A Praça de São Pedro começou a encher-se ainda de madrugada. As autoridades de Itália e do Vaticano estimavam a presença (superada) de 200 mil pessoas no funeral do Papa Francisco, por isso, prepararam-se para que tudo começasse cedo. Os jornalistas, por exemplo, receberam indicações para chegar às posições que lhes foram destinadas, na lateral esquerda do altar montado em frente à Basílica de São Pedro, a partir das 5h30 — mais de quatro horas antes do funeral de um dos papas mais amados da história recente, despedida marcada por apelos à paz diante de chefes de Estado de todo o mundo, incluindo Trump, Zelensky, Macron e Guterres.
Mas já a essa hora, uma enorme multidão de peregrinos se concentrava a toda a volta da praça, aguardando a abertura das portas para assegurar um lugar na fila da frente, especialmente do lado direito da praça, de quem olha para a basílica. A estação de metro mais próxima do Vaticano fica justamente naquela zona e as autoridades italianas montaram uma complexa operação logística para gerir as filas que se geraram entre a estação de metro e o Vaticano.
Ao longo dos últimos dias, em Roma, o Observador testemunhou a rapidez com que foram instalados ecrãs gigantes nas ruas e praças adjacentes ao Vaticano, já na expectativa, acertada, de que a esmagadora maioria dos peregrinos acabariam por ficar fora da praça. Dos 250 mil que vieram, só cerca de 50 mil tiveram hipótese de entrar na Praça de São Pedro, que ficou lotada quando ainda faltavam duas horas para o início da missa exequial e decorriam, no altar, os cuidadosos ensaios para alguns dos momentos da celebração. Outras 150 mil pessoas acompanharam o caixão até à basílica de Santa Maria Maior, onde Francisco foi sepultado.
Só minutos depois das 6h00, quando o Observador chegou à Praça de São Pedro, é que os primeiros peregrinos passaram pelos detetores de metais instalados a toda a volta da praça, orientados por centenas de agentes da polícia italiana e de voluntários já ao serviço do Vaticano devido às celebrações do jubileu. Os padres entraram em passo tranquilo pela mesma porta reservada aos jornalistas e desta vez, não foi necessário que os sacerdotes se inscrevessem no site do Vaticano, como é costume: bastou apresentar às autoridades o cartão da sua diocese ou ordem religiosa que atesta a sua condição de padres e puderam entrar, tendo de trazer a sua própria túnica branca e a estola vermelha, cor litúrgica desta celebração, que vestiram já no lugar que lhes estava reservado — na zona dianteira da praça.
Uma grande parte das atenções dos jornalistas presentes na tribuna esta manhã concentrou-se nas muitas delegações diplomáticas esperadas. Doze soberanos reinantes, 53 chefes de Estado, dois príncipes hereditários e dezenas de chefes de governo estiveram em Roma integrados em 166 delegações de países e organizações mundiais. Alguns nomes sonantes, como Donald Trump, Volodymyr Zelensky, Emmanuel Macron, Lula da Silva, Keir Starmer, António Guterres, Ursula von der Leyen ou o Presidente argentino, Javier Milei, foram os mais observados pelos fotojornalistas, munidos de longas teleobjetivas: afinal, o Papa Francisco foi sempre um adepto do papel diplomático do Vaticano na resolução de conflitos no mundo — e podia ser que até o seu funeral fosse uma ocasião para discussões que conduzissem à paz. Dentro da Basílica de São Pedro, Trump e Zelensky tiveram uma conversa a sós e falaram com outros líderes mundiais, incluindo Starmer e Macron.
A partir do topo do Braccio Carlo Magno, onde o Observador se sentou juntamente com duas ou três centenas de jornalistas de todo o mundo a assistir às celebrações, foi possível observar a Praça de São Pedro encher-se vagarosamente, ao ritmo do lento processo de segurança. Muitos dos presentes eram grupos, quase todos de jovens, identificados pelos chapéus, t-shirts e bandeiras — que já tinham a viagem para Roma agendada há muito tempo antes de saberem da morte do Papa Francisco. Sem a morte inesperada do pontífice argentino, estariam em Roma a celebrar o Jubileu dos Adolescentes e a marcar presença nas cerimónias de canonização de Carlo Acutis, o jovem italiano que morreu aos 15 anos e que será o primeiro santo católico da era digital. A canonização foi adiada sem nova data devido à morte de Francisco.
Cerca de 45 minutos antes do arranque, os fiéis presentes na Praça de São Pedro foram convidados a rezar o terço para se prepararem para a missa exequial do Papa Francisco, que começou poucos minutos depois das 10h, com a entrada do caixão trazido do interior da Basílica de São Pedro, onde na noite de sexta-feira tinha sido fechado numa cerimónia privada com os cardeais. A missa foi presidida pelo decano do Colégio Cardinalício, o cardeal Giovanni Battista Re, um italiano de 91 anos que já não tem direito de voto no conclave, mas que continua a ser uma das vozes mais influentes da Cúria Romana. A maioria dos cardeais concelebraram a missa, juntamente com centenas de bispos e milhares de padres — a par de uma presença muito significativa de padres e bispos das igrejas orientais que estão em comunhão com Roma.
O caixão do Papa Francisco entrou na Praça de São Pedro sob um forte aplauso por parte dos muitos fiéis que acordaram de madrugada — ou não dormiram — para conseguirem estar no interior da praça. No final da missa, eram muitos os grupos de jovens que dormitavam esticados no chão ou encostados às colunas, exaustos.
Francisco, um diplomata mesmo no seu funeral
Na missa, ouviram-se as palavras de São Pedro, o primeiro Papa; evocou-se a confiança de São Paulo na salvação e na vida eterna; e recordou-se o momento em que Jesus Cristo confiou ao apóstolo Pedro a missão de pastorear o seu rebanho. A partir delas, e perante uma multidão onde eram visíveis muitos rostos em lágrimas, o cardeal Re quis confortar os católicos: “Nesta majestosa praça de São Pedro, onde o Papa Francisco celebrou tantas vezes a Eucaristia e presidiu a grandes encontros ao longo destes 12 anos, encontramo-nos reunidos em oração à volta dos seus restos mortais com o coração triste, mas sustentados pelas certezas da fé, que nos garante que a existência humana não termina no túmulo, mas na casa do Pai, numa vida de felicidade que não terá ocaso.”
O italiano reconheceu que “a manifestação popular de afeto e adesão, a que assistimos nos últimos dias, após a sua passagem desta terra para a eternidade, mostram-nos quanto o intenso pontificado do Papa Francisco tocou mentes e corações”. Apesar da fragilidade na “reta final” da vida e do “sofrimento” que nunca escondeu, “o Papa Francisco escolheu percorrer este caminho de entrega até ao último dia da sua vida terrena”, afirmou o cardeal Re, arrancando fortes aplausos da multidão. Um dos maiores momentos de aplauso surgiu quando Re lembrou como foi “significativo que a primeira viagem do Papa Francisco tenha sido a Lampedusa, ilha-símbolo do drama da emigração, com milhares de pessoas afogadas no mar”. Quando lembrou outra das mais célebres expressões de Francisco — “ninguém se salva sozinho” —, Re voltou a arrancar grandes aplausos à multidão.
As migrações, tema que Francisco manteve no topo da sua agenda de prioridades do primeiro ao último dia do pontificado, comoveram os fiéis presentes em São Pedro, mas também terão ressoado na tribuna onde se encontravam as delegações diplomáticas. A poucos metros de Donald Trump, Giovanni Battista Re não se coibiu de lembrar uma máxima célebre de Francisco, “construir pontes e não muros”, uma “exortação que ele repetiu muitas vezes”, sobretudo durante o primeiro mandato presidencial de Donald Trump nos Estados Unidos, quando a ideia de construir um muro na fronteira com o México era apresentada como grande projeto da Casa Branca. Aliás, Re lembrou mesmo o dia em que Francisco celebrou “uma missa junto da fronteira mexicana com os Estados Unidos, por ocasião da sua viagem ao México”.
O maior aplauso recebido pelo cardeal a quem competiu celebrar o funeral do Papa aconteceu na sequência dos apelos à paz, novamente muito relevantes considerando a plateia de chefes de Estado e líderes políticos que ali tinha: o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, a ministra da Cultura da Rússia, Olga Lyubimova, o primeiro-ministro da Autoridade Palestiniana, Mohamed Mustafa, bem como inúmeros líderes europeus e ocidentais que têm tido um papel no rearmamento da Europa.
“Perante o eclodir de tantas guerras nos últimos anos, com horrores desumanos e inúmeras mortes e destruições, o Papa Francisco levantou incessantemente a sua voz implorando a paz e convidando à sensatez, a uma negociação honesta para encontrar soluções possíveis, porque a guerra – dizia ele – é apenas morte de pessoas e destruição de casas, hospitais e escolas. A guerra deixa sempre o mundo pior do que estava: é sempre uma derrota dolorosa e trágica para todos”, afirmou Re, motivando um longo e sonoro aplauso, que obrigou o cardeal a interromper momentaneamente a leitura da homilia.
Mesmo depois da morte, Francisco continuou a promover a diplomacia, que o cardeal Re sintetizou lembrando como o Papa argentino sempre falou da “cultura do encontro e da solidariedade”, por oposição a uma “cultura do descarte”, que sempre condenou. “O tema da fraternidade atravessou todo o seu pontificado com tons vibrantes. Na sua Carta Encíclica Fratelli tutti, pretendeu reanimar a aspiração mundial à fraternidade, porque todos somos filhos do mesmo Pai que está nos céus. Com força, recordou-nos muitas vezes que todos pertencemos à mesma família humana.”
Para Francisco, a solução para todos os problemas e conflitos começava da mesma forma: com o encontro cara-a-cara, com o convite para se sentar à mesa do diálogo a partir da premissa de que dois humanos partilham, antes de qualquer diferença, uma mesma humanidade. Por essa razão, é bem possível que uma das imagens mais marcantes do funeral de Francisco não mostre o caixão do Papa nem o decurso da missa, mas sim dois chefes de Estado, Donald Trump e Volodymyr Zelensky, sentados frente-a-frente, em duas cadeiras no meio da Basílica de São Pedro. Depois da tensa reunião entre os dois que culminou na humilhação pública de Zelensky por Trump na Casa Branca, os dois líderes conversaram longamente, sozinhos, no cenário assombroso da Basílica de São Pedro. Mais tarde, Zelensky diria no Twitter que aquele encontro “muito simbólico” tem “potencial para se tornar histórico”, já que foram feitos progressos rumo a um “cessar-fogo completo e incondicional”.
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Não foi a primeira vez que Francisco criou no Vaticano a oportunidade para o encontro. Em junho de 2014, o Papa promoveu, nos jardins do Vaticano, um encontro entre Shimon Peres, Presidente israelita, e Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestiniana, para firmarem um acordo de paz com a plantação, em conjunto, de uma oliveira.
“Dotado de grande calor humano e profundamente sensível aos dramas de hoje, o Papa Francisco partilhou em pleno as angústias, os sofrimentos e as esperanças do nosso tempo da globalização e, com uma mensagem capaz de chegar ao coração das pessoas de forma direta e imediata, dedicou-se a confortar e a encorajar”, disse ainda o cardeal italiano, numa homilia essencialmente dedicada a recordar Francisco, um Papa que tinha “uma grande espontaneidade e uma maneira informal de se dirigir a todos, mesmo às pessoas afastadas da Igreja”.
Fiéis devolveram o pedido a Francisco: “Agora pedimos-vos que rezeis por nós”
Re recordou, por outro lado, como “a decisão de adotar o nome Francisco manifestou-se logo como a escolha do programa e do estilo em que queria basear o seu Pontificado, procurando inspirar-se no espírito de São Francisco de Assis”. De facto, Francisco deu sempre particular atenção aos mais pobres — tanto que o Vaticano organizou as cerimónias fúnebres de maneira a permitir a presença de um grande grupo de pessoas pobres e sem-abrigo de Roma ao lado do caixão no momento da entrada de Francisco na Basílica de Santa Maria Maior, onde ficará sepultado.
Francisco, disse o cardeal Re, “conservou o seu temperamento e a sua forma de orientação pastoral, imprimindo de imediato a marca da sua forte personalidade no governo da Igreja, estabelecendo um contacto direto com cada pessoa e com as populações, desejoso de ser próximo a todos, com uma atenção especial às pessoas em dificuldade, gastando-se sem medida, em particular pelos últimos da terra, os marginalizados”.
“Foi um Papa no meio do povo, com um coração aberto a todos. Foi também um Papa atento àquilo que de novo estava a surgir na sociedade e àquilo que o Espírito Santo estava a suscitar na Igreja”, sintetizou, lembrando ainda como “o fio condutor” da missão de Francisco, que morreu aos 88 anos na segunda-feira, foi também “a convicção de que a Igreja é uma casa para todos; uma casa com as portas sempre abertas”.
“Várias vezes utilizou a imagem da Igreja como um ‘hospital de campanha’ depois de uma batalha em que houve muitos feridos; uma Igreja desejosa de cuidar com determinação dos problemas das pessoas e das grandes angústias que dilaceram o mundo contemporâneo; uma Igreja capaz de se inclinar sobre cada homem, independentemente da sua fé ou condição, curando as suas feridas”, assinalou.
Re terminou a homilia com uma evocação do pedido com que Francisco terminava todas as suas intervenções: “O Papa Francisco costumava concluir os seus discursos e encontros dizendo: ‘Não vos esqueçais de rezar por mim. Querido Papa Francisco, agora pedimos-vos que rezeis por nós e que, do céu, abençoeis a Igreja, abençoeis Roma, abençoeis o mundo inteiro, como fizestes no domingo passado, do balcão central desta Basílica, num último abraço a todo o povo de Deus, mas também, idealmente, à humanidade que procura a verdade de coração sincero e segura bem alto a chama da esperança.”
A missa, que decorreu numa manhã de sol escaldante em Roma, procurou também reproduzir uma das grandes prioridades de Francisco: a universalidade e a unidade dos cristãos. Celebrada parcialmente em latim, com a solenidade dos cânticos entoados pelo coro do Vaticano, teve leituras e orações em múltiplas línguas — incluindo em português, pela voz da jornalista brasileira Bianca Fraccalvieri —, e terminou com os ritos da encomendação, que serviram para demonstrar a unidade entre a Igreja no Ocidente e no Oriente. Depois das ladainhas em latim, os patriarcas e arcebispos maiores das igrejas orientais em comunhão com o Papa aproximaram-se do caixão para uma litania em grego, um dos momentos mais impressionantes de toda a cerimónia. Além disso, estiveram presentes no funeral de Francisco múltiplos representantes de outras confissões cristãs e outras religiões.
No final de uma celebração com 250 mil pessoas, o caixão do Papa Francisco foi transportado para a Basílica de Santa Maria Maior, no centro da cidade de Roma. O caixão foi colocado num papamóvel aberto, o que permitiu a cerca de 150 mil pessoas que se espalharam ao longo do percurso, despedir-se do Papa pelas ruas da cidade que se orgulha de ter como bispo o chefe da Igreja Católica. Francisco foi sepultado na sua igreja favorita de Roma, num túmulo muito simples, ao lado da capela onde gostava de rezar, perante o ícone de Maria, Salus Populi Romani — uma pintura cuja autoria é atribuída ao evangelista São Lucas e a que Francisco tinha uma particular devoção. A sepultura foi feita em privado com os cardeais e só a partir de domingo a basílica será aberta ao público para que se possa visitar o túmulo de Francisco.