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Na tarde de 8 de maio de 2025, quando subiu à varanda da Basílica de São Pedro para se apresentar ao mundo pela primeira vez como Papa Leão XIV, o norte-americano Robert Francis Prevost sabia que não conseguiria escapar à missão mais espinhosa dos primeiros dias, das primeiras horas e até dos primeiros segundos: gerir as inevitáveis comparações com o antecessor, o mundialmente acarinhado Papa Francisco, que morrera duas semanas antes ao fim de um pontificado marcado por um profundo ímpeto reformista que lhe conquistou a admiração não só dos católicos, mas também do mundo secular — e, sobretudo dos jovens. Jovens que esta semana se encontram em grande número em Roma para o Jubileu dos Jovens, durante o qual Leão XIV enfrentará pela primeira vez o teste da multidão dos jovens católicos.
Usar ou não a mozeta vermelha sobre os ombros, que nome escolher, como cumprimentar a cidade e o mundo naquela varanda, viver ou não no apartamento pontifício do Palácio Apostólico: todas estas opções formais seriam, como foram, ainda antes do conteúdo do seu pontificado, inescapavelmente escrutinadas pelos meios de comunicação social, pelos católicos e pelo mundo secular, tanto pelos que esperavam um Francisco II como por aqueles que antecipavam um Bento XVII. Ao fim de quase três meses, o pontificado de Leão XIV está ainda a dar os primeiros passos, mas uma coisa é certa: o novo Papa tem ocupado menos espaço nas páginas dos jornais do que o seu antecessor.
Quando, durante a tarde de sábado, os cerca de 500 mil jovens que se encontram esta semana em Roma para o Jubileu dos Jovens se começarem a concentrar no parque da Universidade de Tor Vergata, nos subúrbios da capital italiana, para uma noite de vigília como aquela que se viveu em Lisboa na Jornada Mundial da Juventude de 2023, o Papa Leão XIV enfrentará o primeiro grande teste do seu ainda curto pontificado. Na terça-feira, durante a celebração de abertura do Jubileu, já foi possível antecipar um pouco do que acontecerá: centenas de milhares de jovens reuniram-se na Praça de São Pedro para a missa, presidida pelo arcebispo Rino Fisichella, mas o que provocou a euforia da multidão dos jovens foi a aparição surpresa de Leão XIV, que percorreu toda a praça de papamóvel sob fortes aplausos e ouvindo os habituais gritos (“Esta é a juventude do Papa!”) que, no verão de 2023, eram dirigidos com a mesma intensidade ao Papa Francisco em Lisboa. A partir do altar, falou aos jovens em várias línguas e foi longamente aplaudido.
Este fim-de-semana, a capacidade que demonstrar para entusiasmar a multidão e a mensagem que passar aos jovens e ao mundo num momento de grande atenção mediática poderão representar um ponto de viragem no pontificado — da mesma forma que Francisco e Bento XVI também tiveram em grandes concentrações de juventude (as JMJ do Rio de Janeiro e de Colónia, respetivamente) o primeiro grande acontecimento dos seus pontificados. Embora seja ainda manifestamente cedo para um balanço — Leão XIV ainda não publicou nenhum grande documento magisterial nem fez nenhuma viagem internacional, por exemplo —, a verdade é que o primeiro Papa norte-americano da história parece ainda não ter conquistado o espaço mediático do seu antecessor. Isto não significa, contudo, que estes quase três meses tenham sido de pouco trabalho para Leão XIV, sobretudo no que diz respeito à política e à diplomacia.
▲ Leão XIV foi eleito Papa a 8 de maio deste ano
REUTERS
Um pontificado dedicado a esforços de paz
“É uma ilusão dizer que Leão XIV não fez nada, ou que fez menos do que o Papa Francisco, nestes primeiros meses”, diz ao Observador a vaticanista Hannah Brockhaus, jornalista norte-americana e correspondente da Agência de Notícias Católica em Roma, onde acompanhou de perto o pontificado de Francisco e tem seguido ao pormenor o arranque do pontificado de Leão XIV. “Especialmente do ponto de vista político, não perdeu tempo a falar sobre Gaza e Israel, não só a pedir a paz e o cessar-fogo, mas também a falar por telefone com o primeiro-ministro de Israel e com os líderes palestinianos.”
A paz tem sido, aliás, o tema central do pontificado de Leão XIV. Foi a primeira palavra pronunciada pelo Papa norte-americano em São Pedro após a eleição e tem sido intensamente repetida em audiências, homilias e discursos. Na sua primeira audiência geral, Leão XIV pediu publicamente a entrada de ajuda humanitária em Gaza, onde se vive uma situação “cada vez mais preocupante e dolorosa”. Uma semana depois, evocou a partir do Vaticano “o grito das mães e dos pais que apertam os corpos sem vida dos seus filhos”, que “sobe cada vez mais intensamente para os céus”, e exigiu um cessar-fogo imediato. Mais recentemente, já em junho, mas ainda antes de se começarem a multiplicar as trágicas notícias de dezenas mortes em Gaza por fome e malnutrição, Leão XIV denunciou o recurso à fome como arma de guerra: “Assistimos atualmente, com desolação, ao uso iníquo da fome como arma de guerra. Matar a população à fome é uma forma muito barata de fazer guerra.”
Após o ataque israelita à única igreja católica da Faixa de Gaza, que matou três pessoas e deixou várias feridas, Leão XIV pronunciou-se de forma ainda mais contundente sobre o conflito, voltando a exigir um cessar-fogo imediato. “É altura de parar com este massacre”, afirmou, numa altura em que também evocou a partir de Roma os nomes das vítimas mortais do ataque. Na ocasião, falou por telefone com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, para sublinhar a necessidade de um cessar-fogo imediato. Mais tarde, falou também ao telefone com o Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, numa conversa em que condenou a intenção israelita de realizar uma “transferência forçada” dos palestinianos de Gaza.
No contexto da guerra na Ucrânia, a intervenção de Leão XIV tem sido ainda mais vincada. “A sua abordagem diplomática é diferente da de Francisco”, afirma Hannah Brockhaus, sublinhando que Leão XIV tem sido “menos cauteloso nas palavras”, por exemplo, ao ser “mais explícito sobre quem é o agressor” na Ucrânia. “Claro que escolhe bem as palavras que usa, mas é muito claro ao dizer que existe uma injustiça”, destaca a vaticanista norte-americana.
Se o funeral do Papa Francisco foi também uma celebração da diplomacia do Vaticano, marcado pelo encontro entre Trump e Zelensky no interior da Basílica de São Pedro, Leão XIV rapidamente deu continuidade à ação vaticana no conflito na Ucrânia. Menos de uma semana depois da eleição, e ainda antes da inauguração do pontificado, o novo Papa já estava em contacto com Zelensky por telefone. Alguns dias depois, o Presidente dos EUA, Donald Trump, vinha a público dizer que o Vaticano, agora chefiado por um Papa com nacionalidade norte-americana, poderia até ser o recinto para as primeiras negociações entre a Rússia e a Ucrânia. Nas audiências gerais dos seus primeiros meses como Papa, Leão XIV tem repetido os apelos à paz na Ucrânia — e, em junho, falou por telefone com o próprio Presidente russo, Vladimir Putin, para lhe pedir que tivesse “um gesto que favorecesse a paz”.
Em Roma, Leão XIV recebeu Volodymyr Zelensky e encontrou-se com uma delegação de jovens e crianças ucranianas; além das palavras, Leão XIV mobilizou também a Esmolaria Apostólica para, através de fundos do Vaticano e donativos dos fiéis, encaminhar vários camiões com ajuda humanitária para regiões da Ucrânia fortemente afetadas pelos bombardeamentos russos.
Hannah Brockhaus destaca que dificilmente as negociações entre Rússia e Ucrânia poderão acontecer no Vaticano, essencialmente por questões práticas relacionadas com o facto de Itália não ser neutral neste conflito. Ainda assim, explica a vaticanista, o trabalho diplomático acontece “com qualquer Papa” e, também com Leão XIV, “há coisas a acontecer nos bastidores, das quais apenas uma pequena parte é tornada pública”.
▲ O Papa Leão XIV com o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, este mês em Castel Gandolfo
VATICAN MEDIA HANDOUT/EPA
Primeiros dias sem merchandising e com menos “hype“
Apesar de tudo isto, o Papa Leão XIV parece estar a ter menos atenção mediática do que o seu antecessor. “De uma perspetiva norte-americana, diria que ele é popular nos media. Há interesse em cobrir o que ele faz, especialmente nos meios norte-americanos. Mas há, talvez, menos hype? Poderá ser verdade. Pelo menos nestes primeiros meses Francisco teve atenção mediática”, sublinha Hannah Brockhaus. “Tudo o que ele fez, tudo o que ele disse, chegava às notícias porque era espontâneo ou, pelo menos, parecia que era espontâneo. Este Papa, agora, parece ser mais cauteloso.”
Os primeiros dias e meses do Papa Francisco foram, de facto, extensamente acompanhados pelos meios de comunicação social de todo o mundo, sobretudo por um conjunto de aspetos relativamente anedóticos, pela novidade de um Papa latino-americano e pelo contraste formal com Bento XVI: a recusa em usar os sapatos vermelhos, o inusitado telefonema ao quiosque em Buenos Aires de sempre a cancelar a reserva diária do jornal, as repetidas quebras de protocolo ou a decisão de ficar a viver na Casa de Santa Marta, em vez de usar o apartamento pontifício, chegaram rapidamente às manchetes dos jornais de todo o mundo.
Não foram, contudo, três meses com mais conteúdo do que os de Leão XIV. O seu primeiro documento, a encíclica Lumen Fidei, foi publicado no final de junho de 2013, mais de três meses depois da eleição, e já se encontrava quase totalmente escrito por Bento XVI; seria necessário esperar oito meses, até novembro desse ano, para que fosse publicado o primeiro documento programático saído integralmente da pena Francisco, a exortação apostólica Evangelii Gaudium. A histórica viagem a Lampedusa, a sua primeira saída de Roma, na qual homenageou os migrantes mortos no mar e condenou a “globalização da indiferença” perante o sofrimento, aconteceu em julho, quatro meses após a sua eleição. Em contrapartida, aquilo que nas primeiras semanas fez recair a atenção mediática sobre Francisco, além da óbvia novidade, foram os episódios quotidianos.
“O Papa Francisco chegou às manchetes porque fez as coisas de forma diferente”, sublinha Hannah Brockhaus. “Este está a fazer tudo da mesma forma que os outros faziam. Por exemplo, foi de férias para Castel Gandolfo. Não o fez de forma espalhafatosa, simplesmente anunciou que iria.”
Desde o primeiro minuto, o Papa Leão XIV procurou dizer ao que vinha. A escolha do nome, em clara homenagem a Leão XIII, Papa na viragem do século XIX para o século XX e considerado o pai da Doutrina Social da Igreja, ajudou a definir um programa, algo que o próprio Leão XIV confirmou dois dias depois da sua eleição, numa reunião com os cardeais que o elegeram. Nesse encontro, frisou a necessidade de uma doutrina social capaz de responder aos desafios do mundo contemporâneo, que vive uma nova revolução industrial marcada, por exemplo, pela inteligência artificial; recorreu ao principal documento programático de Francisco para se afirmar como um continuador das grandes linhas do Concílio Vaticano II que Bergoglio tinha atualizado; e comprometeu-se com o caminho de sinodalidade em que Francisco havia lançado a Igreja.
A continuidade temática com Francisco não foi acompanhada, porém, de uma continuidade formal. Leão XIV recuperou alguns símbolos exteriores que Francisco havia abandonado (como a mozeta vermelha ou o apartamento pontifício), o que levou ao surgimento de dúvidas no espaço público sobre onde enquadrar o novo Papa na habitual dicotomia entre conservadores e progressistas.
Essa própria dicotomia, contudo, é uma importante chave de leitura para compreender o surgimento de um Papa como Leão XIV, explica o padre João Basto, sacerdote da diocese de Viana do Castelo e colunista do Observador. “Leão XIV é uma pessoa mais recatada. Isso nota-se, por exemplo, no facto de não haver merchandising do Papa Leão. Ele proibiu que se fizesse merchandising dele, o que é um statement”, afirma o padre. “Neste momento, a nível interno da Igreja, existe um clima de grande tranquilidade. As pessoas gostam de Leão XIV, mas não existem fanáticos de Leão XIV como havia com o Papa Francisco; mas também não existe neste momento na Igreja uma linha de força contra o Papa.”
Leão XIV, acrescenta João Basto, “consegue reunir em si as várias sensibilidades da Igreja”. Na prioridade aos grandes temas — os pobres e marginalizados, a paz, o acolhimento e a sinodalidade —, Leão XIV está claramente alinhado com Francisco; ao mesmo tempo, devolve à Igreja um cumprimento da formalidade institucional que, no pontificado do argentino, tinha alienado alguns setores. “Havia um conjunto de fações da Igreja que estavam mais descontentes e ele percebeu isso”, explica o sacerdote. “Por outro lado, não deixou de denunciar de maneira dramática, como Francisco denunciava, a situação de Gaza.”
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Isto não significa, acrescenta João Basto, que os sinais exteriores sejam menos relevantes, “porque conteúdo é forma” e os sinais exteriores também passam uma mensagem. “O Papa é sempre um papa e as suas circunstâncias. Leão XIV é Papa num tempo em que, na Igreja, havia uma tensão”, sublinha. “Francisco era muito profético e muito carismático, o que traz muita gente com ele, mas há um desagrado na parte mais institucional. A crítica tem justiça, mas também tem injustiça. Os sinais exteriores ajudam a comunicar para um conjunto de setores.”
O Papa Francisco, de resto, viveu todo o seu pontificado sob fogo da parte do setor mais conservador — não só no âmbito teológico (Bergoglio chegou a ser acusado de heresia no contexto das suas palavras sobre o acesso dos divorciados à comunhão e muito criticado pelas suas posições de acolhimento em relação aos homossexuais ou em relação ao lugar da mulher na Igreja, por exemplo), mas também no âmbito destes sinais exteriores. Por exemplo, a decisão de Francisco de continuar a viver na Casa de Santa Marta em vez de ocupar o Palácio Apostólico (onde trabalhava todos os dias) foi lida como um ato de grande humildade e explicada pelo próprio com a sua vontade de continuar a viver no meio de outras pessoas, em vez de se isolar no palácio.
▲ Leão XIV é um Papa mais discreto do que Francisco
RICCARDO ANTIMIANI/EPA
Contudo, sabe-se que essa decisão acarretou um custo grande. O Vaticano teve de duplicar o dispositivo de segurança em torno do Papa, para poder garantir a proteção de Francisco em permanência nos dois edifícios e, além disso, o próprio funcionamento da Casa de Santa Marta, uma casa de hospedagem para clérigos no Vaticano, ficou muito afetada, com fortes restrições de segurança, uma ala reservada para o séquito papal e grandes constrangimentos de acesso numa casa que anteriormente funcionava como alojamento útil para padres e bispos de todo o mundo que precisavam de passar temporadas em Roma. Nos meios mais conservadores, chegaram a circular relatos — não confirmados — de que a “humildade performativa” de Francisco custava 200 mil euros por ano.
Dentro da Igreja, decisões de Leão XIV como a de regressar ao Palácio Apostólico, de voltar a usar a residência de Castel Gandolfo para férias, de voltar a usar a mozeta vermelha são lidas por alguns como um outro modo de humildade: ao conformar-se com a realidade, aceitando o funcionamento das instituições como elas são e não procurando moldá-las à sua imagem, Leão XIV procura deixar o protagonismo para a figura do Papa, mas não para a sua pessoa. Por exemplo, o facto de Leão XIV ter voltado a usar a mozeta vermelha em várias celebrações e nas audiências com chefes de Estado e com diplomatas não deve ser lido como uma preferência por uma veste mais ostensiva ou luxuosa. “O Papa reveste-se de vermelho nestas ocasiões, porque é o sinal do martírio”, sublinha João Basto. “O Papa tem de ser uma figura de unidade na Igreja. Se o Papa chegasse aqui e não trouxesse a mozeta, isso seria logo, para o mundo comunicacional, um sinal muito grande. Mas, para um conjunto significativo da Igreja, seria uma identificação com Francisco de maneira negativa.”
Um Papa com menos material para manchetes
A jornalista norte-americana Hannah Brockhaus reconhece que Leão XIV está a fazer “menos manchetes” do que Francisco e aponta várias razões. “Parece que este Papa fala mais para os católicos, enquanto o Papa Francisco falava muito para fora da Igreja. As grandes manchetes [do Papa Francisco] eram coisas para fora”, diz a vaticanista, lembrando as grandes entrevistas de Francisco a um jornalista ateu. “Talvez as mensagens de Leão XIV sejam mais para dentro.”
“Não há dúvidas de que ele fala sobre a paz, sobre os imigrantes. Nas questões sociais e até em temas como o aborto, os dois estão de acordo. Mas o modo como fala deles é muito diferente. Penso que ele não está interessado em chegar às manchetes, mas apenas em afirmar a doutrina da Igreja em todos os assuntos, não importa se parece de esquerda ou de direita”, destaca a jornalista, sublinhando que Leão XIV é formado em Direito Canónico e que isso ajuda a moldar o seu pensamento metodológico. “As pessoas não podem discordar tanto de ti se estiveres a seguir a lei e a dimensão institucional.”
“Os tradicionalistas, por exemplo, têm muita esperança de que este Papa reverta algumas coisas do Papa anterior”, diz Hannah Brockhaus, referindo-se por exemplo à questão da missa no rito antigo, em latim, liberalizada por Bento XVI e fortemente restringida por Francisco — o que aprofundou ainda mais o fosso entre o Papa argentino e os tradicionalistas.
A jornalista sustenta, no entanto, que ainda é cedo para tirar conclusões definitivas sobre o trabalho de Leão XIV. “Os pontificados começam devagar”, frisa Hannah Brockhaus. “Uma chave importante será quando ele fizer as primeiras nomeações pessoais. Quem é que ele põe nos lugares chave? Saberemos talvez depois do verão”, aponta, lembrando que, até agora, todos os principais cargos da Cúria Romana foram reconduzidos, enquanto Leão XIV analisa todos os dossiês. “Também ainda não temos uma primeira encíclica, por exemplo.”
A surpreendente discrição de Leão XIV foi notada também nos media norte-americanos. Como escrevia recentemente o jornalista norte-americano Francis X. Rocca, antigo correspondente do The Wall Street Journal no Vaticano e atual editor da EWTN, a inédita eleição de um Papa oriundo dos EUA criou a expectativa de que Leão XIV seria uma figura omnipresente nas televisões de todo o mundo, ao lado de Donald Trump, transformando Roma numa “capital mediática capaz de rivalizar com Washington e Nova Iorque”. Contudo, admite Rocca, a realidade não corresponde à expectativa mediática e Leão XIV tem aparecido “tão raramente nas notícias quanto é possível acontecer com um Papa novo”.
“Deveríamos ter percebido que praticamente nenhum sucessor do Papa Francisco se igualaria ao pontífice argentino como aquilo a que os repórteres chamam bom material”, considera o jornalista. “Com o seu estilo rebelde, um prazer em surpreender e um gosto pela ambiguidade, Francisco despertava constantemente controvérsia e interesse — desde a escolha pouco tradicional do seu nome no início do pontificado até uma aparição espontânea, sem traje clerical, na Basílica de São Pedro pouco antes do seu fim. A sua tendência para fugir ao guião em eventos oficiais e o modo informal de falar em conferências de imprensa resultaram numa abundância de declarações citáveis, das quais ‘Quem sou eu para julgar?’ foi apenas a mais famosa.”
Em contraste, Leão XIV “tem seguido cuidadosamente a tradição e o protocolo papais”, não se destacando pelo estilo e mantendo uma postura relativamente moderada na maioria dos assuntos. Isso faz com que haja “minorias barulhentas, tanto à esquerda como à direita”, que ainda têm a “esperança de o reivindicar como seu” — e que ainda não têm razões para se queixar dele. No entender de Rocca, o perfil discreto de Leão XIV tem sido o garante da paz num pontificado que tem feito da unidade da Igreja uma das suas grandes prioridades.
Hannah Brockhaus destaca que há também uma “diferença geracional” entre Francisco e Leão XIV que ajuda a compreender o modo como os dois atuam atualmente. Nascido na década de 1930, Francisco era um jovem seminarista durante o Concílio Vaticano II — enquanto Leão XIV era uma criança com menos de 10 anos de idade. Por isso, defende a jornalista, Bergoglio viveu intensamente os debates ideológicos do concílio, sentindo-os como pessoais, enquanto Prevost os estudou já numa Igreja renovada, não tendo uma relação pessoal ou uma carga emocional associada a esses debates — que passaram, em grande parte, por uma significativa abertura da Igreja ao mundo contemporâneo.
Além de tudo isto, a comparação com o antecessor afeta qualquer papa: aconteceu com Bento XVI, que teve de suceder ao carismático João Paulo II, e acontece agora com Leão XIV, que sucede a Francisco. Reconhecendo que “Francisco era mais carismático”, Hannah Brockhaus diz acreditar que este Papa “é amado apesar de discreto” — e que a celebração com os jovens já este fim-de-semana poderá ser um teste decisivo. “Estou interessada em ver como vai ser, agora, no Jubileu dos Jovens”, sublinha.
Mini-JMJ em Roma pode ser momento de afirmação
Em Roma a acompanhar um grupo de jovens da diocese de Viana do Castelo que estão a participar no Jubileu dos Jovens, o padre diz que, entre a juventude, é possível perceber uma grande vontade de “conhecer este Papa” — e sublinha que mesmo entre os jovens parece ainda “injusto” perguntar se Leão XIV corresponde às expectativas dos católicos ou compará-lo com Francisco. “Leão não é o segundo Francisco”, vinca o sacerdote.
João Basto reconhece que é possível que Leão XIV não seja um Papa de frases fortes, como Francisco: “Não estou à espera de que, no domingo, haja uma frase que fique para ser repetida como o ‘todos, todos, todos’.”
No entender da jornalista Hannah Brockhaus, uma das diferenças mais assinaláveis entre os dois papas prende-se com a forma de se dirigir às multidões nos discursos. “O Papa Leão XIV não tem medo de falar muito pessoalmente. Quando fala de um conceito a um grupo, não tem medo de dizer que ‘temos todos de melhorar’ e de falar das suas histórias pessoais”, sublinha, recordando, por exemplo, como Leão XIV evocou a história do casamento dos seus pais para responder a um casal que, numa audiência geral em Roma, lhe pediu conselhos para rezar melhor em família.
▲ Leão XIV terá meio milhão de jovens em Roma
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À pergunta “é este o Papa que os católicos esperavam?” é mais difícil responder. A jornalista da Agência de Notícias Católica lembra que esteve em Castel Gandolfo para o primeiro Angelus de Leão XIV na residência de verão e pôde testemunhar um “grande entusiasmo” da multidão. “A minha impressão é a de que as pessoas parecem genericamente muito felizes com ele”, sustenta. “A maioria das pessoas não sabia quem ele era. A receção tem sido muito positiva em ambos os lados do espectro político. O conclave encontrou alguém que reúne a concordância de muita gente diferente”, acrescenta, vendo no Jubileu dos Jovens desta semana um teste importante a este entusiasmo.
“Ele esteve em Jornadas Mundiais da Juventude no passado, está familiarizado com o tipo de multidão e com a juventude. Será tão carismático como Francisco e João Paulo II? Talvez não. Mas não acho que isso o prejudique. Não significa que as palavras dele sejam menos impactantes”, afirma. “Vamos ver, será interessante ver como ele interage.”
O Jubileu dos Jovens, evento integrado no Ano Jubilar de 2025 inaugurado pelo Papa Francisco em dezembro do ano passado, é um dos maiores eventos do ano em Roma — e funciona como uma espécie de mini-JMJ, seguindo o mesmo modelo de programação das atividades e servindo de edição intermédia entre as edições de Lisboa (2023) e de Seul (2027). Após uma semana de atividades pela cidade, os jovens participantes — que a polícia italiana estima em, pelo menos, meio milhão — vão dirigir-se para o parque da Universidade de Tor Vergata, que acolheu as celebrações da JMJ de 2000 com João Paulo II, para a vigília noturna deste sábado e para a missa de encerramento no domingo. Na prática, Leão XIV terá diante de si o equivalente a uma Jornada Mundial da Juventude.
Na terça-feira, no final da missa de abertura do Jubileu dos Jovens, que foi presidida pelo arcebispo Rino Fisichella, o Papa Leão XIV apareceu de surpresa na Praça de São Pedro para saudar os milhares de jovens ali reunidos. Através da transmissão televisiva do Vaticano desse período em que Leão XIV percorreu os corredores da praça no papamóvel e se dirigiu aos jovens em espanhol, italiano e inglês, é possível perceber que dificilmente o espetáculo seria diferente com o Papa Francisco: uma multidão em grande euforia, aplaudindo e gritando pelo Papa, procurando registar uma imagem de Leão XIV no telemóvel, aproximando-se das baias laterais para chegar o mais perto possível do Papa.
Do altar na Praça de São Pedro, lembrou aos jovens as palavras de Jesus Cristo — “Vós sois o sal da terra, vós sois a luz do mundo” — e colocou toda aquela multidão unida a gritar um apelo de paz: “Queremos a paz no mundo!”
A partir de Roma, o padre João Basto diz acreditar que a mobilização de jovens na capital italiana “não seria diferente se fosse o Papa Francisco” ou qualquer outro pontífice. “Tenho a ideia clara de que estes jovens gostam do Papa e amam o Papa, seja ele o Francisco, o Leão ou o Bento. Neste sentido, isto é um dos grandes gestos contra-culturais. Nós amamos ou odiamos o Trump por aquilo que ele defende. Esta malta aplaude o Papa para além disso. Significa, para nós, muita coisa, uma grande unidade. Isso é muito interessante.”
O sacerdote assinala ainda que um evento como o Jubileu dos Jovens permite ir além da superfície da realidade. “Acabo de passar por dois rapazes, um com a bandeira dos EUA, outro do México, lado a lado, em sã convivência. Parece-me que um evento destes mostra bem como muitas vezes as tensões geopolíticas não correspondem às tensões das relações. Há um mundo que não é relatado nos jornais e esse mundo nota-se aqui”, sublinha, acrescentando ainda que o curto discurso de Leão XIV na Praça de São Pedro, em várias línguas e suscitando grande entusiasmo dos jovens, foi um sinal claro de que a ideia de um Papa “apagado” está errada.
“É curioso que os últimos três papas tiveram o seu grande primeiro momento com os jovens”, diz o padre João Basto, recordando a JMJ de 2005, em Colónia, para o recém-eleito Bento XVI, a JMJ de 2013, no Rio de Janeiro, para o recém-eleito Francisco, e agora o Jubileu dos Jovens em Roma. “Muitas vezes, são turning points do pontificado. Para o Papa Francisco, apesar daquele primeiro mês muito agitado, o turning point foi a JMJ do Rio.” Com mais de três milhões de peregrinos presentes, a missa final da JMJ foi o maior evento alguma vez organizado na praia de Copacabana, superando concertos de Rolling Stones, Madonna ou Lady Gaga.
O sacerdote, que acompanha um grupo de jovens em Roma por esta semana, diz não encontrar qualquer diferença entre o Jubileu e a JMJ de Lisboa, por exemplo no que toca à animação dos jovens a cantar nos comboios e pelas ruas da cidade. “Pode dizer-se que o que estamos a ver hoje é fruto do trabalho feito pelo Papa Francisco”, reconhece, sublinhando que a maior fila por estes dias em Roma é para entrar na Basílica de Santa Maria Maior, onde está sepultado o Papa Francisco. “A fila para Santa Maria Maior é incomparavelmente maior do que a fila para a Praça de São Pedro.”
Isso mostra, diz João Basto, que esta é uma “geração muito ligada ao Papa Francisco”, mas que também está “à procura de conhecer este Papa”. Ao mesmo tempo, o facto de esta nova geração ter nas redes sociais uma importante ferramenta de afirmação ajuda a tornar os dias do Jubileu como um momento de grande relevância para a Igreja e para o Papa: “Os jovens estão muito ligados às redes sociais, o que conhecem é pelo TikTok ou pelo Instagram. E as JMJ dão momentos muito ‘tiktokáveis’. Não podemos descurar que este momento é um momento muito importante.”