Índice
Índice
Durante duas semanas, em outubro do ano passado, o padre jesuíta norte-americano James Martin sentou-se todos os dias à mesa com o cardeal Robert Francis Prevost. No novo modelo do Sínodo dos Bispos, impulsionado pelo Papa Francisco, as discussões e as votações já não estão apenas reservadas aos bispos e cardeais: agora, padres, religiosos e leigos, homens e mulheres, também têm ali assento. Além disso, o antigo modelo da sucessão de discursos num solene anfiteatro foi substituído pelo novo modelo das mesas redondas e das discussões em pequenos grupos, organizados pelas diferentes línguas dos participantes. Por essa razão, Martin teve, durante duas semanas, a possibilidade de conversar, de forma muito próxima, com o seu compatriota que, esta quinta-feira, se tornou o Papa Leão XIV.
Em conversa com o Observador na manhã desta sexta-feira, mais ou menos à mesma hora que o primeiro Papa norte-americano da história se preparava para uma missa na Capela Sistina com os cardeais que o elegeram, James Martin recordou essa experiência. “Conhecia-o apenas superficialmente, tínhamo-nos cruzado algumas vezes, mas foi no Sínodo que o conheci”, diz o sacerdote norte-americano, uma celebridade no mundo católico devido ao seu empenho na promoção dos direitos das pessoas LGBTQ dentro da Igreja. Amigo do Papa Francisco e autor de best-sellers mundiais sobre a fé, James Martin tornou-se num dos rostos da reforma levada a cabo pelo pontífice argentino, mas não escapou às críticas — incluindo de heresia — por parte do setor ultraconservador da Igreja Católica. Francisco não hesitou em dar a sua chancela ao padre norte-americano, que integrou o último sínodo justamente através do conjunto de elementos nomeados diretamente pelo Papa.
Durante aquelas duas semanas, James Martin viu no cardeal Prevost um homem “modesto, humilde, inteligente e muito educado”. Segundo o sacerdote norte-americano, que está em Roma por estes dias a acompanhar a transição papal, Prevost revelou-se, sobretudo, um “bom ouvinte”, com capacidade para ouvir muitas opiniões diferentes, mas também um grande “pensador”, com uma sólida formação intelectual que lhe permite compreender e sintetizar várias perspetivas em propostas de consenso, criando pontes entre pontos de vista muitas vezes vistos como inconciliáveis. “Quando ele foi superior dos Agostinianos, tinha de ouvir muita gente diferente e tomar decisões”, exemplifica James Martin.
Aos 69 anos de idade, Robert Francis Prevost, eleito apenas à quarta votação, é o homem que vai chefiar a Igreja Católica nos próximos anos, assumindo a posição de líder espiritual de mais de mil milhões de crentes por todo o mundo — e, sobretudo, tendo a complicada missão de ocupar um lugar deixado vago por Francisco, que consolidou o papado como a voz da consciência moral de uma humanidade polarizada e dilacerada por conflitos armados que se assemelham a uma “terceira guerra mundial aos pedaços”, nas palavras do pontífice argentino. Nesse sentido, Prevost parece corresponder, em linhas gerais, ao perfil esboçado pelos cardeais durante as congregações gerais que antecederam o conclave: um Papa com forte sentido pastoral, com experiência de terreno, com conhecimento das pessoas reais que compõem o mundo de hoje, e não um Papa de gabinete (o que poderia suceder, por exemplo, com a escolha do italiano Pietro Parolin).
▲ O Papa Leão XIV esta sexta-feira na missa que celebrou na Capela Sistina, juntamente com os cardeais que o elegeram
Getty Images
Além disso, a rapidez do conclave demonstra que a grande maioria dos cardeais procuravam, sem margem para dúvidas, um Papa comprometido com a continuidade do legado de Francisco — ainda que com um perfil mais discreto e reservado, além de uma sólida formação em direito canónico que lhe dará uma grande autoridade para enfrentar as resistências internas quando levar a cabo o processo de operacionalização de muitas das reformas e debates abertos pelo antecessor. Nesse sentido, aponta James Martin ao Observador, a experiência de Robert Prevost é incontestável: “Foi um pastor, foi um bispo, foi um missionário, foi um alto-quadro do Vaticano. Teve muitas funções e tem uma grande experiência de liderança.”
Mas, com um pontificado que leva ainda menos de 24 horas e apenas dois discursos, o que sabemos efetivamente sobre quem é e o que pensa o novo Papa? Embora a eleição papal seja um momento de transformação também para o próprio eleito (algo simbolizado na mudança do nome, por exemplo), é possível encontrarmos várias pistas para o pontificado que se avizinha no percurso do cardeal Prevost. O Observador procurou sintetizar o pensamento de Leão XIV a propósito de alguns dos grandes temas do mundo contemporâneo (como as migrações, o ambiente, a guerra, a paz e o armamento), dos temas sociais mais fraturantes dentro da Igreja (o combate aos abusos sexuais, a ordenação de mulheres, a moral sexual) e de alguns dos temas eclesiais dos dias de hoje (como a sinodalidade, o combate ao clericalismo, as reformas de Francisco e o lugar da Igreja no mundo atual).
A guerra, a paz e o desarmamento
Como escrevia esta sexta-feira o diário italiano Corriere della Sera, a primeira palavra de Leão XIV ao mundo não podia ter sido mais exigente: paz. “Que a paz esteja com todos vós”, disse o novo Papa, quando surgiu pela primeira vez na varanda da Basílica de São Pedro, lembrando a “primeira saudação do Cristo ressuscitado”, que é “uma paz desarmada e desarmante”. Leão XIV não foi inocente com esta escolha de palavras, evocando, num mundo marcado por guerras sangrentas e por uma nova corrida ao armamento nos países ocidentais, as palavras constantes do Papa Francisco contra o absurdo da guerra e a favor da “cultura do encontro” entre humanos, que antes de qualquer divisão partilham a mesma humanidade.
[Leão XIV é o papa de que a Igreja precisa? No podcast “A História do Dia“, só precisa de 15 minutos para ficar bem informado. Conversamos com os jornalistas da redação do Observador e com especialistas para lhe explicar tudo sobre a história mais importante do dia. E ainda lhe damos um resumo rápido das notícias que tem mesmo de saber. Pode ouvir aqui, na Apple Podcasts, no Spotify ou no Youtube Music]
A própria escolha do nome, em homenagem ao Papa Leão XIII, pai da Doutrina Social da Igreja, permite intuir, como o Observador analisava logo na noite da eleição de Prevost, que o pensamento do novo Papa sobre a guerra e a paz está em linha com o pensamento social da Igreja Católica sobre o assunto — que condena a acumulação excessiva de armas, considerando-a injustificável do ponto de vista moral. Neste sentido, podemos esperar de um Papa cuja primeira palavra foi para a “paz desarmada” uma intervenção forte em relação aos conflitos armados que assolam o mundo, na linha de Francisco, que procurou em várias ocasiões pôr a diplomacia do Vaticano ao serviço da mediação de guerras em diferentes pontos do planeta.
De resto, a sua experiência missionária no Peru (país onde passou mais de uma década em múltiplas funções, incluindo pároco, professor e bispo) também o ajudou a afirmar-se como um construtor de pontes. Em períodos de graves crises políticas e sociais, com múltiplos presidentes depostos e condenados, o então bispo Prevost esteve envolvido na abertura de canais de diálogo para procurar encontrar saídas para a crise democrática no país.
▲ O cardeal Robert Francis Prevost, dos Estados Unidos, foi eleito à quarta votação
VATICAN MEDIA HANDOUT/EPA
As migrações
Num dos temas mais quentes do mundo contemporâneo, as migrações, o primeiro Papa oriundo dos Estados Unidos corre o risco de entrar em rota de colisão com o seu próprio país-natal — apesar de, como se diz em Roma, Prevost ser conhecido como o menos americano dos cardeais americanos. Não é segredo que Donald Trump gostaria de ver um norte-americano eleito Papa, mas provavelmente preferiria a eleição de qualquer outro cardeal dos EUA que não Prevost. Como escrevia o vaticanista John Allen, Prevost “não corresponde aos estereótipos clássicos da ousada arrogância americana” — e qualquer outro dos cardeais oriundos dos EUA era amplamente visto como não tendo qualquer hipótese de vir a ser eleito Papa.
Apesar das saudações de Trump e JD Vance, Leão XIV chega ao trono de São Pedro já com um histórico de atritos em relação à administração norte-americana. A mais recente ocorreu quando o vice-presidente dos EUA, JD Vance (ele próprio um católico) tentou recorrer à teologia cristã para argumentar a favor da deportação de imigrantes considerados ilegais. Para isso, recorreu ao conceito teológico da Ordo Amoris, desenvolvido por São Tomás de Aquino a partir do pensamento de Santo Agostinho — mas o uso abusivo daquele argumento teológico foi prontamente criticado pela hierarquia católica ao mais alto nível. O próprio Papa Francisco sentiu necessidade de publicar uma carta aberta aos bispos dos Estados Unidos, lembrando-os da exigência cristã de tratar humanamente os migrantes.
Em resposta ao vice-presidente, o jornal católico norte-americano The National Catholic Reporter publicou um artigo com um título incisivo: “JD Vance está errado: Jesus não nos pede para ordenar o nosso amor pelos outros.” O então cardeal Robert Prevost, que se tornou agora o primeiro Papa da era digital e que tem sido nos últimos anos um utilizador frequente do Twitter, repartilhou na sua conta aquele título. A crítica ganha especial relevância se lembrarmos que Prevost é um padre da Ordem de Santo Agostinho, da qual chegou a ser o superior-geral, pelo que conhece bem o pensamento teológico daquele teólogo do século IV. O The New York Times fez, entretanto, uma análise à conta de Twitter de Prevost (cujo destino é agora incerto) e encontrou múltiplas críticas, maioritariamente republicações, à política migratória de Donald Trump.
O tema das migrações foi uma das principais bandeiras do pontificado do Papa Francisco, cuja primeira viagem para fora de Roma foi à ilha de Lampedusa, para deitar uma coroa de flores ao mar em memória dos migrantes mortos no Mediterrâneo. Durante o seu pontificado, criticou a “globalização da indiferença”, lamentou que o Mediterrâneo se tenha transformado num “cemitério” de migrantes e entrou em confronto com líderes políticos nacionalistas de vários países, incluindo em Itália, acerca deste tema. O cardeal Robert Prevost é considerado uma das figuras mais alinhadas com Francisco nestas matérias. À BBC, o padre John Lydon, um antigo colega de quarto de Prevost, descreveu o novo Papa como um homem “com os pés na terra” e “muito preocupado com os pobres”. Por outro lado, o próprio Prevost falava habitualmente da sua própria experiência de vida: apesar de ter nascido nos EUA, os seus avós eram imigrantes de França e Espanha, pelo que teve desde o início da vida uma consciência aguda da experiência da imigração. À Reuters, um responsável da diocese de Chiclayo, no Peru, onde Prevost trabalhou durante vários anos, lembrou como o então arcebispo se empenhou profundamente no acompanhamento dos muitos imigrantes venezuelanos que viviam naquele país latino-americano, sendo particularmente sensível àquela vaga migratória.
Resta saber o que fará Prevost agora que se tornou Papa em relação a estes e a outros assuntos, porque não é certo que o Papa Leão XIV seja simplesmente uma fotocópia ampliada do cardeal Prevost. Já mudanças que acontecem no momento da eleição papal (isso viu-se especialmente no caso de Francisco) e também não é certo o modo como se vai traduzir em tudo isto o facto de o novo Papa ser oriundo da maior potência do mundo. Ao Observador, o padre James Martin diz ter dificuldade em avaliar o impacto que a nacionalidade de Prevost (que, na verdade, também tem nacionalidade peruana e uma mentalidade moldada pela experiência missionária no mundo) terá no pontificado — e sublinha que “é mais importante o que ele pensa como pessoa do que como norte-americano”.
O ambiente e as alterações climáticas
Leão XIV chega ao Vaticano depois de um pontificado em que as questões do ambiente e das alterações climáticas entraram em força no magistério da Igreja Católica. O Papa Francisco publicou uma encíclica (Laudato Si’) e vários outros documentos sobre o assunto, trouxe os problemas da Amazónia para a discussão em Roma e até no Vaticano começou a implementar políticas mais verdes. Reconhecido como uma voz de grande influência no combate às alterações climáticas, o Papa Francisco (que escolheu este nome em honra de São Francisco de Assis, o santo que tanto prezava a natureza e os animais) deixa um legado substancial numa Igreja que reconhece, agora, que a crise ambiental é um dos grandes dramas da humanidade de hoje.
O novo Papa, aparentemente, partilha das preocupações de Francisco. Há registo de pelo menos uma participação do cardeal Robert Prevost num seminário sobre o ambiente e as alterações climáticas, durante o qual o então prefeito do Dicastério para os Bispos frisou que, no que toca às alterações climáticas, é tempo de “passar das palavras à ação”. Prevost afirmou, nessa ocasião, que a resposta à crise climática está na Doutrina Social da Igreja e que, olhando para a realidade a partir da crença cristã de que Deus deu ao homem o “domínio sobre a natureza”, é necessário compreender que esse domínio não pode “ser tirânico”, mas sim vivido numa “relação de reciprocidade” com a natureza.
Na altura, já como membro da Cúria Romana, Prevost recordou que o Vaticano estava a apostar nas energias verdes com a instalação de painéis solares e com a transição para veículos elétricos.
Os abusos sexuais na Igreja
Haverá poucos temas mais controversos do que os abusos sexuais de menores cometidos por membros da Igreja Católica. Depois da crise espoletada nos anos 80, que teve o seu pico entre os pontificados de Bento XVI e Francisco e que levou vários países (incluindo Portugal) a fazer relatórios sobre a realidade dos abusos, os cardeais sabiam que tinham de escolher alguém com o mínimo de telhados de vidro possível — sendo que, como é frequente ouvir nos corredores da Igreja, é praticamente impossível encontrar um único bispo que não tenha, no seu passado, lidado com algum caso de abusos que lhe tenha passado pelas mãos sem cometer erros.
A aposta em Prevost, nesse sentido, pode ter sido arriscada: no início de abril, quando a saúde do Papa Francisco já fazia o mundo inteiro pensar na possibilidade de um conclave, uma associação norte-americana de vítimas de abusos lançou acusações de encobrimento de abusos contra seis cardeais, incluindo Robert Prevost. A denúncia que dizia respeito ao agora Papa Leão XIV baseava-se em detalhes de uma história que até já tinha sido noticiada anos antes, que se resume em poucas linhas: um padre acusado de abusos foi colocado numa casa dos padres Agostinianos enquanto era investigado e Prevost, o superior, sabia das razões para o acolhimento daquele sacerdote. A casa, contudo, ficava ao lado de uma escola primária, que não foi avisada da presença do alegado abusador. Num segundo caso, a acusação dizia respeito ao período de Prevost já como bispo, que não teria agido de forma apropriada durante a investigação de uma queixa de abusos sexuais na sua diocese no Peru, tendo apenas encerrado o caso após as autoridades civis terem feito o mesmo.
Dos dois casos, o segundo foi o que levantou mais polémica, porque era o que poderia dizer respeito a um verdadeiro encobrimento. Contudo, entretanto, também esse caso já foi amplamente desmentido. Esta semana, ainda antes da eleição de Prevost como Papa, o jornalista peruano Pedro Salinas — o responsável por ter trazido a público os graves casos de abusos sexuais de menores e outros crimes no Sodalício de Vida Cristã, uma organização que foi este ano extinta por decisão do Papa Francisco — deu uma entrevista ao Religión Digital em que disse categoricamente que “as ‘denúncias’ de encobrimento contra Robert Prevost são absolutamente falsas”.
O novo Papa “sempre tomou o partido e defendeu as vítimas”, colocando “as vítimas em primeiro lugar” e defendendo as vítimas “contra os ataques” daquela organização, que chegou a intimidar as vítimas para as impedir de contar a sua história. Salinas acusou ainda os “setores da extrema-direita da Igreja Católica” de estarem a tentar “desacreditar potenciais candidatos papais que possam seguir o exemplo do Papa Francisco”. Ainda assim, pelo menos numa fase inicial, dificilmente Leão XIV se livrará da polémica em torno daqueles casos.
Além disso, como prefeito do Dicastério para os Bispos, Robert Prevost foi um dos responsáveis da Cúria Romana por aplicar as novas normas do Papa Francisco para a punição de bispos encobridores. Numa entrevista ao portal de notícias do Vaticano, o ainda arcebispo Prevost reconheceu que a Igreja está a fazer um “caminho” nesta matéria e ainda tem “muito a aprender” sobre como combater os abusos. “Estou a falar da urgência e da responsabilidade de acompanhar as vítimas”, afirmou ainda.
Nessa entrevista, Prevost dizia ainda que uma das “dificuldades” ainda existentes na Igreja residia na necessidade de o bispo estar próximo tanto dos padres como das vítimas. “Alguns recomendam que não seja o bispo a receber diretamente as vítimas, mas não podemos fechar os nossos corações, as portas da Igreja àqueles que sofreram com os abusos”, afirmou. “É urgente e necessário que sejamos mais responsáveis e mais sensíveis a isto.”
O arcebispo reconhecia, ainda assim, que havia diferenças de cultura que também moldavam a resposta da Igreja. “Em alguns países, o tabu de falar sobre o assunto já foi quebrado de alguma forma, enquanto há outros lugares onde as vítimas ou as famílias das vítimas nunca querem falar sobre o abuso que sofreram. Em qualquer dos casos, o silêncio não é a resposta. O silêncio não é a solução. Temos de ser transparentes e honestos, temos de acompanhar e apoiar as vítimas, porque de outra forma as feridas nunca vão sarar.”
A mulher na Igreja Católica
Foi um dos temas marcantes do pontificado de Francisco, embora marcado por grande ambiguidade e ambivalência. Se, por um lado, o Papa argentino foi visto como um grande defensor da igualdade de género dentro da Igreja, colocando várias mulheres em cargos de topo na Cúria Romana, abrindo o Sínodo dos Bispos ao voto de mulheres leigas e falando abertamente do assunto, por outro lado nunca foi tão longe como alguns queriam, permitindo o acesso das mulheres às ordens sacras. É verdade que estabeleceu pelo menos duas comissões para estudar a possível ordenação diaconal de mulheres, mas ambas terminaram sem conclusões. Nos sínodos em que o assunto foi discutido, o resultado também foi a falta de consenso (de resto, o mesmo se pode dizer sobre a questão do celibato dos padres, por exemplo).
A posição do Papa Francisco sobre esta matéria foi resumida em entrevista ao Observador, em 2022, pela freira francesa Nathalie Becquart, nomeada pelo argentino para o cargo de subsecretária do Sínodo dos Bispos, da seguinte forma: “O Papa Francisco está a abrir um caminho interessante com o que está a fazer no Vaticano, que é desconectar a liderança da ordenação.” Na prática, o importante para Francisco era combater o clericalismo (a ideia de que há uma sobreposição entre pertencer ao clero e ter poder na Igreja) e não clericalizar as mulheres. Antes de se dar o passo de abrir as ordens sacras às mulheres, colocando-as na elite clerical, é necessário acabar com a própria ideia de elite clerical e trazer os leigos (homens ou mulheres) para os centros de decisão da Igreja, acreditava o Papa Francisco.
O seu sucessor, Leão XIV, estará totalmente alinhado com a perspetiva de Francisco, a julgar pelo que já disse sobre o assunto. Em outubro de 2023, quando participou na primeira sessão do Sínodo sobre a Sinodalidade, Prevost disse numa conferência de imprensa que “clericalizar as mulheres não resolve necessariamente um problema e pode criar um novo problema”. Sublinhando que essa perspetiva foi partilhada no Sínodo também por várias mulheres, Previsto destacou que é preciso “olhar com um novo entendimento para a liderança, o poder, a autoridade e o serviço, sobretudo o serviço, na Igreja a partir das diferentes perspetivas que podem ser trazidas à Igreja por homens e mulheres”.
▲ Robert Prevost foi elevado ao cardinalato em 2023 pelo Papa Francisco
AFP via Getty Images
Além disso, como escreve o Corriere della Sera, durante o Sínodo a diplomacia e a capacidade de Prevost de estabelecer pontes entre as alas mais progressistas e mais conservadoras da Igreja ter-se-á traduzido também neste assunto. Quando um grupo de elementos do Sínodo, sobretudo liderado por alemães que pretendiam a ordenação de mulheres, se pôs contra um grupo de bispos conservadores que a recusavam, Prevost terá sido instrumental no alcance de um acordo para serenar a disputa. Esta capacidade de continuar o legado de Francisco sem provocar rupturas na Igreja, alienando as alas mais conservadoras, também ficou bastante evidente na decisão de Leão XIV surgir na varanda da Praça de São Pedro com as vestes tradicionais completas do Papa (que Francisco recusou em 2013), para fazer um discurso em que, sem esconder a inclinação bergogliana, procurou promover a unidade entre os católicos.
Foi também durante o período do cardeal Prevost como prefeito do Dicastério para os Bispos que o Papa Francisco nomeou três mulheres para integrarem o organismo, tendo direito a votar nos processos de escolha e nomeação dos bispos de todo o mundo — novamente, uma decisão inédita do argentino com uma importante carga simbólica. Ao Vatican News, Prevost fez um balanço positivo dessa novidade, classificando-a como um “enriquecimento” do processo. “Penso que a sua nomeação é mais do que um gesto da parte do Papa para dizer que agora também há aqui mulheres. Há uma participação real, genuína e significativa que elas oferecem às nossas reuniões quando discutimos os dossiês dos candidatos.”
A moral sexual e familiar
Este será, provavelmente, o ponto mais polémico do pensamento do novo Papa. Declarações antigas do então padre Robert Prevost, que foram nas últimas horas recuperadas, fizeram disparar os sinais de alarme entre muitos daqueles que tinham visto no Papa Francisco e no seu “quem sou eu para julgar?” uma transformação na relação entre a Igreja Católica e a comunidade LGBTQ e no pensamento da instituição sobre matérias da moral como o aborto e a eutanásia.
Num discurso ao Sínodo dos Bispos em 2012, o padre Prevost afirmou que “os meios de comunicação de massas do Ocidente são extraordinariamente eficazes em promover, entre o público em geral, uma grande simpatia por crenças e práticas que não estão de acordo com o Evangelho, por exemplo o aborto, o estilo de vida homossexual e a eutanásia”. Por causa dessa narrativa, afirmou Prevost, “quando as pessoas ouvem a mensagem cristã, parece muitas vezes inevitavelmente ideológica e emocionalmente cruel”.
“Os pastores católicos que pregam contra a legalização do aborto e a redefinição do casamento são retratados como sendo movidos por ideologias, severos e pouco carinhosos”, afirmou ainda o padre Prevost, lamentando que “as famílias alternativas compostas por pessoas do mesmo sexo e os seus filhos adotivos sejam retratadas na televisão e no cinema de hoje de uma forma tão benigna e simpática”. Por isso, defendeu ainda, era preciso no mundo atual uma “nova evangelização para contrariar estas distorções da realidade religiosa e ética produzidas pelos mass media”.
As declarações de Prevost, disponíveis num vídeo no YouTube, começaram a circular nas redes sociais e atraíram fortes críticas. Ao Observador, o padre James Martin, que tem dedicado uma boa parte do seu ministério pastoral à defesa dos direitos das pessoas LGBTQ na Igreja Católica, reconhece este discurso, mas diz que é preciso ter vários aspetos em conta. Em primeiro lugar, afirma, “isto foi em 2012, e as coisas mudaram nos últimos treze anos”. Por outro lado, “sei que ele é um bom ouvinte e muito inteligente”, diz o sacerdote, sublinhando que na última década Prevost terá ouvido muitas pessoas, também sobre este assunto. Por fim, “temos de ver como é que ele é como Papa, porque é diferente o que ele diz como cardeal do que ele dirá como Papa”.
A propósito da declaração Fiducia supllicans de 2023, com a qual o Papa Francisco autorizou a bênção de casais do mesmo sexo (muito criticada pelos setores mais conservadores e não aplicada pelos bispos em África), Prevost falou de forma mais cautelosa, reconhecendo que há grandes diferenças de abordagem ao tema em diferentes zonas do mundo e lembrando que há países, por exemplo no continente africano, onde a homossexualidade ainda é punida com a pena de morte. “Estamos em mundos completamente diferentes e essas diferenças devem-se ao facto de que as conferências episcopais devem ter uma certa autoridade no que diz respeito a dizer como implementarão algo na realidade em que vivem.”
A partir do historial de Robert Prevost no Twitter, os jornais norte-americanos têm também identificado muitas mensagens fortes do novo Papa contra o aborto e contra a eutanásia, replicando, na prática, a posição oficial da Igreja Católica sobre estes assuntos. Em matérias que ressoam sobretudo nos ouvidos dos norte-americanos, Prevost opôs-se também frontalmente à pena de morte e à generalização do uso de armas nos EUA.
A sinodalidade, o combate ao clericalismo e a Igreja no mundo de hoje
No que toca à forma de olhar para a Igreja Católica contemporânea e para o seu lugar no mundo de hoje, tudo indica que o Papa Leão XIV estará totalmente alinhado com o Papa Francisco. Por exemplo, no reconhecimento de que a Igreja de hoje tem de ser, por natureza, sinodal, a perspetiva de Prevost é inteiramente alinhada com a do antecessor. O novo Papa já classificou o Sínodo sobre a Sinodalidade, no qual participou, como “uma grande oportunidade nesta contínua renovação da Igreja que o Papa Francisco nos convida a promover”.
Sobre o facto de, no novo modelo sinodal, a Igreja passar a um modelo mais horizontal, menos assente numa estrutura hierárquica piramidal e mais baseada numa lógica de participação coletiva, Prevost reconheceu que há “bispos que abertamente expressam o seu medo, porque não entendem onde a Igreja está a ir” e “talvez prefiram a segurança de respostas já experimentadas no passado”.
Para Prevost, mais do que tornar a Igreja mais democrática no sentido literal da palavra (ou seja, com mais votações ou mais reuniões), a sinodalidade é uma forma de passar de uma Igreja “onde a autoridade fala e está feita para uma experiência de Igreja que valoriza os carismas, dons e ministérios que há na Igreja”. Se os bispos prestam “um serviço importante”, o espírito sinodal da Igreja significa trazer todos os fiéis para se tornarem protagonistas e “caminharem em conjunto”, para que “procurem em conjunto o que Deus pede de nós, no nosso tempo”.
Ao Observador, o padre James Martin diz acreditar que os primeiros sinais confirmam que Leão XIV vai continuar o caminho de sinodalidade aberto pelo Papa Francisco na Igreja Católica. “Sinto que, como ele mencionou o Papa Francisco e a sinodalidade, é alguém que vai continuar o legado de Francisco, mas na sua própria forma. É mais reservado, mais calmo”, diz Martin. “Foi um ótimo sinal. Foi um discurso muito curto, onde ele não tinha de falar da sinodalidade, mas fez questão de o fazer.”
Em várias entrevistas, sobretudo já como cardeal, Prevost falou várias vezes a partir da inspiração dos gestos e palavras do Papa Francisco, sobre a importância de combater o clericalismo na Igreja, nomeadamente através de uma atitude pastoral dos bispos e dos sacerdotes. “Não nos podemos esconder atrás de uma ideia de autoridade que já não faz sentido hoje”, disse numa ocasião, referindo-se concretamente à missão dos bispos. “A autoridade que temos é para servir, para acompanhar os padres, para ser pastores e professores.”
“O Papa [Francisco] disse-nos que quer uma Igreja que seja pobre e para os pobres”, assinalou noutra entrevista, em que sublinhou que os clérigos não podem esquecer a “dimensão espiritual” da sua vocação, arriscando no caso contrário a tornar-se “gestores” e não pastores.
Ao mesmo tempo, Prevost, o primeiro Papa a usar habitualmente o Twitter (agora X), também defende que “as redes sociais podem ser uma ferramenta importante para comunicar o Evangelho” e acredita que a Igreja deve preparar-se para usar estas ferramentas. “Tenho medo que, em alguns momentos, não haja essa preparação”, afirmou. “O mundo de hoje, que está sempre a mudar, apresenta-nos situações em que temos mesmo de pensar várias vezes antes de falar ou de escrever uma mensagem no Twitter (…). Às vezes corremos o risco de alimentar divisões e controvérsias.”
Na primeira homilia como Papa, Leão XIV deixou também clara a sua perspetiva sobre os desafios que a Igreja Católica tem pela frente no mundo de hoje. A partir da passagem bíblica em que Jesus pergunta aos discípulos o que dizem dele as outras pessoas, Leão XIV perspetivou duas respostas tão válidas há dois mil anos como hoje. Por um lado, “a resposta do mundo”, que “considera Jesus uma pessoa totalmente desprovida de importância, quando muito uma personagem curiosa, capaz de suscitar admiração com a sua maneira invulgar de falar e agir”.
“Quando a sua presença se tornar incómoda, devido aos pedidos de honestidade e às exigências morais que invoca, este ‘mundo’ não hesitará em rejeitá-lo e eliminá-lo”, explicou Leão XIV. “Depois, há uma outra possível resposta à pergunta de Jesus: a das pessoas comuns. Para elas, o Nazareno não é um ‘charlatão’: é um homem justo, corajoso, que fala bem e que diz coisas certas, como outros grandes profetas da história de Israel. Por isso, seguem-no, pelo menos enquanto podem fazê-lo sem demasiados riscos ou inconvenientes. Porém, porque essas pessoas o consideram apenas um homem, no momento do perigo, durante a Paixão, também elas o abandonam e vão embora, desiludidas.”
“Impressiona a atualidade destas duas atitudes. Com efeito, elas encarnam ideias que poderíamos facilmente reencontrar — talvez expressas com uma linguagem diferente, mas essencialmente idênticas — nos lábios de muitos homens e mulheres do nosso tempo. Ainda hoje não faltam contextos em que a fé cristã é considerada uma coisa absurda, para pessoas fracas e pouco inteligentes; contextos em que em vez dela se preferem outras seguranças, como a tecnologia, o dinheiro, o sucesso, o poder e o prazer. São ambientes onde não é fácil testemunhar nem anunciar o Evangelho, e onde quem acredita se vê ridicularizado, contrastado, desprezado, ou, quando muito, suportado e digno de pena”, disse o Papa Leão XIV aos cardeais que o elegeram.
Missionário, o Papa Prevost destacou que, justamente por tudo isto, estes são “lugares onde a missão se torna urgente, porque a falta de fé, muitas vezes, traz consigo dramas como a perda do sentido da vida, o esquecimento da misericórdia, a violação — sob as mais dramáticas formas — da dignidade da pessoa, a crise da família e tantas outras feridas das quais a nossa sociedade sofre, e não pouco”.
“Ainda hoje, não faltam contextos nos quais Jesus, embora apreciado como homem, é simplesmente reduzido a uma espécie de líder carismático ou super-homem, e isto não apenas entre os não crentes, mas também entre muitos batizados, que acabam por viver, a este nível, num ateísmo prático”, acrescentou ainda o novo Papa, sublinhando que também o interior da Igreja Católica é hoje um território de missão. Os próximos dias, que vão incluir uma audiência do Papa Leão XIV aos jornalistas que cobriram o conclave, a oração do Regina Caeli na Praça de São Pedro e a missa inaugural do pontificado, agendada para o dia 18 de maio, vão ajudar a compreender melhor quais as prioridades e as ideias do novo líder da Igreja Católica.