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[Este texto faz parte de uma série que o Observador está a publicar sobre os terramotos políticos provocados pelos partidos antissistema de direita radical em diferentes países da Europa Ocidental. Pode ler também sobre os casos da Alemanha, Espanha, Reino Unido, Grécia, França e Suécia]
Votei nos Irmãos de Itália, porque as minhas ideias políticas estão alinhadas com a direita. Respeitei e continuo a respeitar Silvio Berlusconi e, no passado, votei sempre no seu partido, o Forza Italia. Mas a consistência, a coragem, e, acima de tudo, a forte determinação de Giorgia Meloni tinham de ser recompensadas.”
Angela Amado, uma professora de Ciências que vive em Nápoles e tem perto de 40 anos, votou nos Irmãos de Itália, o partido da atual primeira-ministra Giorgia Meloni que acabou por vencer as eleições gerais em 2022. A mulher decidiu confiar num partido considerado de direita radical. Mas essa reputação não influenciou o sentido de voto da docente, como explicou em declarações à Vice: “Há quem diga em Itália que não deveríamos usar mais a expressão centro-direita, mas sim extrema-direita. Discordo: se Enrico Letta [antigo candidato a chefe do executivo do partido de centro-esquerda, Partido Democrático] certamente não é Che Guevara, Giorgia Meloni certamente também não é Benito Mussolini”.
Tal como Angela Amado, muitos italianos veem na primeira-ministra uma figura moderada e confiável. Apesar de o seu nome ter estado associado a movimentos radicais e até neofascistas no passado, a chefe do executivo conseguiu que esse fator não pesasse nas eleições de 2022 e nas seguintes. No espaço de três anos, conseguiu transformar o Irmãos de Itália no partido hegemónico no país. Este sucesso está intrinsecamente ligado à marca Giorgia Meloni — que fez um esforço de moderação em certos assuntos e soube conquistar um eleitorado que estava a afastar-se dos partidos mainstream.
A concorrência não era pouca. A Liga de Matteo Salvini venceu as eleições em 2018 — e estava no mesmo espaço ideológico dos Irmãos de Itália. No entanto, o partido não conseguiu manter a hegemonia e perdeu bastante apoio. Ao mesmo tempo, a sofrer o desgaste dos escândalos do antigo primeiro-ministro Silvio Berlusconi, o centro-direita através do Forza Italia tentou recompor-se, mas sem sucesso. E ainda havia o joker: o Movimento Cinco Estrelas (M5S), que abalou a política italiana.
▲ Giorgia Meloni tornou-se o rosto da direita em Itália
Corbis via Getty Images
Estes desafios foram superados por Giorgia Meloni. Seduziu o eleitorado mais radical da Liga, piscou o olho a quem votou no partido antissistema Movimento Cinco Estrelas e herdou muitos apoiantes de Silvio Berlusconi. Este antigo primeiro-ministro foi, aliás, o primeiro a conseguir criar uma aliança de partidos de direita — e a primeira-ministra inspirou-se nesta solução, ainda que adote um estilo completamente diferente do excêntrico magnata, que morreu em junho de 2023.
Se Silvio Berlusconi liderou incontestavelmente a direita italiana desde meados dos anos 90, o protagonismo passou, nos últimos três anos, para Giorgia Meloni. Entretanto houve um período de transição, em que Matteo Salvini tentou assumir esse papel. Contudo, a crise financeira, a instabilidade nas fronteiras, o frágil governo com o Movimento Cinco Estrelas e o início da pandemia de Covid-19 desgastaram a sua imagem. A atual primeira-ministra surgiu, assim, como uma alternativa: quase no mesmo espectro ideológico, mas com uma imagem praticamente imaculada.
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Do final da Segunda Guerra Mundial ao escândalo que destruiu o mainstream político italiano
Abril de 1945. Ocupando o norte da Península Itálica, as forças comandadas pelo duce Benito Mussolini (sob as orientações da Alemanha nazi) que lideravam a República Social Italiana foram derrotadas pelas tropas aliadas. Após o final da Segunda Guerra Mundial na Europa, Itália estava em ruínas. E não só em termos económicos. Politicamente, o fascismo tinha sucumbido — e havia que criar uma alternativa. Inicialmente, o país foi gerido por alguns governos de transição, sob a supervisão do Rei Vítor Emanuel III. Em 1946, os italianos escolheriam, através da votação num referendo, o fim da monarquia e o início de uma República, a primeira desde a unificação italiana.
▲ O fim do regime fascista de Benito Mussolini levou a um novo regime em Itália
Getty Images
Na Primeira República Italiana, elaborou-se uma constituição de natureza antifascista, proibindo movimentos do género em Itália, inspirada em outras democracias liberais. As primeiras eleições gerais italianas realizaram-se depois em 1948. O partido que venceu foi o Democracia Cristã, de centro-direita, que tinha sido apoiado pelos Estados Unidos da América (EUA), num mundo que já estava a viver a bipolarização da Guerra Fria. A Frente Democrática Popular, composta por socialistas e comunistas, acabou derrotada e afastou Roma de Moscovo.
O Democracia Cristã dominou a cena política italiana durante décadas. Alicerçando-se no catolicismo e no desenvolvimento de um Estado social e democrático mais forte, o partido nunca perdeu as eleições, apesar de ter feito várias coligações para governar Itália. À esquerda, nunca surgiu nenhuma alternativa; os comunistas e os socialistas nunca ameaçaram a hegemonia da força política de centro-direita, que contribuiu para a adesão de Itália à Comunidade Económica Europeia.
O sistema manteve-se praticamente inalterado até aos anos 90. Mas é nessa altura que rebenta um escândalo que viria a revolucionar a cena política italiana: o Mani pulite (Mãos Limpas). Denunciado através de uma investigação judicial, veio a público um esquema de subornos em que praticamente todos os partidos em Itália estavam envolvidos. Como consequência, vários líderes partidários e deputados foram alvo de investigação — e alguns foram mesmo presos.
▲ Símbolo da Democracia Cristã em Roma, em 1990
Vittoriano Rastelli via Getty Im
O apoio popular à Democracia Cristã e ao Partido Socialista Italiano, que tinha ganhado preponderância, caiu a pique e estas forças políticas começam a desmoronar-se. Os italianos passam a olhar para as instituições políticas com muita desconfiança. Neste cenário, surgem, num curto espaço de tempo, novas forças políticas e algumas que alteram o nome para recuperar a confiança do eleitorado.
Berlusconi como líder da direita e o surgimento do bipartidarismo entre blocos
As eleições gerais de 1994 abriram um novo capítulo na política italiana. Liderado pelo magnata detentor de meios de comunicação social Silvio Berlusconi, o partido Forza Italia — que encabeçava uma coligação com partidos liberais, regionalistas (como a Liga do Norte) e até radicais — venceu as eleições. Indo buscar votos ao Democracia Cristã e aos insatisfeitos com o sistema político, o empresário tornou-se primeiro-ministro.
Esta coligação — designada Polo das Liberdades — incluía vários partidos. Um deles era o Aliança Nacional, herdeiro do Movimento Social Italiano (MSI). Fundado no final de 1946, o MSI reunia saudosistas do fascismo de Benito Mussolini. Estiveram presentes no Parlamento italiano desde as eleições de 1948, mas nunca tiveram grande êxito e nunca conseguiram influenciar a governação do país. Com a designação Aliança Nacional e deixando cair pontos mais radicais da sua agenda, integraram nos anos 90 a coligação liderada por Silvio Berlusconi juntamente com outros partidos do centro-direita.
▲ Silvio Berlusconi chegou ao poder em 1994 e alterou a política italiana
Giorgio Cosulich/Getty Images
Em meados dos anos 90, com apenas 15 anos, a jovem Giorgia Meloni, filha de mãe solteira e com um pai comunista que se afastou da família, juntou-se à juventude do MSI, uma força política que defendia abertamente ideias neofascistas e de extrema-direita. Mais tarde, a atual primeira-ministra chegou mesmo a liderar a Ação Juvenil, uma associação para jovens ligada à Aliança Nacional.
Num vídeo em que é entrevistada por jornalistas franceses, Giorgia Meloni, na altura com 19 anos, espelhava a mentalidade da Ação Juvenil e da Aliança Nacional em relação à figura do duce, que continuava a ser uma referência cultural para a direita radical italiana. “Eu acredito que Mussolini foi um bom político. Tudo o que ele fez foi por Itália”, disse a atual primeira-ministra.
A jovem Giorgia Meloni não era a única a gostar de Benito Mussolini dentro da Aliança Nacional, mesmo com as tentativas de moderação. Apesar disso, Silvio Berlusconi não se opôs a aliar-se a políticos mais radicais para montar a coligação Polo das Liberdades. Esta prática política contrariava o que se tinha passado entre 1948 e 1994. Durante esta fase, havia uma espécie de cordão sanitário — que, em Itália, se chamava patto constituzionale (pacto constitucional, em português) —, em que o centrão se recusava a aliar-se com a direita radical.
Muito antes de a direita radical ganhar espaço na Europa, já Silvio Berlusconi se aliava a partidos que ocupam esse espaço político. “Berlusconi normalizou a direita radical”, sentenciou, em declarações à Foreign Policy, Matteo Cavallaro, especialista nos partidos à direita na Universidade de Lausanne. Até o primeiro ex-primeiro-ministro reconheceu, num discurso de 2019, que contribuiu para esse processo. “Em 1994, decidimos entrar em campo com a direita, ou seja, com a Liga e com os fascistas. Os outros partidos que governaram Itália desde o início da República mantiveram-nos fora do arco constitucional: nunca permitiram que a Liga e o fascismo entrassem no governo. Nós deixámo-los entrar em 1994. Legitimámo-los e constitucionalizámo-los.”
Silvio Berlusconi defendeu, no mesmo discurso, que o Forza Italia se mantinha “no centro-direita”, do qual era “o coração, o cérebro e a espinha dorsal”. “Sem nós, o centro-direita não teria existido e não existiria. Somos forçados a permanecer no centro-direita; se não fôssemos, [eles] seriam uma direita extremista. Incapazes de vencer e governar”, prosseguiu o antigo primeiro-ministro italiano, em declarações que foram depois criticadas pelos Irmãos de Itália.
A coligação que juntava vários partidos à direita causou, contudo, várias dores de cabeça a Silvio Berlusconi. As posições ideológicas divergiam e não existia coesão sobre o rumo político que Itália devia seguir. A Liga retirou o apoio ao Polo das Liberdades; e o ex-primeiro-ministro não conseguiu garantir a estabilidade necessária. Como consequência, Itália foi novamente a votos em 1996. Pela primeira vez desde o final da Segunda Guerra Mundial, um grupo de forças políticas abertamente de centro-esquerda — a que se deu nome de coligação Oliveira — ganhou as eleições.
Depois do domínio da Democracia Cristã, as eleições de 1996 modificaram o panorama político italiano, inaugurando um cenário de bipolarização entre um bloco de direita e outro de esquerda. Em 2001, a coligação de direita venceu as eleições, enquanto em 2006 foi a vez da esquerda. Dois anos depois, Silvio Berlusconi voltou a ser primeiro-ministro, ainda que tenha havido uma novidade: o centro-esquerda uniu-se em redor do Partido Democrático, fundado em 2007.
Ao longo das eleições que ocorreram até à passada década, a Aliança Nacional manteve-se fiel ao Forza Italia, enquanto a Liga às vezes concorria a solo. Como prática governamental, à semelhança do que acontece hoje em dia na coligação que governa Itália, Silvio Berlusconi distribuía pastas no seu executivo aos seus aliados, que podiam influenciar a governação do país.
▲ Autocarro italiano com a imagem do Partido Democrático
AFP via Getty Images
A ministra da Juventude Meloni e a queda de Berlusconi
Em 2008, a direita ganhou as eleições em Itália. Para ocupar o cargo de ministra da Juventude, Silvio Berlusconi escolheu um dos quadros mais promissores da Aliança Nacional: Giorgia Meloni. Na altura com 31 anos, a jovem tornou-se numa das ministras mais novas de sempre e, dois anos depois, estreou-se como deputada na câmara baixa do Parlamento italiano, a Câmara dos Deputados.
Porém, a jovem ministra, que nunca foi propriamente influente e nunca esteve no núcleo duro do antigo primeiro-ministro, atravessou um período politicamente conturbado. A aliança de direita fragmentou-se em 2010; o antigo líder da Aliança Nacional, Gianfranco Fini, ex-aliado de Silvio Berlusconi, retirou o apoio ao governo e formou um novo partido à direita — o Futuro e Liberdade por Itália. Por conseguinte, o ex-chefe do executivo perdeu a maioria na Câmara dos Deputados, ainda que nem todos os quadros da Aliança Nacional tivessem abandonado Berlusconi; por exemplo, Giorgia Meloni manteve-se leal ao ex-primeiro-ministro.
Esta perda da maioria na Câmara dos Deputados por Silvio Berlusconi ocorreu numa conjuntura bastante desfavorável. Não só o nome do ex-primeiro-ministro começava a estar envolvido em vários escândalos, como também Itália começou a sentir os efeitos da crise económica que se espalhava na Europa. O antigo chefe do executivo italiano foi obrigado a adotar impopulares medidas de austeridade, num quadro político bastante complexo. Tornou-se praticamente impossível governar — e o magnata demitiu-se.
▲ Giorgia Meloni e Silvio Berlusconi em 2008, quando a atual primeira-ministra foi nomeada ministra da Juventude
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Em plena crise económica, um governo tecnocrata assumiu as rédeas do país. Em paralelo, Silvio Berlusconi caía em desgraça. A imprensa italiana explorava o escândalo das festas Bunga Bunga e denunciava os crimes do antigo primeiro-ministro. Em agosto de 2013, um tribunal italiano condenou-o a quatro anos de prisão por fraude fiscal (que passou a um ano de serviço comunitário por causa da idade) — uma sentença que o afastou da vida política, ao impedi-lo de exercer cargos públicos durante seis anos.
Antes disso, Silvio Berlusconi ainda tentou concorrer a primeiro-ministro em fevereiro de 2013, mas perdeu para o centro-esquerda. A impossibilidade de exercer cargos políticos meses mais tarde levou a que a direita tivesse de se reformular: o carismático líder já não podia oficialmente candidatar-se. Naquele espaço político, o eleitorado estava cada vez mais dividido e começaram a surgir novas alternativas que exploravam a fuga do mainstream político de vários eleitores e o descontentamento com as medidas de austeridade.
Mais à direita, após Gianfranco Fini ter fundado o seu próprio partido, os membros da Aliança Nacional que continuaram a apoiar Silvio Berlusconi reorganizaram-se. Sob a orientação de Guido Crosetto, Ignazio La Russa e até Giorgia Meloni, foi fundado o partido Irmãos de Itália, que recuperou, na sua imagem oficial, a chama tricolor do neofascista Movimento Social Italiano. Ideologicamente, assumia-se como uma força partidária nacionalista e conservadora.
▲ Giorgia Meloni no primeiro comício nos Irmãos de Itália em 2013
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Por esta altura, com uma retórica ainda mais explosiva, a Liga ia-se radicalizando. Em 2013, Matteo Salvini chegou a secretário federal do partido, apostando num discurso crítico da imigração e assumindo um posicionamento antissistema contra as elites de Roma. A Liga sempre foi um partido regional que defendia os interesses do Norte de Itália, em particular de Milão. Mas aproveitou o descontentamento com os políticos e a crise económica para expandir a base eleitoral.
Sem uma definição clara e mantendo-se ambíguo na sua ideologia, o Movimento Cinco Estrelas, fundado em 2009, ganhou grande protagonismo. Fundado pelo humorista Beppe Grillo, o M5S representou uma alternativa distinta face aos partidos tradicionais, apostando numa mensagem antissistema, mas menos radical do que, por exemplo, a Liga. Nas eleições de 2013, esta força heterogénea angariou cerca de 25% dos votos, tornou-se a força política mais votada (ainda que tenha perdido face à coligação de direita e de esquerda) e ameaçou o bipartidarismo que vigorava desde 1994.
“O declínio de Berlusconi abriu um grande espaço entre os eleitores de centro-direita, que tradicionalmente representam uma fatia decisiva do eleitorado”, analisou o professor de Ciência Política na Universidade de Siena, Maurizio Cotta, à France24. Fiéis inicialmente à Democracia Cristã e depois ao Forza Italia, os italianos ficaram sem uma referência e uma liderança forte à direita com a queda de Silvio Berlusconi. Este novo capítulo gerou novos protagonistas na política italiana.
Salvini tenta ocupar lugar de Berlusconi, mas compete (e até converge) com M5S
O novo governo de centro-esquerda, em 2013, assumia funções num contexto político extremamente difícil. A coligação de vários partidos de esquerda não tinha obtido maioria nem na Câmara dos Deputados, nem no Senado. O Movimento Cinco Estrelas, que era a terceira força política mais votada, recusava fazer parte de qualquer solução de governo. Assim sendo, Enrico Letta aliou-se aos centristas e a fações do centro-direita. Foi uma espécie de bloco central, algo único na história da política italiana.
No entanto, este governo não durou muito. Uma expressiva fação do Partido Democrático (centro-esquerda) não desejava uma solução de compromisso com os partidos à sua direita, em particular o de Silvio Berlusconi. Como resultado, o PD retirou o apoio ao seu próprio membro Enrico Letta, que foi substituído por Matteo Renzi. Este antigo primeiro-ministro — o mais jovem de sempre — manteve a coligação com os centristas e com alguns deputados do centro-direita, apostando numa política mais liberal.
As expectativas de Matteo Renzi eram elevadas — desejava criar um sistema livre dos vícios políticos presentes na política italiana. No final de 2016, ainda assim, sofreu uma pesada derrota. Como parte desta renovação, o ex-primeiro-ministro convocou um referendo para uma reforma constitucional que alterava o peso das instituições políticas em Itália. O ‘não’ ganhou e o antigo chefe do executivo do Partido Democrático demitiu-se.
▲ Matteo Renzi demitiu-se em 2016
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Itália voltava a não ter um governo e foi formado um de transição, de cariz tecnocrata, liderado por Paolo Gentiloni, pertencente ao Partido Democrático, que mantinha a mesma base centrista. A instabilidade terminou, mas Itália continuava a enfrentar vários desafios: ainda vivia as sequelas de uma profunda crise económica e continuavam a chegar milhares de imigrantes às suas fronteiras, um processo que começou com a crise de refugiados de 2015 e que se prolongou.
Com uma base eleitoral já espalhada por todo o país, e não apenas concentrada no Norte, a Liga de Matteo Salvini transformou a questão migratória na sua principal bandeira. Atacando as decisões vindas de Bruxelas sobre esta temática, o líder radicalizou o discurso, criticando duramente o mainstream político e o centrão. Neste último ponto, a retórica populista do Movimento Cinco Estrelas era idêntica.
O terramoto político de 2018 que reconfigura a política italiana — mas que acaba em crise
Um novo ciclo político abriu-se. As eleições de 2018 deram uma machadada no bipartidarismo em Itália. A coligação de direita venceu as eleições com 37%, seguido do Movimento Cinco Estrelas com 33% dos votos. Pela primeira vez na história da República italiana, um partido mais radical liderou a aliança à direita — e o de centro-direita ficou reduzido a um papel secundário. Da coligação também faziam parte os Irmãos de Itália, na altura já liderados por Giorgia Meloni. Em terceiro, ficou a aliança de centro-esquerda.
▲ Salvini liderava a coligação de direita que venceu as eleições de 2018
AFP/Getty Images
Os problemas da anterior legislatura permaneceram: não havia maioria na Câmara dos Deputados, nem no Senado. Assim sendo, foi necessário formar uma aliança. Entre o Movimento Cinco Estrelas e a Liga havia alguns pontos em comum: o discurso contra o sistema político que vigorava em Itália, a retórica populista, as críticas contra as instituições europeias e a necessidade de tornar a economia mais competitiva.
Após intensas negociações, em maio de 2018, os dois partidos antissistema e eurocéticos acabaram por aliar-se e escolheram o consensual (e uma novidade na política italiana) Giuseppe Conte como primeiro-ministro. Por sua parte, o Forza Italia e os Irmãos de Itália não apoiaram esta coligação; o centro-direita não tolerava a retórica contra a União Europeia, ao passo que a força política liderada por Giorgia Meloni considerava que a aliança traía os valores da direita nacionalista.
Este governo durou mais um ano. Nas eleições europeias de 2019, a Liga teve um excelente resultado — 34,3%. O M5S ficou em terceiro e até foi superado pelo Partido Democrático. Embalado por estes resultados, Matteo Salvini tentou convocar eleições antecipadas. A estratégia falhou clamorosamente; a Liga não reuniu os apoios necessários na Câmara dos Deputados e a aliança com o Movimento Cinco Estrelas, que se sentiu traído, acabou.
▲ Giuseppe Conte foi primeiro-ministro de Itália
FILIPPO ATTILI / CHIGI PALACE PRESS OFFICE / HANDOUT/EPA
Numa solução inovadora na política italiana, o segundo partido mais votado numas eleições assumiu o protagonismo na política italiana — e o Movimento Cinco Estrelas aliou-se à esquerda e até a partidos centristas — como o Italia Viva, o novo partido do ex-primeiro-ministro Matteo Renzi — para formar uma solução governamental. A Liga foi para a oposição, em que já estavam os seus antigos parceiros: o Forza Italia (por esta altura, Silvio Berlusconi já tinha voltado à política ativa) e os Irmãos de Itália.
O Movimento Cinco Estrelas foi bastante criticado (e penalizado nas urnas) por esta mudança de rumo. Quando apoiava a coligação à direita, o M5S chegou, por exemplo, a aprovar medidas de imigração restritivas, concretizando o programa político de Matteo Salvini. Contudo, assim que se aliou à esquerda, mudou a agulha e preferiu apostar em políticas ecologistas. No fundo, o partido que prometia ser antissistema institucionalizou-se.
Foi este executivo, o segundo do primeiro-ministro Giuseppe Conte, que governou Itália durante a pandemia de Covid-19, que afetou em grande medida o país. Após uma espécie de de tréguas, as lutas políticas voltaram a assumir protagonismo. Em janeiro de 2021, durante uma fase crítica da difusão do novo coronavírus, Matteo Renzi voltou a ser um fator desestabilizador e retirou o apoio do Italia Viva ao governo italiano.
▲ Mario Draghi formou um governo tecnocrata
STEPHANIE LECOCQ/EPA
Numa altura em que o sistema de saúde estava sob pressão e Itália estava a decidir o que faria com os fundos europeus, a solução encontrada pelo Presidente Sergio Mattarella consistiu em formar um governo tecnocrata, chamando Mario Draghi, antigo presidente do Banco Central Europeu, para o cargo de primeiro-ministro. Em todo o espetro político, desde o Movimento Cinco Estrelas à Liga, os partidos apoiaram esta solução de governo. Foram poucas as forças políticas que ficaram de fora — e um deles foi o Irmãos de Itália.
A entrada em cena de Meloni que substituiu Berlusconi e Salvini na liderança da direita
Neste governo de Mario Draghi, os Irmãos de Itália ficaram praticamente sozinhos na oposição e isso acabou por revelar-se uma estratégia acertada para obter dividendos. O pequeno partido, outrora parceiro menor de uma coligação, ganhou destaque nas críticas que fazia ao executivo tecnocrata. Muitos eleitores desagradados com a gestão da pandemia e desiludidos quer com a institucionalização do Movimento Cinco Estrelas, quer com a falta de compromisso da Liga, começaram a olhar para a força política liderada por Giorgia Meloni como uma séria alternativa para chegar ao poder.
Uma política assertiva e determinada, juntamente com uma imagem cuidada. O estilo de Giorgia Meloni começava a prosperar na política italiana. Nas suas aparições públicas, ainda que não escondesse as suas opiniões conservadoras e nacionalistas, afastava-se do estilo mais radical de Matteo Salvini. “Ela era astuta e era vista como mais credível do que Salvini, oferecendo uma oposição responsável e mantendo relações cordiais com Draghi”, assinalou Maurizio Cotta.
A oposição a um governo tecnocrata, os ziguezagues de Matteo Salvini na Câmara dos Deputados, as alianças ideologicamente inconsistentes do M5S e a falta de credibilidade do centro-direita ainda liderado por Silvio Berlusconi abriram caminho a Giorgia Meloni. “Ela foi a única que não fez tudo e o oposto de tudo”, sintetizou, à Foreign Policy, Martina Carone, analista de comunicação política na agência Quorum.
O apoio a uma solução de governo liderado por um tecnocrata credível como Mario Draghi aumentou a insatisfação de muitos eleitores de direita radical com Matteo Salvini, que procuravam alguém que enfrentasse o sistema. “A presença de Draghi afrouxou tudo o resto. Não havia espaço para Salvini dominar”, afirmou Martina Carone.
Esse apoio a Mario Draghi custou caro à Liga, que tinha vencido as eleições de 2018. Neste sentido, Giorgia Meloni sabia que muitos eleitores estavam insatisfeitos com Matteo Salvini — e soube cativá-los. “A Liga e os Irmãos de Itália tinham programas muitos similares e falaram para o mesmo eleitorado. Eles concordam em quase tudo: ‘Vamos parar a imigração, vamos diminuir impostos, vamos ajudar os reformados’. É por isso natural que, quando a popularidade de Salvini cai, a de Meloni sobe”, explicou, à Foreign Policy Davide Maria De Luca, repórter político do jornal Domani.
Giorgia Meloni também tentou seduzir o eleitorado mais moderado. Sabia, porém, que o passado no Movimento Social Italiano e os elogios tecidos a Mussolini poderiam ser uma pedra no sapato, especialmente para a sua credibilidade no estrangeiro. Assim sendo, tentou enterrar a sua defesa do fascismo. Num vídeo gravado em inglês, francês e espanhol, a política garantiu que os Irmãos de Itália opunham-se acerrimamente “a todas as viragens antidemocráticas”.
“A direita italiana deixou para trás, há décadas, o fascismo, condenando inequivocamente a supressão da democracia e as leis anti-judaicas ignominiosas”, assegurou Giorgia Meloni no vídeo, condenando também o nazismo e o comunismo. “A nossa posição no campo ocidental é clara e cristalina ao condenar a brutal agressão russa contra a Ucrânia”, assinalou ainda, num piscar de olho ao eleitorado moderado — e afastando-se de Matteo Salvini, que sempre foi próximo do Kremlin.
Devido à força que ia obtendo nas sondagens e por conta do desgaste da imagem de Matteo Salvini, Giorgia Meloni foi a candidata que encabeçou a coligação de direita nas eleições de 2022, que contava também com a Liga e a Forza Italia. Foi a consagração de uma nova líder da direita italiana, como destaca Maurizio Cotta: “Salvini ocupou esse lugar durante algum tempo, mas depois foi a vez de Meloni.”
Uma líder mais consensual do que alguma vez fora Matteo Salvini. Como escreve o Guardian, Giorgia Meloni deixou que a Liga “a ultrapassasse à direita”. Permitiu que aquele partido “usasse uma retórica xenófoba e racista, muito mais radicalizada do que os Irmãos de Itália — e roubasse os eleitores mais moderados da Liga”. Ao centro, também o Forza Italia sofreu um forte impacto. E Silvio Berlusconi chegou a descrevê-la como “arrogante e autoritária”, aceitando, porém, subjugar-se a um papel secundário na coligação.
▲ Giorgia Meloni tornou-se a líder da direita italiana depois das eleições de 2022
MICHAEL REYNOLDS/EPA
Nas eleições de 2022, a coligação de direita sagrou-se vencedora — uma vitória especialmente importante para Giorgia Meloni. O partido Irmãos de Itália obteve 26% dos votos e canibalizou por completo a Liga (que ficou com 8,77%) e o Forza Italia (que obteve 8,11%). O Partido Democrático não foi além dos 19%, se bem que pertencesse a uma coligação de esquerda que angariou 26% dos votos. O Movimento Cinco Estrelas caiu para os 15% e deixou de ter um impacto na governação.
Depois de vários ciclos políticos marcados pela instabilidade, a coligação de direita conseguiu uma maioria quer na Câmara dos Deputados, quer no Senado. Enquanto primeira-ministra, Giorgia Meloni usufrui de uma estabilidade que os seus antecessores nunca tiveram. Internamente, a chefe do executivo nunca abandonou o conservadorismo e uma postura mais radical, limitando o reconhecimento de filhos de casais LGBTQ+ e limitando o direito ao aborto. Na imigração, manteve uma linha dura, apostando em centros de acolhimento em países estrangeiros, como a Albânia.
Ao manter uma postura nacionalista e conservadora continua a agradar à Liga e cativa o seu eleitorado. Externamente, no entanto, a primeira-ministra italiana apresenta-se como uma moderada. Por exemplo, no seio das instituições europeias, mantém uma boa relação com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e tem apoiado a Ucrânia na guerra contra a Rússia. Com esta abordagem, agrada ao Forza Italia, atualmente liderado por Antonio Tajani, depois da morte de Silvio Berlusconi.
Moderada, “ma non troppo”. Como Giorgia Meloni pôs Salvini no bolso e encantou Von der Leyen
Esta estratégia de se apresentar moderada no estrangeiro e mais conservadora no plano interno tem funcionado. Apesar de nos últimos anos o Partido Democrático estar a crescer, os Irmãos de Itália continuam a liderar as sondagens para as próximas eleições, em 2026, com cerca de 30% das intenções de voto. A Liga e o Forza Italia nem sequer se aproximam — e não chegam aos 10%.
Com o regresso de Donald Trump à Casa Branca, a primeira-ministra de Itália ganhou ainda um aliado do outro lado do Atlântico — e espera explorar a sua boa relação com a presidência norte-americana para somar pontos internamente, bem como no plano europeu. Com o seu calculismo e postura camaleónica, Giorgia Meloni transformou-se numa referência da direita radical em todo o mundo. Na Europa, conseguiu mostrar que a líder partidária de uma força política radical conseguia vencer as eleições — e construir uma alternativa sólida para governar.
Como nota o Le Monde, Giorgia Meloni é “menos vibrante e menos imprevisível” do que Matteo Salvini e outros líderes da direita radical na Europa. Mas esse fator permitiu que tivesse o apoio da “burguesia órfã de Silvio Berlusconi” e da “direita radical”: “Ainda mais impressionante, ela simboliza a cultura de Roma, mas conseguiu evitar a desconfiança do norte de Itália face à capital”, escreve ainda aquele jornal francês.
Institucionalizados em 1994 por Silvio Berlusconi, dois partidos de direita radical governam Itália. Essa normalização destas forças políticas “está agora completa”, destaca Matteo Cavallaro. “A emergência de uma líder como Meloni sinaliza que Itália perdeu todos os seus anticorpos” em relação a estes fenómenos, acredita o mesmo especialista. A primeira-ministra está numa posição mais consolidada do que nunca — e nenhum político consegue ser tão unânime em Itália.