Marcelo Rebelo de Sousa continua híbrido: metade Presidente, metade comentador. Caso valesse o que sempre defendeu — um mandato presidencial único de sete anos — o chefe de Estado estaria a pouco mais de três meses de terminar o mandato. Faltam ainda mais de três anos, mas Marcelo tem uma nova “diversão”: lançar nomes para a sua sucessão, naquilo que alguns conselheiros de Estado chamam de “marcelice”. Ou como recentemente disse o primeiro-ministro em público sobre outro assunto: “Momentos de criatividade”.

Na bola de cristal de Belém, há três nomes em cima da mesa na área política do atual Presidente: o vice-Almirante Gouveia e Melo (que já condecorou), Passos Coelho (que pré-lançou no centenário de Agustina) e Luís Marques Mendes, o último a ser alvo de uma provocação presidencial. Sobre Paulo Portas, nem uma palavra — mas esses são ajustes de outros tempos.

A vez do amigo Mendes, o “fogoso”

Se Marcelo ganhou o cognome de “afetuoso” na Presidência, não dispensou atribuir, no último sábado, um epíteto a um potencial sucessor e chamou Marques Mendes de “fogoso” na inauguração dos Paços do Concelho do jovem município da Trofa.

O Presidente aproveitou o coincidência de ser líder do PSD quando a Trofa se tornou concelho (em 1998) e de ter o agora comentador político da SIC como líder parlamentar naquela altura para atirar: “Era líder parlamentar um jovem fogoso, que continua fogoso. E tudo indica que continuará nos próximos anos, chamado Luís Marques Mendes.”

Marcelo na Trofa com avisos para “o dia super infeliz” do Governo e provocações a Marques Mendes

Marcelo Rebelo de Sousa acrescentaria depois, com astúcia, que nunca “percebeu bem” o que Marques Mendes tinha com a Trofa por insistir tanto nas reivindicações daquela cidade, acrescentando já com alguma malícia: “É uma obstinação só similar a uma outra que lhe aparece agora, mas é de âmbito diverso.” A seguir riu-se, como se acabasse de fazer uma piada. Nas entrelinhas, estava uma provocação ao conselheiro de Estado que escolheu na sua “quota” pessoal: o que Marcelo queria dizer, de forma velada, é que Marques Mendes teima em ter ambições de ser candidato presidencial em 2026.

Apesar de serem amigos e conversarem numa base regular, o Presidente, sabe o Observador, não avisou o comentador político de que lhe faria esta pequena referência. Nas conversas que ambos costumam ter — sobre os mais variados assuntos — uma eventual candidatura presidencial de Marques Mendes costuma ser um assunto tabu.

O chefe de Estado-comentador está convicto — e tem partilhado essa opinião em privado — de que o ex-líder do PSD não avançaria num cenário em que Pedro Passos Coelho e Henrique Gouveia e Melo fossem candidatos, uma vez que teria “menos hipóteses”. Já Marques Mendes ten outras contas na cabeça. O antigo líder do PSD — que, questionado pelo Observador, remete para as declarações que fez no programa Vichyssoise em julho — joga com duas ideias: Passos Coelho não avança (o que lhe dá praticamente o importante apoio do PSD de forma automática) e o que vão dizer as sondagens na altura. Isto não ignorando os sinais que os estudos de opinião já lhe vão dando atualmente — que não são desanimadores.

Na última sondagem (conteúdo fechado) sobre presidenciais, publicada há pouco mais de um mês pelo Expresso, Gouveia e Melo aparece como favorito, mas Marques Mendes — quando se cruza o eleitorado de esquerda e de direita — surge à frente de Passos Coelho (de quem fica atrás se for tido em conta apenas o eleitorado de direita) e de Paulo Portas. Mesmo incluindo o melhor colocado à esquerda (António Costa), Mendes surge posicionado em terceiro lugar se forem tidas em contas as respostas dos dois grandes campos ideológicos.

Mendes é assim o terceiro com melhor resultado numa lista de 12 nomes que — além de Gouveia e Melo e António Costa — inclui, por ordem de preferência, Ana Gomes, Augusto Santos Silva, Pedro Passos Coelho, Durão Barroso, André Ventura, Mariana Mortágua, Paulo Portas, João Cotrim de Figueiredo e João Ferreira. Apesar das provocações de Marcelo e de ser incluído nas sondagens, Marques Mendes vai dizendo que é “muitíssimo cedo” para vaticinar o que quer que seja relativamente a eleições presidenciais, como fez em julho no programa Vichyssoise, da Rádio Observador. Isto sem deixar de estar a seguir os mesmos passos que o amigo Marcelo fez até Belém.

Mendes segue passos de Marcelo no percurso pré-Belém. “Todos os Presidentes civis foram ex-líderes partidários”

O lançamento do candidato Passos, o sr. troika, como isco mediático

A referência a ambições presidenciais de um candidato de direita feita na Trofa a Marques Mendes é a segunda no espaço de três semanas. A outra foi, no entanto, vista como instrumental pelo PSD e por vários comentadores no espaço mediático. Isto porque foi uma declaração que foi abonatória para uma das personagens da vida política com quem Marcelo mais atritos teve: Pedro Passos Coelho.

Marcelo usa Passos e irrita PSD. “Jogada”, “manobra de diversão” e “cortina de fumo”

Também no distrito do Porto, em Amarante, Marcelo Rebelo de Sousa enfrentava uma semana horribilis — por ter relativizado o número de casos de abusos na Igreja — quando discursou na cerimónia que assinalou o início das comemorações do centenário de Agustina Bessa Luís. Ao fitar Passos Coelho na primeira fila, não dispensou apontar-lhe uma nota prévia “quase agustiniana” para “lembrar quanto Portugal lhe deve no passado e quanto Portugal está seguro de lhe vir a dever muito mais no futuro”.

O isco estava lançado. Minutos depois, já em declarações aos jornalistas, Marcelo Rebelo de Sousa completava uma espécie de pré-lançamento de uma candidatura presidencial de Passos Coelho: “Entendo que, sendo [Pedro Passos Coelho] tão novo, o país pode esperar, deve esperar muito ainda do seu contributo no futuro, não tenho dúvidas”.

Na reverência, Marcelo explicaria ainda que tratava o antigo chefe de Governo como “primeiro-ministro” porque tem “tratado sempre os antigos Presidentes como Presidentes, porque é uma boa prática e tratado os antigos primeiros-ministros como primeiros-ministros”. E reiterava que é “óbvio” que “o país deve, num período muito difícil de crise na troika, ao primeiro-ministro Passos Coelho, uma resistência, que ainda há dois dias pude ouvir ser elogiada pela boca da então chanceler Angela Merkel. Portanto, é reconhecida cá dentro e reconhecida lá fora, é um facto”.

O mais insólito da situação, é que o próprio Pedro Passos Coelho fez o que estava ao seu alcance para que Marcelo Rebelo de Sousa não fosse candidato apoiado pelo PSD, incluindo ensaiar um veto não identificado a Marcelo na sua moção de estratégica global no último Congresso antes das primeiras Presidenciais a que Marcelo concorreu. Também por isso, o atual PSD, que representa um passismo sem Passos, desconfia das intenções de Marcelo.

Os amuos de Passos e do dr. Rebelo de Sousa

O antigo primeiro-ministro — que tinha insistido impávido aos elogios de Marcelo em Amarante — só responderia quase duas semanas depois, reiterando que não tenciona “regressar a espaços políticos, as pessoas sabem disso: estou afastado da atividade política”. Apesar disso, completava, não há “nenhuma razão para dizer que nunca mais na vida faço coisa nenhuma, porque seria uma tolice dizer coisas dessas, seria um absurdo, mas não estou a pensar em coisa nenhuma, estou muito fora de tudo e assim pretendo continuar.”

O militar que Marcelo apoiou, condecorou e travou

Outro potencial sucessor que Marcelo Rebelo de Sousa não ignora — embora não tenha falado dele como dos outros dois anteriores no último mês — é Henrique Gouveia e Melo. No mundo dos centros de sondagem, circula a informação que o próprio Presidente foi dos primeiros a fazer a sugestão de que o nome de Gouveia e Melo devia ser testado em sondagens. A relação entre os dois tem tido altos e baixos.

O Presidente acabou por pressionar a escolha de Gouveia e Melo para o cargo que lhe daria o mediatismo que tem atualmente: coordenador da task force da vacinação. Quando Francisco Ramos fracassou e se demitiu do cargo, Marcelo Rebelo de Sousa fez saber na imprensa que queria que as Forças Armadas assumissem um papel na coordenação do processo. Gouveia e Melo foi escolhido e Belém ficou associada à escolha.

Seis meses depois, em agosto de 2021, Marcelo foi rápido a condecorar Gouveia e Melo pela sua carreira militar com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis. Em outubro, o Governo quis logo colocar o vice-almirante Gouveia e Melo como Chefe do Estado-Maior da Armada, mas o Presidente travou a nomeação para não quebrar o que estava acordado e consensualizado com o então titular do cargo, Mendes Calado.

Marcelo só queria nomeação de Gouveia e Melo em março. Almirantado não se pronunciou

Marcelo Rebelo de Sousa acabaria por aceitar a nomeação em dezembro de 2021, mas contrariado. Logo depois, acabou por vetar a escolha para número dois do vice-almirante. O Presidente nunca deixou, no entanto, de apontar, em privado, Gouveia e Melo como um potencial sucessor à direita.

O chefe de Estado não ignora as sondagens.  Gouveia e Melo também não e até já ganhou o jeito próprio dos políticos de não excluir nada e admitir tudo. Quando questionado pelo Observador numa entrevista em julho deixou em aberto uma aventura de uma corrida a Belém: “Logo se vê o que acontece. Gostava que não me fizessem a mesma pergunta 300 vezes”.

Gouveia e Melo em Belém? “Logo se vê o que acontece. Gostava que não me fizessem a mesma pergunta 300 vezes”

O estilo de um militar como Gouveia e Melo, mais reservado e institucional — como Cavaco Silva ou Ramalho Eanes — ajudaria Marcelo Rebelo de Sousa a afirmar o seu legado como presidente dos afetos (mais ao estilo de Mário Soares, que sempre disse querer seguir).

Portas em modo Vichyssoise e o futuro de Costa

E se Marcelo já identificou três potenciais candidatos à direita — dois deles no último mês e publicamente –, sobre Paulo Portas nem uma palavra. Os dois têm uma relação conturbada, desde os tempos da famosa história da Vichyssoise, que Paulo Portas — então diretor de O Independente — contou no programa Parabéns!, a 4 de dezembro de 1994 a Herman José. Foi um ajuste de contas de Portas que acabou por ser uma tentativa de assassínio de carácter da antiga fonte Marcelo. Foi uma vingança que, como a sopa Vichyssoise, se serve fria. A relação não ficou mais igual. É por isso, sem surpresa, que o antigo líder do CDS nem é considerado por Marcelo como potencial sucessor.

À esquerda, o Presidente não ignora dois nomes que se perfilam: Augusto Santos Silva e António Costa. Por não ser da sua área política, o chefe de Estado não está tão confortável e não fez nenhuma apreciação pública (como fez com os dois ex-líderes do seu partido). Nas suas previsões de comentador, o chefe de Estado não exclui a possibilidade de o primeiro-ministro vir a ser candidato a Belém em 2026, mas os seus esforços têm-se concentrado em garantir que António Costa não deserta para um cargo europeu (em 2024). Foi isso, aliás, que destacou no discurso de tomada de posse, naquilo que foi visto como uma nova fase da relação institucional entre ambos.

O Bloco Central de palácios já treme. A nova e irritante relação entre Marcelo e Costa