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[Este é o último de três artigos sobre “História Para Amanhã”. Aqui pode ler a primeira parte e a segunda]

Um estádio superior do capitalismo

No capítulo 9, “Manter as máquinas sob controlo”, Krznaric estabelece um paralelismo entre a inteligência artificial e o capitalismo e entende que “há pistas para evitarmos riscos graves [associados à inteligência artificial] que podem ser encontradas escondidas em alternativas ao próprio capitalismo” (pg. 199).

A inteligência artificial está hoje envolta numa atmosfera de euforia irracional, que faz com que seja promovida como solução para todos os problemas que atormentam a civilização, alguns dos quais persistem desde a origem da humanidade. A cura para o cancro, o diagnóstico precoce de doenças, a aprendizagem dos jovens, o acesso aos arcanos da fusão nuclear (que permitiria afastar de vez o espectro da crise energética), o aumento da produtividade na indústria e serviços, o combate à criminalidade, o aumento da longevidade, quiçá o triunfo sobre a morte – não há actividade ou desempenho humano que não possa (dizem-nos) ser substancialmente melhorada pela inteligência artificial, nem há problema que esta não seja capaz de resolver. Porém, há também quem lhe aponte riscos: poderá fomentar o cibercrime, facilitar a manipulação de eleições (com recurso a deepfakes e propaganda personalizada para cada eleitor), criar desemprego a uma escala inaudita (devido às múltiplas formas de automação e a apps e softwares cada vez mais sofisticados) e até, num cenário mais fantasista e lúgubre, desencadear uma guerra nuclear, por o comando dos sistemas de mísseis ter sido confiado a máquinas com mecanismos de decisão tortuosos e inescrutáveis.

Krznaric faz uma breve história do capitalismo financeiro, surgido na Holanda do início do século XVII, lista alguns dos seus fracassos mais clamorosos, do estoiro da “Bolha do Mississipi”, em 1720, à crise das hipotecas subprime de 2007-2010, e argumenta que a inteligência artificial está, tal como aconteceu com o capitalismo financeiro, “a transformar-se num enorme e complexo supersistema, que se tornará tão difícil de controlar ou regular quanto as finanças mundiais” (pg. 203).

Cartoon alusivo à “Bolha do Mississipi”, por autor holandês anónimo, 1720: “Representação da mui célebre Ilha da Cabeça-Doida, situada no Mar das Acções […] habitada por gentes de variadas sortes, conhecidas pela designação genérica de ‘accionistas’”

“Um segundo paralelismo com o capitalismo tem que ver com o risco de contágio […] ou risco sistémico. Em sistemas muito grandes e interligados, há uma probabilidade acrescida de que qualquer problema que ocorra numa área possa propagar-se e infectar todo o sistema” (pg. 204). No caso da inteligência artificial, o risco sistémico identificado por Krznaric é o do “colapso sísmico da verdade e da confiança”, em resultado do uso da inteligência artificial para “criar avalanchas de identidades falsas, discursos políticos falsos, notícias falsas acerca do mercado de valores” (pg. 204), o que justifica que nos questionemos se “será a democracia capaz de funcionar de maneira eficiente num mundo digitalmente falsificado?”.

Krznaric vê na inteligência artificial, não as promessas de um futuro resplandecente, mas uma nova manifestação do capitalismo, específica do século XXI: o “capitalismo informacional [“information capitalism”, por vezes também designado por “surveillance capitalism”], que se baseia na acumulação de dados e não de capital. A informação tornou-se o recurso-chave no cerne da economia global, e a inteligência artificial tem sido posta em funcionamento para, pouco a pouco, byte a byte, extrair dela benefícios financeiros” (pg. 213).

Com efeito, embora seja recente, o capitalismo informacional cresceu a uma velocidade vertiginosa e já suplantou as formas tradicionais de capitalismo. Considere-se o top 10 das empresas com maior capitalização de mercado do mundo: 1.º Apple, 3.54 biliões de dólares; 2.º Microsoft, 2.98 biliões; 3.º NVIDIA, 2.86 biliões; 4.º Amazon, 2.21 biliões; 5.º Alphabet (Google) 2.12 biliões; 6.º Saudi Aramco, 1.71 biliões; 7.º Meta Platforms (Facebook), 1.66 biliões; 8.º Berkshire Hathaway, 1.07, 9.º TSMC, 0.96 biliões; 10.º Broadcom, 0.90 biliões (estes valores respeitam a 06.03.2025, data da conclusão deste artigo, e estão sujeitos a variações apreciáveis em poucos dias, dada a volatilidade dos mercados no presente contexto internacional no que respeita a economia e geopolítica).

Daniel Lawrence Lu

Apple Park, em Cupertino, Califórnia, é, desde 2017, a sede da Apple Inc., a empresa mais valiosa do mundo

Nesta lista, as únicas empresas sem conexões directas ao capitalismo informacional são a Saudi Aramco, cujo negócio são os combustíveis fósseis, e a Berkshire Hathaway, uma holding (dirigida por Warren Buffet) que gere participações em múltiplos sectores da economia. A Amazon é conhecida sobretudo como plataforma de comércio electrónico, mas desenvolve múltiplas actividades, algumas delas ligadas ao capitalismo informacional, como sejam computação na nuvem (cloud computing), armazenamento de dados, inteligência artificial e interfaces de software (API), através da subsidiária Amazon Web Services, e é também um colosso noutras áreas da tecnologia de informação, através das subsidiárias Twitch e Amazon Prime Video (streaming digital) e Kuiper (Internet por satélite). A TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company) e a Broadcom estão entre os maiores fabricantes mundiais dos chips. As outras cinco empresas – Apple, Microsoft, NVIDIA, Alphabet e Meta – são, claro, as líderes e os símbolos máximos do capitalismo informacional.

Deve sublinhar-se que o 11.º lugar é, presentemente, ocupado pela Tesla (capitalização de mercado: 0.90 biliões), que, embora seja conhecida sobretudo como fabricante de automóveis, também está profundamente envolvida no capitalismo informacional; há apenas duas semanas, a Tesla valia 1.30 biliões, o que lhe conferia o 8.º lugar, mas tem sofrido pesadas perdas com os posicionamentos e intervenções públicas de Elon Musk e com a “guerra tarifária” desencadeada pela Administração Trump.

Um dos 83 edifícios do Microsoft Campus, em Redmond, estado de Washington, que é a sede da companhia homónima. A Microsoft é a 2.ª empresa mais valiosa do mundo

Quando, em Portugal, a esquerda e a extrema-esquerda insistem na sua anquilosada catilinária contra o Grande Capital tradicional, associado ao capitalismo industrial e ao capitalismo de consumo (grande distribuição, produção e distribuição de energia, indústria extractiva e transformadora, agricultura intensiva), deixam a impressão de terem parado no tempo e de não se darem conta de quão mais perigosa e avassaladora é hoje a ameaça do capitalismo informacional. Como escreve o filósofo Byung-Chul Han, em Não-coisas: Transformações no mundo em que vivemos (2021, Undinge: Umbrüche der Lebenswelt), “o capitalismo informacional é uma forma intensificada de capitalismo. Ao contrário do capitalismo industrial, ele mercantiliza não só o mundo material como o imaterial. Até a vida assume a forma de mercadoria. As relações humanas são comercializadas por atacado. As redes sociais exploram toda a comunicação. As plataformas como a Airbnb comercializam a hospitalidade. O capitalismo informacional toma conta de cada recanto das nossas vidas e até das nossas almas”.

Dentro do capitalismo informacional, a componente com maior potencial disruptivo é a inteligência artificial, com a agravante de estar nas mãos de um clube muito restrito. Se no capitalismo informacional a maior parte do poder já é dominado por algumas megaempresas, essa situação pode ser ainda mais pronunciada no caso da inteligência artificial, alerta Krznaric: “Há menos de dez companhias no mundo – entre elas a Meta, a Microsoft, a Google e a Palantir – com os enormes recursos necessários para desenvolver e explorar a inteligência artificial em grande escala” (pg. 213).

Os dois edifícios principais, Voyager e Endeavor, da sede da NVIDIA, em Santa Clara, Califórnia, não muito longe do Apple Park. A NVIDIA é a 3.ª empresa mais valiosa do mundo

Combater gigantes com cooperativas

O conceito proposto por Krznaric como alternativa “tanto ao controlo estatal como ao capitalismo empresarial e que poderá constituir um modelo inspirador para as companhias que desenvolvam IA” é o de “propriedade distribuída, uma forma de democracia económica na qual os proprietários de empresas não são accionistas e investidores, mas sim uma gama alargada de actores comunitários”. Este modelos de propriedade distribuída têm origem numa “das grandes inovações sociais do século XIX, o movimento cooperativo” (que, por sua vez, tem raízes nas formas de governo comunitário autónomo que medraram, episodicamente, na Itália medieval), e os seus estatutos, em regra, “incorporam objectivos sociais, a par dos financeiros” (pg. 215).

Krznaric admite que, “na maior parte dos países, estes modelos de propriedade distribuída são apenas um pequeno segmento da economia” e que “a maior parte das pessoas nunca ouviu falar deles”. Entre as excepções a este panorama, menciona a federação Mondragon, no País Basco, e a região italiana da Emilia-Romagna, onde as cooperativas “prosperam como em nenhum outro local da Europa” e são mais de 4000.

De pouco serve a Krznaric fazer o elogio dos modelos de propriedade distribuída e apontar os inconvenientes e riscos das megaempresas se a evolução que se tem registado vai no sentido contrário: à medida que o mundo vai ficando mais digital e mais global, a tendência é para que os peixes grandes fiquem cada vez maiores e exerçam uma supremacia inaudita, nalguns casos devorando todos os peixes pequenos ou açambarcando todo o alimento e deixando os peixes pequenos à míngua; isto tanto é verdade para as redes sociais, como para as estrelas pop (cf. Taylor Swift, Beyoncé, BTS e afins), como para as empresas em geral, como demonstra o artigo “The gap between large and small companies is growing. Why?”, por Vijay Govindarajan et al., publicado na Harvard Business Review, em Agosto de 2019.

Evolução na diferença entre o valor de mercado das empresas de grande e pequena dimensão, em milhares de milhões de dólares, 1981-2017. Para este efeito, as grandes empresas foram definidas como as que se encontram nos 30% do topo, em valor de mercado, as pequenas como as que se situam nos 30% da base

Krznaric sublinha que, no sector da inteligência artificial, o predomínio das megaempresas é ainda maior do que nos outros sectores da economia, mas o final de Janeiro de 2025 trouxe novidades surpreendentes, com o lançamento do LLM (“Large Language Model”) R-1 da DeepSeek, uma empresa chinesa de criação recente e dimensão modesta. O surgimento do R-1 e as capacidades que demonstrou, igualando as do célebre ChatGPT e de LLM de topo, causou comoção global e fez tombar a cotação bolsista das principais empresas americanas que o têm liderado (o valor de mercado combinado das maiores caiu um bilião – um milhão de milhões – de dólares em poucos dias), por o desempenho do R-1 sugerir que o desenvolvimento de modelos de inteligência artificial poderá requerer apenas uma fracção do tempo e dos recursos computacionais e financeiros investidos pelas megaempresas americanas nos seus LLM (ver DeepSeek: A revolução chinesa que pode abalar o domínio da IA ocidental). O que torna esta proeza ainda mais surpreendente é ter, aparentemente, sido conseguida sem recorrer a microchips avançados, cuja exportação para a China tem sido bloqueada pelas mais recentes administrações americanas.

Quota de mercado dos vários países na produção de microchips, nas fases de design, fabrico e montagem (dados de 2022)

Atendendo à rapidez com que o meio da inteligência artificial evolui, é arriscado fazer previsões de evolução a longo prazo, ou sequer para o próximo ano. Mas deverá ter-se em consideração que, apesar da estrondosa entrada em cena da DeepSeek e das perdas em bolsa das principais empresas americanas da área tecnológica, o top 10 do sector da inteligência artificial, em termos de valor de mercado, continua a ser dominado pelos mesmos titãs: 1.º Apple, 3.54 biliões de dólares; 2.º Microsoft, 2.98 biliões; 3.º NVIDIA, 2.86 biliões; 4.º Alphabet (Google) 2.12 biliões; 5.º Meta Platforms (Facebook), 1.66 biliões; 6.º Tesla, 0.90 biliões; 7.º Oracle, 0.47 biliões; 8.º IBM, 0.24 biliões; 9. Adobe, 0.19 biliões; 10.º Palantir, 0.18 biliões (a DeepSeek não surge na lista, uma vez que não está cotada em bolsa, sendo propriedade do fundo de investimento chinês High-Flyer). E o sector pode estar a caminho de uma concentração ainda maior, como sugere a proposta de Elon Musk, no início de Fevereiro, para adquirir a OpenAI (a criadora do ChatGPT) por 97.400 milhões de dólares. Sam Altman, o CEO da OpenAI, rejeitou-a, mas deve realçar-se que não foi a primeira tentativa de Musk para tomar conta da OpenAI, de que foi co-fundador, em 2015, com Altman e outros sócios, e de que saiu em 2018, alegando que existia um conflito de interesses, por, ao mesmo tempo, ser proprietário da Tesla, que também está a trabalhar no sector da inteligência artificial (Altman tem outra versão: Musk saiu em 2018 porque o conselho de administração da OpenAI se opôs à sua tentativa de tomar conta da empresa).

Steve Jennings

Sam Altman, CEO da OpenAI desde 2019, numa conferência em 2017

IA: Em frente, a todo o vapor!

Krznaric admite que é improvável que as megaempresas do ramo da inteligência artificial abram, espontaneamente, espaço para que pequenas cooperativas disputem a sua supremacia, pelo que preconiza a intervenção dos governos, através de regulamentação e do desmembramento das grandes empresas. Ora, como se viu no capítulo “Esquartejar os gigantes”, em História para amanhã pt.2: Migrações, sustentabilidade e redes sociais, não há sinais de que os governos estejam dispostos a enfrentar as megaempresas, muito menos nos EUA (o país que tem sido, até agora, líder incontestado do desenvolvimento da inteligência artificial) e menos ainda na presente conjuntura, com Donald Trump como presidente e uma administração guarnecida por “yesmen”, entertainers da Fox News, das artes marciais e do wrestling e milionários ultraliberais.

Um deles é David O. Sacks, co-fundador do PayPal, com Peter Thiel (“padrinho” de J.D. Vance), fundador e CEO da Craft Ventures (um fundo de capital de risco) e possuidor de uma fortuna estimada em 200 milhões de dólares. Foi a este homem (nascido na África do Sul, como Musk, e a viver nos EUA desde os cinco anos) que Trump confiou o cargo, criado expressamente para ele, de “czar da inteligência artificial e dos criptoactivos”, que acumula com a presidência da Conselho de Consultores da Presidência em Ciência e Tecnologia. O termo “czar” está associado a uma ideia de poder absoluto, arbitrariedade e impunidade e é provavelmente essa ideia que Trump pretende passar com tal opção terminológica. Tendo Sacks angariado 12 milhões de dólares para a última campanha presidencial de Trump e sendo um notório paladino do ultraliberalismo e da desregulação (nomeadamente através do podcast “All In”), é fácil concluir que os gigantes americanos do sector da inteligência artificial nada têm a temer de Sacks, até porque a Craft Ventures, tem participações em dois deles, o Facebook e a Palantir (e também na Airbnb, na Uber e na SpaceX de Musk).

Numa democracia madura, a escolha de Sacks para supervisionar os sectores da inteligência artificial e dos criptoactivos constituiria um flagrante caso de conflito de interesses e levaria à sua liminar rejeição, mas, tal como aconteceu com o cargo de Musk à frente do DoGE (que, em termos formais, é “dirigido” por Amy Gleason), Trump atribuiu ao cargo de Sacks uma natureza ambígua, que o isentou de ser escrutinado pelo Senado, como acontece com as nomeações para cargos formais na administração dos EUA. Mas seria bem possível que Musk e Sacks recolhessem a aprovação do Senado, pois os seus perfis nada têm de excepcional numa administração onde figuram, em lugares de topo, empresários milionários que têm interesses económicos nas áreas que tutelam e foram generosos contribuintes para a campanha eleitoral de Trump. O mais inquietante é que tudo isto não só é estritamente legal como não suscita uma onda nacional de indignação e protesto, o que comprova que os EUA estão, pouco a pouco, a passar do estádio de democracia madura para o de democracia putrefacta, perante a passividade geral das “forças vivas” da nação americana (e não será certamente o Secretário da Saúde e Serviços Humanos a dar o alerta ou a queixar-se do fedor, habituado como está a banquetear-se com cadáveres de animais atropelados).

O facto de a inteligência artificial se perfilar para assumir um papel decisivo – senão o papel decisivo – nos conflitos bélicos do futuro, o facto de a China estar também a investir fortemente em inteligência artificial e o facto de a luta pela supremacia económica e militar entre os EUA e a China estar cada vez mais acesa, serão argumentos adicionais para que nenhum obstáculo seja levantado ao desenvolvimento da inteligência artificial, sob pena de o bem-estar e a segurança dos EUA ficarem ameaçados.

A necessidade de definir um consenso no que respeita aos desafios e riscos da inteligência artificial levou a que a Grã-Bretanha acolhesse, em Novembro de 2023, a AI Safety Summit, que, simbolicamente, decorreu na Bletchley Park Mansion, em Milton Keynes, edifício que, durante a II Guerra Mundial, albergou a Government Code and Cypher Scholl, responsável pela decifração da informação encriptada obtida das potências do Eixo e pela concepção dos primeiros computadores digitais electrónicos programáveis, os Colossus, que tiveram importante papel nos processos de criptoanálise – a ter de eleger-se um local de nascimento para a Era do Algoritmo, este piroso pastiche dos estilos Tudor, gótico vitoriano e barroco holandês, datado do final do século XIX, é um forte candidato.

Bletchley Park Mansion

Porém, a aura histórica do local da cimeira não inspirou os participantes da cimeira, já que a “Bletchley Declaration”, assinada por 28 países (incluindo EUA, China e União Europeia), dificilmente poderia ser mais genérica e anódina, limitando-se a recomendar que a inteligência artificial fosse “concebida, desenvolvida, aplicada e utilizada de uma forma que seja segura, centrada no ser humano, confiável e responsável”. Em Maio do ano seguinte, teve lugar na Coreia do Sul, uma segunda edição da cimeira, denominada AI Seoul Summit, que produziu a “Declaração de Seul para uma IA segura, inovadora e inclusiva” e que pouco diferia, na essência, da “Bletchley Declaration”.

O computador Colossus Mark 2, concebido em 1943 pelos “cérebros” de Bletchley Park

Em 10-11 de Fevereiro de 2025, teve lugar em Paris, por iniciativa de Emmanuel Macron, uma terceira cimeira internacional sobre inteligência artificial, a AI Action Summit, que reuniu muito mais líderes políticos do que as duas cimeiras precedentes e teve muito maior projecção mediática, já que, entretanto, a inteligência artificial se tornara em tema candente. A alteração da designação da cimeira é reveladora em si mesma, ao descartar a preocupação com a “segurança” (“safety”) e colocar a ênfase na “acção”, talvez para tentar agradar à Big Tech e à recém-empossada Administração Trump 2.0, ambas ávidas de progressos rápidos e desdenhosos de cautelas. A declaração saída de Paris – a “Declaração para uma IA inclusiva e sustentável para as pessoas e para o planeta” – foi tão vaga, inócua e vazia como as anteriores, encorajando o desenvolvimento de uma inteligência artificial “aberta, inclusiva, transparente, ética, segura, confiável” e “sustentável”. Foi assinada por 61 países, incluindo a União Europeia, o Canadá, a Austrália, o Japão, a Índia e a China. Porém, desta feita, os EUA não a subscreveram, o que era previsível, já que, na sua intervenção na cimeira, o vice-presidente americano, J.D. Vance, advertira que “a excessiva regulamentação da IA pode matar uma indústria com potencial transformador”. Também o Reino Unido não assinou a declaração, possivelmente por esperar, com este gesto, cair nas boas graças de Trump e ser poupado à guerra tarifária que Trump ameaçou desencadear contra o resto do mundo, ou até obter um acordo comercial favorável entre o Reino Unido e os EUA, algo que poderia ajudar a suster o penoso declínio da economia britânica, cujas dificuldades se agravaram com o Brexit e com uma rápida sucessão de primeiros-ministros de competência e carácter muito duvidosos (que teve o seu nadir em Liz Truss).

A demarcação da Administração Trump 2.0 em relação à declaração saída da AI Action Summit foi meramente simbólica, já que a declaração é tão vaga que não compromete ninguém com algo de concreto. O sinal que esta postura pretende enviar é que os EUA de Trump são a superpotência incontestável e a sua actuação é completamente independente da comunidade internacional, sendo determinada estritamente pelos seus interesses. E acontece que, no presente contexto, os interesses da Administração Trump coincidem em boa parte com os da Big Tech. A orientação para o sector da IA e para toda a Quarta Revolução Industrial pode ser sintetizada num slogan anacrónico, vindo da Primeira Revolução Industrial: “Em frente, a todo o vapor!”.

Elon Musk e Donald Trump a bordo do jacto privado do segundo, 16.11.2023

Quem é que precisa de receber lições da história?

Na introdução a História Para Amanhã, Krznaric verbera, justificadamente, o foco excessivo que o mundo actual coloca no presente e no futuro e a sua fé cega na tecnologia: “A tirania do agora governa cada vez mais a vida pública. A maior parte dos políticos está demasiado ocupada a reagir às manchetes de hoje ou a seguir as últimas tendências políticas para fazer uma pausa e passar tempo a aprender com o passado. As redes sociais aprisionam a nossa atenção no momento presente, ao passo que os gurus da tecnologia nos asseguram que as tecnologias de ponta virão em nosso socorro do ponto de vista civilizacional: quem é que precisa da história se temos a captura de carbono, a biologia sintética e os algoritmos da inteligência artificial?” (pg. 13).

Clio, a musa da História, por Artemisia Gentileschi, 1632

As inquietações que Krznaric expressa no livro são, em geral, justificadas e alguns dos seus diagnósticos são acertados, mas as soluções inspiradas no passado que apresenta para enfrentar os grandes desafios do século XXI não são mais do que wishful thinking, em parte porque Krznaric parece ficar-se pela superfície dos fenómenos que aborda – é o caso da inteligência artificial e do capitalismo informacional, já que Krznaric não dá mostras de compreender quão profundamente se entranharam na sociedade e quão rapidamente se tornaram inquestionáveis.

A crença de que a tecnologia e o progresso material são fins em si mesmos não nasceu no século XXI. Há cerca de um século, o polemista e ensaísta Karl Kraus já denunciava o beco sem saída a que a demanda irreflectida de novas máquinas e processos conduz: “uma humanidade morta jaz junto das suas realizações, cuja invenção exigiu tanto do seu espírito que não lhe sobrou nenhum para as usar. Fomos suficientemente complexos para construir a máquina e somos demasiado primitivos para deixar que ela nos sirva. Conduzimos um tráfego universal por cérebros de via reduzida”. Já então campeava a ideia de que os formidáveis avanços na tecnologia tinham elevado o homem acima da natureza, permitindo-lhe desligar-se dos constrangimentos impostos pelo mundo material, passar a viver no interior de uma bolha artificial e tornando-o senhor absoluto do seu destino: “O progresso, que tem a cabeça para baixo e as pernas para cima, esperneia no éter e assegura a todos os espíritos rastejantes que domina a natureza. Molesta a natureza e diz que a conquistou. Inventou a moral e a máquina para expulsar a natureza da natureza e do ser humano e sente-se aconchegado numa arquitectura do mundo sustentada pela histeria e pelo conforto” (Kraus).

A tecnolatria não só nos desconecta da natureza e do mundo material como também corta os laços com o passado: a tecnosfera que nos envolve, com a sua constelação de apps, gadgets e assistentes digitais, cria a ilusão de que o mais vulgar e baço dos seres humanos de hoje está na posse de um tal acervo de conhecimento e ganhou tal desenvoltura na resolução de problemas que faz de todos os homens e mulheres que nos precederam uns pobres néscios. Não temos, pois, nada a aprender com as fábulas da mitologia greco-romana, nem com Epicuro, Séneca, Petrarca, Cervantes, Montaigne ou Voltaire, ou com as lutas dos movimentos anti-esclavagistas e sufragistas, ou com as instituições comunitárias da Itália medieval, e podemos fazer tábua rasa de um passado de penúria desoladora e ignorância risível. Dos cafés esperamos um ambiente acolhedor, cosmopolita e bem iluminado, um tratamento “personalizado” e um menu que nos permita escolher entre um Venti White Mocha Frapuccino e um 99-Shot Grande Latte, não a atmosfera de debate intelectual dos fumarentos, lúgubres e insalubres cafés da Era das Luzes. Do Japão do Período Tokugawa esperamos cruentas e rocambolescas séries televisivas sobre samurais, com jorros de sangue a salpicar a brancura das cerejeiras em flor, não disciplinados hábitos de frugalidade e morosas práticas de reaproveitamento e reciclagem. A ideia de haver algo a aprender com o passado é tão impensável para um GenZ ou um Millennial como pedir conselho ao avô sobre quais as meme coins em que vale a pena investir (ver capítulo “O crepúsculo de uma era” em Platão, Nietzsche e Mick Jagger: Entre guerras culturais e crises civilizacionais).

“A escola de Atenas” (1511), por Raffaello Sanzio. Contrariamente ao espírito do século XXI, os intelectuais da Renascença estavam conscientes da sua dívida para com os pensadores e criadores que os tinham precedido, como testemunha este fresco, encomendado para o Palácio Apostólico do Vaticano pelo papa Júlio II e que, anacronicamente, reúne no mesmo espaço vários séculos da Antiguidade Clássica e até duas figuras de culturas não-ocidentais como Zaratustra e Averróis (Ibn Rushd)

Mão de ferro em luva de veludo

Se a tecnolatria – a presunção de que a inovação tecnológica é sempre benéfica e é capaz de resolver todos os problemas – e a progressofilia – a presunção de que o futuro será sempre mais abundante, confortável, higiénico e bem iluminado do que o passado – já dominavam a mente humana há um século (pelo menos nas cidades cosmopolitas do mundo desenvolvido), o capitalismo informacional veio dar uma força inaudita a estas crenças gémeas.

Há que sublinhar que o capitalismo informacional não é apenas mais um ramo do velho capitalismo, é algo inteiramente diferente. A filósofa Shoshana Zuboff realça assim a inovação fulcral por ele trazida: enquanto “o capitalismo industrial dependia da exploração e controlo da natureza […], o capitalismo informacional [surveillance capitalism] depende antes da exploração e controlo da natureza humana (The age of surveillance capitalism: The fight for a human future at the new frontier of power, 2019).

Apesar da alteração profunda que introduz, o capitalismo informacional não veio substituir o capitalismo de consumo e o capitalismo financeiro, tal como estes não substituíram o capitalismo industrial – estas várias facetas do capitalismo sobrepõem-se e interagem e reforçam-se mutuamente, sempre com o propósito declarado de melhorar as nossas vidas, mas aspirando sempre a exercer sobre elas um controlo mais férreo e absoluto, ainda que calçando luvas de veludo. O capitalismo informacional extrai das nossas vidas quantidades maciças de dados (Big Data) que são depois analisados e traduzidos em informação comportamental, que é vendida às empresas que operam no mercado físico, para que estas possam talhar os seus produtos e serviços à exacta medida dos nossos desejos e aspirações, ou para que possam manipular os nossos desejos e aspirações de forma a que coincidam exactamente com os produtos e serviços que essas empresas pretendem escoar, manipulação esta que é, por sua vez, exercida através das plataformas do capitalismo informacional. O capitalismo informacional está, pois, profundamente imbricado com o capitalismo de consumo, que retribui a informação prestada sobre os consumidores através do pagamento de anúncios. A publicidade é a principal fonte de receitas das redes sociais (e também da Google), gerando para estas receitas de 234.000 milhões de dólares em 2024 (para termo de comparação, o PIB português nesse mesmo ano foi de 285.000 milhões de euros). Este valor representa um incremento de 140% face ao valor registado cinco anos antes (98.000 milhões de dólares) e estima-se que cresça mais 50% até 2029 (para 345.000 milhões de dólares). Ou seja, embora o capitalismo informacional aja essencialmente no espaço virtual, é sustentado pelas transacções comerciais que têm lugar no espaço físico.

A conquista do espaço público pela publicidade começou na Grã-Bretanha da Revolução Industrial: “Cena de rua londrina” (1835), aguarela por John Orlando Parry

Uma das grandes vantagens que o capitalismo informacional tem sobre as formas anteriores de capitalismo é não suscitar reacções de resistência pela parte das massas. Na era do capitalismo industrial, os operários estavam conscientes da sua condição, estavam a par das estratégias dos patrões e tinham discernimento, ânimo e força para coordenarem as suas vontades e tentarem fazer valer os seus direitos. No capitalismo de consumo, a disposição para resistir amoleceu, pois as insidiosas mistificações criadas pelos “marqueteiros” adormeceram a consciência dos cidadãos e retiraram a estes boa parte do livre-arbítrio. Sob o bombardeamento quotidiano dos reclamos publicitários, o cidadão converteu-se em consumidor, ou seja, em alguém que constantemente descobre em si mesmo necessidades imperiosas por bens e serviços cuja existência desconhecia no dia anterior e que faz da (inatingível) satisfação dessa pulsão o sentido e propósito exclusivo da sua vida. Naturalmente, o cidadão-consumidor passou a encarar com maior benevolência a máquina empresarial, pois esta, ao mesmo tempo que explora a sua força de trabalho, põe ao seu dispor uma cornucópia de fascinantes bugigangas, cativantes entretenimentos e deleitosas mordomias. A publicidade conseguiu mesmo fazer com que muitos consumidores não só se tornem fiéis a certas marcas de produtos, como se identifiquem com elas, assumindo a sua defesa contra quem manifeste preferência por marcas rivais (não há prova mais cabal – e deprimente – da captura da mente humana pelo capitalismo de consumo do que haver adultos a debater acesamente os “méritos” comparados da Coca-Cola vs. Pepsi, da Doritos vs. Lay’s, ou da McDonald’s vs. Burger King).

Um dos primeiros anúncios a usar o erotismo como isco foi criado em 1911 para promover o sabonete Woodbury’s Facial Soap, da Woodbury Soap Company, com o slogan “Uma pele que adorará tocar” e uma promessa à consumidora: “Também você poderá desfrutar dos seus encantos se iniciar este tratamento esta noite mesmo”. Na imagem, uma versão publicada em 1916 na revista Ladie’s Home Journal

O capitalismo informacional foi ainda mais longe do que o capitalismo de consumo na eliminação das tensões e conflitos entre as massas e as empresas: a sua essência é a servidão voluntária e inconsciente. As massas são exploradas sem disso se darem conta e nem sequer se interrogam sobre a razão de as megaempresas do mundo digital investirem fortunas colossais para lhes oferecerem “gratuitamente” uma pletora de distracções cativantes (e extremamente viciantes). Como escreve Byung-Chul Han em Não-coisas, “as plataformas como o Facebook e o Google são os nossos novos senhores feudais. Trabalhamos incessantemente nas suas terras e produzimos os valiosos dados que eles exploram. Sentimo-nos livres, ainda que sejamos completamente explorados e controlados. Num sistema que explora a liberdade, não há resistência”.

O capitalismo informacional distingue-se também pelo seu carácter totalitário. Enquanto as formas anteriores de capitalismo operavam sobretudo no mundo material, o capitalismo informacional assumiu, como alertam Han e Zuboff, o controlo e a exploração comercial de todos os domínios da existência, mesmo os de natureza mais etérea e subjectiva e os que dizem respeito ao foro reservado de cada um. É assim que entre os mais pródigos filões do capitalismo informacional se contam a quantificação e a mercantilização da vida íntima, que estão intimamente ligados ao narcisismo, uma pulsão inata dos símios pelados, que as redes sociais exacerbaram a níveis estratosféricos e tornaram socialmente aceitável e até louvável (ver capítulo “O triunfo do narcisismo” em Donald Trump: Anatomia de um narcisista).

A quantificação da vida íntima emprega uma parafernália de apps e wearables (como smartwatches, fitness trackers e smartglasses) que registam e analisam constantemente, para cada indivíduo, o estado de saúde, a qualidade do sono, o desempenho físico e sexual e toda e qualquer função, característica ou actividade mensurável, por mais irrisória e corriqueira que seja. Esta quantificação obsessiva visa atingir “o autoconhecimento através dos números” e está associada a (e confunde-se com) conceitos como “self-tracking”, “self-surveillance”, “sousveillance” e “lifelogging”.

A mercantilização da vida íntima é a componente principal do caudal de “conteúdos” que circula nas redes sociais: a preparação de refeições em casa, os pratos comidos nos restaurantes, as idas às compras, as escolhas de guarda-roupa, as birras dos filhos, as tropelias dos animais de estimação, o sofá novo, os tomates-cereja cultivados na marquise, os passeios, viagens e estadias, as rotinas de exercício físico, os hobbies, tudo é exposto, sem pudor e com indisfarçada vaidade, perante os olhos do mundo, pelos prisioneiros voluntários do panóptico global. A informação que os estados totalitários e repressivos “clássicos” só conseguiam obter através de escutas telefónicas, inspecção da correspondência e da tortura, bem como de legiões de polícias secretos, informadores e denunciantes, é hoje entregue voluntariamente pelos utilizadores das redes sociais, que, para mais se afadigam em actualizá-la diariamente.

Deve realçar-se que o capitalismo informacional é totalitário não só no sentido em que se imiscui em todas as dimensões da vida humana, como no de que não há parcela da Terra, por recôndita que seja, que lhe escape. O capitalismo “clássico” precisou de muitos anos e de tremendos investimentos para disseminar os seus produtos, serviços, fábricas, centros logísticos, “fulfillment centers”, “factory outlets”, “retail parks”, lojas de conveniência, lojas-âncora, bazares, balcões e “pop-up stores” pelo planeta e, todavia, ainda existem lugares onde não é possível usufruir da modalidade de entregas ultra-rápidas de cápsulas Nespresso e em que a Pizza Hut, a Ikea ou o Lidl mais próximos ficam a mais de um dia de viagem por carro. Já os tentáculos invisíveis do capitalismo informacional são omnipresentes, pois onde os cabos de cobre e de fibra óptica e a rede de telemóvel não chegam, pode sempre contar-se com as constelações de satélites de comunicações.

Em cima: Evolução do número total de satélites operacionais da rede de comunicações Starlink, propriedade de Elon Musk. Em baixo: Evolução da velocidade média de download nos EUA

Redefinir a vida

Após anos de lento desenvolvimento, a inteligência artificial começou a ganhar impulso a partir de meados da primeira década deste século e acelerou vertiginosamente na presente década, desembocando no presente clima de entusiasmo esfuziante que a rodeia e na sua afirmação como trunfo supremo do capitalismo informacional. Os profetas da inteligência artificial não cessam de urgir governantes e empresários a investir maciçamente nela, pois se não conseguirmos impor-nos neste meio, dizem, outros países o farão e tirarão partido das infinitas benesses que ela gera, enquanto nós iremos estagnar ou até definhar; não investir a fundo na inteligência artificial, garantem-nos, fará de nós os abencerragens da corrida tecnológica. Quer em resultado destas ameaças veladas dos tecnólatras, quer por conversão sincera, está a gerar-se um “efeito de rebanho” em torno da inteligência artificial – como escreve Krznaric, “se o nosso concorrente a tiver, então nós também precisaremos dela para estar à sua altura […] Se um partido político usar [a inteligência artificial] para atingir os eleitores flutuantes com anúncios online, é provável que os outros partidos lhe sigam o exemplo. […] Ninguém quer ficar para trás, encalhado” (pg. 203).

Após anos de especulações, rumores e fantasias e falsas partidas, em 2024-25 todos percebemos que a inteligência artificial está, finalmente, entre nós. Não apenas a coordenar o funcionamento de redes de satélites ou a determinar a sequência de carregamento e posicionamento de contentores num navio, em função do porto de destino de cada um, mas na vida doméstica. Não apenas como demonstração pontual, espectacular, futurista e provocatória das fabulosas possibilidades da tecnologia, mas como elemento corrente do quotidiano – uma mudança de fundo que pode ser sintetizada na frase intraduzível “We’ve gone from wow to now” (literalmente: “Passámos do uau para o agora”) que tem circulado nos fóruns globais de tecnologia e nas secções especializadas dos media. E como, num mundo movido pelo consumo infrene, pela inovação incessante e pela sua irmã gémea, a obsolescência planeada, não há terror maior do que “ficar para trás”, todas as grandes marcas de electrónica de consumo se precipitam já para fazer da inteligência artificial o fulcro da sua “filosofia” e em breve não haverá um artefacto que não reclame ser “powered by AI” – balanças de cozinha, berbequins, bidés, bonecas insufláveis, cadeiras de baloiço, canas de pesca, canecas, chaleiras eléctricas, chuveiros, colheres, cortadores de relva, cuecas, escovas de dentes, guarda-chuvas, iogurteiras, máquinas de barbear, moinhos de café, patins em linha, peúgas, sanitas, secadores de cabelo, skis, vibradores.

Inundar o mercado com toda esta “quinquilharia inteligente” irá requerer triliões de microchips, boa parte deles de “gama alta”, e o fabrico destes irá, por seu turno, requerer quantidades inauditas de terras raras e de antimónio, arsénio, cobalto, crómio, gálio, germânio, índio, paládio e titânio, e para obter estas matérias-primas não hesitaremos em atropelar o direito internacional, invadindo países, ou impondo-lhes acordos comerciais leoninos, ou neles fomentando golpes de estado, guerras civis e secessões. Porém, as fontes conhecidas destas matérias-primas não bastarão para saciar o apetite dos consumidores por bugigangas “powered by AI”, pelo que já nos preparamos para vasculhar o planeta em busca de novas fontes, na Gronelândia, na Antártida e no fundo do oceano – não ficará pedra por virar.

[Um frigorífico “orwelliano”:]

É instrutivo analisar as grandes linhas programáticas reveladas por algumas das marcas de “quinquilharia inteligente” no mais recente Consumer Electronics Show (CES), a grande feira de electrónica de consumo, que se realizou em Janeiro de 2025, em Las Vegas. A sul-coreana Samsung (sob os lemas “IA para todos” e “Écrans por todo o lado”) promete que as ferramentas da inteligência artificial irão “simplificar e enriquecer a vida quotidiana” e que, “com a ascensão da inteligência artificial, a nossa vida será redefinida por experiências mais vibrantes e satisfatórias”. A chinesa Hisense (sob o lema “AI your life”, que pode ser traduzido livremente como “Injecte IA na sua vida”), promete “redefinir a vida inteligente [smart life]”. A sul-coreana LG (que promove a “inteligência afectuosa”, talvez para sossegar quem associa inteligência artificial a robots assassinos), promete “redefinir o entendimento convencional, técnico, da IA pela focagem no seu potencial para revolucionar o paradigma da experiência do cliente”. A chinesa Tuya afiança que o seu “hardware de IA [smart rings, smart earphones, etc.] é uma poderosa força motriz para a transformação da vida”.

A Samsung revela o conceito “IA para todos” na CES 2025, em Las Vegas

A ideia-chave assumida neste estádio de desenvolvimento da inteligência artificial é clara: as grandes marcas de electrónica já não querem apenas vender-nos engenhocas sofisticadas e dispendiosas, querem redefinir/transformar a nossa vida – não apenas algumas facetas da vida, mas toda a vida. O aumento da produtividade do trabalho (o desígnio supremo da civilização moderna) era usualmente a área em foco quando se debatiam as aplicações e benefícios da inteligência artificial, mas é óbvio que o capitalismo informacional não pretende ficar-se por aí e já propõe (e o cidadão-consumidor não declinará a oferta) que a inteligência artificial também se encarregue de planear, organizar, monitorizar e gerir o lazer, a actividade física, a confecção das refeições, as lides domésticas, o convívio familiar, a educação dos filhos, a interacção com os animais de estimação, as relações de amizade. Que outro nome pode dar-se a esta ambição que não seja “totalitarismo”? É totalitarismo consentido, e até ardentemente ansiado, é certo, mas não deixa de ser totalitarismo.

Numa demonstração categórica da utilidade do passado em ajudar-nos a compreender o presente e enfrentar os desafios do futuro, Georges Bernanos advertira-nos, logo em 1947, que “o perigo não está na multiplicação das máquinas, mas no crescente número de homens habituados, desde a sua infância, a não desejar mais do que aquilo que as máquinas são capazes de dar”. A intuição de Bernanos é tanto mais surpreendente quando se tem em consideração que La France contre les robots, o livro donde provém este trecho, foi publicado 1) no mesmo ano em que foi inventado o transístor; 2) dois anos depois da conclusão do ENIAC (Electronic Numerical Integrator and Computer), um dos primeiros computadores electrónicos digitais programáveis (pesava 27 toneladas e a sua velocidade de cálculo era 15.000 vezes inferior à de um corriqueiro computador portátil de hoje); 3) quatro anos antes de o primeiro exemplar do UNIVAC I, o primeiro computador concebido para aplicações comerciais, ter começado a operar no Gabinete de Censos dos EUA; e 4) num tempo em que os robots apenas existiam nos romances e filmes de ficção científica.

O UNIVAC I no Gabinete de Censos dos EUA, 1951

Os “marqueteiros” do capitalismo informacional gostam de associar a inteligência artificial” a “smart living”, uma expressão que é difícil de traduzir, dada a polissemia do adjectivo “smart”, que pode significar “esperto” – a acepção mais usual – mas também “activo”, “airoso”, “brilhante”, “destro”, “dinâmico”, “elegante”, “espirituoso”, “expedito”, “fino”, “hábil”, “intenso”, “moderno”, “vigoroso” e “vivo”. O conceito de “smart living” aglutina todos estes significados, é um estilo de vida aumentado, aditivado, fortificado, gaseificado, energizado, sobre-excitado e optimizado, e quem não adquira já as apps e os gadgets que o propiciam, está condenado à “dumb living”, a “vida estúpida” de antigamente.

Os “marqueteiros” e os tecnólatras querem convencer-nos de que a “smart living”, a vida assistida pela inteligência artificial, é um momento culminante na marcha da civilização, mas, na verdade, é mais um passo – talvez o mais decisivo – num longo processo de alienação voluntária da autonomia e do arbítrio que está a converter o Homo sapiens no Homo domesticus, que, por amarga ironia, se realiza a coberto de promessas de horizontes ilimitados e de liberdade inaudita (ver capítulo “O Império da Heteronomia” em A filosofia da Antiguidade tem alguma utilidade no século XXI?). Na premonitória obra acima citada, Bernanos lamentava os resultados “da propaganda incessante conduzida durante anos por tudo o que no mundo tem interesse na produção em série de uma humanidade dócil, cada vez mais dócil, à medida que a organização económica, a concorrência e as guerras exigem uma regulamentação cada vez mais minuciosa. Aquilo a que os vossos antepassados chamavam liberdades, já vós classificais como desordens e fantasias”.

Quando não alinhar na corrida não é opção

O progresso tecnológico ganhou no século XX uma aura de inevitabilidade, no sentido em que se tornou tacitamente consensual que toda a invenção que se revele susceptível de aplicação prática e seja economicamente viável (ou proporcione vantagem em termos bélicos) acabará por ser implementada e comercializada ou posta em prática, sem que seja dado tempo para apurar os seus eventuais efeitos secundários e sopesar as suas vantagens e desvantagens numa perspectiva abrangente e de longo prazo. Apesar desta disposição geral em prol do progresso tecnológico se ter tornado, há muito, no “sentimento dominante”, é difícil não ficar impressionado com a fé e o ardor proselitista dos profetas da inteligência artificial, os mais jovens com a exuberância petulante e insolente de quem fundou uma startup de sucesso e chegou a milionário antes de perfazer 25 anos, os mais velhos tirando desforço dos anos que passaram na obscuridade e a ser alvo da troça dos investigadores e empreendedores de outras áreas, num tempo em que a inteligência artificial marcava passo e era vista como um hobby para nerds, que nunca iria produzir frutos. Segundo estes profetas arrebatados, adoptar a inteligência artificial não é uma escolha: ela é um tsunami cujo poder cresce a cada dia e que irá, a curto prazo, submergir o velho mundo que conhecíamos, pelo que, em vez de tentar resistir-lhe, é mais sensato aproveitar o seu impulso ascensional.

Evolução, entre 1998 e 2023, das capacidades dos sistemas de inteligência artificial tomando como referência (zero) o desempenho do ser humano médio, em vários domínios cognitivos: cor-de-rosa, compreensão de leitura sofisticada; cor-de-laranja, compreensão de leitura corrente; verde-azulado, reconhecimento de imagens; violeta, compreensão da linguagem; interpretação de nuances da linguagem; cor-de-rosa escuro, reconhecimento da fala; verde-escuro, raciocínio predictivo; bordeaux, teste geral de conhecimentos; azul-escuro, resolução de problemas matemáticos; castanho, geração de código; castanho-esverdeado, raciocínio complexo

A comunicação social tradicional concede a estes arautos generoso tempo de antena e ajuda ao clima de euforia ao celebrar acriticamente como prodígios as apps e os gadgets “powered by AI” que são apresentados na Web Summit e na CES, por mais inúteis, ridículos ou alienantes que sejam. Espera assim cativar a atenção do público mais jovem (que tende a frequentar outros media), enquanto aguarda, inerme, que essa mesma inteligência artificial acabe de vez com o ofício de jornalista e o próprio conceito de jornal, que dará lugar, dizem-nos, a um feed personalizado de notícias meticulosamente seleccionadas pela omnisciente inteligência artificial, de acordo com os interesses, a convicção ideológica, a crença religiosa, os hobbies e a mundividência de cada um, assegurando assim que cada um de nós apenas será alimentado com os seus próprios conhecimentos e preconceitos.

Rendidos à aristocracia politécnica

Os políticos tendem, quase unanimemente, a juntar-se ao coro dos crentes: sem possuírem uma visão de futuro ou um desígnio para o país, sem conhecimentos técnicos para avaliarem as potencialidades e implicações das novas tecnologias, formatados para agir em função do fervilhar mediático do dia-a-dia e para governar à vista da costa e em função dos ciclos eleitorais, vêem na inteligência artificial, no “machine learning”, na Internet das coisas, na domótica, nos dispositivos inteligentes (smart devices), no Big Data e na computação quântica, um contraponto vibrante, feérico e pleno de promessas à gestão política quotidiana, espapaçada, baça e de horizontes fechados, pelo que tentam – quase sempre desajeitadamente – colar-se à aura de dinâmica e modernidade que irradia da tecnosfera.

Em Portugal, os governantes acorrem à missa laica da Web Summit, cumprimentam com entusiasmo maníaco os gurus do Admirável Mundo Novo Digital, embasbacam-se perante as demonstrações dos mais recentes smart devices, gabam-se das “incubadoras de startups”, das “fábricas de unicórnios” e dos “hubs tecnológicos” que estão a fomentar, balbuciam inanidades sobre a “transição digital” e acalentam a esperança de que um dos meta-barões anuncie a criação no seu município ou no país de um centro de dados, de uma base de lançamento de satélites ou, ao menos, de um call center de uma empresa de comércio electrónico, ou de uma fabriqueta destinada ao reaproveitamento de metais a partir de smartphones obsoletos. Alguns governantes talvez sonhem, secretamente, com um futuro próximo em que a inteligência artificial substitua, pelo menos parcialmente, os professores no ensino público, os médicos na saúde pública, os maquinistas e motoristas nos transportes públicos, esvaziando a força reivindicativa dos sindicatos e poupando o Governo ao desgaste causado por greves e manifestações.

VALENTINOBAJA

Jornadas mundiais da tecnolatria: Paddy Cosgrave, fundador e CEO da Web Summit, e o então primeiro-ministro António Costa, na edição de 2016 da Web Summit, a primeira a realizar-se em Lisboa

Outros políticos estão menos interessados nas aplicações futuras da inteligência artificial na administração pública, economia e na sociedade do que no seu uso imediato para o fabrico de propaganda a difundir através das redes sociais: criar “deep fakes” em que os seus rivais políticos fazem proclamações infames ou tolas e se comportam de forma risível ou humilhante; adulterar fotografias dos seus rivais de forma a desfavorecê-los o mais possível; infiltrar nas redes sociais esquadrões de influencers gerados por inteligência artificial. No contexto das recentes eleições legislativas na Alemanha, a extrema-direita já teve ao seu serviço algumas propagandistas digitais, todas jovens, esbeltas, atléticas, loiras, de olhos claros e pele perfeita, numa receita que combina o rosto e o corpo de uma top model de 20 anos com a língua viperina de Joseph Goebbels. O objectivo é óbvio: aliciar o eleitorado jovem masculino que não se interessa por política, raramente vota e tem cada vez maior dificuldade em relacionar-se com raparigas de carne e osso – um segmento demográfico que, nos países desenvolvidos, constitui filão vasto e pouco explorado.

A influencer Larissa Wagner, que surge no Instagram a exigir “Remigração, já!” (uma das causas favoritas da Alternative für Deutschland), é, supostamente, “estagiária na CompactTV”, mas não existe fora das redes sociais

Para já, os governantes e líderes políticos não parecem inquietar-se com a possibilidade de a inteligência artificial gerar desemprego maciço. Talvez calculem, cinicamente, que, dada a elevada taxa de rotação nas cadeiras do poder, não ocuparão cargos ministeriais quando as consequências negativas da tão desejada “transição digital” começarem a manifestar-se. Ou talvez acreditem sinceramente nas promessas dos profetas tecnólatras, servil e acriticamente reproduzidas pelas secções de “tecnologia” dos mass media, de que, por cada ocupação “tradicional” tornada obsoleta pela inteligência artificial esta irá gerar outra, mais qualificada e mais bem remunerada. Na segunda hipótese, enganam-se redondamente: os formidáveis progressos na inteligência artificial e na robótica ameaçam também as profissões altamente qualificadas, ou até especialmente as profissões intelectuais e qualificadas, deixando para os humanos trabalhos eminentemente físicos e não-qualificados como a jardinagem, a manutenção de piscinas e os serviços de limpeza, corveias em que as máquinas se têm revelado assaz ineficazes (ver Que fazer com toda esta gente supérflua?, capítulo “O trabalho na era do machine learning e dos algoritmos” em Maus trabalhos: O que são, de onde vêm e que consequências têm? e capítulo “Os algoritmos do desemprego” em O que devemos ensinar aos nossos filhos? Há um guru que mostra o caminho).

Empregados robóticos num armazém da empresa de supermercados online Ocado, 2017

Não será seguramente o sector das novas tecnologias, pese embora a euforia que o rodeia e as fortunas fabulosas que gera, que irá absorver os profissionais qualificados despedidos de outros sectores de actividade, uma vez que as empresas deste sector têm um número relativamente reduzido de trabalhadores, quando comparadas com as empresas dos sectores “tradicionais” (ver capítulo “Quando for grande quero trabalhar na WhatsApp” em Que fazer com toda esta gente supérflua?). Contrariando os que imaginam que as profissões na área das tecnologias de informação terão futuro risonho, Elon Musk já vaticinou o crepúsculo da até agora incensada e prodigamente remunerada profissão de programador, em resultado de a inteligência artificial estar apta a desempenhar tal função. Mas mesmo antes de tal acontecer, as contratações na Big Tech já estão a estagnar ou a recuar, apesar de as empresas continuarem a crescer em termos de receitas, valor de mercado e influência: o número de trabalhadores da Meta Platforms cresceu ininterruptamente até 2022, quando atingiu 86.482; em 2023, que Zuckerberg designou como “o ano da eficiência”, o número de trabalhadores caiu para 67.300, e em 2024 voltou a subir, para 74.100. O presente ano irá assistir a novo decréscimo, uma vez que, uma semana após assumir o seu compromisso intransigente com a “liberdade de expressão” (ou o seu alinhamento com a Administração Trump 2.0), Zuckerberg revelou planos para reduzir, até ao fim do ano, 5% da sua força de trabalho, sendo o corte dirigido aos empregados com fraco desempenho (“low-performers”).

Dois programadores do ENIAC, instalado no Ballistic Research Laboratory, em Aberdeen, Maryland, na viragem das décadas de 1940-50

Talvez outros governantes e líderes políticos estejam vagamente conscientes de que a Indústria 4.0 irá requerer muito menos trabalhadores do que as suas antecessoras, mas depositem fé na ideia de que o enorme aumento da produtividade que a inteligência artificial irá gerar será suficiente para pagar um rendimento básico universal satisfatório aos que ficarem sem emprego. É uma perspectiva que requer que se cumpram duas condições: 1) Que a inteligência artificial seja, efectivamente, capaz de gerar os formidáveis ganhos de produtividade que os tecnogurus anunciam; 2) Que as megaempresas que irão beneficiar directamente desses ganhos estejam dispostas a entregar boa parte dos lucros excedentários ao Estado, para que este os reparta entre a população. Sobre a primeira condição, será mais sensato não fazer previsões, tal é a rapidez com que a inteligência artificial e as áreas tecnológicas limítrofes têm evoluído, mas a segunda é altamente improvável, dado que os meta-barões têm demonstrado possuir uma insaciável sede de riqueza e uma absoluta falta de escrúpulos e têm feito o que podem para fugirem às suas obrigações fiscais e responsabilidades sociais (ver capítulo “Quem paga o rendimento básico universal?” em O que devemos ensinar aos nossos filhos? Há um guru que mostra o caminho e capítulo “O oráculo vesgo de Silicon Valley” em O futuro aos algoritmos pertence).

Perante a rapidez vertiginosa de evolução da inteligência artificial, o potencial disruptivo que as inovações perspectivadas terão na sociedade, o poderio cada vez maior da dúzia de plutocratas que controlam a inteligência artificial e o capitalismo informacional e o seu íntimo conúbio com o Governo disfuncional da maior potência económica e militar do mundo, a sugestão de Krznaric de aplicar o modelo das cooperativas oitocentistas à indústria da inteligência artificial, de forma a que prevaleçam “princípios de equidade, justiça e igualdade”, soa como alguém que crê ser capaz de enfrentar um gang armado de AR-15 munido de um garfo de plástico (ver capítulo “Interlúdio apocalíptico” em Nexus: As redes de informação, a humanidade e as (revira)voltas de Yuval Noah Harari).

A mecânica que está hoje em funcionamento foi prefigurada há quase um século por Georges Bernanos: “Seria tolo pensar que um dispositivo planetário que está a atingir o seu derradeiro grau de perfeição ficaria sob o controlo da multidão. A aristocracia politécnica, a quem será em breve entregue o destino do nosso minúsculo universo, revelar-se-á em breve como realmente é: a mais fechada de todas, a mais desumana” (La grande peur des bien-pensants, 1931). Bernanos, católico, monárquico e que, na juventude, “namorou” brevemente com a extrema-direita e até com o anti-semitismo (fez parte do círculo de Charles Maurras, ainda que viesse a romper radicalmente com ele), teve destino similar ao de Nietzsche: foi precipitada e equivocadamente arrumado no Index dos “pensadores de direita infrequentáveis”, pelo que, na maioria dos círculos intelectuais e académicos de hoje, não é de bom tom citá-lo ou lê-lo – portanto os diagnósticos certeiros que produziu, com admirável presciência, sobre a relação malsã entre tecnologia e sociedade, estão completamente esquecidos.

[O aspirador “esperto” Saros Z70, apresentado em Janeiro passado na CES, não só aspira como recolhe e arruma objectos com que se depare na sua lida. Uma vez que inúmeras discussões conjugais começam por alguém ter deixado as peúgas usadas no chão, o Z70 irá seguramente contribuir para promover a paz e harmonia no lar e para combater a violência doméstica:]

Um livro que circula em contramão

No últimos dois séculos – desde que a Revolução Industrial nascida na Grã-Bretanha alastrou a todo o mundo ocidental – a marcha da civilização tem sido norteada pela assunção de que o desenvolvimento tecnológico permite aumentar a produção de riqueza e que uma maior prosperidade material permite que todos levem vidas mais plenas e realizadas. Assim, de cada vez que a civilização se defronta com crises que se afiguram suficientemente gravosas para poder fazê-la soçobrar ou, pelo menos, regredir, a reacção usual não tem sido parar para reexaminar as causas profundas da crise e os pressupostos em que se funda o desenvolvimento socio-económico e a relação entre a humanidade e o planeta, mas manter a rota e crer que a inovação tecnológica permitirá suplantar todos os obstáculos e corrigir todas as disfunções. Isto apesar de, há um século, quando a nossa dependência da tecnologia ainda estava, pelos padrões actuais, num estádio incipiente, Karl Kraus já ter advertido que “o desenvolvimento técnico só vai deixar um problema por resolver: a debilidade da natureza humana”.

Krznaric tem a sageza de perceber que não será mais inovação tecnológica que será capaz de resolver os grandes desafios que a humanidade enfrenta, alguns dos quais decorrem, aliás, de usos irreflectidos, inadequados ou perversos da tecnologia. Em oposição “às frequentes narrativas de progresso que procuram a salvação nas tecnologias do futuro”, Krznaric entende que as soluções para esses desafios passarão antes por repensarmos a estrutura de poder da sociedade, a orgânica dos processos de tomada de decisão, a gestão dos recursos comuns, a regulação da actividade económica, a posse e regulação dos sistemas de comunicação de massas, o papel das instituições da sociedade civil e, last but not least, os nossos comportamentos individuais. Para a sua proposta de reconfiguração do mundo presente, Krznaric recorre a exemplos do passado que deram provas de produzir resultados positivos.

Porém, é improvável que alguma dessas “lições” do passado possa vir a ser efectivamente aplicada no nosso tempo. Uma das “lições”, o activismo radical, deve ser excluída desde logo, por, em vez de ser uma solução, ser antes uma ameaça civilizacional, ao impossibilitar o diálogo, escorraçar a racionalidade e abrir fracturas insanáveis na sociedade. Quanto às restantes, umas merecem pouca atenção por a análise que Krznaric enfermar de enviesamentos ideológicos e de erros de percepção, e outras porque dificilmente serão replicáveis, em resultado de o mundo presente ser demasiado diferente do mundo do passado. Mas mesmo as propostas mais sensatas, sólidas e replicáveis que Krznaric apresenta enfrentam um obstáculo intransponível: todas elas vão ao arrepio do que tem sido a trajectória da civilização nos últimos dois séculos e, sobretudo, do que é o Zeitgeist do século XXI, pelo que seriam, por certo, repelidas unanimemente pelos governantes, pelos líderes empresariais, pelos gurus da economia e da tecnologia, pela turba das redes sociais e pela larga maioria dos cidadãos-consumidores, que estão inebriados pela atordoante efervescência do presente e pelas mírificas promessas do futuro.

A ansiedade do futuro

Até ao final da Idade Média, o futuro – no sentido de visão prospectiva sobre a forma da sociedade por vir e as opções a tomar para a concretizar – não constituía motivo de ponderosas cogitações e não suscitava angústias, pela simples razão de que iria ser extremamente parecido com o presente. As gerações sucediam-se e, embora os povos vivessem à mercê da lotaria das guerras, das invasões, das revoltas, das pilhagens, das epidemias, das erupções vulcânicas, dos terramotos e das colheitas perdidas devido às inclemências meteorológicas, o modo de vida, as experiências e as aspirações das massas mantinham-se praticamente inalteradas de geração para geração – frequentemente, até as profissões se perpetuavam dentro da mesma família, com os adolescentes a seguirem as pisadas dos seus pais, avós e bisavós (ver O capitalismo faz o trabalho de Deus ou do Diabo?).

O ritmo do surgimento e adopção de inovações tecnológicas começou a aumentar na Europa do final da Idade Média, na viragem dos séculos XV-XVI, coincidindo com o início das viagens marítimas de exploração e do colonialismo (o capitalismo moderno brotaria pouco depois, no início do século XVII). Desde então, veio sempre a acelerar, até atingir a velocidade estonteante dos nossos dias. A prolongada estagnação deu lugar a um frenesim da mudança nas tecnologias e na sociedade e é essa mudança vertiginosa, que nos coloca perante a premência de tomar, a toda a hora, as decisões correctas sobre o futuro – para não corrermos o risco de “ficar para trás” – deixando o indivíduo, os empresários e os governantes num estado de permanente ansiedade.

A veloz evolução dos primeiros computadores usados pelo Exército dos EUA, numa foto de 1962: da esquerda para a direita, as motherboards do ENIAC (1945), do EDVAC (1949), do ORDVAC (1952) e do BRLESC I (1962)

Hoje, somos bombardeados quotidianamente com anúncios de novidades “transformacionais”, “disruptivas”, “sísmicas”, na inteligência artificial, na computação quântica, na nanotecnologia, na biotecnologia, na robótica, na encriptação, na realidade aumentada, no armazenamento de energia, na impressão 3D, na física dos materiais, na criogenia, na nanomedicina, na neuroprostética, mas estes progressos prodigiosos, longe de ofereceram desanuviamento para a ansiedade do futuro, tendem a adensá-la ainda mais, porque como escreveu o filósofo suíço Denis de Rougemont, em L’avenir est notre affaire (1977), “o que nos ilude, quanto à própria natureza do futuro […], é simplesmente a ignorância em que vive a maior parte de nós sobre os nossos verdadeiros desejos, sonhos e necessidades”. E o progresso tecnológico não só não colmata essa ignorância, como a agrava, uma vez que, como escreveu Bernanos, em La France contre les robots, “a Civilização das Máquinas” é “uma conspiração universal contra toda e qualquer forma de vida interior”.

Breve nota sobre a finalidade dos livros e da leitura

Um livro de natureza ensaística, recheado de informações sobre variados assuntos e cobrindo diferentes tempos e geografias, é um precioso depósito de conhecimento, onde, quando necessário, o leitor poderá resgatar um encontro entre o erudito árabe Ibn Khaldun e o líder mongol Tamerlão, um trecho sobre génese do capitalismo de consumo, a opinião do autor sobre uma frase célebre de Churchill a propósito de democracia. E o leitor, após ler outro livro, ou ter uma conversa, ou assistir a uma palestra, também poderá sentir necessidade de confrontar a informação e as perspectivas recém-adquiridas com aquelas com que se deparara no livro anterior. Todavia, para que a recuperação e cotejamento do conteúdo do livro seja possível, este precisa de estar equipado com um índice remissivo. Elaborar, ou traduzir, um índice remissivo consome tempo (embora muito menos do que na era pré-computador), mas permite consolidar e fazer frutificar a experiência de leitura e mantém o livro permanentemente aberto.

Não é essa a perspectiva vigente em Portugal. Para as editoras nacionais, uma vez lido um livro, será fechado para sempre e nada do que contém voltará a ser acessível a não ser, claro que o leitor tenha sido abençoado/amaldiçoado com os assombrosos dotes de memória de Irineo Funes. A política das editoras portuguesas assenta em três pressupostos: 1) o acto de ler é um movimento linear e irreversível, como a progressão do fogo num rastilho ou o escoamento do tempo; 2) o livro não é um dispositivo de armazenamento de informação, mas uma máquina de queimar tempo, que se autodestrói ao fim de X páginas; e 3) é precisamente isso, queimar tempo, afastar o tédio, preencher um hiato temporal, alhear-se momentaneamente das suas cismas, que o leitor pretende de um livro, e não ser desafiado por ideias diferentes daquelas que já possui e consolidar ou alterar a sua mundividência, incorporando nesta algumas das ideias veiculadas pelo livro.

Como o leitor já terá depreendido deste arrazoado, a edição portuguesa de História Para o Futuro suprimiu o índice remissivo, que, na edição original, se estende por uma trintena de páginas.