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John Legend. “Preocupa-me ter Donald Trump como Presidente nesta crise”

Tem concerto marcado para o EDP Cool Jazz em julho, mas agora está preocupado em fazer a sua parte para ultrapassar a crise que se vive. Em entrevista fala-nos do presente e do futuro da América.

Em crises mundiais inéditas na história, adaptam-se os meios de trabalho. Fazer entrevistas costuma ser um hábito bastante fácil para jornalistas. É pegar no microfone, marcar o local, esperar pelo entrevistado ou, no limite, fazer tudo à distância, pelo telemóvel. Depois é sentar numa cadeira da redação e transcrever. Então quando são músicos, artistas mais do que rodados na arte de saber responder a tudo e mais alguma coisa, mais prático se torna. Neste caso, foi diferente.

Do outro lado do Atlântico está um dos artistas norte-americanos mais conhecidos do mundo, sentado na sua sala de jantar, na Califórnia. O primeiro afro-americano a completar um EGOT (um Emmy, um Grammy, um Óscar e um Tony). Que está prestes a lançar um novo álbum, sendo que o último, Darkness and Light, tinha sido lançado há três anos. Com uma tour prestes a começar, ainda que em suspenso, John Legend tem agora de ficar em isolamento, mais a sua mulher, Chrissy Teigen, e os seus dois filhos, Luna e Miles. Deste lado, em Portugal, está um jornalista, mais os seus gatos, dentro de um closet. Tempos novos, estes.

Os palcos vão ter de esperar, agora Legend distrai-se a fazer concertos em streaming, a jogar Playstation, a ler notícias e ver trash TV com a mulher. A fazer figas para que possa ver os seus Lakers a safarem-se nos play offs da NBA deste ano. E a tentar entreter os filhos, sem “dar em maluco”, eles que ainda não têm capacidade para perceber o que raio é um vírus. Quanto à criação artística, fica para já parada, porque John Legend gosta mesmo é de escrever longe da família, em estúdio. E na ressaca de um novo trabalho, não consegue avançar para outro.

Nesta entrevista ao Observador até houve tempo para falar do “incompetente” Donald Trump, de que o casal Legend/Teigen não gosta particularmente. Fica, para já, a esperança de poder pisar o palco do EDP Cool Jazz em julho deste ano (o concerto continua, por enquanto, marcado para dia 3 desse mesmo mês). E porque são novos tempos, porque não começar com perguntas do entrevistado?

[“Conversations in the Dark”:]

Como está?

Estou bem, é meio estranho porque estou a fazer a entrevista no meu closet, em casa, mais os meus gatos. Os jornalistas andam a fazer entrevistas de uma forma engraçada.
Sim, todos estamos.

Onde está neste momento?
Na sala de jantar, eu e a minha mulher já fizemos entrevistas via Zoom, Facetime, de todas as formas. Ainda bem que temos a internet, se não tivéssemos, ia ser muito estranho. Não imagino esta situação sem isso, o facto de nos podermos relacionar, fazer estes concertos, dar uma festa com DJ à distância, não teríamos isso sem a internet.

Seria tudo ainda mais caótico, provavelmente. Tem tido tempo para jogar jogos de vídeo? Li que se confessa “um nerd”.
Sim, jogo Playstation, jogo “Madden NFL”, de futebol americano.

E as notícias, está sempre a ler? Conheço quem não consiga parar de ler, quem tenha ficado completamente obcecado.
Sou um news junkie [viciado em notícias]! Fico a ver notícias durante uma hora, alguns programas, só que não vejo o dia todo, nem a cobertura noticiosa completa.

O futebol americano está parado, algo que o John gostava de ver ao domingo. O que é que faz, então?
Sim… temos visto muita HBO e Netflix, todos os serviços de streaming.

E que série é que estão a ver agora?
Acabamos de ver a “Tiger King”, é muito louco, têm de ver. Acabámos “Peaky Blinders” há uns dias. Ainda vemos reality shows de que a Cristy gosta de ver na Bravo, sabem o que é?

"Temos um Presidente que é péssimo no seu cargo, é incompetente, não ouve cientistas ou especialistas em qualquer área, não tem o nível de empatia para se preocupar com a saúde e o bem estar de outras pessoas, pensa muito pequeno. Ele só pensa no ganho imediato para seu próprio benefício, sem pensar a longo prazo."

Quando era novo havia uma revista com esse nome. Penso que ainda há.
É que cá é um canal de televisão conhecido por programas de “real housewives” [donas de casa], e ainda os vemos [ri-se]. Mas é difícil ser um fã de desporto. Sou um grande adepto de basquetebol, grande fã dos Lakers e do LeBron James. Este seria a altura em que as coisas estariam a aquecer na NBA, íamos ver os jogadores a prepararem-se para os play-offs, muita coisa excitante que não pode acontecer. Espero que possamos ver o culminar de uma grande época.

Como é ser artista isolado, com crianças, mulher? Como está a lidar?
Eu gosto muito de estar em casa com os miúdos, é divertido. É preciso muito para os entreter o dia todo [ri-se]. Habitualmente, a minha filha vai a pré-escola, durante cinco ou seis horas, o meu filho vai a pequenas aulas, uma hora ou duas, mas agora estão aqui, o tempo todo. Temos de os manter ocupados, estimulados, sem nós ficarmos malucos

E explicou aos seus filhos o que se está a passar?
É difícil explicar o que se passa com o vírus, porque nem sabem o que é um vírus. A minha filha tem quase quatro anos e provavelmente já lhe posso explicar, mas não a quero preocupar. Vamos só mantê-los em casa e esperar que isto passe rápido, sem que se tenham de preocupar. Mas isso depende de toda a gente, dos cidadãos ao Governo, que façam todos o que está correto. Estou preocupado, principalmente por estar na América, onde não temos a liderança certa e preocupa-me que isto vai piorar para mais gente.

Sim, queria falar de Donald Trump, porque o John critica-o muito. O Presidente já apelidou este vírus de “vírus da China”, há quem diga que demorou a tomar medidas para enfrentar a pandemia. A Organização Mundial de Saúde diz que os EUA são o novo epicentro da pandemia…
Se virmos os gráficos, o número de casos, continua a subir e a subir. E parte disso deve-se a termos um Presidente que é péssimo no seu cargo, é incompetente, não ouve cientistas ou especialistas em qualquer área, não tem o nível de empatia para se preocupar com a saúde e o bem estar de outras pessoas, pensa muito pequeno. Ele só pensa no ganho imediato para seu próprio benefício, sem pensar a longo prazo. Quando devíamos ter-nos preparado, enquanto nação, para lidarmos com o vírus, Trump não o fez, esperava que isto passasse, que o vírus não afetasse os mercados ou as suas políticas, em vez de lidar com a ideia de termos milhares de pessoas doentes no país. Estou muito preocupado por ter Donald Trump como nosso Presidente durante esta crise. Já estava preocupado antes, na verdade, mas quando temos uma crise destas,  percebemos melhor o quão terrível ele é a liderar os Estados Unidos.

"Primeiro sou artista, criador e músico, mas ser ativista sempre foi também parte do que sou"

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Donald Trump disse que está muito preocupado com as questões de isolamento e de depressão pelos americanos estarem fechados em casa, muito tempo. É outro nível do vírus.
Sim, vamos ter  muitos casos de problemas mentais que vão surgir depois disto. Muita gente está a lidar agora com depressão e ansiedade, e quando temos uma pandemia a acontecer, que nos dá razão para termos medo, mais o isolamento, fico preocupado na forma de como é que isso vai afetar as pessoas. Espero que encontrem ajuda, a minha mulher fala com o terapeuta. Acho que as pessoas têm de fazer algo assim, conectar-se com alguém para não se sentirem sozinhas.

Este ano há eleições americanas. O John confessou numa entrevista que apoiava a Elizabeth Warren, que entretanto desistiu da corrida e decidiu apoiar Bernie Sanders. Houve comícios cancelados. Como olha para estas eleições?
Os democratas têm lutado pelo voto por carta. Na Califórnia temos esse método há muitos anos, não vou votar a uma urna há várias eleições. Voto em casa, envio o voto por email. Espero que essa hipótese esteja disponível em novembro. E tenho esperança de que esta crise passe, mas não sei, de uma forma ou de outra, toda a gente devia ter acesso a esse método.

Voltemos à questão do isolamento social. Como músico, o isolamento causa-lhe stress? Por não estar em estúdio, por não ensaiar com outros músicos? Ou consegue ficar mais criativo?
Não estou isolado e isso é interessante, tenho cá toda a gente, até a minha sogra, estou rodeado de gente. É uma luta criativa que tenho porque primeiro o meu álbum está praticamente acabado. Há aquela excitação de ter terminado algo. E sempre que acabo de fazer um álbum, não sinto a urgência de ir logo escrever outras canções. E não gosto de escrever em casa, gosto de o fazer em estúdio, estar longe da família umas horas e focado no trabalho. Essa é a forma de me manter produtivo. E não tenho escrito nada desde que estamos em casa.

E agora tem de esperar, tinha uma tour mundial para começar. E tem data marcada para o concerto no EDP Cool Jazz em julho.
Não sabemos o que vai acontecer, esperamos que quando o verão chegue consigamos estar todos juntos outra vez. Vamos esperar para ver, preparar como se a tour ainda fosse acontecer. Esperamos estar em julho em Portugal.

"As pessoas gostam muito de ver concertos ao vivo, estarem juntas num espaço público, da relação artista e público. Estes lives do Instagram têm sido muito divertidos para todos, mas há algo de especial em concertos que não dá para replicar na internet."

“O amor é uma virtude pública”, frase sua. Agora temos tempo até para amar o vizinho, mas e se o vizinho não gostar de nós?
De alguma forma, parte de amar em público não quer dizer que se ame o vizinho como se ama a família ou o melhor amigo. Mas há um sentido de empatia por eles, vemos que há uma humanidade partilhada entre os dois. Quer vivam do outro lado do mundo ou do outro lado da cidade. Esta pandemia veio demonstrar que é igual para todos, afeta ricos e pobres, e todos temos de lidar com isto juntos, para vencer. Demonstra como dependemos muito uns dos outros em tempos de crise.  Espero que isso nos torne mais ligados. Na América pensamos de forma muito individualista e esta crise está a pedir que trabalhemos juntos.

Deu um concerto online há uns dias, em Portugal isso também acontece. A indústria da música vai mudar?
Acho que não, acredito que as pessoas gostam muito de ver concertos ao vivo, estarem juntas num espaço público, da relação artista e público. Estes lives do Instagram têm sido muito divertidos para todos, mas há algo de especial em concertos que não dá para replicar na internet. Já vimos a influência do streaming na música e acho que é bom que tanta música esteja disponível, estou sempre a ouvir música dessa forma. Vai ser assim no futuro. Desde que esses serviços paguem aos artistas da forma certa. Aqui nos Estados unidos lutamos por isso e acabámos por ter boa legislação nesse sentido.

Tem um novo álbum, uma grande carreira, com grandes prémios. Mas o John também têm sido uma voz ativa na defesa de algumas liberdades e direitos, como a situação dos presos nos Estados Unidos. Está-se a tornar, nesta fase, mais num ativista?
Tem sido parte do que sou desde o início, mas agora tenho uma plataforma maior, logo as pessoas notam mais. Mas logo no primeiro álbum, em 2006, fiz a campanha “Show Me”, e por isso tenho estado muito politicamente envolvido desde jovem. É parte do que sou. Não é novo para mim. Primeiro sou artista, criador e músico, mas ser ativista sempre foi também parte do que sou.

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