O deputado do Chega que é arguido por suspeitas de furto qualificado está também a ser investigado pelas autoridades devido à eventual atividade de venda online dos produtos que estariam nas malas que, alegadamente, retirava dos tapetes dos aeroportos, apurou o Observador. Miguel Arruda anunciou que se vai desfiliar do partido e passar a deputado não-inscrito.
Na plataforma Vinted, até à tarde desta quinta-feira, existia uma conta intitulada “miguelarruda84” — o nome do deputado do Chega e o ano de nascimento — onde estavam à venda dezenas de produtos de mulher, homem e criança, com os mais diversos tamanhos. Contactado pelo Observador, Miguel Arruda negou que se tratasse de uma conta sua e garantiu que não tinha uma conta na plataforma. Apesar de assumir que compra muito online, frisou que não se recorda de alguma vez ter tido uma conta na Vinted.
Já questionado à saída da reunião com André Ventura, Miguel Arruda já disse que, afinal, “se tinha [uma conta na Vinted] era uma coisa antiga“, acrescentou não saber do que fala e até atirou para a mulher: “A minha esposa fazia qualquer coisa deste género.” Mas assegurou que não a apagou e que essa suposta conta — que disse ao Observador horas antes que não tinha — “deve estar, com certeza” ainda ativa.
Depois do contacto do Observador, o utilizador “miguelarruda84”, que não estava online há dois dias — data da primeira notícia que deu conta do caso —, surgiu como tendo estado online há poucos minutos e, menos de meia hora depois, a conta surgiu como apagada, passando a estar indisponível.
A conta em causa começou a receber comentários de compradores há “oito meses”, no mês de maio — sendo que Miguel Arruda só se mudou para Lisboa em março de 2024, altura em que se tornou deputado do Chega, e quando começou a fazer viagens com frequência entre a capital e São Miguel, nos Açores. A investigação estava a seguir o deputado desde o mês de novembro, sendo que Arruda terá sido identificado em imagens de videovigilância nos aeroportos a retirar malas do tapete de recolha de bagagens.
A somar a tudo isso, mais um pormenor na conta em causa: a fotografia de perfil, apesar de estar escura, permite perceber que se trata da Igreja de São Jorge (Achada), localizada na vila de Nordeste, concelho de Nordeste, na ilha açoriana de São Miguel. Ora, em 2021, Miguel Arruda foi o candidato do Chega à Câmara Municipal do Nordeste nas eleições autárquicas.
[Já saiu o sexto e último episódio de “A Caça ao Estripador de Lisboa”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a conturbada investigação ao assassino em série que há 30 anos aterrorizou o país e desafiou a PJ. Uma história de pistas falsas, escutas surpreendentes e armadilhas perigosas. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro, aqui o quarto e aqui o quinto episódio]
André Ventura, à saída da reunião com Miguel Arruda, descreveu o caso como tendo “factos perturbadores“, sugerindo que as informações que têm sido tornadas públicas são claras. “Sabem que não acredito em tudo o que vocês dizem, mas há factos que não são uma questão da vossa interpretação, são o que nos entra pela casa”, afirmou, referindo-se a “imagens de videovigilância com três malas a entrar e uma a sair”.
Tal como o Observador escreveu, Miguel Arruda não só foi visto por diversas vezes com malas dentro da Assembleia da República, como também no gabinete em que trabalhava. “Andava sempre cheio de malas”, contou uma fonte ao Observador.