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Nuno Pardal Ribeiro renunciou ao cargo de deputado municipal após a revelação do caso
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▲Nuno Pardal Ribeiro renunciou ao cargo de deputado municipal após a revelação do caso

FOTOILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

▲Nuno Pardal Ribeiro renunciou ao cargo de deputado municipal após a revelação do caso

FOTOILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

O 'daddy', a prostituição de um menor por 20 euros e o caos no Chega: a acusação contra Nuno Pardal Ribeiro

Caso de recurso à prostituição de menor junta-se ao 'Malagate' de Miguel Arruda e ao caso do deputado regional açoriano José Paulo Sousa, que foi apanhado a conduzir com 2,25 g/l de álcool no sangue.

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— Mas nunca estiveste com nenhum daddy?
— Já.
(…)
— E onde estiveste com ele?
— Na casa dele.
— Depois a ver se vens à minha quando estiver sozinho.

O ponto de partida foi a aplicação Grindr, uma plataforma de convívio dirigida à comunidade homossexual que é supostamente apenas para maiores de 18 anos, onde Nuno Pardal Ribeiro conheceu “J”. O ponto de chegada foi uma zona de mato na região de Alapraia, no Estoril, onde o deputado municipal do Chega consumou atos sexuais com um jovem de 15 anos a troco de dinheiro, que levaram o Ministério Público (MP) a acusá-lo de dois crimes de recurso à prostituição de menores — um consumado e outro na forma tentada.

Pelo meio estão as mensagens trocadas no WhatsApp, como as acima citadas, que figuram no despacho de acusação e são, no entender do Ministério Público, um dos vários fortes indícios que sustentam a acusação de pouco mais de 10 páginas contra o ex-dirigente do Chega.

Ter ou não ter um “Daddy”

De acordo com a acusação do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Cascais, que foi avançada esta quinta-feira pelo Expresso — e à qual o Observador teve também acesso — os factos deste processo remontam a julho de 2023.

Após se conhecerem através daquela aplicação, Nuno Pardal Ribeiro, então com 52 anos, e “J”, de apenas 15 anos naquela altura, combinaram encontrar-se, passando a conversar pelo WhatsApp.

Dirigente do Chega acusado de prostituição de menores por relações sexuais com jovem de 15 anos

Sem questionar o rapaz sobre a sua idade, o deputado municipal do Chega em Lisboa começou por indicar que queria conhecê-lo melhor e fez-lhe perguntas sobre se este já tinha tido experiências sexuais. O jovem respondeu que não tinha feito sexo concretamente, mas enumerou outro tipo de contactos sexuais que tinha tido anteriormente.

É nesse momento que Nuno Pardal Ribeiro lhe perguntou se tinha estado com algum “daddy” — expressão usada para descrever um parceiro sexual habitualmente mais velho e que está numa posição de poder superior.

O deputado municipal do Chega em Lisboa começou por indicar que queria conhecê-lo melhor e fez-lhe perguntas sobre as suas experiências sexuais. O jovem respondeu que não tinha feito sexo em concreto, mas enumerou outros contactos sexuais que tinha tido anteriormente. Foi aí que Nuno Pardal Ribeiro lhe perguntou se tinha estado com algum "daddy" — expressão usada para descrever um parceiro sexual habitualmente mais velho e que está numa posição de poder superior.

“J” afirmou que já tinha estado com outro homem, supostamente com 54 anos, na casa dele, de acordo com as mensagens trocadas e que constam do despacho assinado pelo procurador Manuel dos Santos.

De seguida, Nuno Pardal Ribeiro perguntou ao jovem se tinha “nudes” (fotografias dele sem roupa) e pediu-lhe para as enviar logo, mal “J” confirmou que sim, sublinhando que o envio das fotos devia ser através da aplicação Grindr, por ser “mais seguro”.

O encontro a troco de 20 euros

Na noite de 13 de julho desse ano, tem então lugar encontro entre ambos. O agora ex-deputado municipal do Chega — que era também vice-presidente da Distrital de Lisboa e conselheiro nacional do partido liderado por André Ventura, mas que renunciou na sequência desta acusação aos cargos — partilhou a sua localização por mensagem. O jovem começou por dizer que afinal não poderia ir naquele dia, uma vez que o seu pai tinha acabado de chegar a casa.

“Que m…. Já estava a sair”, desabafou Nuno Pardal Ribeiro.

Porém, “J” reverteu a situação e contou então que teve autorização para sair de casa. Disse-lhe para se encontrarem rapidamente junto a uma paragem ao pé da estação de São João do Estoril. Nuno Pardal avisou-o de qual era o carro em que o iria buscar no local.

Uma vez recolhido o jovem, seguiram os dois no automóvel do ex-deputado municipal até a uma zona de mato ali perto. E foi neste trajeto que Nuno Pardal Ribeiro perguntou a idade que “J” tinha, com este a responder que tinha 15 anos de idade, diz o despacho.

Foi aí que, após beijos, houve sexo oral entre ambos. “No final do encontro, como contrapartida dos atos sexuais praticados, o arguido enviou ao assistente o código de levantamento MBWay (…) no valor de 20 euros”, pode ler-se na acusação.

Voltariam a trocar mensagens nessa noite, com Nuno Pardal Ribeiro — o jovem foi constituído como assistente no processo, depois de os pais terem descoberto as mensagens e denunciado o caso às autoridades — a assumir que tinha gostado muito do encontro que tinham tido e que "J" era "muito fofinho", tecendo outros elogios e prometendo que iriam "fazer mais vezes".

Voltariam a trocar mensagens nessa noite, com Nuno Pardal Ribeiro — o jovem foi constituído como assistente no processo, depois de os pais terem descoberto as mensagens e denunciado o caso às autoridades — a assumir que tinha gostado muito do encontro que tinham tido e que “J” era “muito fofinho”, tecendo outros elogios e prometendo que iriam “fazer mais vezes”.

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Mais mensagens para um novo encontro… sem resposta

Após o encontro daquele dia, Nuno Pardal Ribeiro voltou a procurar o jovem em setembro, dois meses depois. Enviou mais mensagens a manifestar ter “pena” de que “J” tivesse desaparecido — ou seja, que nunca lhe tivesse dito mais nada— e a dizer que o gostava de o voltar a ver.

No dia 30 de setembro, o ex-deputado municipal foi mais longe e, depois de reiterar que tinha adorado estar com o jovem, disponibilizou-se para voltar a pagar por atos sexuais.

Deputado municipal do Chega acusado de prostituição de menores renuncia ao mandato

“O arguido sabia que o assistente tinha 15 anos de idade e que era sexualmente inexperiente. Não obstante esse conhecimento, o arguido agiu com o propósito concretizado de, para satisfazer os seus instintos libidinosos, praticar com o assistente os atos sexuais acima descritos, mediante a entrega de contrapartida em dinheiro”, salientou o magistrado do MP.

Segundo a lei, o consentimento para a prática de relações sexuais com adultos apenas é relevante a partir dos 16 anos, uma idade superior à que “J” tinha à data dos factos praticados com o agora ex-deputado municipal do Chega. Nesse sentido, a acusação realça que essa conduta de Nuno Pardal Ribeiro “perturbava e prejudicava de forma séria o desenvolvimento da personalidade do assistente, sobretudo na vertente sexual, e que punha em causa o seu normal e são desenvolvimento psicológico-afetivo e a sua consciência sexual”.

Nuno Pardal pertencia ao Grupo de Trabalho da Assembleia das Crianças de Lisboa

No despacho — que acusa também de um crime de recurso à prostituição de menor um piloto/instrutor de voo que já foi condenado pela morte, em 2017, de duas pessoas numa aterragem forçada na Praia de São João da Caparica —, o MP pediu que Nuno Pardal Ribeiro seja julgado em tribunal singular, entendendo que não deve ser aplicada uma pena superior a cinco anos de prisão.

No julgamento não será necessário sujeitar “J” a depoimento, pois já foram recolhidas declarações do jovem para memória futura.

Como material probatório, o MP indica os relatórios periciais da Polícia Judiciária, bem como prova documental, na qual se incluem dados extraídos do telemóvel de “J”, fotografias dos arguidos e as mensagens trocadas através do WhatsApp. O procurador Manuel dos Santos defendeu ainda que seja atribuída à vítima uma indemnização pelos danos sofridos, a definir pelo tribunal.

O MP pediu que Nuno Pardal Ribeiro seja julgado em tribunal singular, por entender que a eventual pena de prisão a ser aplicada deve ser inferior a cinco anos. O procurador responsável pela acusação quer que o tribunal condene Ribeiro a pagar uma indemnização ao jovem de 15 anos. No julgamento não será necessário sujeitar "J" a depoimento, pois já foram recolhidas declarações do jovem para memória futura.

Na sequência da divulgação pública deste caso, Nuno Pardal Ribeiro deixou a Assembleia Municipal de Lisboa (AML), onde, como deputado municipal do Chega, integrava também o Grupo de Trabalho da Assembleia das Crianças de Lisboa.

Este órgão consultivo foi criado pela AML em 2022 e junta duas crianças de cada uma das 24 freguesias de Lisboa (um rapaz e uma rapariga), entre os oito e os 12 anos, para participarem na discussão pública de questões que envolvam as crianças, nomeadamente educação, desporto, habitação, espaço público, cultura, direitos sociais e segurança.

O caso de recurso à prostituição de menor de Nuno Pardal Ribeiro junta-se ao hiper mediatizado caso ‘Malagate’ que envolve Miguel Arruda, o agora ex-deputado do Chega.

Arruda é arguido pela alegada prática de vários crimes de furto qualificado. O então deputado do Chega — que passou a deputado não inscrito e desfiliou-se do partido de André Ventura — terá furtado malas nos aeroportos de Lisboa e de Ponta Delgada durante vários meses. Arruda deslocava-se com frequência entre os Açores, círculo por onde foi eleito e onde reside, e Lisboa, onde participa nos trabalhos da Assembleia da República.

Vendas online de deputado do Chega investigadas. Conta da Vinted com nome, ano de nascimento e referência regional foi apagada

Como o Observador noticiou, Arruda está também a ser investigado pelas autoridades devido à eventual atividade de venda online dos produtos que estariam nas malas que, alegadamente, retirava dos tapetes dos aeroportos. Miguel Arruda e a sua mulher seriam os gestores da conta “miguelarruda84”.

A juntar ao ‘Malagate’ temos ainda o caso do deputado regional açoriano José Paulo Sousa, que foi apanhado a conduzir com 2,25 g/l de álcool no sangue.

É caso para dizer que a Justiça instalou um verdadeiro caos no partido Chega.

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