Os governos minoritários são sempre terrenos pantanosos para enfrentar eleições, mas Luís Montenegro conseguiu cimentar a tendência de crescimento do PSD nas autárquicas. Em mais um passo firme, ganhou Porto, Sintra e Gaia e manteve Lisboa e Cascais, conquistando as big 5. A vitória autárquica deste domingo — que inclui a liderança da Associação Nacional de Municípios — é um balão de oxigénio para o líder da AD tentar levar até ao fim um mandato que pode ser interrompido pela vontade dos dois maiores adversários.

Montenegro ganhou força até para o desafio mais próximo, o Orçamento do Estado, já que o partido que já lhe estendeu a mão para a aprovação (o PS) aguentou-se firme como potência autárquica. Passou a ser a segunda força autárquica, mas levantou-se do chão, trazendo tranquilidade à liderança de José Luís Carneiro (e, já agora, para viabilizar o OE2026). O tal “tsunami”, de que falou Carlos César, não devastou o PS autárquico. A juntar a tudo isso, os dois maiores partidos do centro viram o Chega perder quase 800 mil votos face às legislativas. É certo que Ventura tem agora três presidentes de câmara, mas isso é metade do que o CDS conquistou e um quarto do que conseguiu a CDU.

Os comunistas vão resistindo como terceira força autárquica, mas continuam a tendência de quebra, perdendo quase 40% das câmaras que tinham (de 19 para 12 autarquias) e perdendo dois bastiões. A IL — apesar do bom desempenho de Rui Rocha — continua a ser melhor acompanhada do que sozinha, conseguindo 7 dos 9 vereadores em coligação. O BE e o Livre, quando foram sozinhos, não elegeram — numas eleições em que procuraram convergências, logo, mais coligações.

No fim do dia, quem ganhou não enjeitou leituras nacionais e quem perdeu desvalorizou uma dimensão nacional de embates locais.

PSD. Uma vitória clara de um PSD “alinhado com o povo”

Uma vitória em quase toda a linha. Se os partidos costumam, à partida, distinguir com cuidado o plano autárquico do nacional, prevenindo que se nacionalizem possíveis desilusões, neste caso o PSD tem agora a oportunidade de fazer o contrário: numa noite em que praticamente tudo correu bem, o partido e o Governo têm mais motivos para reclamar uma legitimidade reforçada e uma “sintonia” mais clara com o povo português. Assim, com um PS a recuperar do tombo das últimas legislativas e o Chega ainda sem fazer o brilharete com que contava nestas eleições autárquicas, PSD e Governo puderam considerar-se os grandes vencedores da noite.

“Se atendermos a que há mais de 40 anos o PSD não tinha um primeiro-ministro a ganhar eleições autárquicas… isto significa que o PSD está alinhado com o sentimento do povo português!”, dizia, no final da noite, um alto dirigente social-democrata ao Observador. A lógica é simples: Luís Montenegro, que venceu a primeira eleição como primeiro-ministro à pele, tem vindo a ganhar terreno e a conquistar a aprovação da população; na sua segunda eleição, após o caso Spinumviva ter rebentado, teve mais votos do que na primeira; agora, prova que a implantação do PSD no território está consolidada e em crescimento.

A noite começou com uma série de incertezas nas autarquias mais importantes do país — à cabeça, Porto e Lisboa surgiam com empates técnicos e contagens que prometiam prolongar-se até de madrugada, sendo difícil garantir que a noite seria de festejos. Mas, com o avançar das horas, as boas notícias iam chegando à sede do PSD (neste caso, a do Porto, onde Luís Montenegro esteve a acompanhar os resultados eleitorais). O PSD ganhava Gaia, com o regressado Luís Filipe Menezes; depois Sintra, no final do ciclo de Basílio Horta; a seguir Lisboa, com Carlos Moedas a derrotar Alexandra Leitão; por fim o Porto, contrariando as sondagens iniciais, que davam Manuel Pizarro como vencedor.

As autarquias mais populosas do país estavam garantidas; apesar de derrotas em bastiões como Viseu ou Bragança, assim como em Coimbra e Faro, o PSD ia somando vitórias simbólicas (como em Baião, terra de José Luís Carneiro) e outros municípios grandes (casos de Cascais e Oeiras, neste caso como apoiante de Isaltino Morais). Montenegro faria, com “humildade democrática”, o resumo aos jornalistas: o PSD foi o partido que teve mais votos, mais mandatos, mais juntas de freguesia, mais presidentes de câmara, uma “vitória histórica nos cinco maiores concelhos do país” e que fica assim em condições de liderar a Associação Nacional de Municípios, até agora presidida pela socialista Luís Salgueiro.

Admitindo que poderia haver “outros ângulos” para a análise dos resultados, Montenegro apontava, ainda assim, o que era evidente: o PSD tornou-se o maior partido português tanto na Assembleia da República como a nível local, cumprindo assim um dos objetivos que tinha assumido ao ser eleito presidente — e vê ao seu lado um PS a lutar para recuperar e um Chega ainda longe de se tornar uma grande ameaça autárquica, embora a governação das câmaras municipais com executivos mais divididos se possa tornar uma dor de cabeça. “Ganhámos Lisboa, Porto, Braga, Aveiro, Vila Nova de Gaia, Sintra, Cascais. Foi uma vitória eleitoral”, sublinhou. Se tinha começado a noite por dizer aos jornalistas que não se demitiria “de certeza” — “podem já tirar esse cavalinho da chuva, essa notícia não vão ter” — terminava-a numa espécie de volta da vitória pelos municípios vitoriosos mais próximos.

Assim, Montenegro fez questão de ir dar um abraço ao velho amigo Pedro Duarte, para o felicitar por uma das conquistas mais importantes para o PSD a nível nacional (Duarte até tinha começado por desvalorizar a necessidade da presença do líder, mas assim que a vitória foi confirmada confirmou-se também que Montenegro passaria mesmo pela sede da Avenida dos Aliados). E à saída, já depois da uma da manhã, o presidente do PSD confirmou que aproveitaria ainda para ir dar outro abraço, mas a Luís Filipe Menezes, a Gaia, pelo “esforço notável” que o ex-autarca regressado fez em derrotar o “poder socialista enraizado” num dos maiores concelhos do país.

A satisfação do PSD não se ficará por aqui: com um PS fragilizado a abrir a porta à viabilização do Orçamento do Estado, garantindo que quer estabilidade política e que está satisfeito por as matérias que poderiam dificultar essa negociação terem ficado fora do dossiê orçamental, Montenegro tem agora a maior representatividade que já teve a nível parlamentar e local e um Orçamento que lhe deverá dar muito menos trabalho a aprovar do que o anterior.

A próxima prova, ainda que não diretamente partidária, serão as presidenciais — e entretanto os sociais democratas poderão ir relembrando aos adversários a legitimidade reforçada, a nível local, que obtiveram nestas eleições, reforçando a ideia de que a aprovação dos portugueses está em crescendo. Como diria Nuno Melo, também de passagem pelos Aliados para abraçar Pedro Duarte, foi “uma grande noite para o espaço político” dos dois partidos da Aliança Democrática, cujo poder se consolida.

PS passa a segundo partido autárquico, mas festeja não ter sido o terceiro

A expectativa socialista estava por baixo, assustada com a ameaça do Chega que vinha das legislativas e que, contados os votos, afinal não teve expressão autárquica significativa. Foi a isso que José Luís Carneiro se agarrou — “o PS voltou como grande partido da alternativa política ao Governo” — e varrer para debaixo do tapete a perda da hegemonia autárquica: o PS foi ultrapassado pelo PSD em número total de câmaras; deixou de estar nas cinco mais populosas e o socialista eleitoralmente mais relevante é agora o controverso autarca Ricardo Leão.

Mas os socialistas querem colar outra narrativa, aquela em que as autárquicas vieram estancar a hemorragia provocada pela ferida aberta nas últimas legislativas, em que o PS passou a terceira força política no Parlamento. Em vez de se focar na incapacidade de recuperar Lisboa e Porto, na perda de Sintra e Vila Nova de Gaia (as quatro mais populosas), José Luís Carneiro preferiu olhar sobretudo para as capitais de distrito.

Não é por acaso, é que esse era o ponto positivo que restava na noite socialista. O PS tinha cinco capitais de distrito — Beja, Castelo Branco, Leiria, Viana do Castelo, Vila Real — e agora ficou com nove — Évora, Faro, Coimbra, Bragança, Castelo Branco, Viseu, Leiria, Vila Real e Viana do Castelo. Para Carneiro foi o suficiente para reclamar o “eleitorado mais exigente”: “O PS teve o voto de confiança do eleitorado urbano”.

“Para os que entendiam que estava em perda definitiva, o PS mostrou vitalidade e os portugueses voltaram a confiar no PS”, afirmou Carneiro que reclamou ainda vitória na disputa com o Chega, sobretudo no Algarve, “onde havia profundas preocupações com o crescimento da extrema direita”. “O Chega que veio prometer 60 câmaras está relegado para uma quinta posição atrás da CDU e do próprio CDS”, disse o socialista que contabilizou, no Algarve, 11 câmaras para o PS, duas para o PSD, uma para Chega, outra para a CDU e uma para movimentos independentes.

O ensaio para a narrativa de um PS que se aguentou depois das legislativas traumáticas de maio passado começou assim que se conheceram as primeiras projeções, ao início da noite, pela voz de um membro da direção, Filipe Costa. O raciocínio era o possível para manter alguma chama acesa. Segundo os primeiros dados, Lisboa e Porto estavam empatados e o PS agarrava-se a essa bóia: “Há três meses, nas legislativas, o PS sofreu objetivamente uma hecatombe eleitoral” e agora há “indicadores muito positivos por todo o país, incluindo capitais de distrito e alguns municípios mais populosos”.

Carlos César, presidente do partido, passou boa parte da campanha a defender voos mais baixos para o PS nestas autárquicas e fez o mesmo ao entrar na sede nacional este domingo. Depois do “tsunami” das legislativas, ter “uma votação francamente diferente” já daria para ficar “satisfeito”. Isso seria suficiente para alimentar a narrativa de um PS “a recuperar a sua condição de grande partido no país e na sua condição de alternativa à AD”. Um travão ao que Carneiro chegou a dizer, mesmo na reta final da campanha, quando colocou Lisboa e Porto como conquistas “fundamentais”.

Sem esses “fundamentais”, restou ao líder socialista terminar a noite eleitoral a garantir que foi por um triz que a conclusão não foi vitoriosa, ao falar dos “escassos 1.700 votos” que não permitiram uma maioria na câmara do Porto, as “três centenas de votos” que deixaram o PS aquém em Braga e “em Aveiro também esteve próximo”. Isto além de ter “disputado” Lisboa, coisa que “há três meses” parecia “impossível”, sublinhava para manter a ideia de um PS que é o partido que ombreia com o PSD.

Mas o retrato final ficou, no entanto, claro no comparativo que o próprio líder socialista fez com as prestações do PS no passado: “Ganhámos em 2013, ganhámos em 2017, voltámos a ganhar em 2021 e no quarto ato eleitoral o PS, mesmo estando em oposição no país, está taco-a-taco com o Governo no número de câmaras, está taco-a-taco na Câmara do Porto e está taco-a-taco na Câmara de Braga e disputou para ganhar as câmaras de Lisboa e do Porto”. A intenção era mostrar que o PS continua em jogo, mas também revela um partido de vitórias que agora festeja quase-empates.

Chega. As expectativas insufladas que a realidade destruiu

As eleições legislativas criaram expectativas que a realidade destruiu. O Chega aumentou de quase 200 mil votos para mais de 630 mil em quatro anos (nas legislativas teve mais de 1 milhão e 400 mil), foi a terceira força política mais votada nas eleições autárquicas, mas o resultado não se traduziu na conquista do número de câmaras que André Ventura ambicionava. O Chega cresceu (e muito), mas está longe do sonho de implantação autárquica que permitisse acabar também com o bipartidarismo a nível local. Neste patamar, a luta ainda é a dois (PS e PSD) e o Chega até ficou com menos câmaras do que CDU e CDS.

A falta de objetivos palpáveis torna sempre a avaliação mais desafiante, mas até o próprio André Ventura reconheceu que os resultados ficaram “aquém do esperado”. Ao longo das últimas semanas, o líder do Chega foi recusando falar de números concretos, mostrou-se crente de que o Chega iria ter bons resultados e ganhar. Ganhar era a palavra de ordem. E, contados os votos, esse sentimento de vitória apenas se traduziu em três câmaras: São Vicente, na Madeira, Albufeira e Entroncamento. Duas roubadas ao PSD e uma ao PS, respetivamente.

Por um lado, para um partido com seis anos que nunca tinha conseguido tal feito, é mais do que motivo para festa. Desde logo por comparação a outros partidos que nunca atingiram esse objetivo. Por outro lado, nas legislativas de maio de 2025 o Chega venceu em 60 municípios do país, pintando praticamente todo o mapa a sul de Portugal de azul escuro. Inevitavelmente, por muito que as eleições não sejam comparáveis, esse tornou-se o ponto de partida do Chega, assumido por Ventura.

O líder chegou a reconhecer que era bom ganhar em pelo menos metade, foi argumentando que o Chega precisava de se afirmar localmente para dar mais um passo no caminho da implantação nacional e, durante a campanha, optou mesmo por enviar recados internos — pedindo responsabilidade, integridade e exemplo a quem assumisse funções. Provavelmente crente de que teria bem mais presidentes de câmara para guiar. Antes, tinha obrigado todos os deputados a serem candidatos nas eleições, correndo o risco de ver a bancada parlamentar renovada. Ficou longe disso, acabando por perder apenas Rui Cristina.

Perante a quase quadruplicação dos resultados, Ventura descreveu este 12 de outubro como uma “noite boa”, mas recusou fazer dela uma vitória: “Hoje não vencemos, mas vamos lutar para vencer. Esta não era a vitória, nem a amplitude da vitória que queríamos.” Estranhamente, há quatro anos, numa noite cheia de festejos pela surpresa, já dizia praticamente o mesmo: no “dia da implantação”, o Chega não chegou à “vitória total” mas assume-se como “terceira força em grande parte do país”. Muito mudou de lá para cá.

Mais do que não eleger o número de câmaras que Ventura até podia ter na cabeça e nunca partilhou concretamente, o Chega falhou redondamente um objetivo de ficar à frente de outras forças política. Na campanha, o presidente do partido afirmou que era “impensável” ganhar menos câmaras do que a CDU ou o CDS. Acrescentou que era preciso “esquecer as fantasias” e que “não [valia] a pena termos cenários que gostaríamos de criar na nossa cabeça”. E ainda que não tenha passado pela cabeça de Ventura, esta realidade acabou mesmo por se confirmar — com o CDS a presidir a seis câmaras e a CDU a 12.

No que toca aos resultados gerais das eleições, os números, por comparação, são inegavelmente superiores aos últimos. Onde em 2021 o Chega elegeu 19 vereadores, 173 deputados municipais, 205 mandatos de freguesia, em 2025 consegue 137 vereadores (três deles presidentes de câmara), 635 deputados municipais e 1.176 mandatos em assembleias de freguesia.

Posto isto, a noite eleitoral traz ao Chega um balanço difícil entre quem queria mais do que conseguiu, ainda que não tenha conseguido pouco. Seja como for, André Ventura acabou a noite a caminho do Entroncamento para dar um abraço a um dos três primeiros presidentes de câmara do Chega, Nelson Cunha. Esta já ninguém lhe tira: não foi como sonhou, mas chegou à governação local.

PCP com nova quebra, CDS aguenta-se e Nós, Cidadãos bisa

O PCP conseguiu manter-se como a terceira força autárquica, mas continua a trajetória de queda: passou de 19 presidências de câmara para apenas 12. Além disso perdeu dois bastiões comunistas que eram do PCP desde o 25 de Abril de 1974: Serpa (que passou para o PS) e Santiago do Cacém. Teve ainda outras perdas duras, como Benavente (onde elegia consecutivamente desde 1979), que passou para as mãos do PSD. Embora tenha mantido os bastiões de Palmela, Seixal, Avis e Arraiolos, o PCP perdeu quase 100 mil votos em termos absolutos, tendo passado de 410.666 votos em 2021 para 316.332 agora em 2025.

O CDS também resistiu como quarta força, ao manter o célebre hexa. Os centristas conseguiram manter as autarquias que já tinham: Velas, Santana, Ponte de Lima, Vale de Cambra, Albergaria-a-Velha e Oliveira do Bairro.

Uma das surpresas da noite eleitoral foi o resultado do Nós, Cidadãos, que conquistou duas autarquias: Belmonte, em Castelo Branco, com o candidato António Soares, e Soure, em Coimbra, com a eleição de Rui Fernandes. O JPP também voltou a conseguir uma presidência de câmara no seu reduto: Santa Cruz

Liberais elegeram dois vereadores sozinhos e mais sete em coligação

A Iniciativa Liberal conseguiu eleger dois vereadores nas duas autarquias mais importantes do país (Porto e Lisboa) e ainda um vereador noutras duas do top cinco mais populosas (Sintra e Gaia), mas sempre em coligações lideradas pelo PSD. Exclusivamente em nome próprio, os liberais só conseguiram eleger em Braga — à boleia do ex-líder Rui Rocha, que conseguiu o melhor “resultado de sempre” — e em Castelo Branco.

Apesar de não ter resultados fantásticos, a IL já garantia, ao início da madrugada, que crescia face a 2021. Desde logo passa a ter nove vereadores em sete concelhos (há quatro anos só elegeu um, no Porto, na lista de Rui Moreira). Além disso, tinha um presidente de junta, 30 deputados municipais e 56 membros de assembleias de freguesia. Agora, pelas 02h30, só em nome próprio já tinha garantidos 47 deputados municipais e 75 eleitos para as assembleias de freguesia, resultado ao qual ainda se vai juntar concelhos em falta e incluir o resultado de coligações locais. O Bloco de Esquerda e o Livre não conseguiram eleger sozinhos, embora tenham conseguido vereadores através das coligações que integraram, como é o caso, por exemplo, de Lisboa.