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AFP/Getty Images

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Jesus dos 6 milhões. O Euromilhões saiu aos leões?

Será a contratação de Jorge Jesus um "mal mercantilista"? Os clubes nacionais estão a cair numa inflação difícil de controlar? Especialistas acham que o Sporting está a entrar num jogo perigoso.

Os números envolvidos na transferência de Jorge Jesus para o Sporting não deixaram ninguém indiferente. Os seis milhões de salário anual para o treinador mereceram muitas críticas à liderança do Sporting, incluindo por antigos dirigentes, sobretudo tratando-se de um clube que ainda há poucos anos tinha a UEFA à perna por causa dos prejuízos sucessivos. É uma jogada que sugere uma estratégia de alto risco e, para alguns economistas ligados à área do Desporto, espelha os riscos que pairam sobre o futebol europeu. Se não forem impostos limites, não só a viabilidade de alguns clubes será posta em causa mas também estará em risco a viabilidade do desporto, como a conhecemos.

O antigo presidente do Sporting António Dias da Cunha foi o ex-dirigente do clube que lançou críticas mais fortes às últimas mexidas no Sporting. Além de sugerir que se envie Bruno de Carvalho, o atual presidente, para o “manicómio” e dizer que foi feita uma “loucura”, Dias da Cunha deixou uma pergunta no ar: “Como é que o Sporting pode pagar aquilo que o Benfica, com uma situação financeira bastante melhor, não pode continuar a pagar?”. E outra: “Quem paga é o investidor e depois? Compra o Sporting, a SAD… Quais são as condições e as contrapartidas para o investidor?”

Estes receios de Dias da Cunha vão ao encontro dos alertas que têm sido feitos por alguns especialistas em Economia do Desporto, alguns dos quais falaram com o Observador para um trabalho publicado em novembro com o título “O futebol europeu, como o conhecemos, pode morrer?“.

Um desses especialistas, o professor da Universidade do Minho Paulo Reis Mourão – que publicou recentemente o livro “Economia sem gravata” – também recebeu com apreensão a notícia de que um clube português, neste caso, o Sporting, vai pagar um salário de 18 milhões de euros ao seu novo treinador, por três anos de contrato (a juntar aos 5 milhões de prémio de assinatura e ao dinheiro que poderá ter de ser pago a Marco Silva, o anterior treinador despedido por justa causa).

▲ Bruno de Carvalho foi duramente criticado por Dias da Cunha, antigo presidente do Sporting CP.

LUSA

“São decisões como esta que inflacionam o nosso futebol“, diz Paulo Reis Mourão, ao Observador. Considerando esta contratação um “mal mercantilista”, o professor da Universidade do Minho pergunta: “Terá Jorge Jesus duplicado o valor por ser bicampeão ao fim de seis anos de experiência no Benfica? Não me parece…”. Casos como este mostram, diz o economista, que “o futebol português ainda nada aprendeu com o FIFAgate”, o escândalo de corrupção que abalou nas últimas semanas o organismo máximo do futebol.

Os receios de Dias da Cunha sobre as implicações de decisões como esta para o futuro do clube não são descabidas, diz Paulo Reis Mourão. “O Sporting pode estar a fazer um favor ao eleitoralismo de uns e a ceder à pressão de outros”, diz o economista, receando que “a alienação progressiva da SAD é uma compensação” por estes investimentos. Qual é o grande perigo? “Se os resultados falharem podemos ter um Málaga no Sporting“, diz Paulo Reis Mourão, referindo-se ao caso do clube espanhol que recebeu um grande investimento de um Sheik do Qatar e que, após sucessos fugazes, foi penalizado com a exclusão das competições europeias por violar as regras do fair-play financeiro.

"O Sporting pode estar a fazer um favor ao eleitoralismo de uns e a ceder à pressão de outros. Se os resultados falharem, poderemos ter um Málaga no Sporting".
Paulo Reis Mourão, economista e professor da Universidade do Minho

O caso do Málaga é um dos mais mediáticos quando se fala em investimento externo no futebol, algo que está a preocupar os economistas. Em novembro, Paulo Reis Mourão tinha dito que havia um “risco de choque na indústria do futebol na Europa“. O economista, que em 2012 realizou um estudo sobre o endividamento dos clubes portugueses, dizia que “ano após ano, os clubes de futebol na Europa aumentam as suas dívidas como estratégia para cobrir as suas responsabilidades de curto prazo”. É esta situação de insustentabilidade que levou já à falência de alguns emblemas em Portugal e noutros países europeus. Em vários casos, a falência iminente levou os clubes a caírem no colo de investidores estrangeiros”.

Não é o caso do Sporting, mesmo tendo uma fatia do capital (29,8%) da SAD pertencente a Álvaro Sobrinho, um acionista angolano. Mas o clube de Alvalade teve a UEFA à perna esta época devido aos prejuízos que apresentou nos Relatórios & Contas de 2011/2012 e 2012/2013 — no conjunto das duas épocas, os leões tiveram um resultado negativo de 89 milhões de euros, quando o limite imposto pela entidade que rege o futebol europeu é de cinco milhões. Esse incumprimento levou até a UEFA a suspender a atribuição dos prémios de jogo ao Sporting, em março de 2015, relativos aos resultados desportivos da equipa na Liga dos Campeões e na Liga Europa. Mas nada aconteceu e, a pouco e pouco, a saúde financeira do Sporting foi recuperando, até ao ponto em que, nos primeiros nove meses deste ano fiscal, a SAD leonina registou lucros na ordem dos 22 milhões de euros.

Em 2011/2012 e 2012/2013, no conjunto das duas épocas, os leões tiveram um resultado negativo de 89 milhões de euros, quando o limite imposto pela entidade que rege o futebol europeu é de cinco milhões.

Nos últimos anos, contudo, era preciso cautela. Bruno de Carvalho, presidente do Sporting desde março de 2013, impõe uma contenção nos gastos e no investimento no futebol, ao contrário do que fizera Godinho Lopes, homem que o antecede no cargo (eleito em 2011). O anterior presidente contratara dezenas de jogadores com a ajuda de fundos de investimento, que ajudam a financiar as operações ficando, em troca, com percentagens dos direitos económicos desses futebolistas. Em dezembro de 2014, contudo, a FIFA farta-se disto, decide proibir a third-party ownership no futebol e passa a impedir que terceiros sejam detentores de fatias dos passes dos jogadores. A medida entra em vigor a 1 de maio e, aí, o Sporting ainda tem 26 futebolistas nessa situação. Vale-lhe, porém, o facto de a FIFA autorizar os clubes a manterem os jogadores cujos passes estejam nesta circunstância até ao fim dos atuais contratos.

Muitos dos fundos que colaboravam com os clubes em transferências de jogadores têm sedes fiscais em offshores ou no Médio Oriente. Paulo Reis Morão acredita que hoje se vive “uma situação em que o futebol não tem alternativa que não seja a de estar exposto a este tipo de investidores oriundos de mercados emergentes”. E, num país em crise económica, “o futebol português está particularmente vulnerável, devido ao embaratecimento do seu valor”, afirma o economista, salientando que “como ainda está no top-10 dos diversos rankings da modalidade, aparenta ser um excelente negócio de ocasião para os mouros na costa que já sondam os três grandes”.

"O futebol não tem alternativa que não seja a de estar exposto a este tipo de investidores oriundos de mercados emergentes. E o futebol português está particularmente vulnerável, porque aparenta ser um excelente negócio de ocasião para os mouros na costa que já sondam os três grandes”
Paulo Reis Mourão, economista e professor da Universidade do Minho

E porque é que se fala em inflação no futebol devido a estes investimentos? É que a teoria económica ensina que uma entrada demasiado súbita de dinheiro num sistema económico – como é o caso da indústria do futebol –, proveniente de outra atividade sem qualquer relação, arrisca desequilibrar a estabilidade dos preços, gerando inflação acentuada e colocando em grandes dificuldades os clubes que não têm condições para acompanhar a subida dos custos com transferências e salários. A prazo, segundo a teoria, todo o sistema económico fica em risco. No futebol, uma bolha inflacionista pode prejudicar a formação de novos jogadores ou concentrar as vedetas num número cada vez menor de clubes, potencialmente penalizando o interesse dos adeptos pela modalidade.

Quem financia o Sporting?

Essa é uma pergunta para a qual não há uma resposta totalmente esclarecedora. O clube “repudiou” as notícias sobre a intervenção de entidades externas, designadamente Álvaro Sobrinho e investidores da Guiné Equatorial, no contrato milionário que terá sido oferecido a Jorge Jesus ou em “quaisquer negócios relativos à sua atividade para além dos naturalmente decorrentes do seu estatuto de acionista”.

É público que a Holdimo de Álvaro Sobrinho passou a ter 29,8% da SAD leonina, depois de converter uma dívida em capital no final do ano passado, mas isto significa que o empresário angolano não meteu dinheiro fresco nesta operação.

▲ Álvaro Sobrinho passou a ter 29,8% da SAD leonina.

LUSA

O plano de reestruturação financeira do Sporting passa ainda pela autorização para realizar um novo aumento de capital de 18 milhões de euros, por novas entradas de dinheiro via subscrição particular junto de investidores ou investidores de referência escolhidos pelo conselho de administração. Esta operação ainda estará por realizar, não se conhecendo a identidade dos futuros investidores. Atualmente, o capital da SAD é controlado em conjunto pelo Sporting Clube de Portugal e pela Sporting SGPS. Esta sociedade detém 37,3% dos direitos de voto da SAD, mas os seus acionistas não estão identificados.

A complexa engenharia financeira prevê ainda novo reforço de capital da SAD até ao início de 2016, através da conversão de VMOC (valores mobiliários obrigatoriamente convertíveis) no montante de 55 milhões de euros. Os dois bancos que são os principais credores do Sporting, o BCP e o Novo Banco, terão mostrado disponibilidade para subscrever esta nova emissão, desde que isso não resulte no aumento da exposição ao Sporting, nem na redução do grau de cobertura das garantias constituídas a favor de cada um dos bancos.

Sporting aposta em novos acionistas

O reembolso destes títulos de dívida será feito a partir de 17 de janeiro de 2016, através da emissão de novas ações da SAD ao preço de um euro por ação. O próprio Sporting reconhece no prospeto da emissão de obrigações em curso que pode haver grandes mudanças acionistas na SAD leonina. “Este aumento de capital do emitente provocará um efeito dilutivo de aproximadamente 45,1% na participação social dos atuais acionistas. A composição acionista final da Sporting SAD, após o reembolso/conversão de VMOC a essa data, pelo que, em resultado dessa conversão, poderão vir a verificar-se alterações relevantes nas participações qualificadas no capital social do emitente”.

O conselho liderado por Bruno de Carvalho promete acompanhar a evolução da estrutura acionista, de forma a assegurar que não fique comprometida a atividade principal do Sporting.

A reestruturação do passivo do clube envolveu também um acordo com BCP e o Novo Banco, que levou à conversão dos empréstimos contraídos junto destes bancos, no montante total de 80 milhões de euros, em VMOC com um prazo de 12 anos. O BCP era o principal credor do Sporting com 56 milhões de euros. Estes títulos contam para elevar os capitais próprios da SAD. Ainda assim, esta entidade tem capitais próprios negativos superiores a 100 milhões de euros, ou seja, os prejuízos acumulados são superiores ao capital social da empresa que está nos 67 milhões de euros, daí a necessidade de novas entradas de dinheiro.

A SAD tem ainda em curso uma emissão de obrigações (dívida) a colocar junto de investidores de retalho, os sócios serão os principais alvo, no montante máximo de 30 milhões de euros.

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