Deixou um legado inapagável na literatura portuguesa e na luta pelos direitos das mulheres. Poetisa, jornalista e ativista, foi uma das vozes mais incisivas a desafiar o regime salazarista e a questionar as estruturas patriarcais que atravessaram o século XX. Com Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno assinou Novas Cartas Portuguesas, obra que agitou um Portugal bafiento mergulhado na ditadura. A última das Três Marias morreu esta terça-feira, na sua casa, em Lisboa. Tinha 87 anos.
Maria Teresa Horta escreveu com a ousadia de ser uma mulher livre em diversas frentes: como jornalista, foi uma voz pioneira num tempo em que as redações eram predominantemente masculinas; como poetisa, foi insubmissa, reivindicando o direito a falar sobre o desejo e o corpo; como cidadã, combateu sempre ao lado da liberdade das mulheres e dos homens. Nunca parou de escrever, mesmo aos 87 anos, sentada no sofá de veludo, os dedos pejados de anéis, as folhas sobre o colo, a caneta tão transgressora quanto as palavras que ousou grafar.
Morreu a escritora e poetisa Maria Teresa Horta, aos 87 anos
Nascida em Lisboa, em 20 de maio de 1937, Maria Teresa Horta cresceu num ambiente que rapidamente revelou a sua inquietação para o papel. Filha de uma família de classe média (o pai era um prestigiado médico da capital, a mãe uma descendente dos marqueses de Alorna), fez-se mulher entre o quarto da mãe que a abandonaria e o escritório do pai, repleto de livros que só a avó lhe lia. Teresinha sobreviveu às depressões da mãe, a uma difícil relação com o pai (que lhe chegou a queimar os livros), refugiando-se no amor de uma avó sufragista que foi a sua grande paixão, relata Patrícia Reis na biografia Desobediente (Contraponto, 2024).
Desde cedo demonstrou uma inclinação para a escrita e para o questionamento das normas sociais, influenciada por um contexto familiar que, embora tradicional, não conseguiu conter as suas inquietações. Em pequena, os poemas que escrevia guardava-os à cintura. As leituras precoces de autores portugueses e estrangeiros foram determinantes para moldar a sua visão crítica do mundo. Em diversas entrevistas, Maria Teresa recorda como num tenro aniversário pediu uma lanterna para com ela ler às escondidas O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, auxiliada por um pequeno dicionário de francês.
Frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e iniciou a sua carreira como jornalista colaborando com diversos periódicos, incluindo o Diário de Lisboa, A Capital, República, O Século, o Diário de Notícias, o Jornal de Letras e Artes, entre outros. No jornal A Capital chefiou o suplemento Literatura e Arte, pelo qual passaram nomes maiores da literatura portuguesa, como Natália Correia, Ary dos Santos, José Saramago, António Gedeão, Alexandre O’Neill ou Mário Cesariny.
“Nunca consegui entender porque é que tenho uma paixão por trabalhar em jornais. Naquela altura, as pessoas consideravam-me só poeta. É o jornalismo que me dá a ver que eu não sou apenas a poetisa. Eu sou uma jornalista porque adorava e sempre adorei o jornalismo”, disse ao Público, em 2024. “Sou poetisa, faço poesia todos os dias, mas há uma coisa que faz parte de mim e que adoro, que é ser jornalista e que ajuda muito a escrita.”
Foi chefe de redação da revista Mulheres, onde destacou questões sociais e culturais com um olhar crítico e aguçado. A revista do Partido Comunista Português acabaria por ser um projeto pessoal de Maria Teresa Horta, que lhe permitia entrevistar mulheres de relevo da política, da cultura e da literatura, como Maria de Lourdes Pintasilgo ou Marguerite Duras.
A escrita de MTH, no entanto, nunca se limitou à reportagem: a poesia foi o seu campo de batalha e redenção. Estreou-se em 1960, com Espelho Inicial. No ano seguinte, participou com Tatuagem na antologia Poesia 61, um gesto de um grupo de jovens poetas que então se movia para refletir a poesia do seu tempo.
Já fazia vida nos jornais quando, em 1971, publica Minha Senhora de Mim e incomoda os bons costumes da ditadura de Salazar, que não perdoava às mulheres a escrita erótica. Mas foi com as Novas Cartas Portuguesas (1972), que escreveu a seis mãos com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, que Maria Teresa Horta se torna um nome incontornável da literatura portuguesa. O livro, editado pelos Estúdios Cor, sob direção de Natália Correia, e livremente inspirado nas Lettres Portugaises de Mariana Alcoforado (1640-1723), provocou um escândalo político e cultural e teve um impacto internacional pouco depois da sua divulgação em França pela mão da escritora Simone de Beauvoir, que recebe um exemplar através de um amigo de Maria Isabel Barreno, reza a história.
“Novas Cartas Portuguesas”: 50 anos depois, literatura com mão no mundo
O livro foi destruído pela censura três dias depois de estar em circulação com o pretexto de ser “insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública” e as autoras foram alvo de um processo judicial com a cobertura do julgamento feita por meios de comunicação internacionais (Le Monde, Time, The New York Times, Nouvel Observateur e televisões norte-americanas). O interrogatórios da PIDE e o processo judicial de que as “Três Marias” estavam a ser alvo durou mais de um ano, atraindo a atenção da opinião pública internacional para a repressão em Portugal e mobilizando movimentos feministas em vários países, que organizaram manifestações de protesto juntos às embaixadas e consulados portugueses em Londres, Paris e Nova Iorque. Várias personalidades internacionais, como Marguerite Duras, Doris Lessing, Iris Murdoch e Delphine Seyrig saíram em defesa pública da obra e das autoras. Em 1973, o caso foi votado numa conferência da National Organization for Women, em Boston, EUA, como a primeira causa feminista internacional. A conclusão do caso ocorreu já depois da Revolução de 25 de Abril de 1974 e as três escritoras foram absolvidas.
▲ Maria Velho da Costa (à esquerda), Maria Isabel Barreno (ao centro) e Maria Teresa Horta escreveram a seis mãos "Novas Cartas Portuguesas" (1972). Até hoje, nunca revelaram quem escreveu cada texto
DR
Feminista sem medo da palavra
A obra, que aborda temas como a opressão feminina, o erotismo, o colonialismo, a hipocrisia moral e a repressão política, tornou-se um símbolo da resistência feminista e Maria Teresa Horta uma figura pública fortemente associada ao combate ao Estado Novo e à luta pelos direitos das mulheres. Mas Horta foi muito mais do que uma das “Três Marias”. Mulher sem pudor da palavra feminista, reclamou a identidade e sexualidade feminina nos livros que escreveu, mas fora das páginas continuou a batalha de vingar o silêncio que a sociedade patriarcal impunha sobre as mulheres. Foi uma das fundadoras do Movimento de Libertação das Mulheres (MLM), “o único movimento assumidamente feminista”, que defendeu de forma pioneira em Portugal causas como despenalização do aborto, os direitos laborais das mulheres, o combate à violência doméstica.
Aliás, há precisamente cinquenta anos, uma manifestação organizada pelo MLM no Parque Eduardo VII, em Lisboa, conquistava espaço na imprensa da época porque as organizadoras se propunham a queimar objetos que representassem a opressão sobre a mulher: os códigos Penal e Civil, revistas pornográficas, tachos, vassouras e brinquedos sexistas. A manifestação, a 13 de janeiro de 1975, para assinalar o início do Ano Internacional da Mulher, era uma forma de protesto contra a opressão feminina e a forma como a mulher era considerada na sociedade portuguesa, mas foi interrompida e boicotada por grupos de homens. É possível avistar a escritora, de óculos escuros, nas imagens da RTP Arquivos.
“A ideia de que a feminista é alguém que se pode insultar e tratar abaixo de cão é atual, está aí, existe hoje”, dizia a escritora ao jornal Público, em 2006, recordando o episódio. Foi do MLM que saíram muitas outras organizações de mulheres feministas portuguesas, e a influência das feministas associadas no MLM primeiro e depois noutros grupos foi determinante para o quadro legal de reconhecimento do papel e dos direitos das mulheres em Portugal. O primeiro livro editado sob a alçada do MLM foi Aborto o Direito ao Nosso Corpo, escrito por Maria Teresa Horta, Helena Mendonça e Célia Metrass, com depoimentos de parteiras e mulheres que abortaram, testemunhos de políticos, médicos, advogados e legislação. Termina com um poema de Maria Teresa Horta “Do Direito ao Nosso Corpo”, datado de fevereiro de 1975.
▲ Maria Teresa Horta foi uma das fundadoras do Movimento de Libertação das Mulheres (MLM), uma associação inorgânica que chocou o conservadorismo português nos anos 70
Arquivo DN
A tareia dos fascistas que deu mote às Novas Cartas Portuguesas
Terá sido um episódio precisamente envolvendo esta Maria que levou à odisseia da escrita de Novas Cartas Portuguesas. Corria o ano de 1971, tinha acabado de publicar Minha Senhora de Mim nos Cadernos de Poesia da Dom Quixote, quando Maria Teresa Horta foi agredida por um grupo de homens. Afinal, a obra que redigira colocava a mulher como sujeito que comandava a relação com o homem, submetendo-o aos seus desejos. Portanto, sem surpresas, o livro, a editora e as livrarias foram alvo de buscas por parte da PIDE.
Pop, prog ou sem rótulo: em 1971, a notícia da morte do rock português foi um exagero
“Eu com a cabeça no chão e eles a dizer ‘isto é para tu aprenderes a não escreveres como escreves’. Só disseram isso. Pensei que era o último dia da minha vida. Que me iam matar ali e se iam embora” (Time Out, 2022). Dois dias depois, no almoço semanal que mantinha com as amigas Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno no restaurante Treze, no Bairro Alto, surgiu a ideia de descrever a obra coletiva. “Quando a Fátima [Maria Velho da Costa] me vê, diz: ‘O que é que te aconteceu?’ E eu disse-lhe. Porque não podíamos estar a telefonar, os telefones estavam todos sob escuta. Ela disse: ‘Já viste bem a tua figura? Isto é incrível, isto não faziam a um homem. Que coisa horrível, temos de fazer qualquer coisa. E se fizéssemos um livro? Um livro as três? Que tivesse a ver com tudo isto, com as coisas que fazem às mulheres?’ E eu disse: ‘Boa ideia, porque não?’ Aqui a parva que tinha acabado de apanhar tareia por causa de um livro disse logo que sim [risos].” O processo de descrita da obra que escreveriam a seis mãos para desafiar o poder vigente duraria nove meses. Mais tarde descreveriam-no como “um parto”.
Poetisa insubmissa, mulher de esquerda e liberdade
Autora de uma vasta obra poética, Maria Teresa Horta publicou mais de duas dezenas de livros. Tem a sua obra poética coligida em Poesia Reunida (2009). Publicou também Poemas para Leonor (2012), A Dama e o Unicórnio (2013), Anunciações (2016), Poesis (2017), Estranhezas (2018) e a antologia pessoal Eu Sou a Minha Poesia (2019). O erotismo, a afirmação do corpo feminino, a exploração da subjetividade e o confronto com o poder são marcas da sua escrita, que desafiou normas, rompeu silêncios e abriu espaço para novas vozes na literatura portuguesa.
Na ficção, é autora dos romances Ambas as Mãos sobre o Corpo (1970), Ema (1984) e A Paixão segundo Constança H. (1994). Em 2011, publicou As Luzes de Leonor, romance sobre a Marquesa de Alorna. Foi para escrever esse livro que deixou o jornalismo. “Não dava para fazer as suas coisas. Apaixonei-me por aquilo, apaixonei-me por ela [Leonor de Almeida, Marquesa de Alorna]. Era minha trisavó. No fundo, fui atrás de mim. Ela era a mulher que estava mais perto para chegar à minha mãe”, contou ao Público, no ano passado. O livro seria distinguido com o Prémio D. Diniz, da Fundação da Casa de Mateus.
Em 2014, editou o volume de contos Meninas e, em 2019, publicou Quotidiano Instável, livro que herda o título da designação da coluna que assinou no suplemento Literatura & Arte do jornal A Capital, entre 1968 e 1972. Paixão, lançado em 2021, é o seu último livro.
Distinguida com diversos prémios literários, entre os quais o Grande Prémio de Literatura dst, foi também a primeira mulher a dirigir um cineclube e membro da Associação Portuguesa de Escritores. Figura ativa em debates sobre igualdade de género e direitos civis, manteve-se fiel à sua voz insubmissa até ao fim, empenhada como no primeiro dia na defesa dos direitos das mulheres.
Foi militante do Partido Comunista Português durante 14 anos, de 1975 a 1989, quando se deu a queda do muro de Berlim e o início do fim da União Soviética. Maria Teresa Horta foi sempre uma mulher assumidamente de esquerda, continuando até ao fim a denunciar as opressões a que as mulheres são sujeitas, a violência da guerra, a pobreza que domina o país e o mundo. “Na minha vida, a parte política é muito menos complexa. É uma coisa muito natural, desde muito pequena que me interessei por política e sempre tive uma posição e era uma posição de esquerda”, disse ao jornal Público no ano passado. O que é hoje ser de esquerda?, perguntavam-lhe. “A mesma coisa. A direita continua a gostar de mulheres em casa”.
▲ A escritora Maria Teresa Horta em casa, em Lisboa, onde morreu esta terça-feira aos 87 anos
Gonçalo Villaverde / Global Imagens
Em 2011, recusou receber o Prémio D. Diniz, da Fundação Casa de Mateus, atribuído ao seu livro As Luzes de Leonor, pois seria entregue das mãos do então primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho (PSD).
A jornalista e escritora Patrícia Reis, que no ano passado publicou uma biografia de Maria Teresa Horta (A Desobediente), diz que “Maria Teresa Horta deixa um legado de liberdade”. “Não teve porventura o reconhecimento que deveria ter tido do ponto de vista dos prémios, do ponto de vista da academia. Merecia ter muito mais do que aquilo que teve”, diz à Rádio Observador. Em 2017, a escritora recusou o quarto lugar ex-aequo do Prémio Oceanos, por considerar que lhe tirava a dignidade.
A escrita de Maria Teresa Horta não foi resistência, foi avanço
O contributo de Maria Teresa Horta transcende o universo literário: é um testemunho de coragem, de resistência e de uma busca incansável pela liberdade. “Eu sou a minha poesia” lê-se no título da antologia publicada em 2019. A poesia de Maria Teresa Horta continua a ser um eco vibrante de insubordinação e beleza, um legado que inspira novas gerações a lutar por um mundo mais justo. Em dezembro, foi distinguida na lista da BBC como uma das 100 mulheres mais influentes e inspiradoras do mundo. “Há pessoas que duram para sempre. Estou convencida de que a Maria Teresa Horta será uma delas”, diz esta terça-feira a biógrafa Patrícia Reis.
Maria Teresa Horta parte, mas deixa um património imortal de palavras que continuam a ecoar para quem acredita que a poesia é também um ato de insurreição.