Este especial faz parte de um conjunto de reportagens com os candidatos à presidência do Benfica: Martim Mayer, João Diogo Manteigas, Cristóvão Carvalho, Luís Filipe Vieira, Noronha Lopes e Rui Costa.
O espaço é mais pequeno do que em 2020, o espaço tem mais pessoas de um lado para o outro do que em 2020. A segunda corrida eleitoral de João Noronha Lopes deixou o espaço que tinha sido utilizado na zona de Belém, simbolicamente escolhido pela proximidade com a Farmácia Franco onde toda a história do Benfica começou, e passou para a zona das Laranjeiras. Aí é diferente, a própria estrutura deste novo edifício que fica nas Laranjeiras é diferente. Em tudo o resto, sobram pontos de contacto com esse período que terminou com uma votação de quase 35% que pela primeira vez teve o condão de ameaçar algo que parecia ser estar apenas reservado ao nome que liderou o conjunto da Luz durante duas décadas, Luís Filipe Vieira. “Mas há outras coisas que mudaram, recordo-me que organizava chamadas por Zoom com os sócios que estivessem mais longe”, atiramos. “Não, não, continuamos a fazer isso. A nuance é que nessa altura andávamos no período Covid, não permitia termos tanto contacto. Mas fazemos, claro”, responde João Noronha Lopes.
É dia de jogo frente ao Newcastle, o único dia em que nunca faz campanha porque o Benfica entra em campo como vai repetir mais vezes ao longo do dia. E percebe-se que é dia de jogo porque há mais voluntários que já andam de equipamento vestido à espera que o conjunto de José Mourinho consiga finalmente pontuar numa Liga dos Campeões que não começou da melhor forma com derrotas frente a Qarabag e Chelsea. Logo ali no espaço de entrada de uma sede bem caracterizada que não deixa dúvidas para quem passa do que se trata, um quadro na parede que vai sendo mexido com o aproximar das eleições dá o mote: “Faltam apenas ___ dias para a mudança”. No dia em que o Observador acompanha Noronha Lopes, são quatro – sendo que, para todos os números, são colocados nomes de um jogador que tenha atuado com a camisola pelo Benfica. Ali, o escolhido foi Carlos Gamarra, um dos dois antigos atletas que manifestou apoio a Cristóvão Carvalho.
Mais do que espírito fair play, ali está retratado um dos estados que marcam toda a máquina da campanha: o clube e as suas referências estão acima de qualquer querela eleitoral. Noronha Lopes desce as escadas, passa pela copa, tira um Red Bull para beber antes das reuniões que tem marcadas e volta a ganhar asas para mais um dia com agenda cheia mesmo passando mais tempo do que é habitual na sede. “Sejam bem-vindos aqui à nossa casa. Agora não é preciso usar o casaco, pois não?”, questiona. Não é, até porque as primeiras chuvadas mais a sério das últimas longas semanas parecem ter dado trégua e sobra um tempo tropical na rua que não se nota tanto pelos ares condicionados espalhados pela sede. Ali, onde está um ecrã grande que vai passando em loop várias intervenções públicas do candidato entre outros vídeos da campanha, está também uma bola. Poucos resistem a dar uns toques quando andam nesse espaço mas o empresário finta essa vontade.
A parte mais operacional da campanha está no mesmo espaço das pessoas que têm trabalhado a dinâmica de visitas a Casas do Benfica, com pinos vermelhos espalhados em todas as zonas do país que foram visitadas até ao momento (são mais de 60, com Santarém a ser o próximo destino mais logo). Do lado esquerdo das escadas, empilhados numa visão cada vez menos frequente com a digitalização de meios e costumes, existem centenas de jornais de campanha. “Foi um sócio que nos quis oferecer e gostámos muito da ideia”, explica Noronha Lopes. Mais tarde chegaria outro associado que faz sair Noronha Lopes da sala onde está reunida a task force que prepara o debate a seis na BTV. Para um cumprimento, para 1.001 agradecimentos. Afinal, por iniciativa própria, fez mais de 4.000 quilómetros em três dias para distribuir jornais pelas Casas.
▲ Noronha Lopes foi acompanhando o trabalho de todas as áreas ao longo do dia antes de partir para Santarém
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Nem tudo tem de ser uma comparação nesta campanha mas esta publicação de 16 páginas, o dobro daquelas que tem o “Pelo Benfica” de Cristóvão Carvalho, oferece mais conteúdo até prático. Com uma capa que reúne toda a equipa numa foto conjunta tirada na própria sede, há uma mensagem e uma explicação sobre a ligação de Noronha Lopes ao clube tendo uma das suas fotografias preferidas com os filhos quando os encarnados golearam o Sporting na final da Supertaça de 2019, a síntese dos seus principais eixos pragmáticos, as dez medidas para os primeiros 100 dias na liderança do clube (algo que será falado mais à frente na preparação do debate), entrevistas com nomes fortes da candidatura como Nuno Gomes, Vítor Paneira, Felipe Gomes, António Bagão Félix e Gonçalo de Almeida Ribeiro, as contas sobre todas as romarias que foi tendo pelo país que na altura já chegavam quase aos 11 mil quilómetros (número que iria depois aumentar) e explicações detalhadas sobre todos os 108 locais de voto neste sufrágio de 2025. Além de jornal, é um “guia”.
Agora, também Noronha Lopes funciona como “guia” na apresentação de todos os espaços da sede. É no andar de cima que o resto da máquina funciona, com dois quadros grandes onde há uma palavra que parece distinguir-se de todas as outras: transparência. Há uma zona mais dedicada à comunicação digital e é ali que o candidato faz questão de parar para falar sobre a grande referência para tudo e todos ao longo da jornada. “Esta moldura está sempre aqui. O Ivan esteve connosco, partiu há dois meses mas continua sempre aqui”. Uns segundos antes sentia-se a azafama e ouviam-se estratégias para posicionar a mensagem que sai para fora nos últimos dias de campanha, agora sobrava apenas um silêncio gélido de quem recorda um amigo que esteve sempre ali e nunca deixará de estar. É também por ele que centenas de pessoas trabalham todos os dias com o objetivo de chegar à mudança que defendem para o Benfica “que precisa virar a página”.
“Além de ter feito toda a identidade gráfica, o Ivan era aquele elemento que conseguia colar todas as partes mais operacionais da campanha. Sabia do Benfica como ninguém, era daquelas pessoas que ia ver sempre as modalidades todas e que todos se habituaram a respeitar pelo que fazia. Ainda hoje os pais dele vão passando de vez em quando por cá e contam como ele gostava do que fazia”, explica um dos elementos da campanha, num constante desafio para que a voz que vai ficando embargada não traga de novo as lágrimas que noutras ocasiões já foram caindo. Ivan Ferreira, de 34 anos, era aquele “bom amigo” que todos recordam. É por homenagem que, quando vê jogos nas Casas ou nos estádios, Noronha Lopes veste a camisola branca com o seu nome – a mesma camisola que está pendurada no cabide do seu gabinete, ali ao lado da sua sala.
Se as paredes até àquela porta falam Benfica, não apenas pelas frases e pelos montes de cromos da campanha que vão sendo deixados em todos os pontos pelo país mas também pela citação de Sven-Goran Eriksson que diz “O segundo lugar não existe porque se não vencermos com o Benfica é um fracasso” acompanhada pela imagem do antigo técnico sueco com aquele mítico chapéu da Macieira, o espaço de Noronha Lopes não fica atrás. Tem na parede os dois equipamentos que mais gosta dos encarnados, a imagem do Rei Eusébio e de José Águas a levantar a primeira Taça dos Clubes Campeões Europeus, o cumprimento de Cesare Maldini ao capitão Coluna na final de 1963 onde o AC Milan (e Altafini) impediu a terceira conquista europeia seguida, a fotografia de quando conseguiu chegar ao topo do Kilimanjaro, na Tanzânia, sempre com a sua bandeira do Benfica presente. “Fez esta semana quatro anos. Fui com um grupo de amigos, onde estava um dos meus filhos. Estivemos seis dias para chegar lá acima. Porquê? Porque é um desafio”. E superado.
▲ Depois de uma área mais open space na candidatura de 2020 em Belém, Noronha Lopes montou a sede agora nas Laranjeiras (sem esquecer as imagens preferidas de Benfica)
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
É nessa fase do dia que Noronha Lopes se senta pela primeira vez à conversa com o Observador, neste caso de uma forma mais descontraída a falar sobre o que foi a campanha até aqui. Recorda uma conversa que teve com pessoas amigas no Dubai que não vão ter possibilidade de votar por não haver voto eletrónico (e à boleia disso volta a reforçar que essa recusa da sua parte foi apenas por questões de transparência, recordando que se disponibilizou para ajudar a encontrar locais que pudessem ter mais mesas de voto no estrangeiro), vai lendo uma mensagem que recebeu de um amigo de Montalegre que conheceu quando trabalhava em França e que lhe dá força na expressão eleitoral que pode ter na zona norte do país, admite que tempo é algo que deixou há muito de ter, explica que para 2020 houve duas grandes diferenças: começou toda a construção do projeto a partir do futebol, que era há muito discutido com todas as pessoas que farão parte da sua equipa em caso de vitória, e teve agora mais tempo para andar em Casas antes de fechar o programa, o que permitiu que incluísse muitas das mais de mil ideias que foi recebendo para o quadriénio 2025-2029.
“Há momentos que definem o rumo de uma história. Momentos em que o futuro se decide, não pelo acaso, mas pela convicção de quem acredita. O Benfica vive um desses momentos. Chegou a hora de escolher entre gerir o presente e preparar o futuro. Este é o tempo de devolver ao Benfica aquilo que o tornou imenso: a exigência, a verdade, a paixão e a alma vencedora. O Benfica é mais do que um clube, é uma ideia que atravessa gerações. É o orgulho de um povo, a esperança de milhões, a razão de ser de todos nós. Mas essa grandeza não vive apenas de memórias. Vive de ação. De escolhas. De responsabilidade. Foi por isso que me apresentei. Acredito que o Benfica pode voltar a ser o exemplo que já foi. Nos últimos meses percorremos o país, de Norte a Sul. Falámos com sócios de todas as idades e gerações. Ouvimos a mesma mensagem, dita com o mesmo amor e a mesma urgência: ‘O Benfica precisa de mudar’. Mudar para voltar a unir e a vencer. Porque o Benfica que todos queremos é isto: exigência, emoção, trabalho, paixão”, disse na apresentação.
“Tenho a certeza que tenho aqui uma equipa, não um grupo de pessoas, completamente escolhida por mim, que já trabalha em conjunto, a maior parte deles há algum tempo, na área financeira, na área do futebol, na área das modalidades. Um grupo de pessoas alinhadas relativamente à minha visão, que estão preparadas para começar as suas funções no dia 26. É um dia de alegria, estamos aqui a falar do Benfica. Reunimos centenas de benfiquistas que não querem falar do passado, mas do futuro. O meu projeto é de futuro, dá perspetiva de otimismo, de mudança, mas uma mudança com confiança. São pessoas que os benfiquistas conhecem, será uma mudança feita com confiança com tranquilidade. Estou aqui para falar da minha equipa e do futuro do Benfica. Tenho discutido ao detalhe tudo o que tem de ser feito no Benfica. Estamos com muita vontade de começar a trabalhar já dia 26″, acrescentou nessa mesma ocasião.
▲ Jornal de campanha, para ser distribuídos nas Casas e por todos os benfiquistas, tornou-se numa espécie de ex-libris nos últimos dias
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
A questão dos prejuízos das empresas já faz parte do passado, até pela forma como decidiu acabar de vez com todas as especulações possíveis ao colocar no site oficial as declarações de rendimento do IRS, o passado foi também deixando de ser questão quando começou a virar um discurso contra a era Luís Filipe Vieira e Rui Costa para focar mais no atual líder dos encarnados. Se em 2020 a troca de palavras com o ex-presidente do Benfica chegou a ficar mais acesa, com Vieira a colocar em causa que Noronha Lopes fosse a primeira opção do seu grupo para avançar com uma candidatura e Noronha Lopes a confidenciar as duas ocasiões em que foi abordado para se juntar às listas de Vieira (ambas recusadas), agora foi-se limitando a dizer que o momento era para falar do futuro que resgatasse o Benfica do seu passado e “jogou” com uma bipolarização da corrida a seis que se foi formando também com base nas sondagens conhecidas ao longo de toda a corrida.
“Aquilo que desafio Luís Filipe Vieira é que, se de facto quer estar nas Assembleias do Benfica, é bem-vindo e que esteja mais vezes do que nos últimos anos. Vieira disse uma vez que havia democracia a mais no Benfica, não convive bem com isso. Se é assim, que aceite vir a debates porque em 2020 recusou. Vamos então discutir ideias. Ele lançou a candidatura mas até agora não lançou uma ideia. Ele aparece, manda recados mas não disse uma ideia. É tempo de respeitar os sócios do Benfica. Responsabilidade nos chumbos? Na opinião do presidente do Benfica, nada faz sentido quando é alvo de críticas construtivas… O que estas últimas 24 horas mostraram é o desespero de duas pessoas que representam um regime que vai cair, que está podre e vai cair. Estão nervosos com os resultados das sondagens, mentem, lançam calúnias. Rui Costa quer desviar as atenções porque falhou, desportiva e financeiramente”, disse depois da última Assembleia Geral dos encarnados, recusando qualquer tipo de ligação com os tumultos ocorridos.
“Tenho um percurso profissional de 20 anos, a trabalhar em grandes empresas por todo o mundo, subi a pulso, não devo favores a ninguém, não fui escolhido por ninguém, não fui o sucessor de ninguém. Não admito que alguém coloque em causa a minha honra. Vieira? Vi-o entrar com capangas, ficaram ao seu lado sentados. É mais uma mentira de Vieira, tem uma relação difícil com a verdade. Se me acusou de ser culpado? Os benfiquistas estão cansados… Há um ciclo que está a chegar ao fim. Luís Filipe Vieira é passado, o seu tempo acabou. Vieira não pode fazer parte do futuro e não vou deixar que o Benfica seja outra vez enredado por processos. Eu ando no meio dos sócios, não preciso de seguranças. Há uma diferença: Rui Costa só vai às Casas nos aniversários. Sondagens? As minhas sondagens são outras… Acho que incomodam mais os outros do que me fazem mandar foguetes. O Benfica não é de um rei iluminado e de um príncipe herdeiro, é dos sócios”, acrescentou a esse propósito, antes de virar mais o foco para Rui Costa.
“Se eu ganhar apenas um Campeonato em quatro anos, garanto que não me vou recandidatar”, disse ainda durante o último fim de semana. “A diferença entre a minha candidatura e a do Rui Costa também é ao nível dos programas. O meu programa fala do futuro. O Rui Costa tem aqui meia dúzia de ideias vagas, medidas com duas ou três linhas em que fala mais do passado do que do futuro. Isto revela um programa que é feito em cima do joelho. Tal como a época desportiva é planeada em cima do joelho, tal como o Benfica District foi feito em cima do joelho; tal como a cidade das modalidades foi prometida e não foi concluída porque foi feita em cima do joelho, tal como a Benfica Rádio é prometida, contratámos uma série de pessoas e ainda não arrancou porque foi feita em cima do joelho. Rui Costa é o candidato do quase”, assinalou na SIC.
Ainda assim, percebe-se também que uma das “farpas” recebidas do lado contrário que mais incómodo foi gerando teve a ver com a comparação de programas e com o alegado plágio de ideias. “O meu programa até foi lançado uma semana antes, como é que podia plagiar o dele?”, questiona. O bate boca sobre a “campanha suja”, com alegações de Rui Costa a propósito das “empresas que ainda há bem pouco tempo, em termos políticos, foram corridas da política por esses motivos”, passam ao lado numa fase onde o que interessa é passar mensagens positivas e que projetem o futuro do Benfica. Em relação ao programa, aí, tudo muda. É um programa que conhece de trás para a frente, que tem sempre na mesa do gabinete e nas notas que leva para as reuniões e que sobretudo corporiza uma longa jornada de muitos meses a ouvir centenas de pessoas e a trabalhar em pequenos grupos de trabalho por área que foram recebendo também inputs dos sócios.
No intuito de mostrar o plano de ação a breve prazo, Noronha Lopes apresentou também aquelas que são as dez medidas que pretende implementar nos primeiros 100 dias de mandato. Aponta para a reorganização de toda a estrutura para o futebol, feminino e formação, para a nomeação do Provedor do Sócio e convocação do Congresso das Casas do Benfica, para o início de uma auditoria externa à gestão do clube e da SAD, para a criação do Portal da Transparência, para a disponibilização do plano estratégico para a próxima década dos encarnados, para a análise da expansão da Luz para 83 mil espectadores com todo o impacto que terá na zona envolvente, para a reformulação da bilhética e para a liderança do processo de centralização dos direitos televisivos. No entanto, nunca deixa de referir a importância de consulta de todo o programa, com mais de 150 medidas em áreas tão diversas como futebol, modalidades, infraestruturas, todo o universo benfiquista na parte das finanças, associativismo, Casas do clube e comercial/marca.
▲ Noronha Lopes aproveitou parte da tarde do dia do jogo com o Newcastle para começar a preparar o debate na BTV com os restantes candidatos antes de vestir o equipamento
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
“Existem quatro grandes eixos neste programa eleitoral. O pilar de um Benfica fiel a si mesmo, que coloca os sócios no centro do clube. O pilar de um Benfica ganhador, com um modelo vencedor no futebol, na formação e nas modalidades. O pilar de um Benfica dos benfiquistas, com uma gestão ética, transparente e moderna em toda a linha. O pilar de um Benfica competente, com a expansão da marca, a aposta nas infraestruturas e revelações no conteúdo”, aponta. No entanto, a complicação é outra: como colocar o máximo de sumo das ideias em oito blocos de respostas de dois minutos (com mais um de réplica) que vão começar no futebol e atravessam depois todos os temas supracitados ao longo de três horas de debate. Antes de tudo começar, Fernando Vaz, um dos apoiantes e voluntários com mais “história” por ter criado (e agora deixado ao staff) um negócio de bifanas em plena Nova Iorque, pergunta se falta algo antes de sair da sala.
Noronha Lopes vai saindo e entrando na sala de reuniões, conferindo sempre se todos os departamentos da “máquina” estão a trabalhar bem. Já existe ali alguma ansiedade com o aproximar da hora do jogo, um jogo que chegou a pensar ir assistir ao vivo mas que compromissos de campanha mais importantes acabaram por impedir, mas nem por isso deixa de fazer a parte 1 da preparação ao longo da tarde com os elementos mais próximos da campanha (a parte 2, mais longa e detalhada, ficaria reservada para o dia seguinte). Todos os pormenores são previstos, abordados e “estudados”, sendo que a dificuldade entronca sempre no mesmo: como passar o máximo de ideias no mínimo tempo sem tirar conteúdo ao que é dito e com inevitáveis interrupções e tentativas de perturbação de outros candidatos. Facto que saiu das últimas intervenções? Noronha quer cada vez mais debater com Rui Costa – mas existem mais quatro concorrentes.
– Em 2020 teve quase 35% nas eleições. Qual é validade de todo esse eleitorado que conseguiu nessa altura para uma nova eleição?
– Acho que são duas eleições diferentes. O que sinto agora não resulta da votação que tive em 2020 mas sim do que sinto em todo o país. Já visitei mais de 60 Casas do Benfica e sinto um grande desejo de mudança que é transversal a todas as gerações. Os benfiquistas já não querem falar do passado, já não querem que as pessoas do passado passem o tempo em tricas e querem é que se fale do futuro, com novas ideias, com um projeto completamente novo que traga futuro e que traga uma nova forma de gerir o Benfica. É isso que tenho muita confiança que vai acontecer no dia 25 de outubro.
– Tenho falado com algumas pessoas que admitem que se calhar não o apoiam agora porque em 2021 esperavam que avançasse e não avançou. Sente que faltou uma explicação para não ter concorrido nessa eleição, um ano depois dos 35%?
– Respeito muito a opinião das pessoas mas a explicação é muito simples: a nossa vida muda muito em seis meses. Em 2020 tive condições profissionais e pessoais para avançar, em 2021, como quando acabaram as eleições fui à minha vida, tinha uma série de compromissos profissionais assumidos e questões pessoais que não me permitiam ser um presidente a tempo inteiro. O Benfica precisa disso, um presidente a tempo inteiro. Em 2021 não tinha essas condições. Foi uma decisão difícil, eu percebo as pessoas… Se voltasse atrás, teria dado uma explicação às pessoas, teria dado esta explicação que dou agora. As pessoas mereciam. Depois disso, Rui Costa foi eleito com 85% dos votos, teve todas as condições para ser um bom presidente, não fez as mudanças que devia ter feito, não escolheu a equipa que devia ter escolhido e o balanço que faço é negativo. É por isso que estou a concorrer, não é contra ninguém. Quero fazer uma mudança naquilo que tem sido o paradigma na gestão do Benfica mas uma mudança que é feita sem sobressaltos, com pessoas que os benfiquistas conhecem, com percursos profissionais sólidos e que estão dispostos a dar muito da sua vida ao Benfica.
– Tem órgãos sociais onde está o Nuno Gomes, tem outras pessoas que não estão na lista mas entrarão como o Vítor Paneira. O futebol foi sempre a grande prioridade, o primeiro a ser trabalhado e apresentado. À luz disso, acha que o atual plantel do Benfica reflete a falta de planeamento de que foi falando ao longo da campanha?
– Acho que Rui Costa falhou do ponto de vista desportivo, falhou do ponto de vista financeiro, não defendeu de forma suficiente os interesses do Benfica, teve muito distante dos sócios. Já ouvi antes, o presidente do Benfica não pode ir às Casas só em alturas de aniversários. Sente-se um grande distanciamento do atual presidente em relação aos sócios. Mas não quero falar muito do passado, quero falar do futuro, das ideias e dos projetos. Comecei pelo futebol porque é a área mais importante para o clube e comecei apresentando um projeto completo em que o Nuno Gomes vai fazer toda a supervisão de todo o futebol sendo responsável pela estratégia de curto, médio e longo prazo. O Nuno saiu do Benfica pelo seu próprio pé, teve a preocupação de se formar, fez um curso de Gestão Desportiva, é consultor da FIFA, tem uma grande experiência e vai ter a reportar a ele o Pedro Ferreira, que tem grande experiência no scouting, esteve no Benfica, fez uma carreira notável no Nottingham Forest fazendo parte da equipa que levou o clube aos lugares europeus e vai ser o coordenador das áreas da formação, do scouting e do feminino em ligação com as áreas de apoio para o futebol como o marketing, a comunicação ou os recursos humanos. São eles os dois pilares fundamentais do futebol, os dois interlocutores com José Mourinho, que é um grande treinador e que terá todas as condições para triunfar no Benfica com esta estrutura.
Noronha Lopes critica “desgoverno desportivo” e quer ser já campeão com Mourinho
– Já falou que não vai aumentar o preço dos Red Pass, já falou na questão de todas as infraestruturas e do aumento do estádio, já falou também da capacidade que quer ter para investir num modelo que tente segurar cada vez mais talento. Cortar custos chega para tudo isso? Há capacidade de com isso e com o aumento de receitas chegar a tudo?
– A minha primeira prioridade é equilibrar as receitas e as despesas correntes sem as transações dos atletas porque se o fizermos estamos em melhores condições para pagar a dívida como eventualmente para não ter de vender jogadores tão cedo ou não vender tantos. Isto passa por várias medidas. Obviamente que passa pelo sucesso desportivo, porque o Benfica precisa das receitas da Champions, por uma boa negociação dos direitos televisivos, que será uma das primeiras medidas nos primeiros 100 dias do meu mandato sendo um dossier que vou assumir pessoalmente, negociando os dois anos que falta e depois liderando o processo de centralização, não pode estar fora deste processo…
– Fez mal em sair da mesa de negociações? Tem algum número para os dois anos que faltam até 2028?
– Não concebo que o Benfica esteja fora de um processo onde foi informado daquilo que pode ser o futuro e o que pode acontecer. A Direção diz que tem duas propostas aos valores que tem hoje em dia, acho que foi uma decisão sensata deixar isso para a próxima Direção e vou avaliar isso, não só o valor absoluto como o que está incluído nesse valor. Depois, podemos ir buscar receitas ao Dia de Jogo, não só à área do corporate, porque acho que não há margem para continuar a aumentar os Red Pass a 20%, os sócios não têm essa capacidade… O Benfica é um clube popular e portanto não é o facto de haver uma lista de espera de 20 mil pessoas que deve fazer com que o Benfica deva aumentar estes valores de forma indefinida. Não é essa a visão que tenho de um Benfica associativo. Depois, o Benfica pode fazer crescer as receitas comerciais, olhando para o naming do estádio, para receitas do ponto de vista digital, comercial e do merchandising. Cortar custos não é o futuro. Há margem para cortar custos, nomeadamente os FSE, mas o futuro passa por ter sucesso desportivo, assegurar um bom contrato de direitos televisivos e fazer crescer as receitas comerciais.
– Já falou também de uma perda de identidade do Benfica. Foi mais pela falta de vitórias ou por uma questão mais cultural dentro do clube?
– A identidade perde-se quando se normaliza as derrotas e infelizmente foi isso que aconteceu com esta Direção, foi-se banalizando o peso das derrotas e o que critico é que… Todos cometemos erros, esta Direção cometeu erros, mas o problema é quando não aprendemos com eles. Quando temos cinco treinadores em quatro anos, quando temos este carrossel de jogadores, não criamos estabilidade para a própria equipa. Portanto, acho que o projeto do futebol tem de ser baseado em três ideias: uma estrutura, que já apresentei, que seja coesa e que as pessoas percebam o que fazem; uma ideia de estabilidade que não pode ser mudar de treinador e de jogadores todos os anos; e a identidade. A cultura de vitórias consegue-se, por um lado, garantindo que há pessoas no Benfica que transmitem esta identidade, esta mística, esta vontade de ganhar, e por outro fazendo com que os jogadores da formação permaneçam mais tempo no clube, principalmente aqueles que simbolizam a mística, a garra e a vontade de vencer com o João Neves.
– Luís Filipe Vieira disse numa entrevista que quando fez uma auditoria em 2003 não teve necessidade de colocar a mesma cá fora, de torná-la pública. Também pensa assim ou considera que no dia em que houver uma auditoria os sócios devem conhecer os resultados?
– Para mim não há meia transparência, ou somos transparentes ou não somos transparentes. Uma das medidas que vou tomar é fazer uma auditoria às contas do clube através de uma entidade externa completamente independente e os resultados serão divulgados aos sócios do clube. É um ato de gestão perfeitamente normal e foi isso que fiz em todas as empresas onde entrei, porque serve para me ajudar a tomar decisões. O que estiver bem fica, o que não estiver bem sai. É isso que se espera, não é mais nada e com os resultados divulgados aos sócios.
– Nos outros clubes grandes, quando se falava de auditorias em campanhas havia sempre o receio de saírem esqueletos dos armários ou buracos que se podiam encontrar. Também teme que isso possa acontecer?
– Não estou à espera de encontrar nada, estou apenas a fazer aquilo que é normal fazer quando se entra numa organização ou numa empresa, que é procurar perceber o que está bem, mudar o que está mal. Todos ficamos a ganhar, vai ajudar a tomar melhores decisões. Há muita coisa que é bem feita no Benfica, há muitas pessoas válidas a trabalhar no Benfica e a auditoria vai permitir-me gerir e tomar as melhores decisões.
▲ Noronha Lopes foi recebido com tochas vermelhas e potes de fumo na chegada à Casa do Benfica de Santarém meia hora antes do início do jogo
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Começa a chegar a hora de partir para Santarém, a azafama vai crescendo. Nuno Gomes, vice-presidente para o futebol e antigo capitão dos encarnados, já está na sede, sempre com essa esperança por parte de alguns dos voluntários que passe pela zona da entrada para dar uns toques na bola com ele. Raquel Vaz Pinto, que será vice para o associativismo, cumprimenta todas as pessoas da máquina e fica sentada nessa primeira sala mais “operacional”. José Theotónio, vice para as finanças, chega um pouco depois de ter dado a entrevista ao Eco. Entraram à civil, saíram equipados com a camisola 87 de João Neves de Raquel Vaz Pinto em destaque. Ao todo, seriam quase dez os membros das listas que iriam juntar-se para ver o jogo com o Newcastle. Noronha Lopes não é exceção e, por cima da camisola branca com o nome de Ivan, tem ainda uma sweat vermelha do Benfica que não demoraria a tirar quando Lukebakio faz as primeiras ameaças à baliza.
A primeira vez que entrou na Luz com o pai foi num Benfica-Farense, com um golo do inevitável Eusébio. A vida profissional, entre os anos em que viveu nos EUA e em França, neste caso quando era vice-presidente para a Europa do McDonald’s e esteve na maior venda de sempre na restauração na Ásia, com restaurantes na China e em Hong Kong avaliados em 2,1 mil milhões de dólares, não lhe permitiram ir tantas vezes à sua Catedral como gostaria mas também lhe foi ensinando que qualquer sítio que esteja a dar um encontro do Benfica pode ser uma “Catedral”. E se em 2020 ainda tinha a tendência de contar histórias sobre o passado profissional para que as pessoas percebessem a sua capacidade para negociar e liderar (foi nessa altura que contou ao Observador episódios como um negócio feito com pessoas de kalashnikov na mão ou outro a falar baixo dentro de uma piscina para que não fossem espiados), agora sabe que é uma figura “consolidada”.
▲ Noronha Lopes assistiu ao jogo do Benfica em Newcastle em Santarém com vários membros da equipa, incluindo Nuno Gomes e Vítor Paneira
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
A receção quando chega a Santarém às 19h30 mostra isso mesmo: tochas, fumos, muitas bandeiras e os cachecóis com o seu nome, cânticos e duas entrevistas rápidas à CMTV e ao Now sobre o jogo (lá está, se o Benfica joga, não faz campanha) tendo uma espécie de claque por trás. Ainda antes de sentar-se à mesa, vai conhecer ao detalhe aquela que é a primeira Casa 2.0 do Benfica, ao longo de um complexo que tem ao lado do restaurante Mística a sede da Casa repleta de troféus, livros, camisolas e cachecóis, a Barbearia à Benfica, o Benfica Ativo com algumas crianças ainda no interior e mais um espaço para a prática desportiva. As solicitações são muitas, a chegada à cadeira onde verá o jogo demora um pouco mais do que pretendia, o hino da Liga dos Campeões que acompanha a entrada das equipas fica para uma outra. A bola já rola.
Não houve propriamente tempo para ver ou perceber aquela que é uma das superstições quando vê partidas dos encarnados, quando bate quatro vezes no chão antes dos livres diretos. Porque houve o primeiro lance em que Lukebakio ganhou na profundidade pela direita, rematou com pouco ângulo e obrigou Nick Pope a uma grande defesa. Porque houve dois lances de potencial golo dos ingleses na sequência de cantos, um com uma intervenção decisiva de Trubin. Porque houve a jogada em que o Benfica ganhou uma segunda bola à entrada da área para Lukebakio rematar com tanta colocação que acertou no poste. Nuno Gomes, que vê o jogo ao lado de Vítor Paneira (que veio do Norte e não a partir de Lisboa) a olhar para um dos vários plasmas espalhados pela sala, não consegue disfarçar o nervosismo. Noronha Lopes despe a sweat vermelha.
O golo inaugural de Anthony Gordon acaba por ser um balde de água fria depois de uma entrada que tinha aumentado a crença da sala. A fome já apertava mas, mesmo tendo ali uns croquetes acabados de fazer na mesma, fica a conversar com os parceiros de lista sobre o que pode ter falhado para haver o cruzamento para o segundo poste. É um golpe complicado que não lhe tira a esperança para a segunda parte, com o intervalo a ser aproveitado para ir de novo à Casa, que tem um livro que foi escrito por Carlos Perdigão, que está na lista da Comissão de Remunerações como vogal (e também marca presença), e fechar contas com um bife com molho de pimenta que vai comendo e parando consoante a cadência dos momentos do encontro.
▲ Noronha Lopes agradeceu a presença de todos os benfiquistas depois da derrota com o Newcastle e pediu para que todos fossem votar no sábado
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
As conversas com todos aqueles que o rodeiam passam sempre pelo futebol. Não faz propriamente análises ao que está a correr bem ou mal, não faz críticas diretas a qualquer jogador, prefere ir falando sobre o que gostava de ver implementado com uma proteção especial a todos os atletas vindos da formação que mais tarde acabariam por ficar ligados ao segundo golo, com Harvey Barnes a conseguir disparar depois de um passe com a mão de Nick Pope para fazer o 2-0 que acabou por sentenciar a partida. A sala fica resignada a uma derrota que parecia inevitável, as conversas começam a flutuar entre a intensidade que as equipas da Premier League conseguem ter e as soluções que saem dos bancos, tudo termina com elogios a Trubin por ter evitado que o desaire tenha ficado apenas pelo 3-0 perante as oportunidades dos magpies.
Existe uma ideia que atravessa a sala: resignação. “O problema é esse, é que perdemos assim contra todos e já achamos que isto é normal no Benfica. Por isso é que temos de mudar isto no sábado”, atira um apoiante de Noronha Lopes. “Olha, ao menos virei um que estava ali, que dizia que ia votar no Manteigas mas agora já é nosso”, comenta outro antes de recordarem que Bernardo Silva, um dos “alvos” do empresário para voltar à Luz, marcou nesta jornada. Noronha Lopes está visivelmente abatido pelo resultado que começa a complicar e muito as contas na Liga dos Campeões mas quer deixar uma última palavra a todos os presentes, pedindo o microfone aos responsáveis do restaurante. “Não podia deixar de agradecer o facto de se terem deslocado aqui e apelar a todos que vão votar no sábado”, resume, mantendo a “promessa” de não entrar em campanhas quando há jogo do Benfica. O próximo é para a Liga, na Luz, frente ao Arouca, e realiza-se em simultâneo com a parte final do sufrágio. Expetativas? “Primeira ou segunda volta, preparado para tudo”.