de pureza mais estritas e ascéticas do que os seus pares – há tempos, o sibarita-mor do reino e oráculo infalível do consumo e do lifestyle, Miguel Esteves Cardoso, na sua coluna no Público, louvava os frutos divinos vindos de limoeiros cuidados de forma tão pura que, a dar crédito aos seus proprietários, não levavam adubo orgânico de qualquer tipo e nem sequer eram regados (este último milagre, a ser atestado, só teria par na imaculada concepção de Jesus pela Virgem Maria).

O capítulo “A droga do fogo”, o terceiro que Conway dedica ao sal (no sentido lato), começa em Antofagasta, no Chile, antigo porto de embarque do nitrato de sódio (ou salitre) proveniente do deserto de Atacama, produto que, entre meados do século XIX e a I Guerra Mundial, desempenhou um papel crucial, um pouco por todo o mundo, no incremento da produção agrícola e no fabrico de explosivos, sendo tão cobiçado que lhe foi dado o epíteto de “oro blanco” e esteve na origem de um conflito bélico opondo o Chile à Bolívia e ao Peru, que ficou conhecido como Guerra do Salitre ou Guerra do Pacífico (ver Da China a Olivença, a cartografia do rancor).

A Batalha de San Francisco (ou de Dolores), travada a 19 de Novembro de 1879, foi uma das vitórias chilenas na Guerra do Salitre

Durante a I Guerra Mundial, a Alemanha, ao ver-se privada do acesso aos nitratos do Chile pelo bloqueio imposto pela Royal Navy, viu-se forçada a recorrer a uma alternativa para fabricar adubos e explosivos – o processo Haber-Bosch. Este, que começara a ser desenvolvido nos primeiros anos do século XX pelo químico Fritz Haber e permitia obter amónia (NH3) a partir do azoto atmosférico, mediante elevados gastos energéticos, entrou em produção industrial em 1913 (ver capítulo “BASF” em Da aspirina à cassette: A história das marcas alemãs da indústria química) e “aplicou um golpe quase fatal à indústria de nitratos do Chile” (pg. 179).

Produção mundial de fertilizantes, 1961-2014: rosa, de potássio; vermelho, fosfatados; azul, azotados

Na secção “Transformar ar em alimento”, Conway classifica o processo Haber-Bosch como “uma das descobertas científicas e industriais mais importantes da história”, tendo vindo a dar contributo vital para banir “o flagelo da fome e carestia. A percentagem de pessoas subnutridas no mundo caiu de cerca de 65% em 1950 para menos de 10% em 2010, em grande parte devido ao aumento da produção agrícola conseguida pela aplicação de adubos baratos e acessíveis. […] Se não fossem estes químicos, teríamos de converter todos os quilómetros quadrados do planeta à produção agrícola, cobri-los com estrume de um estábulo de animais igualmente vasto e, mesmo assim, apenas conseguiríamos alimento para cerca de metade da população mundial” (presume-se que Conway se refere à população mundial presente, de 8000 milhões de pessoas).

Dependência da produção agrícola em função dos fertilizantes, 1900-2015: a cinzento, população sustentada por fertilizantes azotados naturais; a rosa, população sustentada por fertilizantes azotados sintéticos

A secção “A verdade acerca do tomate”, do capítulo “O material mais versátil”, um dos três que Conway dedica ao petróleo e outros combustíveis fósseis, evidencia a absoluta dependência da agricultura moderna dos combustíveis fósseis. Estes providenciam o plástico que cobre as estufas (polietileno), o aquecimento (e, por vezes, também a iluminação) das estufas, a energia para a operação dos sistemas de rega e da maquinaria agrícola (que é cada vez mais sofisticada e permite dispensar muita da mão-de-obra humana) e a energia necessária à síntese dos adubos azotados; nalgumas estufas, os gases da combustão do sistema de aquecimento são reaproveitados e injectados na estufa, pelo que parte do CO2 que a fotossíntese converte nos tecidos dos tomates e alfaces acaba por provir também de combustíveis fósseis. “Em consequência”, escreve Conway, “um quilograma de tomate de estufa gera até três quilogramas de dióxido de carbono “ (pg. 353).

Para que as culturas agrícolas vicejem numas partes do mundo, é preciso que outras partes sejam convertidas em paisagens lunares: Mina de fosfatos (sob a forma de apatite) de Särkijärvi, uma das duas minas que exploram o filão de apatite de Siillinjärvi, na Finlândia

Como dar de comer a 8000 milhões de pessoas?

Os gourmets podem ter razão quando catalogam o sabor do tomate de estufa como medíocre ou até abominável, os ortoréxicos podem ter razão quando denunciam o menor valor nutricional do tomate de estufa e os ambientalistas podem ter razão quando acusam o modo de produção do tomate de estufa de ser ambientalmente nocivo, mas se o tomate de estufa fosse abolido, a maior parte da população mundial deixaria de comer tomate, por ser incapaz de pagar o preço do tomate dito “biológico”. Na verdade, mesmo que o consumidor remediado estivesse disposto a pagar o preço superior do tomate biológico, sacrificando outros consumos, trabalhando horas extraordinárias ou desfazendo-se do automóvel, a produção global em moldes “biológicos” apenas seria capaz de suprir as necessidades de parte da população – mesmo que, por absurdo, alastrasse à floresta amazónica e ao Deserto do Gobi e não deixasse uma nesga de área natural no planeta.

Exigir a interdição do uso de adubos químicos na agricultura e o recurso exclusivo a práticas agrícolas ditas “biológicas” é tão estulto como exigir o “fim ao fóssil” (como dizem os ecotontos) até 2030. Acaso lhes fosse dado cumprimento, qualquer destas exigências, em separado, levaria não à redescoberta da harmonia entre a humanidade e a natureza e à conversão desta Terra tão maltratada num novo Jardim do Paraíso, mas a uma megadepressão económica global, a tremendas convulsões sociais, à morte de centenas (ou até milhares) de milhões de pessoas e, em última análise, ao desmoronamento da civilização como a conhecemos. A produção agropecuária intensiva e super-intensiva recorre por vezes a práticas incorrectas, pouco éticas, predatórias e lesivas no longo prazo e poderia ser mais sustentável e saudável e menos cruel para com os animais, mas não merece a demonização de que tem sido alvo e que está bem patente no curso generalizado da expressão pejorativa “agronegócio”, como se fosse o único sector da actividade que privilegia o lucro (os órgãos de comunicação social não designam o abastecimento de água como “hidronegócio”, a edição de livros como “biblionegócio” ou as agências funerárias como “necronegócio”). A agricultura biológica tem méritos e a agricultura intensiva tem defeitos, mas é indiscutível que, face ao conhecimento de que dispomos hoje, não é possível alimentar 8000 milhões de pessoas sem o emprego maciço de combustíveis fósseis e adubos sintéticos.

Uso de adubos inorgânicos (i.e. sintéticos) de azoto e fósforo na União Europeia, 2012-2022, em milhões de toneladas

Na verdade, apesar do decréscimo do uso de adubos sintéticos na União Europeia nos anos mais recentes (registou-se uma queda de 10% entre 2022 e 2021), mercê da voga dos produtos “bio” e de regulamentação restritiva da sua aplicação, a tendência no resto do mundo continua, actualmente, a ser de crescimento, sobretudo na América e em África – este último continente, que possui uma área agricultada de 1200 milhões de hectares (contra 460 milhões da Europa) e dispõe ainda de vastas áreas para expansão e cuja agricultura ainda é realizada, maioritariamente, em moldes tradicionais, fazendo uso muito limitado de adubos sintéticos (quanto mais não seja por os pequenos agricultores não terem meios para os adquirir), irá, provavelmente, registar um aumento do seu consumo tão grande que eclipsará as modestas reduções nos países desenvolvidos.

Uso global de adubos inorgânicos de azoto, fósforo e potássio, por continente, 2000-2021

A agricultura pré-industrial, que usava sementes, produtos e processos tradicionais e um mínimo de maquinaria, toda ela rudimentar, que recorria quase exclusivamente à força dos homens e dos animais e que era praticada dominantemente em escala familiar, e que é vista pelos gourmets, ortoréxicos e ambientalistas através de um prisma romântico e irrealista, era penosa para quem nela trabalhava e tinha tremendas dificuldades em manter vivos (ainda que esfaimados, raquíticos e flagrantemente subnutridos e enfermiços) os menos de 1000 milhões de pessoas que habitavam a Terra por volta de 1800, como atestam os excruciantes episódios de fome que flagelaram repetidamente o mundo (Europa incluída) nos séculos XVIII e XIX (ver Quais foram os piores anos da história?). A agricultura biológica do presente beneficia do imenso conhecimento científico sobre agronomia, geologia, bioquímica e genética acumulado nos dois últimos séculos (embora recuse terminantemente recorrer a organismos geneticamente modificados e outras práticas “contra natura”), pelo que se tornou mais eficiente do que a agricultura biológica de 1800, mas está longe da eficiência da agricultura industrial. Para mais, um quilo de tomates produzidos por métodos artesanais e “biológicos” numa pequena horta familiar pode ter uma pegada ecológica superior a um quilo de tomates produzidos pela agricultura industrial, uma vez que esta é milimetricamente concebida e operada de forma a maximizar a eficiência no uso de recursos (ver capítulo “Será que precisamos realmente de produzir os nossos próprios alimentos?”, em E se os ricos pudessem comprar votos? e capítulo “Poupar no farelo, gastar na farinha” em Como a pequena Greta salvou o planeta).

Só a abissal ignorância sobre o funcionamento do Mundo Material e o completo alheamento do que é a vida nos estratos da sociedade abaixo da classe média podem explicar a campanha cerrada hoje dirigida contra o “agronegócio”. Esta é, maioritariamente, conduzida pelas elites urbanitas que gostam de se exibir no Instagram degustando sashimi de polvo, numa esplanada, junto a um aquecedor de exterior; que pretendem converter toda a humanidade ao veganismo, ainda que possuam (perdão: sejam tutores de) cães e gatos (tanto mais numerosos quanto maior for o proselitismo vegan); que se opõem sistematicamente à construção e ampliação de aeroportos, ainda que acumulem anualmente largos milhares de milhas de voo; e que, como Marie-Antoinettes do século XXI, são incapazes de compreender o que levará a populaça a comprar pão ultraprocessado, fatiado e embalado, em vez de pão artesanal de massa mãe e fermentação lenta, feito com trigo sarraceno (bio) e sementes de chia (bio).

Estatuto global da agricultura biológica em 2016: a dimensão de cada país no mapa é proporcional ao número de hectares dedicados a agricultura biológica. A Austrália e a Europa eram, por esta altura, os campeões da agricultura biológica

Manobras dilatórias

No capítulo “Pico do petróleo”, que funciona como post scriptum da secção dedicada aos combustíveis fósseis, Conway faz o elogio do gás natural, afirmando que “as turbinas a gás actuais são os melhores conversores de energia existentes, fazendo do gás o mais eficiente e menos poluente de todos os combustíveis fósseis. Se a China substituísse o carvão pelo gás em todas as suas centrais termo-eléctricas, o planeta ficaria logo no bom caminho para alcançar os objectivos climáticos” (pg. 357).

É verdade que a combustão de carvão emite mais CO2 por unidade de energia produzida do que o gás natural: 1.14 kg de CO2/kWh no caso da lenhite (um carvão de qualidade inferior) contra 0.33 kg de CO2/kWh no caso do gás natural (queimado numa central de ciclo combinado), graças, em boa parte, aos ganhos de eficiência obtidos nos últimos anos na tecnologia das centrais a gás. Isto significa que, para a mesma produção de energia, a substituição da lenhite por gás natural reduziria em 70% as emissões de CO2. Há ainda que considerar que 1) a combustão de carvão liberta também mais óxidos de enxofre e mais mercúrio do que qualquer outro combustível fóssil (sendo a lenhite pior nestes parâmetros do que os outros carvões) e 2) a sua exploração em minas a céu aberto tem impactos ambientais muito superiores aos da extracção de gás natural. Também é verdade que a China é, por larga margem, o maior consumidor mundial de carvão (56% do consumo global) e o maior produtor mundial de carvão (52% da produção global) e que 62% da produção de electricidade gerada na China provém da queima de carvão.

Produção de electricidade na China, segundo as diferentes fontes de energia, em 1985-2023

Porém, a sugestão de Conway de substituir carvão por gás natural nas centrais termo-eléctricas chinesas (ou de qualquer outro país) seria contraproducente para o desígnio do combate às alterações climáticas. Trocar uma fonte de energia que liberta descomunais quantidades de CO2 por outra que liberta “apenas” grandes quantidades de CO2 fará com que o CO2 continue a acumular-se maciçamente na atmosfera, ainda que num ritmo mais lento. A investir-se numa reforma do sector energético, há que fazer a mudança para fontes com emissões de CO2 nulas ou negligenciáveis e tão brevemente quanto possível e não perder tempo com manobras dilatórias. Apostar no gás natural como “energia de transição”, entre a era do carvão e do petróleo e a era das energias sem emissões de carbono, é uma artimanha (aceite pela União Europeia!) que tem sido entusiasticamente promovida pelo sector da energia fóssil, que, embora tenha assumido uma fachada “verde”, na verdade quer adiar tanto quanto for possível o fim do seu modelo de negócio (ver capítulo “Como as ‘conquistas’ da COP-26 se volatilizaram” em Alterações climáticas: A COP-27 ergue a tenda em Sharm El Sheikh). Estranhamente, três páginas à frente, o próprio Conway reconhece que o gás natural é “mais do mesmo” e que a solução para a crise climática não é substituir combustíveis fósseis “sujos” por combustíveis fósseis “limpos”, mas “eliminar por completo as emissões de dióxido de carbono” (pg. 370).

Também é necessário considerar que o custo da conversão de uma central térmica a carvão numa central a gás de ciclo combinado representa 70% do custo de fechar a central a carvão e construir uma central a gás de raiz. Na verdade, talvez o argumento mais poderoso contra a ideia de converter centrais termo-eléctricas de carvão para gás natural é o facto de a produção e reservas de gás natural não serem elásticas: a produção global em 2023 foi de 40.000 TWh e se a China passasse a consumir anualmente mais 6000 TWh (a fracção da energia eléctrica chinesa hoje assegurada pelo carvão), o aumento da procura criaria um pandemónio no mercado de gás natural e um vertiginoso aumento de preços.

“Drill, baby, drill”

Dado que empresas de combustíveis fósseis e governantes acordaram em fingir que o gás natural é uma “energia de transição” para a neutralidade carbónica, é natural que as emissões de CO2 não parem de crescer: em 2024 chegaram ao valor recorde de 37.8 milhões de toneladas, dez vezes o valor registado um século antes. E é previsível que continuem a aumentar, já que os países produtores de combustíveis fósseis têm planos para aumentar a sua produção e a procura de energia continuará a aumentar, puxada pelo esforço dos países menos desenvolvidos para aumentar o PIB e o nível de vida dos seus cidadãos.

Os cenários futuros respeitantes a produção e consumo de energia e emissões de CO2 variam muito consoante as entidades que os elaboram e os pressupostos que assumem; além disso, devido à sua forte dependência do contexto político e económico, são extremamente voláteis. Um dos exercícios de prospectiva mais recentes e bem informados é o World Energy Outlook 2024, divulgado em Outubro passado pela Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla inglesa). No cenário STEPS (Stated Policies Scenario), que contabiliza as políticas energéticas já implementadas, em curso de implementação ou em desenvolvimento, pela parte de governos e empresas, registar-se-á um aumento continuado da produção de energia “limpa” (i.e., sem emissões de CO2) e um triplo pico, por volta de 2030, dos consumos de petróleo, carvão e gás natural; após o pico, o consumo de carvão declinará substancialmente, mas os de petróleo e gás natural manter-se-ão a um nível pouco inferior ao do pico. Decorre daqui que em 2050 o consumo de combustíveis fósseis continuará a ser substancial e a mirífica meta da “neutralidade carbónica” continuará muito distante.

Gráfico à esquerda: Evolução passada e estimada do “mix energético” global (verde, energia “limpa”; vermelho, petróleo; castanho, carvão; violeta, gás natural; cinzento, outras fontes), de acordo com o cenário STEPS, no período 1950-2050, em exajoules (Ej), segundo o World Energy Outlook 2024 da IEA. Gráfico à direita: “mix energético” para 2050 previsto pelos cenários STEPS e APS (announced pledges scenario: presume que governos e empresas cumprirão os objectivos que anunciaram nos prazos previstos) e requerido pelo cenário NZE (net zero emissions: neutralidade carbónica)

Entretanto, esta previsão da evolução do “mix energético” segundo o cenário STEPS já perdeu validade, pois foi elaborada antes das eleições presidenciais americanas, e a tomada de posse de Donald Trump, um contumaz negacionista das alterações climáticas e aadversário das energias “limpas” (ver capítulo “O ambientalista” em Donald Trump pelas suas próprias palavras), trouxe alterações substanciais às “stated policies” do país que é o 2.º maior consumidor mundial de energia, o maior produtor mundial de petróleo e de gás natural e o 4.º maior produtor mundial de carvão. Na tomada de posse, Trump anunciou a reorientação da política energética e ambiental dos EUA (ainda que a do seu antecessor fosse muito menos “verde” do que se fez crer) e assinou vários decretos para esse fim: os EUA retiram-se do Acordo de Paris; é descartado o objectivo de que, em 2030, metade do parque automóvel dos EUA seja eléctrico (o que faz prever o fim próximo dos subsídios à aquisição de automóveis eléctricos); e é dada rédea solta à exploração de combustíveis fósseis nos EUA, uma vez que, de acordo com Trump, o caminho para uma América renascida e próspera passa por extrair, até à última gota, “o ouro líquido que temos sob os nossos pés”, uma estratégia sintetizada no grito de guerra “Drill, baby, drill!”.

Alguém (que não eu) tem de fazer alguma coisa

Se, como Conway demonstra cabalmente, nunca como hoje a civilização esteve tão dependente do Mundo Material, a verdade é que muitos dos nossos problemas têm origem em perturbações e disfunções no mundo espiritual: ignorância, ganância, falsas percepções, incapacidade para pensar no longo prazo, dissonância cognitiva. Na conclusão do livro, Conway analisa as principais ameaças ao processo de transição energética que temos pela frente – e um deles é que “o esforço para construir um caminho para as emissões líquidas nulas seja bloqueado pela resistência política e pela apatia pública” (pg. 441).

A “resistência política” à tomada de medidas sérias a favor da transição energética e contra as alterações climáticas é, nos regimes democráticos, consequência directa da resistência popular à ideia a adoptar padrões de vida menos consumistas, ainda que esse mesmo povo afirme, publicamente e até para si mesmo, que considera a crise climática e (a crise ambiental, em geral) a maior ameaça que paira sobre os habitantes presentes e futuros do planeta. Como já aqui se escreveu por mais de uma vez, nos países onde há eleições livres, transparentes e justas e uma economia de mercado, os governantes e o Grande Capital trabalham, ainda que, por vezes, de forma enviesada, para satisfazer as necessidades (objectivas, imaginadas ou induzidas) e as aspirações das massas (ver capítulo “O suave milagre da transição energética” em As alterações climáticas e a conferência das Nações Unidas: O Grande Circo Carbónico e capítulo “Greta, os seus devotos e os seus adversários” em Como a pequena Greta salvou o planeta).

Queixa-se o povo, nos cafés, nas praças e nas redes (ditas) sociais, de que a classe política é venal e corrupta e está ao serviço dos interesses do Grande Capital, e que este estará orientado para maximizar, não o bem comum, mas a remuneração dos seus CEOs e accionistas e os lucros dos seus proprietários; todavia, se os cidadãos-consumidores não comprassem os bens e serviços que o Grande Capital disponibiliza, o poder deste evaporar-se-ia. Ora, se a glutonice dos cidadãos-consumidores é o impulso vital para o frenesim de actividade que dilapida recursos naturais, esventra montanhas, terraplena sapais, represa, desvia e canaliza rios, instala plantações de soja onde havia floresta virgem, converte prados em parques de estacionamento, atropela bosques para instalar retail parks e emite cada vez mais dióxido de carbono a cada ano que passa, porque se insiste, na esfera pública, em atribuir exclusivamente ao calculismo, malevolência e ganância das empresas e à conivência, incúria e incompetência dos governantes o impasse na transição energética e na superação da crise ambiental? Os mass media e os livros sobre temas de ambiente apresentam sempre o “bom povo” como vítima, apesar de este, ao mesmo tempo que exige aos governantes que tomem medidas eficazes para suster o aquecimento global e “preservar a biodiversidade”, está sempre disposto a entregar o seu voto aos políticos que lhe prometam mais rendimento disponível, para dissipar nos bens e serviços oferecidos pelas tão execradas empresas (ver capítulo “Um desejo de morte” em COP28: Estamos mais perto de uma mudança ou “abriram-se as portas do inferno”? e capítulo “Merecemos melhor” em Uma história climática dos últimos 4500 milhões de anos).

São cada vez mais as cidades pelo mundo fora que aspiram à modernidade feérica e à abastança ostensiva do Dubai, ainda que, ao mesmo tempo, os seus cidadãos manifestem, em público, apreço pela “mobilidade suave” e pelas hortas urbanas

Já nasceram aqueles que irão salvar-nos do apocalipse?

A distância que separa os valores e prioridades que as massas dizem prezar daquilo que realmente pensam, desejam e põem em prática está patente, ainda que fugazmente, neste trecho de Conway, na pg. 441: “Não atingiremos emissões líquidas nulas dos gases com efeito de estufa se tivermos uma carência continuada de lítio ou cobre, o que significa que precisaremos de mais pessoas com capacidade inventiva que descubram processos de obter esses minerais. Porém, à data que escrevo, havia tamanha escassez de jovens interessados no estudo da mineração que a Camborne School of Mines na Cornualha, uma das instituições de ensino da metalurgia mais proeminentes do mundo, suspendeu novas admissões ao seu curso de engenharia de minas”.

Não é só no Reino Unido que escasseiam os jovens interessados em juntar-se à nobre missão de salvar a civilização do colapso: o curso de Engenharia de Energias Renováveis, no Instituto Politécnico de Bragança (IPB), tem sido, ano após ano, incapaz de aliciar um único jovem, nem sequer entre os que exigem o “fim ao fóssil!”, boicotam aulas, bloqueiam o trânsito, colam-se ao chão e a paredes, atiram sopa e puré de batata a quadros e veneram a santinha carbónica Greta Thunberg (ver capítulo “A derradeira esperança da humanidade: Os jovens” em Alterações climáticas, ideologia e sectarismo: O que está afinal em jogo em Sharm El Sheikh? e capítulo “Interlúdio: Uma crise de vocações” em COP28: Estamos mais perto de uma mudança ou “abriram-se as portas do inferno”?). O IPB, revelando uma determinação – ou um alheamento da realidade – superior à da Camborne School of Mines, em vez de extinguir o curso de Engenharia de Energias Renováveis ou de colocá-lo no congelador, tem vindo a aumentar o número de vagas (já vai em 84), mas, sem surpresa, no ano lectivo de 2024/25 voltou a não acolher um único inscrito.

Elementos da Extinction Rebel Youth Bristol, uma das secções juvenis do movimento ambientalista Extinction Rebel, bloqueiam o trânsito na sua cidade, Verão de 2020

Não é de estranhar que as Gerações Z e Alfa manifestem tão pouco interesse em dedicar a vida a produzir mudanças positivas no Mundo Material, pois a sua vida decorre quase exclusivamente no Mundo Fantasma da Internet, onde dominam as “cabeças falantes”, não os fazedores. Os jovens activistas ambientais, que, em Portugal, provêm maioritariamente da classe média-alta das grandes cidades (os pais são professores ou quadros da administração pública), orientam-se para formações na área das humanidades (filosofia, sociologia, relações internacionais, direito) e não aspiram a desenvolver uma variedade de centeio adaptada a solos pobres e longos períodos de seca ou uma bomba de calor mais eficiente ou a desenhar edifícios segundo os princípios da arquitectura solar passiva. O seu plano para “salvar o planeta” não consiste em fazer coisa alguma, mas em dizer aos outros o que devem fazer, tarefa que requer estâmina argumentativa, assertividade, petulância e autoconfiança ilimitada, “qualidades” que os pais e os professores lhes têm vindo a inculcar com sucesso. Os restantes – a grande massa – têm como exclusivas figuras de referência (role models) criaturas do Mundo Fantasma, como modelos, actores e actrizes de telenovela, desportistas, e-desportistas, influenciadores e entertainers digitais, vedetas da “trash TV” e dos concursos de “talentos”, rappers e DJs, e a carreira com que sonham é juntarem-se ao clube, em crescimento acelerado, dos famosos cuja fama deriva apenas de serem famosos e de produzirem ininterruptamente “conteúdos” para o mostruário de vaidades que são as redes sociais, ou seja, de exibirem perante milhões o seu quotidiano de ócio, graçolas pueris, momices, coreografias tontas, gabarolice, “pranks”, “reaction videos”, paródias a outras figuras públicas, “dicas” de beleza, “fitness”, saúde emocional e mindfulness, estadias em paragens “exóticas”, “food porn”, astrologia, medicinas alternativas, “TikTok challenges”, espiritualidade de pacotilha e, “last but not least”, consumismo conspícuo, sustentado pelas marcas cujos produtos e serviços promovem (maioritariamente na área da moda, cosmética, “suplementos alimentares”, criptoactivos e apostas online). É altamente improvável que quem passou os seus anos de formação nesta bolha de fantasmagoria, torpeza, vulgaridade e ludíbrio, completamente desconectada do Mundo Material, a seguir as inanidades e as gaifonas proferidas e protagonizadas por Wuhant, Sofia Barbosa, SirKazzio, D4rkFrame, Margarida Antunes e Windoh, tenha inclinação para consagrar preciosos anos de vida a desenvolver um processo de refinação de lítio que consuma menos água ou a instalar aerogeradores em serranias a 50 km do sushi bar mais próximo.

Uma sucessão de amnésias convenientes

Cumprem-se por esta altura cerca de dois séculos sobre a publicação de dois artigos pelo matemático e físico francês Joseph Fourier que são considerados como os primeiros a identificar o efeito de estufa: “Remarques générales sur les températures du globe terrestre et des espaces planétaires” (1824) e “Mémoire sur la température du globe terrestre et des espaces planétaires” (1827). Neles, Fourier, após ter apurado que a temperatura efectiva da Terra era superior à que seria teoricamente expectável de um corpo a uma distância média do Sol de 150 milhões de quilómetros, sugeria que os gases da atmosfera terrestre poderiam ser responsáveis pela diferença entre a temperatura esperada e a registada.

Joseph Fourier numa gravura de A.F.B. Geille a partir de desenho de Julien-Léopold Boilly

As investigações posteriores por Eunice Foote e Svante Arrhenius identificaram o CO2 como principal causador do efeito de estufa postulado por Fourier e, em meados do século XX, Edward Teller e Charles David Keeling alertaram para o aumento da concentração de CO2 na atmosfera e o seu potencial efeito no clima, aviso que foi reiterado, em 1965, por um relatório do Comité de Aconselhamento Científico destinado ao presidente americano Lyndon B. Johnson (ver capítulos “Avisos precoces” e “Já não podem dizer que não sabiam” em As alterações climáticas e a conferência das Nações Unidas: O Grande Circo Carbónico). Todavia, só transcorridos 30 anos sobre a divulgação do relatório do Comité de Aconselhamento Científico foi organizada a I Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP-1), e foram precisos mais cinco para que fosse assinado o Protocolo de Kyoto.

Entretanto, já tinham surgido várias obras alertando para o facto de a civilização poder estar a crescer bem para lá da capacidade de carga da Terra. Entre os pioneiros estiveram, em 1948, o livro Our plundered planet (O nosso planeta saqueado), de Fairfield Osborn, e, em 1954, o panfleto “The population bomb is everyone’s baby” (A bomba populacional é um bebé que pertence a todos), de Hugh Everett Moore. Estas duas obras passaram relativamente despercebidas, mas o mesmo não aconteceu com as duas obras mencionadas por Conway, The population bomb e Os limites do crescimento. Esta última foi recebida com estrépito, vendeu 30 milhões de exemplares em 30 línguas, suscitou intensas discussões, foi alvo de edições revistas e actualizadas a cada cinco anos e gerou um “rebento” intitulado Beyond the limits (1992, Para lá dos limites).

Porém, a efervescência suscitada por Os limites do crescimento não produziu efeitos práticos, o que levou a que, a edição de 2003, The limits to growth: The 30-year update, entendesse “ser desanimador que a humanidade tenha, basicamente, desperdiçado os últimos 30 anos em debates fúteis e em respostas, bem-intencionadas mas pusilânimes, aos desafios ecológicos globais. Não temos outros 30 anos para desbaratar em hesitações”.

Por esta altura, a consciência ambiental e a inquietação suscitadas pela divulgação do relatório em 1972 há muito se dissipara – até porque, como já vimos, as previsões catastrofistas não se tinham cumprido – pelo que também este apelo à acção caiu em ouvidos moucos, como foram caindo apelos similares que, por esta altura, começavam a multiplicar-se. Com efeito, no início do século XXI, os livros, documentários e conferências alertando para o efeito de estufa, as alterações climáticas e outras formas de sobrecarga e sobre-exploração dos sistemas biofísicos e recursos naturais do planeta já se tinham tornado correntes. No entanto, o tema alterações climáticas só voltou a ganhar notoriedade na esfera pública em 2006, com o documentário Uma verdade inconveniente (An inconvenient truth), tendo como ponto de partida as palestras de pedagogia climática do ex-vice-presidente americano Al Gore, que, tirando partido da ampla repercussão do filme na opinião pública, lançou um livro homónimo e tem continuado a correr mundo com o seu road-show em formato PowerPoint, que lhe tem dado uma fortuna a ganhar mas não tem produzido efeitos práticos, o que nada tem de surpreendente. O facto de, em 2006, a elite cosmopolita, com estudos superiores e “well read” ter acolhido Uma verdade inconveniente como uma revelação surpreendente evidencia a tendência inata da mente humana para, constantemente, ignorar, suprimir, desvalorizar ou inactivar qualquer informação que seja contrária aos seus preconceitos e interesses.

Bono e Al Gore no Fórum Económico Mundial de 2008

Graças a este mecanismo de filtragem selectiva, à medida que o “choque e pavor” suscitados pelo documentário Uma verdade inconveniente se foram dissipando, uma nova “amnésia conveniente” voltou a remeter a crise climática para segundo plano, apesar dos relatórios em tom cada vez mais urgente produzidos pelo Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC, na sigla inglesa) e pelo aumento da frequência de fenómenos climáticos extremos.

Só em 2018, quando os media descobriram Greta Thunberg e a sua “Skolstrejk för klimatet” é que o tema ganhou, finalmente, lugar cativo nas preocupações do cidadão comum e no discurso dos políticos e os mass media passaram a incluir na sua agenda a cobertura do circo itinerante que são as edições anuais das Conferências das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP). Hoje em dia, com a ajuda das bambochatas encenadas pelos discípulos da Jeanne D’Arc Carbónica, do aumento da frequência de fenómenos meteorológicos extremos e de uma avalancha de artigos científicos, relatórios e livros de divulgação sobre o passado, presente e futuro da relação entre civilização e ambiente, as alterações climáticas, a transição energética e a sustentabilidade são assunto recorrente na esfera pública – o que não significa que estejamos mais perto de resolver estes problemas, ou sequer de os enfrentar.

Stefan Müller

Berlim, 24.09.2021: Manifestação do movimento Fridays for Future, liderada por Greta Thunberg (no centro-direita, segurando um megafone), exige “justiça climática”

A mente dividida

Apesar de, hoje, cidadãos, políticos, jornalistas e empresários expressarem a todo o momento a sua extremosa preocupação com o clima, a biodiversidade e a sustentabilidade, no domínio dos actos continua a reinar aquilo que Conway designa como “apatia pública”. Ouvimos e lemos notícias que dão conta de que este foi o mês de Dezembro mais seco dos últimos 40 anos, de que este foi o mês de Julho mais quente dos últimos 60 anos, de que o ano que passou foi o mais quente desde que há registo, de que as barragens do Barlavento algarvio já só têm água para mais um mês. Vemos, na televisão e no smartphone, imagens das cheias-relâmpago em Valencia; das carcaças ressequidas do gado dizimado pela maior seca dos últimos 40 anos no Corno de África; do longo trilho de devastação e morte deixado pelo tufão Yagi através das Filipinas, China, Vietnam, Laos, Tailândia e Myanmar; dos glaciares a desfazerem-se na Gronelândia, no Chile e na Antártida; dos fogos ciclónicos a devorarem mansões de estrelas de cinema e socialites nos subúrbios de Los Angeles (mostrando que, embora as alterações climáticas afectem desproporcionadamente os pobres, o jet-set não está inteiramente a salvo).

Patagónia: O glaciar de San Rafael, visto do lago homónimo, cuja área actual estava, há 150 anos, ocupada em 2/3 pela massa de gelo. Os glaciares estão a recuar em todo o mundo e os da Patagónia são os que recuam mais rapidamente

Tudo isto nos suscita frisson, mas é uma sensação fugaz, que se evola sem deixar marcas. Não nos tira o sono, não se insinua nos nossos pesadelos, não muda o nosso comportamento e hábitos de consumo, não mitiga o nosso apetite por bugigangas e por fast fashion, não nos leva a alterar os planos para as férias. É como se os eventos ominosos que vemos nos écrans fossem cenas de um filme-catástrofe ou tivessem lugar em Pandora, a lua ficcional em que decorre a acção de Avatar.

“Apatia”, que é sinónimo de abulia, alheamento, indiferença, letargia, modorra, não é a palavra mais adequada para designar o estado presente da humanidade face à crise ambiental. Nunca dispusemos de tanta informação sobre o que está a passar-se no mundo, nunca alimentámos tantas e tão desvairadas ambições e caprichos, nunca emitimos tantas e tão diversas opiniões, nem com tanta assertividade, nunca nos deixámos arrebatar tão facilmente pelas emoções, nunca empregámos linguagem tão hiperbólica, nunca fomos tão melodramáticos, nunca estivemos tão febricitantes, nunca os nossos nervos estiveram tão tensos. Se estamos paralisados em termos de acção ambiental, não é por apatia, é por sofrermos de dissonância cognitiva em último grau. É porque uma parte da nossa mente tem consciência das consequências do nosso trem de vida, mas a outra se recusa a aceitá-lo e não está disposta a prescindir de nada do que o prodigioso mundo da tecnologia, do consumo e do lazer nos propõe incessantemente. É porque, mesmo aqueles que não fazem parte dos “nativos digitais”, estão a ficar cada vez mais embrenhados no Mundo Fantasma e julgam que o simulacro de vida que neste decorre é independente do Mundo Material.

E, assim, inventamos mil estratagemas para superar a contradição entre o que sabemos que deveríamos fazer e aquilo que queremos fazer. A maioria finge não existir relação entre e a crise ambiental e o seu estilo de vida, embora admita que haja correcções a fazer no estilo de vida dos outros. Alguns depositam fé nas descobertas da ciência e tecnologia para nos salvarem à última hora, em jeito “deus ex machina” – e já há quem designe a inteligência artificial, essa panaceia universal, para desempenhar esse papel. Outros empreendem acções que supostamente combatem a crise climática, mas que são vãs ou até contraproducentes: iniciam uma horta urbana em que, orgulhosamente, colhem pepinos com uma pegada ecológica três vezes maior do que a dos pepinos que se vendem nos hipermercados; ou gastam 100.000 euros num Tesla Model S ou num Polestar 3 “para garantir que os meus netos irão respirar ar puro”. Outros recorrem à matreirice pueril e, assumindo que as alterações climáticas são inevitáveis, apresentam-nas como justificação para fazer o que lhes dita o capricho: “Temos de ir ver os glaciares da Islândia, antes que desapareçam”; “Temos de visitar Veneza antes que seja engolida pelas águas do Adriático”; “Temos de passar férias na Riviera Maia, antes que o clima do México se torne demasiado quente e seco”; “Temos de ir mergulhar na Grande Barreira de Recifes antes que os corais morram todos”; “Li ontem que, em 2050, 80% das Maldivas estarão submersas – devíamos lá ir na próximas férias de Páscoa”.

Previsão da Airports Council International para a evolução do tráfego aéreo até 2052, em milhares de milhões de passageiros. Em 2024, o tráfego regressou ao nível pré-pandemia de covid-19 e prevê-se que irá duplicar até 2042

Quanto é suficiente?

Em Making the modern world: Materials and dematerialization, Vaclav Smil pergunta: “Qual é o vínculo entre consumo de materiais e a qualidade de vida, objectiva e subjectiva, uma vez que estejam plenamente satisfeitas as necessidades básicas de alimentação, vestuário, abrigo e mobilidade? Passar da miséria material a um razoável conforto material tornará melhores muitas coisas na vida, mas esta correlação não é uma escada rolante infinita. E se não é, onde fica o ponto de saturação? Poderá este nível ser quantificado de forma séria? Estas questões têm de ser colocadas, ainda que não existam respostas fáceis. […] Todos os economistas, com excepção de uma pequena minoria (os de inclinações ecologistas) vêem a constante expansão da produção como objectivo fundamental”.

“A adoração de Mamon” (c.1909), por Evelyn De Morgan

Smil detalha a seguir o que se entende, entre os economistas, por “expansão” desejável: “as economias devem, preferencialmente, crescer a taxas anuais de pelo menos 2%, desejavelmente até acima de 3%. Este é o único modelo, o único paradigma, a única norma, uma vez que os economistas que dirigem as sociedades modernas são incapazes de conceber um sistema que, deliberadamente, cresça a uma taxa mínima, muito menos um sistema que vise o crescimento nulo – quanto à ideia de um decrescimento cuidadosamente gerido, afigurar-se-lhes-á como algo absolutamente inimaginável”. E, por as economias estarem inteiramente moldadas ao pressuposto do crescimento contínuo, quando este falha, todo o sistema entra em crise: “A experiência pós-2008 mostrou quão disfuncionais as economias modernas se tornam assim que o crescimento se torna irrisório, cessa ou até regista um pequeno declínio: desemprego em alta, […] agravamento da desigualdade económica, deficits orçamentais estratosféricos”.

Há que fazer uma adenda a esta perspectiva de Smil: este entendimento da economia há muito que deixou de estar circunscrito aos economistas e impregnou profundamente todos os estratos da sociedade, dos multimilionários aos que subsistem com dificuldade na base da pirâmide social, bem como os políticos, tecnocratas, comentadores, opinadores e jornalistas, seja qual for a sua filiação ou simpatia política (será escusado mencionar os empresários, a quem é inata a aspiração à expansão do negócio). É por isso que uma das acusações mais danosas que, hoje, um líder da oposição, um rival do mesmo partido, ou um comentador político, pode fazer a um primeiro-ministro em exercício é apontar o “crescimento anémico” do PIB durante o seu mandato. A interiorização de que o crescimento ilimitado – do PIB e da prosperidade material dos cidadãos – é possível, desejável, natural e virtuoso é tão completa que há quem veja nele “a promessa da democracia”. Acontece que, “a promessa de que cada geração irá ter mais do que a anterior, não é a promessa da democracia, é a promessa do consumismo” (ver capítulo “A promessa da democracia” em Alterações climáticas: Estaremos todos no mesmo barco?). Comprova-o a República Popular da China, que nada tem de democrático, mas abraçou apaixonadamente o capitalismo e o consumismo, e assumiu, nas últimas três décadas, o papel de país-símbolo do crescimento ilimitado.

PIB da China, em biliões de dólares entre 1990 e 2023 (ajustado à paridade do poder de compra)

A taxa de crescimento anual do PIB chinês, que, entre 1980 a 2010 atingiu amiúde valores acima de 10%, entrou em desaceleração e tem registado, em tempos mais recentes, alguns anos com valores inferiores a 5%, o que tem levado abalizados economistas e jornalistas a considerar que a economia chinesa está em sérias dificuldades. Quando foi divulgado que a taxa de crescimento do PIB no 3.º trimestre de 2024 fora “apenas” de 4.6%, os prognósticos ensombraram-se, mas o desempenho no 4.º trimestre, auxiliado pelos programas governamentais de estímulo ao crescimento, resultou numa taxa de 5.4%, permitindo que o ano de 2024 encerrasse com uma taxa anual de 5.0%, coincidente com a meta estabelecida pelo Governo. A esfera mediática económico-financeira suspirou de alívio, ainda que devesse estar consciente de que as estatísticas económicas fornecidas pelo regime chinês são opacas e pouco dignas de crédito. Claro que a esfera económico-financeira está de tal modo desconectada da realidade que nunca se perguntará se uma China a crescer consistentemente a “apenas” 5% ao ano não será uma ameaça à sustentabilidade da civilização.

Taxa anual de crescimento real do PIB da China, da década de 1960 à de 2020 (segundo estimativas da Bloomberg)

Entretanto, com a China convertida em “fábrica do mundo” (papel que tem vindo a ser disputado por alguns países do Sudeste Asiático), o Ocidente pôde desactivar as suas indústrias mais poluentes e arvorar-se em paladino da sustentabilidade e da luta contra as alterações climáticas. Esta postura, ainda que não corresponda à realidade, produziu um efeito de auto-ilusão e levou a que, com excepção dos partidos situados mais à direita (que tendem a negar que as alterações climáticas sejam uma realidade ou que resultem da acção humana), hoje quase todo o espectro político (e também os cidadãos sem engajamento ideológico ou alheados da política) se proclame “ambientalista”. Estas legiões de “ambientalistas” recém-convertidos não compreendem que, como escreve Richard McNeill Douglas, no ensaio “The ultimate paradigm shift: Environmentalism as antithesis to the modern paradigm of progress” (em Future ethics: Climate change and apocalyptic imagination, ed. Stefan Krimshire, 2011), a verdadeira mundividência ambientalista não só contradiz “o paradigma do crescimento económico ilimitado”, como colide frontalmente “com a assunção geral do mundo moderno de que a história corre apenas numa direcção e que o futuro tem de ser, inevitavelmente, melhor do que o passado; que a humanidade descobriu a chave para assumir o controlo do seu destino e que iremos todos desfrutar de uma crescente sensação de riqueza material e poder”.

A corrida entre o engenho e a avidez

Na conclusão de Mundo material, Conway apresenta uma visão genericamente optimista para o futuro da civilização, que justifica invocando a “lei de Wright”, formulada por Theodore Paul Wright (1895-1970), um engenheiro aeronáutico americano que, na década de 1930, constatou que o custo dos aviões tendia a decrescer de ano para ano. Quando estudou o assunto, Wright concluiu que a diminuição do custo resultava do constante aumento do número de unidades produzidas – Wright calculou que, de cada vez que a produção total de aviões duplicava, o custo do trabalho necessário para fabricar cada novo avião caía 20% e concebeu uma equação, aplicável a qualquer produto, que exprime a relação inversa entre o custo unitário de produção e o volume da produção.

Theodore Paul Wright fez parte da administração da Aeronáutica Civil dos EUA e foi vice-presidente responsável pela investigação na Universidade de Cornell

Alargando a relação estabelecida por Wright a todos os sectores da economia, Conway defende – olvidado da advertência que fizera na pg. 24 contra “o mito mais perigoso de todos quantos predominam no mundo etéreo” e das estatísticas que apresentara na pg. 25, dando conta da crescente pressão sobre os recursos naturais – que “quanto mais experiência temos a fabricar coisas, melhores nos tornamos a fabricá-las e menor o custo para produtores e consumidores” (pg. 431) e que “conforme o tempo passa e a humanidade ganha experiência, tornamo-nos melhores e mais rápidos a produzir coisas. E há um argumento plausível de que com o auxílio dos computadores e da inteligência artificial […] consigamos acelerar ainda mais estas descobertas” (pg. 446). A inovação tecnológica fará surgir, acredita Conway, “novas baterias com uma capacidade de armazenagem muitas vezes superior à actual […], chips de silício de uma complexidade ainda maior do que os presentes […], materiais inteiramente novos” (pg. 447).

Como seria de esperar, Conway nem por um momento considera a possibilidade de a via para a sustentabilidade poder passar pela desaceleração do crescimento e prefere depositar esperança em tecnologias por inventar. Ora, se não há dúvida de que os progressos tecnológicos têm sido formidáveis, sobretudo na área dos semicondutores e da electrónica de consumo, Conway esquece-se de que 1) poucas ou nenhumas áreas de actividade produtiva seguem padrão evolutivo análogo e de que 2) os ganhos decorrentes da Lei de Wright tendem a ser anulados (ou até superados) pelo Paradoxo de Jevons.

O (notável) aumento na eficiência da produção e o (modesto) progresso na reciclagem, ainda não deram mostras, até à data, de serem capazes de compensar o aumento do consumo de recursos e da produção de poluentes e detritos que resulta de a produção de riqueza continuar a aumentar incessantemente, para responder ao aumento da população mundial e ao aumento do consumo per capita.

Evolução registada e estimada da população mundial, por grupo de idades, no período 1950-2100: cinzento, 65 anos ou mais; vermelho, 15-64 anos; azul, menos de 15 anos

Todos os prognósticos optimistas se estilhaçam contra o facto objectivo e incontornável de que, a cada ano que passa, se intensifica a pilhagem do Mundo Material para obter mais areia, sal, ferro, cobre, petróleo e lítio, bem como muitos outros recursos minerais, cuja existência nem sequer é do conhecimento do cidadão comum – poucos terão ouvido falar de tântalo, molibdénio, neodímio ou disprósio e menos ainda farão ideia do papel vital que desempenham no emaranhado tecnológico que sustenta o formidável e cintilante (mas precário) edifício civilizacional.

O consumo como modo de vida

As previsões feitas em 1972 em Os limites do crescimento revelaram-se grosseiramente erradas, mas as leis do Mundo Material garantem-nos que, existe, algures à nossa frente, um limite para o crescimento. A taxa de incremento da população até pode estar a desacelerar em quase todos os continentes, com excepção de África, e é expectável que o número de habitantes do planeta estabilize por volta dos 10.000-11.000 milhões no final deste século, mas haverá limite para a ambição de cada um de nós de desfrutar de um nível de vida mais elevado?

Evolução registada e estimada da população mundial, por continente, no período 1950-2050. Nota: a escala do eixo da população não é linear mas logarítimica

Parte desta fome insaciável decorre dos mecanismos psicológicos inatos do Homo sapiens, mas outra parte é induzida por quem conhece bem o funcionamento desses mecanismos e sabe como manipulá-los em seu benefício. A corrida perigosa em que a humanidade está envolvida não é apenas entre o seu engenho tecnológico e sua avidez pelo consumo – a acicatar a avidez natural está outro tipo de engenho: o dos profissionais do marketing, ou da “consultoria de relações públicas”, como preferia chamar-lhe um dos seus pioneiros e teóricos, Edward Bernays (ver Edward Bernays, a arte da propaganda e os donos (invisíveis) disto tudo). Este engenho é tão apurado e exerce-se, quotidiana e insidiosamente, há tanto tempo que não nos damos conta de que boa parte do que julgamos ser o nosso livre alvedrio é comandada pelos “marqueteiros”. Estes conseguiram que o consumo deixasse de ser um meio para satisfazer as necessidades humanas e se tornasse no escoadouro da torrente de produtos e serviços gerada por uma máquina económica sobredimensionada e no modo de vida da humanidade.

Como escrevia o economista americano Victor Lebow há 70 anos, no artigo “Price competition in 1955”, publicado nesse ano no Journal of retailing, “a nossa economia desmedidamente produtiva exige que façamos do consumo o nosso modo de vida, que convertamos a aquisição e uso de bens num ritual, que busquemos a satisfação do nosso espírito e do nosso ego no consumo. A medida do estatuto social, do reconhecimento social, do prestígio, é revelada pelos nossos padrões de consumo. O próprio significado e relevância da vida expressa-se hoje através dos termos do consumo. […] Precisamos que as coisas sejam consumidas, queimadas, gastas, substituídas e descartadas a um ritmo cada vez mais rápido. Precisamos que as pessoas comam, bebam, se vistam, viajem e vivam de formas cada vez mais complexas e, logo, cada vez mais dispendiosas”. O efeito resultante de todo o afã dos “marqueteiros”, dos publicitários e dos gestores e técnicos de vendas é, afirmava Lebow, “criar e manter a multiplicidade e intensidade de necessidades que funcionam como aguilhão da evolução do padrão de vida nos EUA”. Setenta anos depois, já não são apenas os americanos, é toda a humanidade que galopa nesta carreira desenfreada sem se interrogar porque o faz.