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“Só quero o meu filho de volta. Quero pedir à Ucrânia que ajude a resgatar o corpo do meu filho, porque tenho de ver e abraçar o meu filho”, afirma Cristina Jesus, mãe de Jerónimo Guerreiro, o soldado português que morreu esta quinta-feira em combate na guerra na Ucrânia, na região de Kupiansk, numa zona controlada pelos russos.
Por entre as lágrimas, Cristina Jesus conta ao Observador que Jerónimo, de apenas 23 anos, foi enviado para uma missão naquela região na quinta-feira e que foi alvo de “uma emboscada pelos russos”.
O jovem português fazia parte da Legião Internacional da Ucrânia, um grupo constituído por militares estrangeiros e que combate sob a égide das Forças Armadas ucranianas no esforço de guerra contra a Rússia. “Vou fazer tudo para que possa resgatar o corpo. Se pudesse, ia lá pessoalmente buscar o corpo do meu filho, mas não posso porque ele estava na linha da frente“, refere.
Jerónimo Guerreiro fez o curso de paraquedista e tornou-se depois bombeiro, até que chegou a oportunidade de combater na guerra na Ucrânia contra as forças russas, onde cumpriu, finalmente, a sua vocação militar.
Dos bombeiros voluntários de Sacavém até à linha da frente da guerra
Foi no início de 2024 que Jerónimo rumou à Ucrânia para combater. Até então, era um dos elementos da corporação dos bombeiros voluntários de Sacavém, onde estava desde 2023, quando recebeu a proposta para fazer aquilo que sempre quis ser: soldado.
“A memória que fica é a de um homem de causas e super-disciplinado. Ele tinha sido dos paraquedistas e sempre teve uma postura muito reta”, recorda o comandante da corporação de bombeiros de Sacavém. Igualmente com formação no Exército, o comandante Armando Batista descreve a “proximidade militar” que tinha com Jerónimo Guerreiro, um jovem “voluntarioso” que chegou a ser nomeado como o seu condutor e que era “um homem de confiança” no comando.
Apesar da distância e das dificuldades de comunicação a partir da linha da frente, o antigo comandante de Jerónimo disse que o jovem procurava manter o contacto com ele e com outros ex-colegas da corporação. “Falávamos via WhatsApp e ainda há cerca de um mês mandou mensagem a dizer que as coisas estavam complicadas, mas que se sentia bem. Disse-lhe para ele se vir embora, disse-lhe ‘já fizeste o que tinhas a fazer’… Mas ele dizia que aquilo era a sério”, sublinhou.
Numa corporação onde ainda se faz formatura e se guardam princípios militares no dia a dia, Armando Batista conta que Jerónimo encontrou aquilo que queria depois de deixar os paraquedistas.
“Ele veio para aqui porque era muito disciplinado. Veio para Sacavém à procura do que tinha na tropa”, descreve, lembrando a dedicação ao serviço, com uma passagem de Natal e de ano em 2023 com “a sua família dos bombeiros”.
Ex-instrutor lembra “o puto” que lhe passou pelas mãos e que estava feliz na guerra
Fernando Santos, de 40 anos, é bombeiro há 23 anos e está colocado desde 2022 na corporação de Sacavém. Foi a ele que coube dar a formação a Jerónimo Guerreiro quando chegou aos bombeiros, uma missão que se revelou “fácil”, já que o jovem “tinha uma ambição de cumprimento” e correspondia às ordens e instruções dadas.
“Deixa saudades. Falava muitas vezes com eles… É um puto que me passou pelas mãos, e depois, de um momento para o outro, adeus. É um choque para todos”, admite.
Descrevendo Jerónimo com uma pessoa “muito militarizada, muito reta e sempre pronta a ajudar”, Fernando Santos assume não ter ficado totalmente surpreendido quando o ex-paraquedista lhe disse que ia para a guerra na Ucrânia e que nem o procurou demover, face ao seu perfil.
“Fui eu que lhe dei instrução quando ele disse que queria ir para a guerra. Pediu ajuda para perceber como fazer torniquetes e outras coisas. Sempre quis saber mais e aprender… Tentei mostrar-lhe os riscos que ia correr. Desmotivar, não, mas alertei para os perigos“, nota, acrescentando: “Nunca mostrou intenção de voltar. Também não lhe disse para voltar, porque ele gostava de combate. Estava feliz no que estava a fazer no apoio à Ucrânia. Tinha mesmo vocação militar”.
Embora recorde Jerónimo como uma pessoa reservada, Fernando Santos refere que foi mantendo contacto com o seu antigo formando durante os meses em que este esteve a combater em solo ucraniano. A última mensagem, segundo o ex-instrutor, foi trocada no passado dia 13 de maio. “Falei com ele e conversámos sobre drones, ele pediu ajuda sobre como manobrar”, relata.
“Disse-me que aquilo estava complicado. Mandava fotos só de visualização única, porque não podia passar grande informação para fora“.
A informação da morte de Jerónimo Guerreiro chegou-lhe através das redes sociais. De seguida, passou a mensagem ao comandante da corporação. Agora, resta a inquietação sobre o regresso dos restos mortais do soldado português. “Vamos ver se não é uma missão impossível”, reconhece.
Um filho “caído no mato” controlado pelos russos
Kupiansk marcou o último capítulo da história de Jerónimo Guerreiro na guerra na Ucrânia. A zona pertence ao oblast de Kharkiv, mas está cercada pelas forças russas, que, segundo as informações mais recentes do conflito, vão controlando aquela parte do território ucraniano. Para a mãe do soldado, não saber se consegue recuperar o corpo do único filho é a pior das dúvidas.
“Neste momento só quero que as ajudas se concentrem na busca do meu filho, porque ele morreu na guerra a combater a ajudar os ucranianos. Ele está caído lá no mato controlado pelos russos. Vai ser muito complicado resgatar o corpo. Já me foi informado que pode demorar semanas ou meses… Há corpos lá há dois ou três meses que ainda não foram resgatados”, assume.
O contacto com Jerónimo na frente de guerra era difícil e raro, porque também não falava muito sobre a sua vida profissional e as informações sobre a evolução da guerra. Quando o filho voltou a Portugal no final do ano passado, Cristina Jesus, de 48 anos, procurou convencê-lo a ficar de vez e a deixar o conflito na Ucrânia, mas acabou por voltar em janeiro deste ano para já não regressar.
“Sempre lhe disse ‘Jerónimo, não vás, não vás’. Disse-lhe que arranjava trabalho aqui, mas ele voltou. Morreu a honrar a profissão dele e o que gostava de fazer. Uma mãe dizer para que um filho não vá… eles também seguem o seu caminho”, conta.
E o caminho de Jerónimo Guerreiro sempre marchou neste sentido. Cresceu na região de Lisboa, começou pelo paraquedismo nos comandos e a mãe destaca que “sempre quis esta vida e que o “sonho era ir para a vida militar“. Um sonho concretizado, a sério, há pouco mais de um ano, quando partiu para a Ucrânia. “É um herói e é assim que vai ser sempre lembrado. Um bom homem e um bom filho”, confessa.
Governo admite dificuldades para recuperar o corpo
O secretário de Estado das Comunidades, José Cesário, confirmou este domingo a morte de Jerónimo Guerreiro de forma oficiosa e reconheceu que o Governo vai tentar ajudar a família a recuperar o corpo do soldado português, que combatia em solo ucraniano desde fevereiro de 2024.
MANUEL DE ALMEIDA/LUSA
“Tive essa informação de que um cidadão português terá morrido a combater no contexto do conflito da Ucrânia. Pertencia à Legião Internacional e terá sido morto em Kupiansk, uma zona controlada pelos russos”, indicou ao Observador, sem deixar de salientar que, devido a essa circunstância geográfica e militar, “a recuperação do corpo se torna, neste momento, muito difícil“.
De acordo com o governante, a embaixada portuguesa em Kiev está a desenvolver contactos e esforços para garantir a recuperação do corpo.
Já em declarações à Lusa, José Cesário revelou não ter informações sobre mais cidadãos portugueses a combater na Ucrânia. “Sabemos que há lá casos, mas não temos confirmação total porque são pessoas que estão e depois deixam de estar e eles não nos informam. Nem têm de informar, porque estão lá a título meramente pessoal”, sentenciou.