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[Este é o segundo de três artigos sobre História para amanhã; o primeiro pode ser lido aqui]

Migrantes e harmonia intercultural

No capítulo 2, “Fomentar a tolerância”, Krznaric sugere que se busque inspiração na “Convivencia”, termo que designa o período da história ibérica sob domínio islâmico em que muçulmanos, cristãos e judeus terão vivido lado a lado, em harmonia intercultural.

É certo que os conquistadores islâmicos da Península Ibérica permitiram, como era usual no mundo islâmico de então, que cristãos e judeus mantivessem as suas crenças religiosas e práticas tradicionais mediante o pagamento de um imposto, a jizyah, o que Krznaric não menciona) e que, na Europa medieval, não se encontraria lugar mais tolerante para com a diversidade étnica, religiosa e cultural, do que o al-Andalus, mas, ainda assim, a Convivencia foi perturbada por vários surtos de violência, como Krznaric reconhece (ver capítulos “O insólito caso do al-Andalus” e “Pôr-do-sol em Córdova” em A Idade de Ouro da ciência árabe pt.2: Como um admirável progresso encontrou o declínio).

Um músico islâmico e outro cristão tocam baldosa (um híbrido de cítara e alaúde) numa iluminura das Cantigas de Santa Maria (c.1270-82), compiladas por ordem de Alfonso X de Castela

Krznaric propõe a convivência multicultural no al-Andaluz como modelo para dissipar as tensões hoje existentes nos países ocidentais entre a população “indígena” e o número crescente de migrantes africanos, asiáticos e sul-americanos que os demandam. E uma vez que entende que o sentimento anti-imigrantes se enraíza menos em factos do que no medo de que os “imigrantes roubem os nossos empregos e ameacem o nosso modo de vida” (pg. 47), Krznaric propõe que se combata esse medo promovendo o contacto entre nativos e imigrantes, “em condições de relativa igualdade, em que tenham de interagir e cooperar regularmente”. Daqui resultará, espera-se, “a redução dos preconceitos, dos estereótipos e de outras clivagens de parte a parte” (pg. 59), como aconteceu, por exemplo, em Singapura, onde, nas décadas de 1960-70, o Governo fomentou um planeamento urbanístico que promovia a “harmonia racial”.

Onde Krznaric parece estar algo alheado da realidade é quando associa as migrações sobretudo a refugiados de guerra e refugiados climáticos. A esmagadora maioria das migrações no mundo de hoje tem motivações económicas – são pessoas que entendem que há países que lhes oferecem melhores perspectivas de alcançar condições materiais satisfatórias do que aquele em que nasceram, em resultado de este ser pobre e mal gerido (por incompetência, nepotismo ou corrupção), ou ter o “elevador social” fora de serviço. Mesmo os que fogem de guerras, de regimes despóticos, de gangs criminosos e de secas e inundações recorrentes não se limitam a afastar-se das zonas de conflito, perseguição política ou disrupção climática, e percorrem milhares de quilómetros e atravessam muitos países até chegarem ao “El Dorado”, mesmo que este tenha clima, crenças e usos radicalmente diferentes dos do seu país de origem.

Principais rotas de migração da África Ocidental em direcção à Europa, no século XXI

Outra realidade que Krznaric não refere é a atitude dos imigrantes já instalados e naturalizados no país de acolhimento face a novos imigrantes: os primeiros tendem a apoiar o fecho de fronteiras, pois vêem a chegada dos segundos (mesmo que tenham em comum a religião, os usos e o país ou região de origem) como uma ameaça aos seus empregos, que, geralmente, correspondem a segmentos diferentes (mais penosos, mais “sujos”, menos qualificados e menos bem remunerados) daqueles que são usualmente preenchidos pela população “indígena” – o receio, comum entre os “indígenas”, de que “os imigrantes roubem os nossos empregos” nem sequer tem grande fundamento, pois os imigrantes ocupam-se, maioritariamente, de tarefas que os nativos têm relutância em fazer.

Estas considerações calculistas contribuíram para que muitos imigrantes asiáticos já instalados no Reino Unido votassem a favor do Brexit e para que muitos imigrantes “latinos” já instalados nos EUA votassem em Donald Trump e nas suas promessas de “blindar” as fronteiras (sobretudo a mexicana) contra novas vagas de deserdados vindos da América Latina e de deportar os imigrantes em situação ilegal.

“A primeira civilização ecológica do mundo”

De forma a “Abandonar o hábito do consumo”, que é o assunto do capítulo 3, Krznaric propõe que se adopte a “Edonomia”, isto é, os procedimentos em vigor em Edo (a moderna Tóquio) entre o início do século XVII e meados do século XIX (ou seja, no Período Edo ou Tokugawa). Segundo Krznaric, Edo era “uma cidade sem desperdício. Quase tudo era reutilizado, reparado, reaproveitado ou, em última instância, reciclado – aquilo a que, hoje em dia, se chamaria economia circular”.

Na verdade, Edo era apenas a face mais conspícua da cultura de frugalidade que então reinava no Japão. Em boa parte, esta adesão à economia circular decorria das características do Japão: a sua posição insular e a sua atitude isolacionista faziam com que as trocas comerciais com os vizinhos fossem mínimas, tornando a autarcia quase obrigatória; o relevo acidentado do arquipélago japonês faz com que a área arável represente apenas 12-15% da área total, pelo que há forte pressão para que as práticas agrícolas sejam o mais eficientes possíveis e todos os subprodutos e resíduos agrícolas sejam escrupulosamente aproveitados. A estas condicionantes naturais somou-se a consciência dos governantes Tokugawa de que a desflorestação para obter materiais de construção e combustível estava a deixar vastas áreas nuas e susceptíveis à erosão, o que os levou a publicar legislação que restringia severamente o abate de árvores e o consumo de madeira, a lançar programas de reflorestação e a promover modelos sustentáveis de gestão florestal.

“O Pavilhão Kiyomizudō e o Lago Shinobazu, em Ueno”, estampa n.º 11 da série “Cem vistas de Edo” (1856-59), por Utagawa Hiroshige. Ueno é hoje um distrito do bairro de Taitō, em Tóquio

Sem dúvida que podem retirar-se lições destas práticas de economia circular e gestão sustentável da floresta e é possível que, como escreve Krznaric, “o Período Edo continue a ser um dos melhores exemplos históricos de como poderá ser uma economia regenerativa que funcione dentro de limites ecológicos seguros” (pg. 79). Porém, para lá da orientação geral, que aplicações concretas podem estas políticas ter na civilização moderna? A sociedade japonesa estava então num estádio de desenvolvimento tecnológico, económico e social comparável ao da Europa medieval. Isto significa que apesar de a civilização do Período Edo ter atingido um elevado grau de requinte (nomeadamente na poesia e nas artes plásticas), este estava reservado a uma pequena elite, enquanto a grande massa do povo vivia em condições precárias ou até indigentes. A frugalidade do consumo e a circularidade da economia não foram escolhas sábias e virtuosas, mas consequência da penúria e do isolamento.

Quando se analisa a evolução do PIB japonês através dos séculos, o Período Edo, que Krznaric vê, através de uma lente romântica e rósea, como “a primeira civilização ecológica do mundo”, surge como a continuação de um longo período de estagnação e pobreza – só na viragem dos séculos XIX-XX as profundas reformas promovidas pela Restauração Meiji, iniciada em 1868, começariam a repercutir-se positivamente no nível de vida do japonês médio.

Evolução do PIB per capita do Japão, 1280-2018, em dólares (valores ajustados à inflação, a preços de 2011)

Enquanto o japonês médio de 1800 tinha um rendimento – e um modo de vida – similar ao dos seus antepassados de 1500, no mesmo intervalo, o rendimento per capita na Alemanha, França e Espanha (mas não na Itália) melhorara substancialmente e a Grã-Bretanha registara progressos ainda mais evidentes, destacando-se já do pelotão das restantes potências europeias. Que habitante de um país desenvolvido do século XXI aceitaria trocar o seu trem de vida pelo de um camponês, ou até de um daimio, do Período Edo? Nem sequer os autoproclamados “ambientalistas” aceitariam tal troca, com excepção de alguns ecotontos e neo-hippies. Muitos paladinos de ideais ambientalistas enaltecem a “pureza” e a “harmonia com a natureza” das “civilizações ecológicas” de antanho, sejam elas o Japão do Período Edo, os Hopi do Arizona, a “cidade verde” maia de Caracol, no Belize, ou uma ancestral comunidade agrícola num vale perdido do Butão, mas, na prática, abraçam integralmente os privilégios e gadgets da vida moderna e passam parte substancial do seu tempo a esvoaçar pelo mundo, a caminho de congressos académicos e conferências da ONU.

Evolução do PIB per capita em vários países da Ásia e Europa entre 1500 e 1950 (valores ajustados à inflação e em paridade de poder de compra)

Cada vez mais longe da economia circular

Um factor que parece escapar a Krznaric é que a economia circular é relativamente fácil de implementar numa sociedade num estádio de desenvolvimento tecnológico rudimentar, em que a actividade produtiva está concentrada na agricultura e em que quase todos os bens e artefactos (ferramentas, utensílios domésticos, mobiliário, vestuário, calçado) são produzidos em moldes artesanais e são feitos de poucos materiais, ou até de um só. Numa aldeia de índios da floresta amazónica, não havia, até há poucas décadas, um único elemento que não fosse reutilizável ou reciclável. Mesmo no Portugal do início do século XX a economia do meio rural funcionava num regime próximo da circularidade, com máxima contenção de inputs, escassa geração de resíduos e a energia a provir quase exclusivamente de fontes renováveis ou do músculo humano e animal.

Porém, no nosso tempo, como assegurar a reciclagem integral da multiplicidade de componentes que integram um sapato desportivo, um candeeiro, uma máquina de café, uma bicicleta, um sofá, um termoacumulador? Se o mundo do século XXI ainda está de longe de conseguir separar eficazmente a variedade de embalagens de plástico que são colocadas nos ecopontos, como pode esperar-se que consiga reciclar a 100% os materiais que constituem um smartphone? Como alimentar os mais de 4000 milhões de pessoas que vivem hoje em zonas urbanas sem recorrer a consumos maciços de combustíveis fósseis, fertilizantes de síntese e pesticidas? A verdade é que a marcha do progresso tem sido acompanhada por um crescente afastamento do ideal de economia circular e o Japão do Período Edo só parece contradizer essa tendência porque foi um caso excepcional e tardio, que combinou sofisticação civilizacional com um contexto de extrema escassez e de ausência de trocas comerciais, numa época em que a maior parte dos países ocidentais já estavam empenhados na Revolução Industrial e num intenso comércio internacional.

“Interior do santuário de Kameidō Tenjin”, estampa n.º 65 da série “Cem vistas de Edo” (1856-59), por Utagawa Hiroshige. Kameidō é hoje um distrito do bairro de Kōtō, em Tóquio

Deve também considerar-se que a implementação eficaz e rigorosa de práticas sustentáveis no Período Edo só foi possível porque o regime dos shogun era uma ditadura brutal e sem contemplações para com infractores e dissidentes – um factor que o próprio Krznaric reconhece. Numa democracia liberal e numa economia de mercado, o eleitor-consumidor é que define, ainda que indirectamente, as políticas, as leis, os regulamentos e o que se produz e em que quantidade. Ora, o eleitor-consumidor não tem, independentemente dos nobres ideais com que possa engalanar-se, qualquer inclinação para uma vida parcimoniosa, nem para abrir mão voluntariamente de uma só das comodidades, conveniências e mordomias que o progresso tecnológico lhe proporciona, nem para gastar minutos preciosos a identificar, separar, armazenar e colocar no contentor certo uma dúzia de tipos diferentes de resíduos domésticos (ver capítulos “Uma besta que compra e compra e compra” e “O capitalismo e a natureza humana” em Mark Stoll, a economia e a natureza: É o capitalismo que está a devorar o planeta?).

Há, finalmente, que referir que Krznaric se deixa levar pelo sectarismo e pela presunção de superioridade moral (tal como acontecia no capítulo 1) ao fazer a apologia do veganismo (que ele próprio pratica) como uma escolha deliberada de afastamento da “cultura de consumo convencional” e celebrar o facto de “no Reino Unido, 16% das pessoas entre os 18 e os 24 anos [serem] agora veganas ou vegetarianas” (pg. 75). Ora, se é verdade que as dietas vegan e vegetariana produzem, em média, uma pegada ambiental inferior à da dieta “convencional”, não há relação entre adesão ao veganismo e rejeição do consumismo. Não só são variadas as razões que podem impelir alguém a ser vegan (entre as mais frequentes estão a “sinalização de virtude” e a obsessão ortoréxica), como é possível – e é frequente – ser-se vegan e, ao mesmo tempo, ser-se um consumista impenitente – carros de gama alta, casas amplas dotadas de todos os confortos e mordomias, guarda-roupa em permanente renovação, um corrupio de viagens de avião – e, deste modo, ser-se responsável por uma factura ecológica que supera esmagadoramente os modestos ganhos advenientes de se praticar uma dieta vegan. Nem sequer é necessário incorrer em extravagâncias consumistas para anular o módico saldo ambiental positivo que resulta de se de trocar a dieta “convencional” pelo veganismo: basta que se tenha cão. Os muitos praticantes de veganismo e vegetarianismo que associam automaticamente as suas opções alimentares a virtude – ética e ambiental – deveriam ter sempre presente que Hitler era vegetariano.

Para uma esfera pública saudável e vibrante

O propósito estabelecido no título do capítulo 4, “Domar as redes sociais”, está, como acontecia com o do capítulo 3, “Abandonar o hábito do consumo”, condenado ao fracasso por ir contra os instintos básicos do ser humano. A sugestão de Krznaric é que a cultura de livre troca de ideias – sobretudo no domínio da política e sociedade – dos cafés britânicos, que teve o seu período áureo entre a segunda metade do século XVIII e meados do século XVIII, seja ressuscitada. Krznaric destaca a importância dos cafés da Grã-Bretanha para o debate intelectual na Era das Luzes, mas nada diz sobre os cafés franceses, que foram frequentados por figuras como Diderot, Montesquieu, Rousseau e Voltaire e cujo contributo neste domínio foi comparável dos britânicos – omissão que distorce seriamente a percepção do contributo civilizacional dos cafés (ver capítulo “Café” em Cacau, café e chá: Como os prazeres da mesa moldaram a história pt. 2).

Uma “coffeehouse” londrina no século XVII

A ideia de Krznaric é que a recuperação da tradição de diálogo produtivo associada aos cafés de antanho permitiria “alimentar uma cultura de discordância respeitadora” (pg. 105) e contrariar a cultura de desinformação, intolerância e agressividade das redes sociais. Krznaric propõe que os cafés, “em vez de se focarem em variedades de café de luxo e em bolos perfeitos […], deverão recuperar as mesas de conversa comunitária do passado. Imaginem que entravam no vosso café sabendo que a comprida mesa coberta por revistas e jornais era um local onde podiam falar livremente com estranhos sobre problemas da actualidade. Sem computadores nem telemóveis. Sem anonimidade. Apenas seres humanos a discutir cara a cara” (pg. 105).

É uma proposta tão séria, substancial e viável como a das Miss Universo que dizem pretender acabar com as guerras e a fome no mundo. As redes sociais absorvem hoje as atenções da humanidade – elas têm hoje 5220 milhões de utilizadores, representando 63% da população mundial e 94% da população mundial que usa regularmente a Internet, e em média, cada utilizador frequenta 6.8 redes diferentes e despende nelas uma média de duas horas e 19 minutos por dia, uma devoção que os cafés físicos nunca viram na sua clientela, mesmo no auge da sua popularidade. Ora, se foi para as redes socais que se transferiu o debate político que, em tempos, teve lugar nos cafés físicos, o que poderia, agora, levar as pessoas a abandonar em massa a Internet e a regressar aos cafés físicos? Na verdade, entre os antigos cafés que eram palco de intenso debate intelectual que ainda subsistem, poucos desempenham ainda esse papel, tendo-se convertido em meras atracções para turistas ignaros empenhados em registar no seu smartphone um comprovativo da sua passagem pelas atracções “icónicas” recomendadas pelos websites dedicados a viagens & evasões.

CHENG CHENG-EN

O café parisiense Les Deux Magots, fundado em 1884, teve entre os seus primeiros clientes regulares Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Stephan Mallarmé, antes de se tornar pouso dos surrealistas (capitaneados por André Breton) e, mais tarde, dos existencialistas (liderados por Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir). Outros frequentadores assíduos foram Bertolt Brecht, Albert Camus, André Gide, James Joyce, Fernand Léger, Pablo Picasso, Jacques Prévert e Raymond Queneau. É dos poucos cafés históricos que retém alguma da atmosfera intelectual de antanho

O próprio Krznaric parece não ver grande viabilidade nesta reversão, pois não faz qualquer sugestão prática nesse sentido e acaba por dedicar a maior parte do capítulo a discutir antes como levar as massas a comportar-se de forma mais urbana e tolerante no Grande Café Digital da Internet.

Krznaric lembra que, na década de 1990, a Internet abriu “uma hipótese de ressuscitar a esfera pública com um fluxo livre de informações digitais” e se acreditou que “os fóruns de debate, os blogues, as páginas de notícias independentes e as revistas electrónicas de nicho criariam uma cornucópia de comunidades sem fronteiras que partilhariam ideias com base em múltiplas perspectivas” (pg. 103), mas o que aconteceu foi bem diferente.

É verdade que nas redes sociais pululam “múltiplas perspectivas”, sobretudo no domínio da política e da vida em sociedade, só que estão separadas pela polarização, pelo sectarismo, por diferenças irreconciliáveis, por atitudes dogmáticas, insolentes e acintosas, e pela absoluta indisponibilidade para ouvir opiniões diferentes daquelas que se perfilham, pelo que se arrumam dentro de diferentes bolhas de realidade alternativa. Longe de revitalizar a esfera pública, a Internet e, em particular, as redes sociais converteram-na numa vasta cloaca, na qual reinam os que não só não têm pejo em chafurdar na lama como daí extraem prazer (ver Na Era do Zettabyte pt.1: Em toda a parte e em parte alguma). Krznaric está consciente deste processo de aviltamento da promessa inicial da Internet, pois lista várias das suas manifestações mórbidas. Ora, se foi esta a deriva “natural” que o espaço público digital sofreu nos últimos 30 anos e se as tendências presentes são para que ela prossiga ou até acelere, que medidas legislativas, regras definidas pelas plataformas da Internet, iniciativas da sociedade civil ou inovações tecnológicas permitiriam reverter a degradação das “conversas” na Grande Café Digital?

Discutindo a Guerra Franco-Prussiana num café parisiense: cartoon de Fred Barnard publicado na revista Illustrated London News de 17 de Setembro de 1870

Esquartejar os gigantes

A solução proposta por Krznaric é que os Estados imponham o fraccionamento das grandes redes sociais em blocos mais pequenos, pois, assume ele, uma das coisas que correu mal com a Internet foi que “as redes sociais foram monopolizadas por alguns gigantes da tecnologia”. Assim, entende que “talvez fosse aconselhável considerarmos desmembrar os gigantes tecnológicos, usando leis antimonopolistas” (a formulação “talvez fosse aconselhável considerarmos” é de uma invulgar tibieza) e “complementar o desmembramento dos gigantes tecnológicos com outras abordagens, como colocar as companhias maiores sob propriedade pública” (pg. 104).

Antes de avaliar a viabilidade destas ideias, é preciso tentar perceber as razões que levaram a que a Internet não se tenha transformado no espaço de debate livre, civilizado, iluminador e produtivo que alguns optimistas tinham predito na década de 1990 – eis quatro delas:

1) A Internet não é ideologicamente neutra (ver capítulo “A Internet é ideologicamente neutra?” em “Odeio a Internet”: A rede vai salvar-nos ou ser o nosso fim?).

2) A arquitectura e o “modelo de negócio” das redes sociais incentivam a desinformação (sobretudo se for de teor bombástico), a indignação, o insulto e o confronto (ver capítulo “O que vem a ser uma ‘boa conversa’?” em Mariano Sigman e a arte da conversa de treta).

3) Algumas redes têm vindo a manipular deliberadamente os algoritmos, de forma a acentuar estas características perniciosas (e aumentar o número de interacções dos utilizadores e, logo, o retorno financeiro), e a dar maior relevo e disseminação aos posts do proprietário da rede e às ideias que estão em sintonia com as do proprietário da rede.

4) As redes sociais mais populares e influentes são dominadas por um número relativamente pequeno de empresas, que não só estão entre as maiores do sector tecnológico como estão entre as maiores empresas do mundo. Isto significa que têm poder para aniquilar ou absorver empresas de média dimensão que emerjam como potenciais competidores; para fazer frente a eventuais tentativas dos Estados para regular as redes sociais; e até para favorecer a eleição de governantes cujos ideários e programas sejam propícios às suas actividades.

Percentagem da população que usa a Internet em cada país, 2023

Krznaric, seguindo a linha da crença no “bom selvagem”, tão cara à esquerda, assume que os utilizadores das redes sociais possuem, essencialmente, uma natureza benigna e que, se têm comportamentos censuráveis, é porque são manipulados pelos algoritmos perversos do Grande Capital; portanto, se as grandes empresas forem desmanteladas, a paz e a civilidade reinarão na Internet. Este raciocínio tem uma falha grave: ignora que a malevolência, a filáucia, a torpeza, o rancor, a desonestidade intelectual, o narcisismo e a imbecilidade que formigam nas redes sociais são, antes de mais, um reflexo das características inatas dos seus utilizadores, o que é o mesmo que dizer da humanidade, e que as redes sociais se limitam a exacerbar estas tendências.

Crer que a fragmentação dos colossos das redes sociais levaria à redistribuição das suas legiões de utilizadores pelas várias plataformas mais pequenas daí resultantes e faria com que aqueles, por magia, se tornassem corteses, tolerantes e disponíveis para escutar as ideias alheias e até a mudar as suas ideias em função dos argumentos aduzidos pelos interlocutores, é não compreender as razões que levam as pessoas a estarem nas redes sociais e a comportarem-se como se comportam.

Não só ninguém foi forçado a abrir conta no Facebook, no WhatsApp, no Instagram, ou no TikTok, como a Internet há muito que disponibiliza uma vasta escolha de plataformas ou “comunidades” para troca de ideias, com as mais variadas inclinações, “menus”, modos de funcionamento, regras de admissão e interacção, e quem entenda que, ainda assim, não encontra uma que se ajuste aos seus interesses e características pessoais, é livre de criar o seu próprio blog ou website. Se a grande maioria das pessoas não frequenta as plataformas “minoritárias” onde (supostamente) predomina um ambiente urbano é porque, no fundo, o que buscam na Internet não é o livre, construtivo e profícuo debate de ideias dos cafés do Século das Luzes. A principal pulsão para se estar nas redes sociais é a necessidade que cada um tem de “validar a sua própria existência, de não se sentir excluído do convívio com a humanidade” (ver capítulo “De acordo com o hábito das ovelhas” em A filosofia da Antiguidade tem alguma utilidade no século XXI?). As redes sociais não são capazes de satisfazer esta necessidade, nem o pretendem – o que elas oferecem realmente aos seus utilizadores é um pífio sucedâneo, uma ilusão assente em quatro pressupostos, qual deles o mais falacioso e absurdo: que cada um dos habitantes neste planeta tem algo de original e pertinente para dizer; que possui o talento, método e perseverança necessários para dizê-lo; que quando coloca um post, faz um comentário ou deixa um “like” se dirige ao mundo inteiro; e que o mundo inteiro está sequioso por se inteirar sobre a sua vida e as suas opiniões.

Percentagem da população que vive em áreas servidas pela rede móvel 4G em cada país, 2022

Nesta sociedade digital feita de equívocos, ambições e espelhos deformantes, cada utilizador tem, obviamente, o objectivo de maximizar a sua audiência; os seus “seguidores” no Facebook até podem ser apenas 300 (o número médio de “amigos” de cada utilizador do Facebook é de 338), mas o público potencial são os 3000 milhões de utilizadores da plataforma. Se se estiver activo numa rede com “apenas” um milhão de utilizadores, o investimento de tempo e energia que cada utilizador faz na sua autopromoção é o mesmo, mas o retorno potencial é 3000 vezes menor (pouco importa que, para os utilizadores comuns, o retorno efectivo seja irrisório em qualquer das redes, o que conta é a ilusão). Por outro lado, estar numa rede social “minoritária” também espicaça o Fear of Missing Out” (FoMO), ou seja, o temor de não se estar a par de algo que possa estar a acontecer no vasto mundo e que é o foco da conversa de todas as pessoas “bem informadas” (ver capítulo “Um grande buraco no centro da vida” em A filosofia da Antiguidade tem alguma utilidade no século XXI?). Embora cada Homo sapiens se considere uma criatura única, autónoma e digna de admiração, possui um forte instinto ovino que o leva a querer sempre fazer parte do rebanho de maiores dimensões (ver capítulo “O Império da Heteronomia” em A filosofia da Antiguidade tem alguma utilidade no século XXI?). Assim sendo, existe uma forte pressão para que cada indivíduo, ainda que possa frequentar plataformas “minoritárias”, esteja também nas redes que são mais populares. Resulta daqui que, mesmo que, por hipótese, as grandes redes sociais hoje existentes fossem desmembradas, alguns dos fragmentos iriam, forçosamente, crescer mais do que os outros e exercer maior atracção gravitacional sobre os utilizadores das redes mais pequenas, de forma que, ao fim de algum tempo, regressaríamos a uma situação análoga à de partida, com quatro ou cinco super-redes com centenas ou milhares de milhões de utilizadores.

Evolução do número de utilizadores de redes sociais no mundo, em milhares de milhões, 2000-2024

Relações de poder no mundo das redes

Nas suas considerações sobre a necessidade de “desmembrar os gigantes”, Krznaric nem sempre parece compreender o mundo das redes sociais e as relações de poder entre as redes e o poder empresarial e político – ou, se compreende, nem sempre tira as ilações que se impõem. Eis alguns exemplos:

● O sector das redes sociais não está tão concentrado como Krznaric dá a entender: ainda que, no Ocidente, as atenções recaiam quase exclusivamente sobre o Facebook (3070 milhões de utilizadores), YouTube (2500 milhões), WhatsApp (2000 milhões), Instagram (2000 milhões), TikTok (1580 milhões) e X/Twitter (600 milhões), em 2024 existiam 33 redes sociais com mais de 100 milhões de utilizadores activos (numa base mensal). O X/Twitter tem sido objecto de intensas polémicas no espaço público, mas deve realçar-se que surge em 12.º lugar no ranking do número de utilizadores, tendo acima de si o WeChat (1340 milhões), o Messenger (1010 milhões), o Telegram (950 milhões), o LinkedIn (930 milhões), o Snapchat (800 milhões), o Douyin (750 milhões) e o Kuaishou (700 milhões).

● Para lá das redes sociais, existem incontáveis comunidades virtuais, referentes a focos de interesse muito variados (do debate político à aprendizagem de línguas, passando pela apicultura e pelas danças de salão), algumas delas com dezenas de milhões de utilizadores registados.

● Krznaric apela à fragmentação de forma confusa, umas vezes referindo-se às redes sociais, outras às empresas que as detêm, de forma que fica sem se perceber o que efectivamente preconiza. Na verdade, Krznaric nem sequer menciona o facto de haver empresas que controlam várias redes sociais de grande dimensão, sendo o caso mais flagrante o da Meta Platforms, que detém o Facebook, o WhatsApp, o Instagram, o Messenger e o Threads, tal como não menciona que algumas redes sociais são propriedade de poderosos conglomerados com actividades diversificadas por vários sectores, como sejam a Alphabet Inc. (dona do YouTube e cuja subsidiária mais conhecida é a Google) e a Microsoft (dona das plataformas LinkedIn, Teams e Skype e mais conhecida pela actividade na área do software). Como foi argumentado, no capítulo anterior, a ideia de que os Estados deverão impor a fragmentação de redes sociais que se tornem “demasiado” grandes dificilmente é exequível e é até, possivelmente, uma interferência na liberdade de escolha dos internautas, mas já será mais viável e aceitável que um Estado impeça uma excessiva concentração de redes sociais nas mãos de uma mesma empresa.

Redes sociais mais populares em cada país, em Janeiro de 2023

● Falar das redes sociais como se fossem todas iguais e os seus utilizadores tivessem o mesmo perfil e comportamento é redutor – e é um “pecado” repetidamente cometido neste artigo e em boa parte dos discursos críticos sobre a Internet. É impossível, perante um fenómeno tão vasto e complexo, não recorrer a generalizações e simplificações, mas também é necessário, ao mesmo tempo, estar consciente de que, de facto, não existe uma “rede social padrão” e um “utilizador padrão”; que cada rede social tem as suas especificidades, em termos de modo de funcionamento e foco temático, do perfil e motivações dos utilizadores; e que a popularidade das diferentes redes regista grandes variações consoante os países. Há também que considerar que nem todas as redes estão disponíveis em todos os países e que há redes que estão circunscritas a um único país. As diferentes motivações dos utilizadores para frequentar uma dada rede estão bem evidentes quando, por exemplo, se consideram redes como o TikTok e o LinkedIn: 80% dos utilizadores do primeiro dizem procurá-lo para aceder a conteúdos “divertidos”, valor que cai para 11% nos utilizadores do segundo (ainda assim, este último valor é surpreendentemente alto – por lato que seja o sentido de humor, o que poderá haver de “divertido” no LinkedIn?). Já os utilizadores do X/Twitter indicam como principal motivação (60% das respostas) inteirarem-se da actualidade noticiosa.

● Decorre do ponto anterior que o número de utilizadores de uma rede social não é necessariamente proporcional à sua relevância na esfera pública: por exemplo, o X/Twitter tem um papel muito mais determinante no debate político do que redes com maior número de utilizadores, como o Telegram ou o LinkedIn.

● No mundo ocidental, o debate sobre as redes sociais centra-se nas que são dominantes entre os utilizadores ocidentais, o que leva a que se esqueça a realidade das redes sociais no resto do mundo e, em particular, na República Popular da China, que é, por larga margem, o país com maior número de utilizadores de redes sociais: 1100 milhões, tantos quanto a soma do 2.º (Índia, 426 milhões), 3.º (EUA, 239 milhões), 4.º (Brasil, 144 milhões), 5.º (Indonésia, 139 milhões) e 6.º (Rússia, 106 milhões) classificados do ranking. As redes sociais ocidentais (bem como outras “ferramentas da Internet” ocidentais, como o motor de busca Google) estão bloqueadas na China – onde o acesso à Internet é controlado pela chamada “Great Firewall” – e o mundo chinês das redes sociais é exclusivamente ocupado por redes chinesas que são propriedade de empresas chinesas: WeChat (1340 milhões de utilizadores, detida pela Tencent), Douyin (750 milhões, detida pela ByteDance), Kuaishou (700 milhões, detida pela Kuaishou), Weibo (570 milhões, detida pela Sina Corporation), QQ (550 milhões, detida pela Tencent), Qzone (520 milhões, detida pela Tencent). A Tencent é a empresa n.º 1 da Ásia em termos de capitalização de mercado (488.000 milhões de dólares) e a n.º 1 mundial em videojogos. A ByteDance tem um valor estimado em 300.000 milhões de dólares.

As Tencent Seafront Towers, em Shenzhen, albergam a sede da Tencent, detentora de várias das redes sociais com maior número de utilizadores na China

● O TikTok, embora seja detido pela empresa chinesa ByteDance, é um “produto” destinado exclusivamente ao mercado internacional, não estando disponível na China, onde o seu “nicho” é ocupado pela rede social Douyin, pertencente à mesma empresa.

● Na Rússia não existe um equivalente da Great Firewall chinesa, mas há redes que estão sujeitas a censura ou que estão inacessíveis. O Facebook e o Twitter ficaram sujeitos a censura mais apertada a partir de 2014 e foram bloqueados pouco depois da invasão da Ucrânia pela Rússia. A rede social mais popular do país, em 2024, foi a russa VK (VKontakte), fundada em 2006 por Pavel e Nikolay Durov e que tem 660 milhões de utilizadores registados; desde Dezembro de 2021 que está sob o controlo do Gazprombank, instituição financeira subsidiária da empresa estatal de combustíveis fósseis Gazprom.

Sede da rede social russa VK, na Avenida Nevsky, a artéria mais chique de São Petersburgo

● As redes sociais mais relevantes para o debate político e com maior repercussão na opinião pública no Ocidente são controladas por Mark Zuckerberg (Meta Platforms) e Elon Musk (X/Twitter), duas criaturas com traços sociopáticos, a quem o poder e fortuna desmedidos que amealharam instilou presunções messiânicas e aspirações megalómanas e que não têm hesitado em manipular as suas redes em favor dos seus interesses e caprichos (ver capítulo “A casta dos meta-barões” em Estará na História a origem da desigualdade entre países ricos e países pobres? e o capítulo “O Mark e outros amigos” em O futuro aos algoritmos pertence).

● A situação das redes sociais chinesas não é menos inquietante, uma vez que, embora sejam detidas, formalmente, por empresas chinesas, estão sob o controlo do Estado chinês e do Partido Comunista Chinês, que são tão pouco dignos de confiança como Zuckerberg e Musk e cujo poder é tão absoluto que nem sequer se dão ao trabalho de fingirem ser defensores da liberdade de expressão. O acesso à Internet na República Popular da China está constrangido pela “Great Firewall”, um conjunto de disposições legais e bloqueios tecnológicos que impede os habitantes do país (ou os estrangeiros em visita) de aceder, difundir ou publicar online “conteúdos” que não tenham a aprovação do PCC. É uma Grande Muralha da China imaterial, cuja finalidade é manter à distância, não os nómadas da estepe, mas quaisquer notícias, ideias e imagens com potencial para perturbar o ramerrame do povo chinês e, eventualmente, incutir-lhes apetites por perigosas vogas estrangeiras, como eleições livres, democracia e liberdade de expressão; a filtragem abrange também “conteúdos” com potencial para despertar no cidadão chinês a suspeita de que não vive no melhor dos mundos, ou de que as decisões e a actuação dos seus preclaros governantes nem sempre estão acima de qualquer reparo. A “Great Firewall” é o mais vasto, complexo e sofisticado dispositivo de censura alguma vez criado: qualquer conteúdo considerado inapropriado pelo regime que seja colocado nas redes sociais chinesas é rapidamente removido e os seus autores e propagadores são perseguidos e silenciados; é certo que pode ser “contornada” por quem possua competências informáticas acima da média (e esteja disposto a correr o risco de ser apanhado pelas autoridades), mas é eficaz a manter o grosso da população dentro do “cercado”.

● O facto de as redes sociais detidas por empresas chinesas responderem, em última instância, perante o Estado chinês e de este poder, assim, aceder a toda a informação e metainformação coligida pelas redes, tem sido esgrimido pelos EUA para, invocando razões de segurança nacional, ter ameaçado suspender o TikTok no país, caso este não seja vendido a uma empresa americana.

Sede da ByteDance, em Pequim. A ByteDance detém, entre outras redes sociais, o TikTok e o seu análogo chinês, o Douyin

● A intenção do Governo americano de impedir que o Estado chinês tenha acesso, pela porta das traseiras, ao manancial de informação do TikTok e possa, eventualmente, usá-lo para manipular os jovens americanos, contrasta com a sua atitude geral de alheamento perante a regulação das redes sociais e da Internet. Como escreve a jornalista americana Kara Swisher, em Burn book: A tech love story (2024), “um quarto de século após termos entrado na era da Internet, os governantes eleitos [dos EUA] promulgaram exactamente zero leis para proteger as pessoas. Instituições democráticas que prezávamos desmoronaram-se face às mudanças o que o envolvimento digital operou: não há protecção de privacidade, não há leis antitrust actualizadas, não há exigências de transparência dos algoritmos, não se dá atenção à dependência [da Internet] e à saúde mental. […] Ainda que possam ser imperfeitas, existem leis para tudo – menos para as empresas tecnológicas”.

Pausa para café

Inexplicavelmente, nas suas propostas para “domar as redes sociais” Krznaric deixa de fora a candente e inextricável questão da moderação de conteúdos. A inextricabilidade decorre, em parte, de, tal como quase tudo na Internet, as redes sociais terem ganho um papel fulcral na vida em sociedade, sem que, à partida, tivessem sido definidas regras básicas de funcionamento e de comportamento dos utilizadores ou tivesse sido criada uma instituição supranacional para as regular. Esta omissão pode, retrospectivamente, ser vista como resultando de desleixo, irresponsabilidade ou até de perfídia, mas também pode contrapor-se que, no dealbar do século XXI, não poderia prever-se que as redes sociais iriam ganhar tamanha importância e que o seu ambiente seria tão malévolo e quezilento.

Este último argumento é pouco convincente, sobretudo quando se considera que os proprietários dos cafés físicos dos séculos XVII-XVIII estavam bem conscientes de que as conversas à mesa entre uma clientela com as mais variadas origens sociais (os cafés tinham uma natureza invulgarmente democrática para a época) poderia facilmente degenerar em algazarra e distúrbios, pelo que advertiam os clientes de que a frequência do estabelecimento implicava a aceitação de um código de civilidade.

Folheto de 1674, publicitando o café londrino Coffee-Mill and Tobacco Roll

É disto exemplo um folheto de 1674, publicitando o café londrino Coffee-Mill and Tobacco Roll, em West Smithfield, em que, após fazer o louvor dos benefícios do café para a saúde (“Uma breve descrição das excelentes virtudes dessa sóbria e sã bebida chamada café e dos seus incomparáveis efeitos na prevenção e cura de numerosas doenças que afligem o corpo humano”), se estabeleciam as “Regras e disposições do café”: “Entrai livremente, cavalheiros, mas primeiro consultai as nossas regras de civilidade”. Estas baniam jogos de cartas, de dados ou de qualquer outro tipo, impunham multas e outras penalizações a quem praguejasse ou iniciasse rixas, proibiam altercações ruidosas e advertiam que, embora o ambiente fosse propício a conversas vivas, “ninguém deveria beliscar ou profanar as [Sagradas] Escrituras ou falar de assuntos de Estado de forma caluniosa e irreverente”.

Se alguns cafés ingleses dos séculos XVII-XVIII se pautaram por estas disposições e os mais sofisticados se converteram mesmo numa espécie de “universidades populares”, providenciando lições de línguas, poesia, matemática, astronomia, dança e esgrima a quem, pela sua humilde condição, nunca poderia aceder a um estabelecimento de ensino superior, também houve alguns que, sob a “fachada” de café, mais não eram do que estabelecimentos “de má reputação”, frequentados por bêbedos, arruaceiros, pequenos criminosos, prostitutas e proxenetas, com os quais se misturavam aristocratas e homens de letras em busca de diversão, e que praticavam um horário alargado, que, nalguns casos, se iniciava quando as tabernas fechavam e só terminava quando o sol já se erguera.

“Manhã”, da série de gravuras “Quatro alturas do dia” (1738), por William Hogarth. O cenário é uma praça perto de Covent Garden, em Londres, frequentada por mendigos, prostitutas e os clientes destas (em primeiro plano); no extremo direito, situa-se a Tom King’s Coffee House, onde uma zaragata transborda para o exterior. Este pretenso café era frequentado por prostitutas e pelos seus clientes (ainda que não possuísse camas, para não ser acusado de funcionar como prostíbulo) e o jogo era permitido

Também as redes sociais tinham, na sua origem, potencial para serem o fórum onde se poderia beneficiar de um inexaurível manancial de conhecimento e do livre intercâmbio de ideias com pessoas com as mais variadas experiências e saberes, conferindo a cada um de nós competências e desenvoltura intelectual bem para lá das habilitações académicas formais. Como sabemos hoje, as redes sociais tomaram outro caminho e, em vez de serem “universidades populares”, degeneraram em antros de valentões, dogmáticos, brigões, ociosos e bêbedos (ou de gente que soa tão toldada e entaramelada como se estivesse bêbeda), que se agitam em bazófias e querelas incessantes, sem delas tirar qualquer proveito ou ensinamento.

Sim, é certo que, no dealbar do século XXI, ninguém poderia adivinhar que milhares de milhões de pessoas iriam centrar as suas vidas nas atoardas, tolices, vaidades, frivolidades, e inanidades que desfilam nas redes sociais e que ficariam pavlovianamente dependentes da gratificação proporcionada pelos “likes” aos seus posts, fotos, vídeos e comentários. Mas era previsível que um fórum gratuito, universal, não-hierárquico, não-supervisionado, instantâneo (o que desincentiva a ponderação), com apreciável grau de anonimidade e nulo grau de responsabilização (o que desincentiva o comedimento) e sem “código de etiqueta”, nem punições para quem atropele as regras básicas de convivência, iria fomentar atitudes impolidas, ofensivas e soezes e gerar legiões de trolls – termo que começou por designar criaturas fantásticas da mitologia nórdica, geralmente feias, lerdas, pouco refinadas, de hábitos trogloditas e ariscas ao convívio com humanos e hoje identifica quem anda pela Internet a desconversar, a semear zizânias e a emitir comentários grosseiros e ofensivos.

Uma mãe troll (mais pequena) e os seu três filhos, numa ilustração de John Bauer para o livro The boy and the trolls (1915), de Walter Stenström

O clima de incivilidade, provocação e quezília que se tornou corrente na Internet tem vindo a contaminar outras áreas do espaço público, chegando até ao debate parlamentar, como tem sido evidente em Portugal, sobretudo pela parte dos eleitos do Chega. É natural que quem passa várias horas por dia, todos os dias, a comportar-se como um troll na Internet, acabe por levar traços dessa atitude para a vida real, tal como é natural que quem, desde tenra idade, gastou várias horas por dia a metralhar, decapitar, decepar e estripar adversários em videojogos fique algo insensibilizado pernte o sofrimento alheio e se torne menos empático. É claro que o efeito não é determinístico e muitas pessoas não verão o seu comportamento no mundo real moldado pelas experiências que têm no mundo virtual, mas defender que não existe porosidade entre os dois mundos seria tolo.

O que separa a moderação de conteúdos da censura?

O debate sobre a moderação de conteúdos incide na responsabilização (ou não) das empresas que operam as redes sociais por rastrear e, eventualmente, sinalizar ou remover “conteúdos” que caiam no domínio da desinformação deliberada ou do discurso de ódio. Acessoriamente, o papel de moderação poderá também incluir a emissão de certificados de autenticidade, que atestem que o utilizador que se apresenta com um dado nome é, efectivamente, esse utilizador (aspecto que é mais pertinente para figuras públicas, instituições e marcas comerciais).

Esta responsabilização tem sido assunto de aceso debate, pois embora possa contribuir para tornar a atmosfera das redes sociais um pouco menos insalubre (mas sem a alterar substancialmente), comporta um elevado grau de subjectividade (não há definições consensuais de “desinformação” e “discurso de ódio”), é uma tarefa ciclópica (dada a quantidade astronómica de posts e de uploads de vídeos realizados nas redes sociais a cada minuto) e atribui às empresas tecnológicas a supervisão e arbitragem da correcção ética dos utilizadores e de provedoria da liberdade de expressão, papéis para que não estão vocacionadas, nem qualificadas, nem credenciadas.

Entre os que entendem que as redes sociais veiculam conteúdos potencialmente danosos para a sociedade e devem, por isso, ser reguladas, e os que entendem que tal seria lesivo da liberdade de expressão, e entre os que entendem que a moderação, a existir, caberá às próprias redes e os que entendem que tal função deveria ser exercida por um organismo estatal, a controvérsia é intensa e está em permanente mutação. Cada país tem desenvolvido a sua abordagem à regulação das redes sociais, quase sempre com apreciável desfasamento face à rápida evolução da realidade e amiúde suscitando, em simultâneo, acusações de excesso de regulação e de regulação insuficiente ou ineficaz. Há que admitir que, face às características estruturais da natureza humana e das redes sociais e ao facto de estas terem evoluído de forma imprevisível e desregrada (é bom lembrar que o Facebook era, na sua origem, quando se chamava Facemash, um mero catalogador de “gajas boas” no corpo discente da Universidade de Harvard), não existe qualquer solução plenamente satisfatória para a moderação dos seus conteúdos – mas, por outro lado, há que reconhecer que a total ausência de moderação pode ter consequências trágicas, como aconteceu com a difusão de discurso de ódio contra os Rohingya em Myanmar.

A tendência presente, pelo menos da parte do Facebook e do X/Twitter, vai no sentido de deixar de fazer fact-checking e de não remover conteúdos racistas, homofóbicos, transfóbicos, misóginos, anti-semitas, conspiracionistas e negacionistas (do Holocausto, da eficácia e segurança das vacinas, das alterações climáticas, etc.). Aliás, quando adquiriu o Twitter – operação concretizada em Outubro de 2022 – Elon Musk anunciou tê-lo feito para combater o que entendia ser a política excessivamente censória da rede social, sobretudo contra ideias conservadoras.

[A 26.10.2022, Elon Musk, num momento de humor pueril, desajeitado e tosco (como é de seu tom), colocou na rede social Twitter um vídeo em que surge, nesse mesmo dia, a entrar na sede daquela empresa, que acabara de adquirir, com uma pia (sink, em inglês), acompanhada do comentário “Let that sink in!”, que pode ser traduzido como “Vão pensando nisso!” ou “Deixem isso assentar [nas vossas cabeças]!”. O “isso” era o facto de ele ser o novo dono do Twitter:]

Desde então, a rede social, entretanto rebaptizada como X, tem vindo a relaxar ou até eliminar as medidas que combatiam a publicação de desinformação e de teorias conspirativas repetidamente desacreditadas e a proliferação do discurso de ódio. Embora Elon Musk se arvore em paladino da “liberdade de expressão” e invoque esta quando alguém protesta por o X exalar um fedor mais nauseante do que nunca, ele mesmo se encarrega de censurar o vocabulário que lhe desagrada, de suspender ou bloquear definitivamente os utilizadores do X que o contestam e de manipular os algoritmos da rede para que promovam preferencialmente os seus tweets. Nas palavras de Kara Swisher, o X “transmutou-se numa plataforma em que o homem mais rico do mundo põe os seus retweets ao serviço de conspirações racistas, sexistas e homofóbicas” (Burn book: A tech love story).

Quanto a Mark Zuckerberg, que, durante muitos anos cultivou uma postura apaziguadora (na verdade, sonsa e calculista) e tentou fazer-se passar por um rapazito bem-comportado e inerme, sentiu-se legitimado pela reeleição de Trump (e espicaçado pela ascensão do seu rival Musk no círculo íntimo de Trump, pelo que, a 7 de Janeiro de 2025, um dia depois da certificação pelo Congresso dos votos eleitorais, publicou um vídeo em que afirmou que “os verificadores de factos têm sido excessivamente enviesados politicamente e têm contribuído mais para destruir a confiança do que para a criar” e anunciou que era “tempo de regressar às raízes da liberdade de expressão no Facebook e do Instagram”, pelo que estas redes sociais deixariam de fazer fact-checking, e que a “censura seria dramaticamente reduzida”. Zuckerberg admitiu que a sua decisão não era alheia à alteração na conjuntura política, ao classificar a vitória de Trump como “um ponto de viragem cultural no sentido de voltar a dar prioridade à [liberdade de] expressão”. Também declarou que iria “trabalhar com o presidente Trump para enfrentar os governos pelo mundo fora que perseguem as empresas americanas [de redes sociais] e as pressionam para aumentarem a censura”.

Quem lucra com a toxicidade das redes sociais?

Esta viragem nas políticas da Meta Platforms coincidiu com a nomeação para lugares cimeiros na estrutura da empresa de figuras políticas do universo MAGA, com laços com Trump: Dana White, com uma longa história nas artes marciais, primeiro como praticante e depois como empresário, nomeadamente como presidente e CEO da Ultimate Fighting Championship (uma empresa de promoção de eventos de “mixed martial arts”), foi eleito para o conselho de administração; e Joel Kaplan, um republicano da ala conservadora, antigo adjunto do chefe de gabinete de George W. Bush que, desde 2011, tem ocupado cargos proeminentes no Facebook e se opôs sistematicamente a iniciativas desta rede para combater a desinformação e a radicalização dos debates, assumirá em breve o cargo de director de assuntos globais.

Comprovando a sintonia entre a Casa Branca e os meta-barões de Silicon Valley, pouco mais de um mês depois do anúncio de Zuckerberg, J.D. Vance, o vice-presidente americano, interveio na Conferência de Segurança de Munique, para anunciar que há “um novo xerife em Washington” [sic] e admoestar severamente os europeus: “A ameaça que mais me preocupa na Europa, não é a Rússia, não é a China, não é qualquer outro actor exterior, o que me preocupa é a ameaça interna: o recuo da Europa no que respeita a alguns dos seus valores fundamentais […] Temo que na Europa a liberdade de expressão esteja a regredir”. Entre os exemplos que enumerou da ofensiva europeia contra a liberdade de expressão, estão as medidas para tentar regular as redes sociais, sobretudo no que respeita à desinformação e ao discurso de ódio, medidas análogas às que, sublinhou, o anterior governo americano tentou implementar: “tal como a Administração Biden parecia desesperada para impedir as pessoas de dizerem o que pensam, a Administração Trump fará precisamente o contrário”. Do alto da sua “self-righteousness”, Vance não se deu conta do paradoxo que constitui ouvir alguém que se recusou a admitir que Trump foi derrotado nas eleições americanas de 2020, que tentou desvalorizar a gravidade do ataque ao Capitólio a 6 de Janeiro de 2021 e que é um impenitente propagador de atoardas malévolas (nomeadamente das que acusavam os imigrantes haitianos em Springfield, Ohio, de comerem os cães e gatos dos residentes e de assassinarem crianças), a pretender dar lições sobre “valores fundamentais”.

[Discurso de J.D. Vance na Conferência de Segurança de Munique, 14.02.2025:]

Nestas considerações sobre ameaças à Europa, feitas em Munique, a mais séria delas veio, afinal, do próprio Vance: a mensagem fulcral nas entrelinhas do seu discurso foi que, se a Europa continuar a tentar cercear a “liberdade de expressão” nas redes sociais americanas que operam em território europeu, deixará de contar com os EUA como aliado.

Isto terá soado como música celestial aos meta-barões, que, embora tenham, em tempos, fingido que o objectivo supremo das suas redes sociais seria promover a concórdia universal, nunca tiveram genuíno interesse em assegurar a moderação de conteúdos, dado que esta tem custos elevados (é necessário pagar a uma numerosa equipa de moderadores) e o modelo de negócio das redes faz com que a boataria bombástica, o bullying e os insultos sejam os “conteúdos” que suscitam maior número de interacções dos utilizadores e geram maiores receitas.

Os meta-barões não são os único a obter dividendos da zizânia, da polarização, do maniqueísmo, da malevolência e do fervilhar de desinformação que, na ausência de moderação, toma conta das redes sociais. Também o populismo de extrema-direita, quer o europeu, quer o do movimento MAGA, é favorecido por essa atmosfera tóxica (ver capítulo “Os computadores e as redes estão a criar populistas?” em Nexus: As redes de informação, a humanidade e as (revira)voltas de Yuval Noah Harari e capítulo “Turbas e redes sociais” em Donald Trump: A arte do ludíbrio na era digital), por isso é compreensível que ele pugne por que a Internet seja uma terra sem lei, onde cada um pode mentir, difamar, insultar e espalhar aleivosias a seu bel-prazer. Quanto mais imunda for a cloaca das redes sociais, mais vicejam os populismos – sobretudo os de extrema-direita, que não conheciam um período tão próspero desde a década de 1930.

Interlúdio: Paradoxos do populismo

O empenho do populismo de extrema-direita em fomentar uma atmosfera de discórdia, caos e descalabro civilizacional não significa, todavia, que pretendam operar uma revolução na sociedade: o seu intuito é convencer os eleitores de que se vivem tempos tão anárquicos e depravados que só um “homem forte” – o líder populista – poderá restaurar a ordem e a decência, mas sem que tal implique qulquer mudança estrutural que retire poder às elites e o coloque nas mãos do povo (ver capítulo “O que (não) aprendemos com a História” em Os homens e as mulheres que tornaram possível o III Reich: Monstros ou gente banal?). Corey Robin sintetizou a sua estratégia em The reactionary mind: Conservatism from Edmund Burke to Sarah Palin (2011): apesar de “mobilizarem as ruas em espectaculares demonstrações de força, [os populistas de direita] asseguram-se de que o poder nunca será verdadeiramente partilhado ou distribuído. A missão do populismo de direita é esta: apelar às massas sem perturbar o poder das elites, ou, mais rigorosamente, usar a energia das massas para reforçar ou restaurar o poder das elites”.

Curiosamente, enquanto Hitler, que se apresentava ao eleitorado como inimigo da elite capitalista e defensor do povo, teve o cuidado de ocultar os laços que o uniam às elites industriais e financeiras alemãs (ver O caminho para a II Guerra Mundial: Como o impensável se tornou inevitável), Trump, ao mesmo tempo que se arvora em paladino da classe operária e promete derrubar as “elites corruptas”, sempre fez questão de realçar o sucesso que obteve nos negócios, a vida opulenta que leva e as suas íntimas conexões com as elites e atribuiu lugares de topo da sua Administração 2.0 a milionários e altos quadros do mundo empresarial – o que não o impediu de conquistar maior percentagem de votos entre os mais desfavorecidos do que qualquer candidato presidencial republicano nas últimas décadas.

Outro aspecto paradoxal do populismo de extrema-direita no século XXI é que a pressão em favor da ausência de regras nas redes sociais se faça ao abrigo da defesa da “liberdade de expressão”, argumento brandido quer pelos plutocratas quer pelos populistas de direita, grupos que tendiam, historicamente, a ser hostis à genuína liberdade de expressão. Trump é um caso paradigmático da invocação hipócrita da liberdade de expressão: ao mesmo tempo que se apresenta repetidamente como vítima de “censura” e campeão do “free speech”, ameaça com processos judiciais e com a perseguição pelo aparelho de Estado os mass media que divulgam informações, opiniões ou sátiras que lhe são desfavoráveis ou que o melindram. Contradições análogas podem ser apontadas a outras figuras destacadas do movimento MAGA, como Devin Nunes, CEO do Trump Media & Technology Group e secretário do Conselho Consultivo sobre Informações Externas do presidente dos EUA: em 2019, este fervoroso advogado da liberdade de expressão processou o Twitter e várias contas nesta rede social pela publicação de conteúdos que o satirizavam e exigiu indemnizações no valor de 250 milhões de dólares.

Há que admitir que o sucesso da direita em apoderar-se da bandeira da “liberdade de expressão” se deve, em grande parte, ao facto de a esquerda, que em tempos fora a sua mais enérgica defensora, se ter consagrado nas últimas décadas à vigilância cada vez mais obsessiva e rigorosa do discurso no espaço público, a pretexto da correcção política e da descabelada ideia de que seria possível acabar com a injustiça e a desigualdade no mundo através do policiamento da linguagem, e recorrendo a campanhas de “cancelamento” de quem não se submete a esses ditames de “correcção”. Esta actuação foi deixando segmentos significativos da população cada vez mais agastados com o que entendem ser uma irritante presunção de superioridade moral, uma deriva autoritária ou um ataque ao seu sistema de valores (ver capítulo “A reivindicação perpétua” em História para amanhã: pt. 1: É no radicalismo que está a solução para as alterações climáticas?). O movimento de reacção à “hipercorrecção política” ganhou ímpeto suficiente para que hoje emerjam nas redes comentários como “Eu já era racista antes de isso ser cool” (dixit Marko Elez, um dos miúdos-prodígio recrutados por Musk para o Departamento de Eficiência Governamental) e para que se tente englobar sob a nobre capa da liberdade de expressão o que não passa de torpeza, insulto, calúnia, difamação e apelo à violência.

As redes sociais não são domesticáveis

A ideia de Krznaric de que ainda é – ou de que alguma vez foi – possível domar as redes sociais é de uma extraordinária ingenuidade. Na verdade, as redes sociais é que nos domaram: bastaram duas décadas para que boa parte da humanidade fosse estabulada, castrada e anestesiada e se conformasse a passar os seus dias confinada, entretida a escrutinar e “scrollar” écrans, a ruminar a insossa ração de inanidades que deles jorra e a verificar se alguém deixou um “like” no seu mais recente post (“alguém” no sentido mais desesperado do termo: uma tia neurasténica, um primo paranóico, um antivaxxer anónimo ou um bot russo bastam para proporcionar gratificação). A porta do estábulo está aberta – sempre esteve aberta – mas aos reféns das redes sociais não lhes passa pela cabeça escapulirem-se para o mundo exterior, pois este afigura-se-lhes imprevisível e hostil (ou simplesmente árido e enfadonho) e já não conseguem passar sem a recompensa de “likes” que dá sentido à sua existência. Para os mais novos, a fuga é ainda mais impensável, pois as redes sociais são a única forma de “vida” que alguma vez conheceram.

Pelo caminho, as redes sociais fizeram implodir a comunicação social tradicional, oferecendo um caudal de “conteúdos” ilimitado, gratuito, talhado à medida de cada um e com custo de produção nulo, uma vez que os “conteúdos” ou são pilhados à comunicação social, ou são produzidos pelos próprios utilizadores das redes. Face a esta competição desigual e desleal e sangrados das suas fontes de receitas (vendas em banca, assinaturas, publicidade), os órgãos de comunicação social tradicionais ou fecharam portas ou tentam sobreviver emulando algumas das características das redes sociais e deixando que a sua agenda seja determinada por elas, abdicando do poder editorial em favor do que “está a viralizar”.

Também os governos têm vindo a dobrar a cerviz perante as redes sociais, receosos das tempestades de emoções descontroladas que nelas se levantam e do descomunal poder económico e tecnológico dos multimilionários que são seus proprietários e que detêm a chave para as benesses da Indústria 4.0 que, dizem-nos, irá obsequiar-nos com abundância ilimitada, comodidades inauditas e vida eterna.

Na viragem dos séculos XIX-XX, na chamada “Era Progressista” da história política dos EUA (c.1890-c.1920), o Estado teve vontade e força suficientes para promover importantes reformas sociais, económicas e políticas, entre as quais estiveram sucessivas leis anti-trust, que limitaram o poder dos grandes conglomerados e ditaram, inclusive, o desmembramento do que era então a maior empresa petrolífera do mundo, a Standard Oil (ver capítulo “Standard Oil” em De Rockefeller às alterações climáticas, passando pela Highway 66). Porém o contexto actual da política americana não deixa, de modo algum, antever que o Governo venha a tomar medidas análogas contra a Big Tech.

O cartoon “Os Irmãos Monopólio apoiados sobre o pequeno consumidor”, por Thomas Powers, publicado a 02.04.1912, alude ao poder desmedido dos grandes trusts que então dominavam a economia americana, distorcendo seriamente a competição e impondo os preços que bem entendiam ao consumidor americano

Na última década, o Estado americano foi ficando cada vez mais dependente das grandes empresas tecnológicas para levar a cabo alguns dos seus projectos capitais (programa espacial, rede de computação em nuvem, redes de satélites para fins militares, etc.), o que não impediu Donald Trump, durante o seu primeiro mandato, de manifestar profundo desagrado com a Big Tech: acusou a Google de estar conluiada com o Governo e as Forças Armadas da China; o motor de busca Google Search, o Facebook e o Twitter de promoverem a disseminação de “fake news” desfavoráveis para ele; o Facebook e o Twitter de censura selectiva, sobretudo contra posts e comentários vindos do sector MAGA; a Apple de preferir fabricar os seus produtos na China a fazê-lo nos EUA; e a Amazon de lesar os Serviços Postais dos EUA anualmente em milhares de milhões de dólares – um ataque que talvez tenha como real motivação o facto de Trump ter ficado abespinhado com as (alegadas) “fake news” contra a sua administração “fabricadas” pelo The Washington Post, que pertence a Jeff Bezos, dono da Amazon. Os comentários azedos e ameças de Trump em relação à Big Tech continuaram após o termo do seu primeiro mandato e prolongaram-se até pouco antes da sua reeleição: em Agosto de 2024, por exemplo, ameaçava Mark Zuckerberg de ir “passar o resto da vida na prisão” por ter conspirado contra ele nas eleições presidenciais de 2020 e por o Facebook ter aceitado suprimir conteúdos relativos ao caso Hunter Biden (potencialmente danoso para a reputação de Joe Biden) e à covid-19, por pressão da Administração Biden.

Porém, os últimos meses e, em particular, o período que transcorreu desde a eleição de Trump para um segundo mandato, dissiparam esta tensão e promoveram uma rápida aproximação entre a Big Tech e Trump e o universo MAGA. Esta nova relação, que entra amiúde no domínio da promiscuidade, é evidente em vários aspectos:

● No (acima mencionado) recuo do X/Twitter e da Meta Platforms na moderação de conteúdos das redes.

● No pagamento a Trump pelo X e pela Meta Platforms de 10 milhões e 25 milhões de dólares, respectivamente, como forma de pôr termo a processos judiciais interpostos por Trump contra estas empresas por o terem suspendido do (então) Twitter e do Facebook, após o assalto ao Capitólio a 6 de Janeiro de 2021.

● No facto de, na tomada de posse de Trump, Elon Musk, Mark Zuckerberg, Jeff Bezos, Tim Cook (da Apple) e Sundar Pichai (da Google) terem sido colocados em lugar de destaque, ao lado dos membros da família Trump e à frente dos nomeados para a Administração Trump.

Tomada de posse do segundo mandato de Donald Trump, a 20.01.2025. No canto superior direito da imagem são visíveis, da direita para a esquerda, Elon Musk, Sundar Pichai, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg

● Na indigitação de Musk para dirigir o novel Departamento de Eficiência Governamental (DoGE, na sigla inglesa), que tem como incumbência “cortar gorduras” no aparelho de Estado e cuja equipa, recrutada por Musk entre funcionários das suas empresas e jovens groupies seus, recebeu poderes extraordinários para escrutinar todos os recantos da máquina administrativa e de tomar medidas para paralisar ou desmantelar os departamentos vistos como “ineficientes”. Já seria mau que uma ampla reforma do Estado fosse conduzida com base em critérios meramente contabilísticos e tecnocráticos, mas a escolha de Musk levanta objecções adicionais: Musk é (como Trump) um narcisista patológico, movido por rancores e caprichos pessoais e é adepto do ultraliberalismo, tendo defendido que, a fim de tornar a governação dos EUA mais eficaz, “é preciso ir em frente e fazer uma limpeza generalizada das regulações. Tipo, as regulações devem, basicamente, desaparecer, por princípio”. Para mais, a nomeação de Musk representa um gravíssimo conflito de interesses, uma vez que o seu império empresarial não só tem interesses em múltiplos ramos da economia, que são regulados pelo Estado, como tem vultosos contratos com o Estado (que geraram 20.000 milhões de dólares só para a SpaceX). Uma vez que em Musk é uma criatura tremendamente ambiciosa, narcisista, rancorosa e destituída de escrúpulos, que garantias tem o cidadão americano de que o “emagrecimento” do Estado americano visa o bem comum e não satisfazer os desígnios pessoais de Musk?

● No facto de, quando um senador Democrata questionou o Gabinete de Ética Governamental (OGE, na sigla inglesa) sobre o eventual conflito de interesses entre a actividade empresarial de Musk e o cargo que desempenha na Administração, Trump ter demitido de imediato o director do Gabinete de Ética Governamental. Não estamos apenas perante a situação de a raposa ser incumbida de guardar o galinheiro – quem nomeia a raposa cuida também de abater o cão de guarda.

● Na admissão de Musk no círculo íntimo de Trump, funcionando como conselheiro não-nomeado e tendo presença física constante na Casa Branca e na mansão de Trump em Mar-a-Lago e presença virtual no X/Twitter, onde opina tão assídua e assertivamente sobre as políticas interna e externa dos EUA que ofusca todos os outros membros da Administração e projecta a imagem de segunda figura mais importante do Estado americano. Os anteriores arrufos entre Musk e Trump (ver capítulos “Interlúdio cósmico: Rumo a Marte” e “Interlúdio: Cristo regressa ao Calvário” em Donald Trump: A arte do ludíbrio na era digital) parecem estar (pelo menos provisoriamente) esquecidos e o ambiente é de lua-de-mel, como se depreende deste tweet de Musk, a 07.02.2025: “Amo Donald Trump tanto quanto um homem heterossexual pode amar outro homem”.

Assim sendo, a probabilidade de que a presente Administração, recheada de ultraliberais, alguns deles figuras proeminentes da Big Tech, possa implementar as propostas de Krznaric de desmembramento dos gigantes da Internet e de “colocar as companhias maiores sob propriedade pública” é equivalente à de Trump trocar a Diet Coke pelo smoothie de spirulina.

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