Este especial faz parte de um conjunto de reportagens com os candidatos à presidência do Benfica: Martim Mayer, João Diogo Manteigas, Cristóvão Carvalho, Luís Filipe Vieira, Noronha Lopes e Rui Costa.
João Diogo Manteigas já tinha apresentado a sua candidatura, havia dúvidas ainda em relação a quem podia sair como número 1 do grupo que tinha sido liderado por João Noronha Lopes em 2020, Rui Costa deveria ir de novo a votos, Luís Filipe Vieira era então uma carta fora do baralho. Foi neste contexto que se começou a falar na possibilidade de surgir um nome “novo” na equação. Menos conhecido, menos mediático, que iria ter como grande objetivo apresentar algo que fosse diferente de todos os outros. Faltava saber quem era a figura mas, sendo ainda uma sombra, já era falado. O perfil foi depois lançado na imprensa, foi um par de dias até assumir que ia entrar na corrida: Cristóvão Carvalho consumava algo que começou a ser ponderado mais a sério entre tertúlias de benfiquistas a meio do atual mandato de Rui Costa e dava a cara pelo novo projeto.
Advogado há mais de duas décadas, Cristóvão Carvalho, que nasceu em Paris onde se encontravam então os pais emigrados por razões diferentes, cresceu na zona de Trancoso, na Guarda, com os avós, mudando-se de seguida para Alcobaça quando os progenitores voltaram ao país e por fim para Lisboa, quando tirou o curso de Direito na Universidade Lusíada. A paixão pelo Benfica, essa, começou desde criança, sendo agora o sócio número 59.742 por ter recebido uma proposta de filiação de um paquete do primeiro escritório para onde foi trabalhar, a Consultan. Hoje, como apresenta no currículo, é sócio da sociedade CCAA – Sociedade de Advogados SP RL, “operando nas áreas de corporate, contencioso e direito societário”: “Presidiu a Assembleias Gerais de várias empresas e foi formador de Deontologia Profissional na Ordem dos Advogados durante dez anos. Desempenha funções como jurado nas provas finais de acesso à advocacia, refletindo o seu compromisso com a qualidade da profissão. Comunicador fluente em quatro línguas, presta assessoria em contextos internacionais. Publicou artigos e o manual jurídico ‘Algumas Notas sobre Arrendamento Rural'”.
O escritório ficou agora de parte pela grande paixão da sua vida. Uma paixão que, também por esse facto de ter crescido na zona de Trancoso, começou primeiro pelo ciclismo onde o Benfica começou a ser grande por um atleta fantástico chamado José Maria Nicolau. O futebol chegava sobretudo através dos relatos que ouvia na rádio, a ponto de ter entrado pela primeira vez no Estádio da Luz quando tinha 19 anos e já estudava em Lisboa. Os tempos não eram fáceis, o dinheiro às vezes estava de tal forma contado que havia tentativas de falar com um porteiro que era conhecido de um amigo para entrar a meio da primeira parte sem pagar, o aumento de possibilidades permitiu que passasse a acompanhar de forma mais regular todos os jogos dos encarnados, incluindo finais europeias como a última em Turim, para a Liga Europa, frente ao Sevilha.
▲ Isaías, um dos antigos jogadores que apoiam Cristóvão Carvalho a par de Gamarra, tem acompanhado o candidato na campanha
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Ídolo? Além do eterno Eusébio, Cristóvão Carvalho olhava para João Alves como uma das referências e, como qualquer miúdo, gostava de jogar com luvas pretas para “imitar” o antigo médio dos encarnados. Não foi a única e, durante a campanha, assumiu quase como vitória o apoio dado por dois antigos jogadores dos encarnados em momentos diferentes das últimas três décadas: Isaías, antigo médio brasileiro que esteve na Luz cinco anos entre 1990 e 1995 antes de sair para os ingleses do Coventry (e que em 2020 também tinha o nome ligado a uma candidatura mas a de Noronha Lopes), e Carlos Gamarra, central paraguaio que esteve menos de um ano nos encarnados entre passagens por Internacional e Corinthians mas que deixou uma marca forte pela classe com que comandava a defesa – daí ter passado mais tarde por Atl. Madrid e Inter.
“Tive a honra de vestir esta camisola, que carrega tanta história e tanta paixão. O Benfica mudou a minha vida e nunca deixarei de me orgulhar de ter feito parte desse clube gigante. Todos sabemos que o Benfica precisa recuperar a grandeza que já teve noutros tempos, uma força e respeito, seja em Portugal, como na Europa. É por isso que declaro o meu apoio a Cristóvão Carvalho na sua candidatura à presidência. Ele tem a coragem que é necessária para conduzir o clube de volta ao lugar que merece, no topo, com a ambição de ser respeitado em todo o mundo. Sei o que significa vestir esta camisola e acredito que o Cristóvão vai saber honrá-la fora dele, devolvendo ao Benfica o futuro com que todos os sócios e adeptos sonham”, assumiu o antigo defesa sul-americano que passou pelo clube da Luz na temporada de 1997/98.
Depois de ter integrado as listas de Rui Gomes da Silva em 2020 como vice-presidente para a área jurídica, Cristóvão Carvalho entendeu que as eleições seguintes de 2021 teriam quase vencedor pré-anunciado com a subida de Rui Costa à liderança interina depois da queda de Luís Filipe Vieira no âmbito da Operação Cartão Vermelho mas nunca deixou de ir conhecendo de forma mais profunda o clube por dentro, através de todas as presenças que tinha nas Assembleias Gerais no Pavilhão da Luz. Seria mesmo por aí que começaria a conversa no dia em que o Observador esteve com o candidato: onde é que começou esta ideia de apresentar algo que descreve de cinco em cinco minutos como “disruptivo e diferente de todos os outros”?
▲ Cristovão Carvalho fez questão de decorar a sede de campanha com a "ambição europeia" que defende para o Benfica
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
– Depois de ter participado nas eleições de 2020, onde é que começa a sua preparação para assumir depois uma candidatura? Foi a partir daí que ficou esse bichinho pela presidência?
– A minha entrada no que é uma campanha do Benfica acontece nas eleições de 2020 com o Rui Gomes da Silva, onde sou candidato a vice-presidente da área jurídica. Essa campanha foi também muito importante no Benfica porque na realidade marcou o final da era de Luís Filipe Vieira. Mesmo tendo ganho, foi o primeiro passo para a queda do Luís Filipe Vieira…
– Ganhou mas teve pouco mais de 60%, algo que não era habitual…
– Exatamente. Ganha mas mesmo com algo mais que 60% fica muito fragilizado até dentro da história do Benfica, em face a tudo o que tinha acontecido até ali. Depois, entendemos nós, e acho que é unânime, que o próprio clube ficou frágil por todos os processos que estavam pendentes e que o iam deixando mais exposto. Nessa perspetiva, essas eleições tiveram pontos importantes, nomeadamente a contestação eleitoral e também a questão do voto eletrónico, que nessa altura foi muito colocado em causa. Era um voto eletrónico do Benfica, diferente de hoje, um voto eletrónico controlado pelo Benfica. Participei muito ativamente nesse processo, com reuniões entre outras listas, reuniões que se fizeram no Benfica. Isso deu-me conhecimento do que era uma campanha do Benfica. Mas depois de as eleições terem terminado, não fiquei a pensar em ser candidato ao Benfica. Honestamente, não pensei. Depois a seguir vem uma sequência com o Rui Costa, que foi uma sequência natural, penso que a todos os benfiquistas não colocavam isso em causa. Aí essa hipótese nem se colocou, não participei nem tive qualquer questão ativa no que toca a eleições nessa altura.
– Mas depois as coisas mudam durante o mandato de Rui Costa…
– Tive um acompanhamento maior das Assembleias Gerais, fui percebendo toda a efervescência do Benfica, estando muito por dentro do clube. Se essas eleições de 2020 me deixaram alguma coisa foi o bichinho mas pelo conhecimento interno do Benfica. Como funciona o Benfica por dentro, como é que se pode ajudar a resolver os problemas internos do Benfica para ganhar. Porque quando o Benfica joga, para os adeptos e para os sócios é o Benfica em campo e só é importante ganhar, termos mais um golo com o adversário e fazermos grandes exibições. Para chegar aí há um longo caminho a fazer e foi nesse caminho que me envolvi durante este tempo. A ideia de me candidatar aparece a meio do mandato do Rui Costa. Até aí tínhamos um grupo, fazíamos tertúlias sobre o Benfica, encontrávamo-nos normalmente uma vez por semana ou de 15 em 15 dias, íamos falando sobre o Benfica, e percebemos que no segundo mandato as coisas não iam correr bem…
– E decide nesse momento que vai ser candidato?
– Começou a criar-se ali um grupo, que primeiro era de cinco ou seis pessoas, começou a criar-se a ideia de apresentar uma candidatura, de encontrar alguém, e dentro dessa procura e dessa discussão entendeu-se no grupo que teria o perfil para encabeçar e coordenar uma equipa de candidatura à presidência do Benfica. A partir daí, com essa decisão tomada, pensei, fui ver se tinha a minha vida preparada para isso, porque algo deste género obriga a que toda a vida profissional e pessoal esteja alinhada para não ser um peso. As coisas ficaram alinhadas e começámos a trabalhar e a montar tudo há cerca de dois anos.
Cristóvão Carvalho tem a sede de campanha na zona do Parque das Nações. A rua até pode ser sossegada, a vista não deixa dúvidas: ali é literalmente tudo “Pelo Benfica”. Há alguns sound bytes que ficaram ao longo deste percurso do advogado na corrida à presidência – a necessidade de colocar os encarnados a lutar (e a ganhar) títulos europeus, os 400 milhões de euros de financiamento que tem à razão de 100 milhões por ano no primeiro mandato, a aposta em Jürgen Klopp para treinador. Já lá iremos. Antes, uma confirmação: toda a sede de campanha é uma continuidade dessa linha de pensamento, com a ambição europeia presente.
Há pormenores deliciosos espalhados por aquele espaço que acaba por dividir-se em três partes entre a zona de receção, a mesa grande de reuniões com o apoio de um plasma grande e outro espaço mais operacional para a parte logística e desenvolvimento digital da campanha, da fotografia autografada com dedicatória do Bispo do Benfica que costuma estar sempre nos jogos dos encarnados ao cachecol dos veteranos da Ovarense que lhe foi oferecido, mas ali tudo entronca na projeção de um conjunto da Luz que seja capaz de discutir a Liga dos Campeões dentro dos princípios definidos por 13 palavras que surgem logo na parede à esquerda da entrada: ambição, união, transparência, trabalho, intenção, glória, proximidade, convicção, profissionalismo, empenho, visão, paixão e tudo… pelo Benfica. “No Benfica, os notáveis são os sócios”, destaca.
▲ Equipa de campanha costuma reunir diariamente na sede de campanha. Por estes dias, o debate da BTV centra quase todas as atenções
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Além dos símbolos Champions, da bola da competição (pintada a vermelho e branco) e de uma réplica da Orelhuda em balão prateado, estão desenhadas na parede as duas Taças dos Clubes Campeões Europeus conquistadas pelo Benfica em 1961 e 1962 e um terceiro troféu da atual Liga dos Campeões com 202 ___ e o texto “O futuro escreve-se com ambição”. Mais ao lado, entre cartazes institucionais da candidatura e todos os cachecóis que foi recebendo das Casas do Benfica que foi visitando ao longo das últimas semanas, há ainda algumas pilhas do jornal de campanha que fez em edição única para ser distribuída por todos os apoiantes possíveis, Casas e demais espaços de convívio. “Algumas Casas disseram-nos que receberam o nosso jornal na mesma altura do jornal de campanha de Noronha Lopes”, recordam sobre as oito páginas com uma entrevista do candidato, mensagens de Isaías e Gamarra, uma viragem no que toca à relação com as Casas, a proposta para dar valor aos sócios (a todos os níveis) e uma apresentação do modelo de gestão. É a partir daqui que retoma a conversa com o Observador, com uma só pergunta a valer para responder a tudo.
– Disse numa entrevista ao Expresso que tem o único programa disruptivo e que os outros candidatos é tudo muito poucochinho. Agarrava na questão dos direitos televisivos para transportar isso para ideias práticas: como é que o Benfica pode liderar o processo de centralização sendo capaz de comprar todos os direitos dos restantes clubes?
– A pergunta é simples, a resposta é complexa. Voltando um pouco atrás o meu programa é muito disruptivo para o Benfica. Há quem lhe chama ambicioso, eu não. Chamo-lhe disruptivo porque a ambição é aquilo que alimenta todos os benfiquistas. Nos últimos anos, e quando digo últimos anos não é só o mandato de Rui Costa mas também o final do mandato do Vieira, criou-se uma narrativa para apagar a chama da ambição dos benfiquistas. Os benfiquistas, o Benfica, a estrutura e a comunicação leva a que se apague essa ambição e que se vulgarize a derrota, que se arranjem desculpas. Isto é o que tem acontecido nos últimos anos. Eu quero restabelecer a ambição, quero um Benfica ambicioso. Como é que consubstancio essa ambição? Com vitórias em campo. Temos de ser absolutamente esmagadores em campo porque o core é o futebol, por mais carinho especial que tenhamos pelas modalidades e que está na génese do Benfica…
– Mas como?
– O futebol é o que mexe com toda a estrutura do Benfica. Futebol e neste caso o futebol sénior. Portanto, é nesta matéria que temos de pensar como é que vamos alavancar e criar uma grande equipa com um grande treinador e um grande projeto. Essa é a parte disruptiva do meu programa: pensei desde início num Benfica europeu. A primeira linha que pensei para o Benfica é que quero um Benfica europeu, quero voltar às lidas europeias. Sabia que seria difícil passar essa mensagem. Porquê? É muito simples. Hoje temos imensas dúvidas se conseguiremos ser campeões nacionais, quanto mais campeões europeus mas é um trabalho que tem de ser feito. Tinha duas alternativas quando fiz o programa: ou era igual aos outros e apontava todos os problemas, porque é essa mediocridade que os benfiquistas têm com coisas pequenas, ou mudava. Agora já há um candidato que fala em quatro Campeonatos em quatro anos…
– Houve até quem tenha falado em oito títulos em oito anos…
– Isso, tudo… O que eu defendi sempre foi ganhar três Campeonatos em quatro anos, desde início. Mas isso é só o objetivo interno e o meu projeto é europeu. Primeiro ponho-me a ter uma equipa europeia porque se tiver isso, consigo atingir os meus objetivos. Nunca ninguém se comprometeu com nada, agora é que falam. Quando se tem este nível de ambição, todo o projeto tem de estar pensado para alavancar esta operação. Mas é complexo, se não tiver o projeto financeiramente pensado ao pormenor para construir uma grande equipa de futebol, para ter um excelente treinador e para acertar as contas, não vou conseguir. Nesta altura, com esta estrutura, tudo o que passe do Campeonato é uma loucura. Daí ter apresentado um projeto a 12 anos. Tudo precisa de tempo, daí ter dito que procuro um treinador de projeto. Demorou mas os sócios hoje já conseguem perceber aquela que é a minha ideia…
– Mas colocou a fasquia lá em cima, a falar logo em Jürgen Klopp…
– Porquê? Não diga isso, não diga isso…
– Até podemos começar pelo facto de estar num período sabático…
– Hoje não temos um treinador que tem mais títulos do que ele? Temos ou não?
– Mas tudo tem o seu contexto…
– A minha aposta é no perfil do treinador. Mourinho tem mais títulos, tem mais experiência e se calhar tem mais media do que o Klopp. Coloquei a fasquia demasiado alto porque o meu nome é Cristóvão Carvalho, porque não era conhecido, porque as pessoas não conheciam as minhas ideias. Se esse nome tivesse saído de um dos candidatos do regime, ninguém dizia nada, era ambicioso, era normal, e hoje temos um treinador que tem mais currículo até, portanto essa questão está resolvida. Agora, na minha perspetiva, é necessário um treinador de projeto, essa é a diferença. Mourinho esteve em média dois anos em cada clube, Klopp esteve cinco. Ele gosta de fazer estes projetos e tem um estilo de futebol alegre, bonito, de ataque… É um futebol que os benfiquistas gostam e que é vendável. E eu vou ter os direitos televisivos…
– E isso serve para…
– Se eu tenho isto e se vou fazer este investimento no Benfica, olhei para as contas e percebi: o Benfica tem ou não tem condições para fazer esta grande equipa de futebol? Hoje, não tem. O que tenho de fazer? Tenho de resolver esse problema. E rapidamente percebemos o principal problema do clube…
▲ Cristóvão Carvalho continua a desvalorizar as sondagens e acredita num bom resultado nas eleições
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Sondagens não é algo propriamente muito impactante no caminho que Cristóvão Carvalho tem feito. Melhor, depende das sondagens. A reunião de equipa todas as manhãs, neste caso ao final da manhã, projeta todos os encontros que se vão realizar na Luz com o presidente da Mesa da Assembleia Geral por causa das eleições, vai definindo nomes para os comentários ao longo do dia do sufrágio e começa a preparar também aquele que será um debate importante a seis na BTV. “Há esta sondagem [do Mais Futebol] que já tem mais 76 mil respostas e que me coloca com 38%. Isto também não conta? Eu sei que qualquer um pode votar mas são muitas respostas e sou eu que estou à frente. Isso das sondagens”, atira Cristóvão Carvalho. “E estive a ver, a outra sondagem com mais respostas foi sobre o Ronaldo e teve 12 mil”, diz outro elemento.
A parte da tarde, antes de mais uma entrevista no Now, trará a preparação mais pormenorizada do debate, do local em concreto onde será feito no Estádio ao tipo de postura que deve ter perante os adversários. Qual é a maior base de tudo? A forma como tem sido recebido em todas as Casas que foi visitando ao longo de todas as semanas. “É raro não sair de lá de madrugada, as pessoas gostam muito de perguntar as coisas todas e eu gosto muito de ir explicando o meu projeto a todos”, refere, recordando por exemplo uma passagem recente por Santo Tirso que deixou marca pelos potes de fumo e tochas que foram abertos quando chegou. “E antes fizemos um compasso de espera em Guimarães porque o Rui Costa atrasou-se… Os sócios tendem a ligar notoriedade a credibilidade mas eu tenho notoriedade na minha área de trabalho”, diz. Vendas Novas, Alcobaça, Vila Franca de Xira, Anadia, Albufeira, Castro Verde, Elvas, Campo Maior, Évora, Reguengos de Monsaraz, Santiago do Cacém, Leiria, Vila Nova de Gaia, Esposende, Braga, Santo Tirso, Vizela ou Famalicão foram alguns dos pontos de paragem de uma carrinha caracterizada que tem à porta.
▲ Cristóvão Carvalho passou o último fim de semana na zona Norte, ficando gravado na memória o candidato a receção em Santo Tirso
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Aí, falava sobretudo de futebol. Além dos 75% de títulos domésticos, com três Campeonatos em quatro anos, Cristóvão Carvalho apontava também nesses convívios para os tais três títulos europeus nos próximos 12 anos (três mandatos), colocando como algo obrigatório a presença regular dos encarnados nos quartos da principal prova europeia. Como? Algumas ideias, expressas também no programa: nomeação de um diretor desportivo para implementação da estratégia, 25% do plantel formado no Seixal, retenção de talento, uma política de contratações transparente e projetos mais arrojados como a formação de uma estrutura multi-clube com participações maioritárias em clubes europeus e da América Latina para expandir também toda a rede de scouting e abrir espaço à criação de uma metodologia “Benfica global”.
Não ficava por aí, era sempre um pouco mais abrangente. Falava da criação da Casa do Sócio gerida por um novo Provedor do Sócio, da apresentação dos resultados financeiros consolidados de todo o grupo Benfica, melhoria do Match Day Experience com regresso do Comboio Benfica e uma evolução do Benfica Viagens, BTV gratuita para sócios com quotas pagas, reforço do papel das Casas na vida do clube e novo estímulo na Fundação Benfica com o objetivo de instalar a sede no edifício da Farmácia Franco – e essa promessa de ceder o seu ordenado à Fundação. “A Marca Benfica é reconhecida mundialmente mas acreditamos que pode e deve ser potenciada de forma inteligente, para gerar receitas concretas que financiem o sucesso desportivo. O Benfica precisa de transformar a sua dimensão global em valor tangível, sem nunca perder a identidade”, salientou, com setores estratégicos como Turismo e Lazer, Saúde e Bem-estar e Serviços Financeiros.
– Qual é então esse tal problema de todos os problemas no Benfica?
– Os custos elevadíssimos a subir, as receitas praticamente a estagnar. O que é que todos pensaram? Temos de baixar os custos, aumentar as receitas, agarram numa folha, cortam 15% de custos, querem aumentar as receitas para 500 milhões de euros, assinam isso por baixo. Isso resolve o problema? Não. Porquê? Isso leva tempo, três ou quatro anos. Mas eu tenho um problema anual de 100 milhões de euros, é isso que temos para pagar. Como costumam fazer? Vendem jogadores, receita extraordinária. Na altura em que se apostava na formação ainda se conseguia vender um João Félix, agora é preciso vender oito ou nove e isso não consegue dar estabilidade. A única hipótese foi irmos ao mercado e perceber como se financiam os melhores clubes do mundo, com pessoas que me acompanham e que têm experiência no mercado…
– Os tais 400 milhões de euros, na razão de 100 milhões de euros ao ano.
– Se eu for presidente do Benfica e levar esta equipa temos uma linha de crédito de 400 milhões de euros, a um limite de 100 milhões de euros por ano, para resolver esse problema assim que chegar. Sem tirar esse problema da cabeça, não se monta projeto nenhum. Com qualquer candidato que ganhe as eleições, qualquer um que não seja eu, o Benfica não ganha nada porque não têm o problema de base resolvido. Isto é a mesma coisa que um atleta ser excelente, estar em grande forma, treinar todos os dias mas se tiver por exemplo uma borbulha no pé que lhe dói quando corre, nunca vai correr bem. Aqui, isso são 100 milhões por ano… Porque é que os outros não falam? Porque não sabem como se faz. Eu tenho tudo protocolado, está definido, tenho todas as bases para poder chegar ao Benfica e implementar uma forma de gestão profissional…
– E a questão dos direitos televisivos?
– Isso é só a principal receita do Benfica… O Benfica tem três receitas base: direitos televisivos, que nesta altura estão nos 40 milhões e que são certos, a Liga dos Campeões, que por norma são 50 milhões mas que no ano passado foram 70 milhões pelo Mundial de Clubes mas que são incertas, e a venda de jogadores. São estas. A última, quero acabar com ela e reter os melhores. A segunda é incerta. Só temos uma certa. Então, tenho de agarrar nesta e olhar de uma forma diferente dos outros candidatos. Já percebemos todos que o modelo que foi criado pela Liga não vai funcionar, nem a Liga vale 300 milhões, nem o sistema estruturado com os clubes vai resultar, nem o decreto-lei do Governo alguma vez vai ser implementado. O futebol em Portugal vale pouco, se tirarmos o Benfica não vale quase nada… Eu não vou cortar com nada, quero é ir livre para as negociações e receber em função daquilo que os meus direitos valem, ponto final parágrafo. Logo à cabeça, o que vou fazer é falar com os meus parceiros…
– Mas para estes dois anos entre 2026 e 2028 quanto valem os direitos para o Benfica?
– Uns falam em 60, outros em 70, outros em 80… Eu não parto com nenhum valor, é a minha forma diferente de olhar para as coisas. Uma coisa é certa: vale mais do que 40 milhões. E o que quero fazer? Em 2028, sento-me à mesa e há duas alternativas: ou me apresentam um valor que acho justo, e aceito, ou então aquilo que vou fazer é falar com o parceiro que fique com os direitos entre 2026 e 2028 e ir a jogo também pela compra dos direitos de todos. Se eu quero colocar o Benfica num patamar europeu, isso também de estar refletido nisto e para a Liga é igual desde que receba aquilo que quer. Depois podemos fazer a distribuição pelo Mundo, para África, para a Ásia, para os EUA, para a Europa. E tenho outra vantagem, os jogos do Benfica começam a passar todos na BTV que vai ser gratuita para todos os sócios com quotas pagas…
▲ Cristóvão Carvalho é o único candidato com uma carrinha caracterizada que leva para todo o lado até quando reúne a equipa ao almoço como costuma acontecer em Moscavide
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Cristóvão Carvalho aposta nas ideias que possam ser disruptivas em relação aos direitos televisivos mas não foge a outras questões na mesma ótica, como a necessidade de recompra dos 100% da SAD para aumentar o seu valor para 600 milhões sabendo que, se alienar 20%, vai ficar sempre com mais 120 milhões. Agora o mais complicado será mesmo condensar na íntegra as mensagens que quer passar no debate na BTV para poder deixar de ser aquele candidato com menos “notoriedade” em comparação com os restantes.
O investimento na campanha foi grande, com outras ideias mais “fora da caixa” como a compra de espaços publicitários nas caixas Multibanco ou dois outdoors grandes a poucos quilómetros da chegada ao Porto e a Lisboa pela A1. Agora, a hora da verdade está prestes a chegar. Mas, antes da preparação ainda mais afincada das três horas no canal do clube onde terá de estar no seu melhor, ainda há tempo para passar por Moscavide, mais concretamente pela Delícia de Moscavide, restaurante onde a equipa tem passado vários dias durante a campanha e onde deixa um cachecol assinado por Cristóvão Carvalho e por Isaías. “Tenho esses sacos do 38 há dois anos. Já sabe, se quiser sacos do 39 ou vota em mim ou não tem”, comenta.
[A 14 de janeiro de 1986 um acontecimento muda o rumo da campanha das presidenciais: a inesperada agressão a Soares na Marinha Grande. Nas urnas, o socialista e Zenha lutam por um lugar na segunda volta frente a Freitas. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui.]