“Eu não sou inocente, mas não cometi esse crime. Não tirei a vida a ninguém”. Por não concordar com a decisão de dois tribunais, Mariana Fonseca decidiu fugir à condenação. Por mais do que uma vez, os tribunais condenaram a enfermeira por coautoria no homicídio de Diogo Gonçalves em 2020. Com a ex-namorada, matou o jovem, desmembrou-o e desfez-se do corpo. Mais de cinco anos depois do crime, a antiga companheira (e cúmplice) morreu na prisão e Mariana está em fuga — podendo ter sido avistada em Marrocos.
Quando terminou o julgamento na primeira instância, o casal ficou a saber que tinha tido sortes bem distintas: Maria Malveiro foi condenada à pena máxima pelo Tribunal de Portimão e a enfermeira foi absolvida. O Ministério Público recorreu e a Relação de Évora decidiu condenar Mariana Fonseca à pena máxima. Em 2024, o Supremo reduziu a pena em apenas dois anos.
Goradas as hipóteses de prolongar a luta nos tribunais, Mariana via aproximar-se o desfecho que tinha tentado combater. Quando as autoridades iam cumprir o mandado de condução à prisão, não encontraram a enfermeira (expulsa pela Ordem dos Enfermeiros depois da condenação pela Relação de Évora) em nenhuma das moradas oficiais — segundo o Correio da Manhã, a Polícia Judiciária temia esta fuga e chegou a pedir ao Tribunal de Portimão a emissão de um mandado de captura, que só chegou quando PSP e GNR perderam o rasto da condenada.
“Nunca roubei pertences ou dinheiro a ninguém, nunca quis ser mais do que sou, mais do que a minha condição social. Eu só queria trabalhar e viver”, disse num vídeo partilhado pelo Correio da Manhã. Seis meses depois de ter sido dada ordem de condução à prisão, as autoridades continuam sem conhecer a localização da homicida, que poderá ter sido avistada em Marrocos, de acordo com o mesmo jornal. Quem percebe do assunto admite que é difícil comparar casos, mas é quase inevitável; foram necessários menos de cinco meses para apanhar não um, mas cinco homens que tinham fugido de Vale de Judeus. Com um acréscimo: tinham todos (muita) experiência no mundo do crime e até em fugas.
Assim, o Observador tentou entender, junto de ex-inspetores da Polícia Judiciária com conhecimento destas operações: o que torna mais complicado encontrar a enfermeira do que cinco perigosos criminosos? Que pistas seguem as autoridades? O que precisa de mudar para se evitar estas fugas? Coincidem, pelo menos, numa resposta destacada com veemência: o maior obstáculo não é causado pelos fugitivos, mas tem uma natureza burocrática. “A PJ antecipou o que iria acontecer, alertou para o risco de fuga, e infelizmente estavam certos”.
Reclusos tinham mais apoio exterior, mas eram “expansivos”. Mariana “já deu provas de inteligência” e beneficiou de atraso das autoridades
A mudança de visual é, quase sempre, a medida mais fácil e rápida para um fugitivo executar e garantir uma fuga às autoridades com sucesso. Ou, pelo menos, assegurar que consegue mover-se com maior discrição. Um corte de cabelo é, neste campo, quase sempre a hipótese mais prática. “Durante a minha vida, desde aquele momento [o homicídio], eu [vivia] sempre a olhar por detrás do ombro, (…) com medo de às vezes ir à rua e de alguém me reconhecer. Eu não queria que me reconhecessem”, assumiu Mariana Fonseca no vídeo divulgado pelo Correio da Manhã.
André Inácio, ex-inspetor da PJ e formador internacional nos domínios da Segurança e da Justiça, explica ao Observador que Mariana “foi mudando de visual para não ser associada ao caso”, pelo que uma nova mudança de visual para escapar às autoridades não seria uma novidade. Após ter sido ilibada na primeira instância, a ex-enfermeira saiu do Algarve onde foi cometido o crime. Em Lisboa, onde trabalhava num hospital privado, tinha um novo visual para não ser facilmente associada à morte macabra de Diogo Gonçalves.
Em junho de 2025, depois de o caso ter passado pelas salas do Tribunal da Relação de Évora e do Supremo (que condenaram Mariana a 25 e a 23 anos de prisão, respetivamente), o Tribunal Constitucional rejeitou a última reclamação do advogado António Falé de Carvalho. Os juízes não concordaram com os argumentos e tudo ficou dependente do Tribunal de Portimão, que teria de emitir o mandado de condução à cadeia.
O mandado acabou por ser emitido a 3 de julho, mas quando a PSP e a GNR procuraram Mariana nas moradas oficiais, não a encontraram. Antes, a PJ, atenta aos passos da ex-enfermeira, terá pedido a emissão de um mandado de captura, mas a juíza do Tribunal de Portimão recusou, por entender que era da competência das outras forças de segurança. Esse alerta internacional só chegou em novembro, quando a condenada já estaria fora de Portugal.
“Quando há uma fuga desta natureza, é evidente que é feita uma difusão — umas vezes a nível mundial, outras a nível mais regional, consoante o caso”. Depois, explica o ex-inspetor Vítor Alexandre, seguem-se algumas pistas: “O meio onde se movimentou, onde se prevê que possa ter ido”. “Pode-se ir monitorizando as pessoas que eram próximas (por via de diligências no terreno ou de escutas), as pessoas da família que contactou, ver se há contactos [telefónicos], se tem conta bancária e se foi mexida”. No fundo, seguem “qualquer pequenino rasto que nos leve” à pessoa em fuga.
A possibilidade de estar em Marrocos, ou de ter passado pelo país do Norte de África, é encarada com alguma naturalidade pelos ex-inspetores que falam com o Observador. A proximidade geográfica torna a viagem fácil. Mesmo que tivesse um mandado de detenção internacional, Mariana, como qualquer pessoa, poderia passar a fronteira com Espanha — mas seria intercetada na passagem marítima para Marrocos.
“Se houvesse difusão internacional, era suposto que a polícia nas fronteiras tivesse o alerta. Não tendo sido feito a tempo… a partir daí, não há como evitar”. André Inácio resume que sem este mandado, a ex-enfermeira tinha caminho livre para passar as fronteiras sem levantar suspeitas. No entanto, se houvesse essa ordem de detenção, o trajeto poderia ser feito na mesma, recorrendo a documentos falsos ou fazendo a travessia marítima sem recorrer a embarcações turísticas ou comerciais — o que terá acontecido com Fábio Loureiro, um dos reclusos evadidos de Vale de Judeus.
É nesta possibilidade de fuga para Marrocos que os antigos inspetores traçam a primeira semelhança (e diferença) com os cinco reclusos que na manhã de 7 de setembro de 2024 escaparam de Vale de Judeus. Se Fábio ‘Cigano’, como também era conhecido, teve apoio de pelo menos uma pessoa que conhecia do mundo do crime, a enfermeira não terá uma rede de apoios tão densa, fruto de não ter um historial de criminalidade que obrigue a ter contactos dispersos pelo globo.
“Eles tinham atrás de si grandes organizações não só economicamente, mas também em termos de logística, se necessário fosse. Nomeadamente com meios de fuga, com bilhetes de avião, com carros, com gente a apoiá-los, para os esconder. É totalmente diferente de uma enfermeira que está sozinha e não tem uma estrutura dessas para se defender”, assume Vítor Alexandre. Mas, assim, não é contraditório que Mariana não tenha sido apanhada em mais de seis meses e os cinco reclusos tenham sido recapturados em cerca de cinco meses?
O ex-PJ dá duas explicações. Primeiro, “o número de meios que se mobilizam para uma situação e para outra é bem diferente”. Segundo, “só uma pessoa deixa menos rasto”. “Ela terá um apoio muito reduzido [face aos reclusos], ao passo que os outros não, para além de serem delinquentes já conhecidos e conhece-se mais porque é transmitido pelas outras polícias o seu modo de atuação. (…) Também se transmite não só o modo de atuação de cada grupo em que estão inseridos, mas quem são as pessoas que em determinado momento tiveram na vida deles no mundo do crime, também eles passam a ser controlados de alguma forma”.
Ou seja, uma vez que o historial dos criminosos também é mais conhecido das autoridades, acaba por ser mais fácil às polícias de diferentes países partilharem, entre si, informação sobre as redes de apoio que cada um tem e que pode ser vigiada para detetar se, em determinado momento, entrarão em contacto com os fugitivos, denunciando-os.
André Inácio atira outra diferença entre os dois casos. “Enquanto, normalmente, este tipo de criminosos [como os cinco fugitivos] são indivíduos mais expansivos e acabam por dar mais nas vistas, ela prima pela discrição e isso, de alguma forma, contribui também para dificultar a sua localização”.
“É uma questão de tempo” até Mariana ser apanhada, entende. A “colaboração com as autoridades locais”, com “videovigilâncias” e controlo “de espaços públicos” assim o garantirá. “Mas repito: ela é uma pessoa muito discreta, não é espalhafatosa, já deu provas de inteligência. Diria mesmo que é camaleónica, porque é vulgar e discreta. Facilmente passa despercebida. Indivíduos como [Fábio Loureiro] são mais expansivos, acham que estão acima da lei, consequentemente são menos cuidadosos. Ela não terá acesso a documentos falsos, portanto é uma questão de tempo”, reforça o antigo inspetor.
Outra vantagem que terá sido aproveitada por Mariana e não pelos cinco fugitivos é a preparação. “Eles prepararam tudo para fugir e depois, como se percebeu, planearam muito mal o resto”. André Inácio acrescenta que, apesar de não se conhecer há quanto tempo está em fuga, a ex-enfermeira teve mais tempo para planear tudo. “Não esquecer que há uma primeira instância [em abril de 2021], em que não foi condenada. Depois só no recurso é que foi” e a última decisão surgiu apenas em junho de 2025.
“Pode-se utilizar muitos estratagemas, mas hoje em dia não é muito fácil fugir, quase é preciso ir para o outro lado do mundo e para um país sem grandes relações com Portugal. Muitas vezes o que também acontece é que a pessoa não fugiu e ainda anda por aí. Há muitos casos, a PJ não consegue estar permanentemente a controlar todos ao mesmo tempo”, acrescenta Vítor Alexandre.
Ambos confiam no trabalho dos ex-colegas e acreditam que mais cedo ou mais tarde a ex-enfermeira vai ser apanhada. No entanto, há dificuldades externas à PJ que condicionam, de sobremaneira, a missão dos investigadores.
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Rapidez “é essencial”, mas nem sempre se verifica. O que atrasa a cooperação internacional e como se contorna?
A grande arma da PJ nestas perseguições, como em outras missões de investigação criminal, é quase sempre a mesma, a rapidez. “É sempre essencial em tudo, em toda a atuação, seja em que circunstância for”. Na busca por Mariana Fonseca não é diferente: “Quando mais rápido for, é sempre melhor”.
Se os investigadores só entram na corrida muito depois de ter sido dado o tiro de partida, o fugitivo “pode movimentar-se” como quiser. “Não sabemos se já se instalou ou não noutro país”, explica Vítor Alexandre, que detalha como funciona a cooperação internacional nestas situações.
Além de ser feita a difusão através dos canais habituais — com o alerta a chegar à Interpol e Europol — também há contactos com países com quem Portugal tem acordos de cooperação. “A partir daí”, espera-se informação vinda do exterior, “sem quebra de se continuar a investigar possíveis pistas” que surjam à PJ.
No entanto, esta rapidez é afetada pela burocracia implicada na emissão destes mandados, como reforçam os dois ex-inspetores ouvidos pelo Observador. “Quando é para emitir o mandado internacional, se é europeu até é rápido, mas se for por exemplo para Marrocos, está dependente dos acordos bilaterais que existam e tem que ir — se não houver acordo extrajudicial — na plenitude do formalismo que sempre existiu, pela via diplomática. É entidade a entidade.”
Assim, o pedido segue do Ministério Público do país de origem para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, que o envia para a entidade homóloga do país que recebe o documento. Deste, segue para o MP desse país. “Tem que fazer um circuito que sai dos circuitos judiciais”.
Mandado de Detenção Internacional e Europeu
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Importa destacar que o mandado de detenção internacional pode assumir duas naturezas: ou ser formalizado (como na descrição anterior) a um único País — é, segundo André Inácio, “mais arriscado” e surge quando se tem a certeza, “ou quase” da presença do fugitivo num determinado país — ou ser comunicado à Interpol — quando há a suspeita de que saiu do país, mas não há pistas sobre para onde terá ido (ou, havendo, não são suficientemente sólidas para notificar um país em concreto). Já o mandado de detenção europeu, é mais célere e aplica-se aos Estados-Membros da UE.
“Os protocolos estão definidos. Há uma difusão e depois, além das relações oficiais entre as polícias, também há já um histórico de contactos diretos que agilizam o processo e que não passam ao lado da legalidade, mas que de alguma forma aceleram o processo”. André Inácio detalha que “às vezes” os polícias estabelecem contactos “paralelos” com colegas de outros países para adiantar trabalho enquanto os papéis não chegam.
Fontes judiciais ouvidas pelo Observador explicam que o caminho destes documentos pelos ministérios é processado por “burocratas” que não têm a mesma sensibilidade para a rapidez da justiça que outros agentes, o que, mais uma vez, atrasa os processos.
“Às vezes não é só uma questão de burocracia, é uma questão de indiferença para a experiência do investigador que anda no terreno e sabe como é que as coisas se desenvolvem. Nós temos uma estrutura [na justiça] cada vez mais nova, gente mais inexperiente, mas também gente muito pouco humilde que acha que não tem que aprender nada com os polícias. E depois isso traduz-se nestes erros. Tem sido um acumular de situações pouco dignas por parte do Ministério Público. (…) A PJ antecipou o que iria acontecer, alertou para o risco de fuga, e infelizmente estavam certos”, acusa André Inácio.
“A PJ desde o início que alertou para esta situação. Mais uma vez [o MP] achou que não era preciso e que estava muito bem entregue. E depois, quando se foi à procura, já cá não estava, porque, efetivamente, a justiça tem os seus ‘timings’, mas os criminosos também têm os deles”, continua o antigo investigador.
Para Vítor Alexandre, além do entrave burocrático, as autoridades também levam demasiado tempo a comunicar, entre elas, um caso. “Uma coisa que devia ser transmitida de imediato por diversos canais, muitas vezes não é transmitida. E dizemos ‘porra, agora é que nos estão a comunicar isto, quando já devia ter sido há tanto tempo’”.
Lusa
“Empenho” dos polícias “existe a todo o momento”. Mas perigosidade dos fugitivos também é fator a ter em conta
Independentemente destes entraves que surgem, os antigos investigadores asseguram que é constante o empenho das autoridades para perseguir estes fugitivos. Ainda assim, admitem que a diferença entre apanhar uma enfermeira em fuga e um grupo de antigos reclusos pode residir na mobilização coletiva de autoridades de diferentes países.
“O empenho profissional existe a todo o momento. Agora, percebe-se perfeitamente que aqueles cinco, pelo impacto que tiveram, e mais, porque também era importante para outros países onde correm processos onde eles estavam condenados ou também eram procurados, obviamente que essas autoridades policiais de todos esses países, também como parte interessada se uniram na investigação e rapidamente correram atrás deles em todo um universo geográfico grande”, assume Vítor Alexandre. Por outro lado, “neste caso, nem os marroquinos têm interesse específico”. “O número de pessoas envolvidas, face ao interesse que há na sua captura, é bem menor”.
“Acredito que qualquer polícia a nível internacional, que está cheia de trabalho, está muito mais preocupada em apanhar um criminoso violento, mas com um histórico, do que alguém que matou pela primeira vez, embora desta forma absolutamente macabra. Em Marrocos, que é um país que vive com com índices de ameaça terrorista violentíssimos, eles têm trabalho permanente. Portanto, o foco deles não é propriamente uma enfermeira com ar simpático que por acaso matou e retalhou um tipo”, resume André Inácio.
Mas os dois deixam um aviso, é raro fugir para sempre. “O assunto nunca é dado como encerrado. E quando a pessoa já está na lassidão, é quando é apanhada. Não é propaganda. Uma pessoa nunca esquece. Ninguém gosta de perder… então com estes crimes graves”, conclui o antigo inspetor Vítor Alexandre.
Detidos em Espanha os últimos dois fugitivos de Vale de Judeus