Em Lisboa é assim, fora de Lisboa não é diferente. As áreas de serviço espalhadas ao longo da A1 no sentido Lisboa-Porto são uma autêntica romaria de turistas que aproveitam a paragem de 15 minutos do autocarro para mergulharem no melhor que Portugal tem. Bebidas gaseificadas à bruta, muitos salgados pelo meio, a segunda fila que se abre para quem costuma parar apenas para um café enquanto estica as pernas. Muitos dos candidatos à presidência do Benfica têm apanhado este cenário quase todos os fins de semana, onde se despedem cedo de casa e começam aí autênticas romarias até quase de madrugada país fora para chegar ao máximo de Casas do clube possível. No caso de Rui Costa, tudo é diferente. Ele é “diferente”. Tão diferente que veste literalmente várias peles em 24 horas, do fato de treino com que acompanha a equipa nos estágios antes dos jogos ao fato e gravata com que assiste ao jogo da Taça de Portugal em Chaves, passando por uma roupa formal mais casual quando passa de presidente a candidato. Esse vai ser agora o seu Manto Sagrado.
O primeiro ponto de paragem num dia com várias capelinhas para chegar a centenas e centenas de acólitos benfiquistas é Barcelos, neste caso a Casa de Barcelos. É por estas bandas que se percebe como é tudo menos um chavão quando os candidatos dizem que o Benfica não é de Lisboa, é de Portugal e do Mundo. Apenas umas horas depois o FC Porto vai jogar no Estádio Cidade de Barcelos diante do Celoricense para a Taça de Portugal mas, por volta da hora de almoço, desde a rotunda principal com a estátua de um enorme galo que ainda tem no perímetro todos os outdoors gigantes das autárquicas que, quando existe uma camisola ou um cachecol, é quase tudo vermelho. É dia de receber o Maestro – e esse acaba por tornar-se um dos pontos de interesse e de análise, tendo em conta que o peso de ter um presidente ali se confunde de forma inevitável com a figura da antiga glória que usava a camisola 10 e não mais saiu do imaginário de várias gerações.
Problema? Se alguns até chegaram mais cedo para garantir que não falhavam o primeiro momento do dia na cidade, as cerca de 200 pessoas que se encontravam na maioria cá fora tiveram de esperar um bom bocado pelo momento que tanto ansiavam. As conversas passavam pelo encontro da véspera em Trás-os-Montes, onde a vitória e consequente chegada à quarta eliminatória foi aquilo que de melhor sobrou da passagem por Chaves, e pelas eleições. Ali não se comparam programas, ideias, nomes ou projetos, ali fala-se daquele de quem se gosta mais ou menos, ali há mais de duas décadas de Benfica à luz de um antigo rei e de um atual “príncipe herdeiro”. “Temos de votar é no Rui Costa, o Vieira passou por aqui três vezes e nunca nos deu nada”, atira um adeptos. “Já te disse que vou votar outra vez no Vieira”, responde outro, desligando de seguida da conversa por perceber que ali não estava em maioria. Mais uns olhares para o relógio, mais umas passagens pelo bar que está no piso de baixo da casa (em cima existe o espaço de loja, com merchandising do clube), mais umas barrigas a roncar de fome para o almoço. “Então mas o homem nunca mais chega?”.
▲ Rui Costa começou o dia na Casa de Barcelos atrasado depois de (mais) uma entrevista mas nem por isso os 200 adeptos desmobilizaram antes da chegada do presidente dos encarnados
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
O “homem” está com um atraso que marcará depois o resto do dia. Após ter estado em Chaves a ver o jogo do Benfica em Chaves, Rui Costa passou de manhã pelos estúdios da SportTV no norte para mais uma entrevista que em termos de calendário só podia ser naquele buraco e foi aí que o tempo começou a resvalar. Por volta das 13h15 chegam à Casa José Pereira da Costa, presidente da Mesa da Assembleia Geral do Benfica (que em termos estatutários é a figura número 1 do clube), e José Gandarez, vice-presidente da Direção, que trocam algumas impressões com sócios e adeptos que há muito estavam no espaço, 20 minutos depois surge aquele momento pelo qual todos esperavam. “Peço desculpa, peço mesmo muita desculpa”, diz Rui Costa à saída do carro em frente à Casa, enquanto um adepto lhe coloca logo um cachecol vermelho ao pescoço.
De 2021, altura das últimas eleições dos encarnados, para cá, existe uma diferença que entra pelos olhos: o número de telemóveis no ar a filmar todos os momentos. Até mesmo aquelas versões mais antigas dos Nokia que achávamos contar só com o jogo da cobra para distrair têm afinal câmara que, por pior que seja, serve para gravar o momento em fotografias e imagens. “Oh Rui, se vens com fome prepara-te que não vais comer assim tão cedo”, diz um dos presentes com mais idade. Rui Costa é autenticamente engolido por todos os adeptos, dos mais novos aos mais velhos. Não recusa uma fotografia, não recusa um autógrafo, tem momentos em que o passado de jogador lhe prega partidas. “Esta camisola ainda te faz chorar, não?”, refere outro benfiquista. “Esta tem muitas memórias, quando a vejo lembro-me de tudo…”, atira entre sorrisos ao assinar uma camisola rosa que era o equipamento alternativo na última época como jogador em 2007/08.
No meio de todo o turbilhão até Rui Costa entrar na Casa, há outro elemento que se destaca. De camisa, de colete, bem aprumado, a dar nas vistas mesmo sendo um dos poucos que não tem nada alusivo ao Benfica: Carlitos, antigo extremo dos encarnados entre 2000 e 2004 conhecido como a “Flecha” que chegou a ter contrato com o Real Madrid apesar de nunca ter jogado pelos merengues, distribui abraços e cumprimentos entre pessoas que conhece não só do Benfica mas da própria cidade de Barcelos, onde nasceu, cresceu e ainda hoje reside e tem a vida profissional. “Vou prometer uma coisa: não se preocupem porque eu não deixo de tirar uma fotografia nem de dar um autógrafo a ninguém mas também temos todos de ir andando para o restaurante”, pedia Rui Costa. Antes, assina a parede onde tem uma enorme imagem como jogador com os números feitos pelo clube (213 jogos, 37 golos, 17 vezes capitão, 1 Campeonato e uma Taça): “Para a nossa Casa de Barcelos, com um forte abraço do amigo Rui Costa”. E ainda bebe um café quando começa a haver a desmobilização de pessoas rumo ao Solar das Fontes, onde está marcado o almoço para cerca de 300 pessoas.
▲ Rui Costa teve dois momentos particularmente especiais na Casa de Barcelos: assinar uma camisola da última época como jogador e deixar uma dedicatória na parede com a sua imagem
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
“Nunca estive a ser preparado para assumir a presidência mas para fazer as funções que me foram atribuídas. Não era para estar a estudar ou a preparar-me para presidente. Depois os anos no clube deram-me uma preparação para poder assumir a responsabilidade. A palavra impreparado… É como quisermos ler a frase. Podemos ler a frase, podemos ligar só à palavra. Não há ninguém que esteja preparadíssimo para estar à fazer de uma coisa e, no mesmo dia à noite, ser presidente do Benfica. Jamais assumiria um cargo desta dimensão e responsabilidade se não me considerasse preparado para o que tinha pela frente”, voltou a dizer o presidente agora recandidato em entrevista. Esse é um dos pontos que Rui Costa vai tentando dizer, reforçar e enfatizar em todas as conversas que vai tendo sobre o trabalho feito desde 2021. Por um lado, gosta sempre de colocar-se como alguém que agarrou no clube quando estava sem líder. Por outro, destaca a bagagem que foi ganhando ao longo do tempo – mesmo que os resultados não tenham sido aqueles que mais desejava.
“Ninguém esperava que tivesse de virar presidente da manhã para a noite, ninguém está preparado para isso. Mas nunca me escondi, dei a cara e assumi, sabendo a responsabilidade que tinha pela frente. Não podia deixar de dar a cara pelo clube num momento tão importante porque era um dia muito perigoso para a vida do clube. Não me escondi nesse dia, nunca me escondi, não era agora que me ia esconder. As pessoas esquecem-se que em 2021 não era do que se ganhava que se falava, era de outras coisas… Não caí aqui de paraquedas, estive sempre aqui. Os benfiquistas conhecem-me, eu não sou um benfiquista de ocasião. Restituímos a credibilidade no Benfica”, salientou num prolongamento mais pormenorizado daquela que ficou como mensagem de arranque da candidatura em julho, depois da presença no Mundial de Clubes.
“O prometido é devido, o meu compromisso é o de sempre, porque no Benfica não se desiste. No momento mais difícil disse presente e avancei. Garantimos estabilidade. Porque é preciso fazer o que é assumo à Benfica que sou recandidato. O foco total é na preparação da próxima época desportiva. A minha prioridade é clara: criar todas as condições para uma época à Benfica. Ninguém mais do que eu deseja vencer e fazer crescer esta ambição e continuar a escrever a história do maior de Portugal. Voltamos com energia renovada e a mesma paixão de sempre. É este o compromisso que queremos continuar a honrar. Com a chama imensa, que viva ao Sport Lisboa e Benfica”, apontou num vídeo que foi partilhado nas redes sociais.
“Só o Benfica Importa! Há algo que se mantém inalterado: os princípios que fundaram o Benfica! É um clube popular por essência, universalista por exigência dos fundadores e eclético por necessidade de valorizar o atleta, qualquer que fosse a sua modalidade, o nosso clube impôs-se, desde sempre, pela ética desportiva e por um modelo de gestão que a respeitasse. Campeão europeu em diversas modalidades, vencedor de provas continentais, intercontinentais e de relevantes torneios internacionais, formador de campeões e com diversos atletas medalhados em olimpíadas, o Benfica é um clube universal, conhecido e presente em todos os cantos do mundo e com adeptos de todas as nacionalidades. Esta multiculturalidade, esta ambição de vitórias, aliadas a um comportamento social ético, leva-nos a gritar, com aquele jeito que o maior de todos nós nos deixou, Eusébio da Silva Ferreira: em cada golo, o Benfica!”, defende no seu programa.
▲ Chegada para o almoço em Barcelos foi assinalada com potes de fumo antes de entrar numa sala cheia com 300 benfiquistas
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
“Com uma massa associativa dinâmica e participativa, que tantas vezes coloca o clube acima de todas as outras prioridades, dirigentes abnegados, atletas que atuam no limite das suas forças e funcionários que fazem do Benfica a sua vida, não há quem por aqui passe que não repita que ‘o Benfica tem uma mística especial e única’. Não podemos deixar que a representação territorial do clube, corporizada nas suas Casas, fique sem a referência de excelência que nos vincula: o papel absolutamente decisivo que desempenham na ligação entre o Benfica e os seus sócios e adeptos, independentemente da sua residência ou nacionalidade, obriga-nos a assumir o redimensionamento das ‘Casas do Benfica’, na inclusão, participação e aproximação da alma e do coração dos benfiquistas ao clube. O Benfica, assumimos, não está completo sem que um sócio, esteja onde estiver, viva onde viver, se sinta, nessa condição, pleno e em casa! É por isso que ‘Só o Benfica Importa’ (…) Se servir o clube é uma obrigação de todos os sócios, servi-lo com rigor, ética e responsabilidade é o nosso dever, enquanto candidatos a dirigentes do Benfica”, acrescenta.
[A 14 de janeiro de 1986 um acontecimento muda o rumo da campanha das presidenciais: a inesperada agressão a Soares na Marinha Grande. Nas urnas, o socialista e Zenha lutam por um lugar na segunda volta frente a Freitas. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui.]
– No discurso que teve aqui em Barcelos, mostrou que é alguém que liga muito à simbologia das coisas, neste caso por ter sido aqui que começou a campanha de 2021 e por ter sido contra o Gil Vicente que se sagrou campeão. Vamos agora a uma outra simbologia: no dia das eleições, o Benfica vai jogar com o Arouca…
– É e já no passado tivemos alguns dissabores nesse embate. É uma equipa tradicionalmente difícil para nós mas acho que é um dia em que… Antes de mais, até posso fazer já um apelo: há eleições, há necessidade de toda a gente ir a votos, queremos que todos os benfiquistas possam votar e daí estarmos a fazer a maior operação de sempre. É uma pena que nem toda a gente possa votar, sobretudo muita gente que está no estrangeiro e lamentamos muito isso. É um dia eleitoral mas o apelo que faço é que durante aqueles 90 minutos não haja eleições, haja apenas o Sport Lisboa e Benfica contra o Arouca. É um jogo de extrema importância para o Campeonato e que naqueles 90 minutos esteja tudo só concentrado no jogo, a equipa precisa.
– Se na época passada o Benfica não empata esse jogo e fosse campeão, quantos candidatos iria enfrentar?
– Provavelmente era algo que alterava tudo e é isso que me faz também estar aqui. Se tivesse tido esse mandato assim… Fala-se muito na quantidade de vitórias que o Benfica devia ter tido, sou o primeiro a assumir isso mas de qualquer forma o que fizemos neste percurso de quatro anos e aquilo que foi a época passada faz-me dizer que não há equipa ou clube no mundo que esteja mal quando está a lutar por todas as competições. É verdade que não ganhámos, é verdade que no Benfica não festejamos vitórias morais nem existem mas faz-me acreditar que o plano está bem traçado e é uma questão de a bola entrar ou não entrar num momento crucial. O Benfica tem disputado todas as competições até ao limite e sem esse empate, se tivéssemos com isso sido campeões, não estávamos com seis candidatos, não estávamos com toda esta azáfama… Mas percebo, o clube vive de títulos, todos vivemos de títulos e nós também queremos isso.
– Numa primeira fase da campanha queria sobretudo justificar aquilo que não tinha corrido bem no mandato, a partir de certa altura percebe-se que é alguém cada vez mais confiante. Qual foi o gatilho para essa alteração?
– Não há propriamente um gatilho, há um timing de campanha. Não pude fazer a campanha como outros candidatos, que tiveram toda a disponibilidade do mundo. Eu privilegiei o fator presidente e continuo a fazê-lo. Não esquecer que viemos de um Mundial de Clubes com 60 jogos feitos, os jogadores tiveram dez dias de férias e dez dias de pré-temporada para fazermos a Supertaça contra o Sporting e termos as eliminatórias pela Liga dos Campeões. Mais do que as eleições, aquilo que mais me importava era que o Benfica ganhasse, como aconteceu. Começo a minha campanha muito mais tarde porque privilegiei isso, nunca deixei de ser presidente ao longo deste período e não há tanta disponibilidade de tempo mas importava explicar o que se passou, ser presidente obriga a isso. Os meus adversários falam no meu mandato e apontam ao futuro, eu primeiro quis explicar aos adeptos o que achava dos primeiros quatro anos e depois explicar o que tinha daqui para a frente, a razão pela qual quero continuar a ser presidente do Benfica. Não por egoísmo, não apenas pelo amor pelo clube mas porque sei o que foi feito ao longo destes quatro anos em que preparámos o clube para um futuro melhor do que encontrei há quatro anos.
– Falou nessa questão, o Benfica não ganhou tanto como queria mas diz que está mais preparado e mais próximo de ganhar. Também disse que se sentia mais preparado como presidente. O que é que mudou para nesta altura sentir-se de tal forma preparado a ponto de dizer que gostava de ser melhor presidente do que foi jogador?
– São dois aspetos diferentes… Qualquer pessoa em qualquer profissão com o passar dos anos se não melhorar, alguma coisa não está certa. Em relação ao querer ser melhor presidente do que jogador, é a minha ambição. Se eu não tivesse isso como ambição, também tinha escolhido mal este cargo…
– Mas é uma fasquia que fica muito alta…
– Sim, é uma fasquia grande que coloco a mim próprio. Se considerar que não tenho qualidade para ser um presidente bom e forte, estou a mais no clube e nunca faria essa maldade ao meu clube porque mais amor que possa sentir. O amor também representa isso, se percebesse que não estava em condições de ser presidente ou de fazer um bom trabalho não iria impedir o clube de crescer aquilo que sonho que o clube cresça. É uma ambição e o meu despertar a cada dia tem de ser para ser melhor cada dia nesta profissão do que fui. É a ambição, se eu chego lá ou não, logo veremos.
Foi essa extensão que Rui Costa voltou a tentar fazer ao longo de mais um dia de visitas a Casas. A viagem da Casa de Barcelos para o restaurante onde vai almoçar com todos os inscritos que enchem a maior das salas é curta, de cerca de dez minutos, mas a chegada é como tantas outras: dois potes de fumo branco, um de fumo vermelho (daqueles que uns segundos a mais na área deixa marca, nos ténis ou na própria camisa), euforia total com adeptos a saltarem uns em cima de outros para terem a oportunidade de abraçar o Maestro. A chegada é apoteótica, o pequeno caminho até à sala é aproveitado para algumas declarações de circunstância à imprensa, o primeiro aceno levanta tudo e todos incluindo os próprios empregados a gritarem o nome do Benfica. Sempre que ouve cânticos que se assemelham ao ambiente de estádios, levanta a mão direita e veste a pele de “mais um”. Afinal, ele é mais um entre as centenas de sócios e adeptos ali concentrados.
A lona que assinala a presença de Rui Costa mostra muito do que tem sido a campanha. A lista G da lista “Só o Benfica Importa” está sempre a presente, para que deixe a imagem guardada da letra que quer ver todos a escolherem no dia 25, as fotografias contam o resto da história: o miúdo Rui Costa com a braçadeira de capitão, o jogador Rui Costa ainda na década de 90 quando foi campeão pelo clube, a glória Rui Costa nos dois anos que cumpriu na Luz antes de terminar a carreira entre 2006 e 2008, o presidente Rui Costa que está a cumprir os últimos dias do primeiro mandato. À frente, o candidato Rui Costa vai cumprimentando tudo e todos numa passagem por várias mesas que o vão aplaudindo. “Onde é que está o microfone? Pessoal, só 30 segundos de atenção, por favor. Antes de mais, peço muita desculpa pelo atraso, se não se importarem faço o discurso depois. Já é tarde, estou a ver aqui muitas crianças e por isso vamos primeiro comer mas não tenham problemas porque não há ninguém que saia daqui sem uma foto ou um autógrafo, não se preocupem. Então falo depois, melhor ou pior consoante aquilo que me derem para beber”, brinca.
▲ Carlitos, antigo jogador do Benfica, marcou presença na passagem por Barcelos onde Rui Costa se fez acompanhar por José Pereira da Costa, José Gandarez e Nuno Costa
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Durante 45 minutos, Rui Costa, com José Pereira da Costa, José Gandarez e Nuno Costa, está numa mesa com pessoas da Casa do Barcelos e tem um período de “normalidade” possível. Aliás, é um período quase de “pausa” para todos, quase esquecendo que na sala está o presidente e recandidato à liderança do Benfica e é apenas um almoço convívio entre fervorosos adeptos que levam a paixão pelo clube ao limite até na farpela utilizada para o dia especial. Só as entradas são quase um almoço, o lombo e as sobremesas ajudam ao resto, garantidamente ninguém sai dali com fome (e para quem vai para a sala ao lado, aberta para qualquer pessoa que vá apenas almoçar fora num sábado, a opção de arriscar uma feijoada minhota confirma que fome é coisa que não haverá até à hora de ir deitar de madrugada…). Chegava a hora do (agora) esperado discurso.
“Senti mesmo que tinha de ser assim. Do Benfica, nunca se desiste. É por isso que estou aqui com um grande orgulho, como todos vocês sabem Barcelos é um local que me diz muito”, começa por referir Rui Costa, que recorda que foi ali que começou a campanha nas eleições de 2021, numa altura em que era um líder interino depois da saída de Luís Filipe Vieira, e que foi contra o Gil Vicente, neste caso num campo emprestado que não o antigo Adelino Ribeiro Novo mas sim em Braga, que se sagrou campeão pelos encarnados em 1994 depois do jogo chave com a mítica vitória por 6-3 em Alvalade frente ao Sporting. “Estar aqui é quase como estar em casa e foi aqui que falei na questão dos sócios. Já temos 400 mil, vai haver uma renumeração mas queremos chegar ao meio milhão”, prossegue. “E vamos Rui, e vamos!”, grita-se. “Não foram quatro anos fáceis mas nunca me escondi e sei a frustração por causa da época passada porque nós podíamos ter ganho tudo e estivemos na luta até ao final para chegarmos a isso”, volta a frisar no discurso.
“Fomos roubados, fomos roubados”, diz um sócio numa mesa mais ao centro. “Oh Rui mas nós temos é de ganhar…”, atira outro mais à esquerda do local onde o líder dos encarnados está a discursar. “Acreditem, não há ninguém aqui que queira ganhar mais do que eu. Acreditem, não há, ninguém quer ganhar mais do que eu, vocês conhecem-me. Agora, sei que o clube ficou muito mais preparado com estes anos”, destaca, antes de algumas partes do discurso onde deixa “farpas” a Luís Filipe Vieira e João Noronha Lopes sem nunca falar do nome dos adversários. “Podemos discutir se ganhamos muito ao pouco, podemos discutir se financeiramente estamos bem ou mal mas há quatro anos não eram estas as conversas que estávamos a ter… Temos todo um caminho para percorrer, já atingimos o marco histórico dos 400 mil sócios, vamos chegar aos 500 mil. Estou extremamente otimista com o nosso futuro. Desculpem a presunção mas vocês conhecem a minha história, não caí aqui de paraquedas. Sabem quem eu sou. Estamos muito prontos”, aponta.
▲ Rui Costa recebeu uma lembrança de Barcelos depois do discurso prometido a todos os presentes depois do almoço
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
“Construí uma grande equipa e agradeço a todo o elenco que aceitou fazer parte desta lista, logo à cabeça com o nosso capitão Humberto Coelho que foi operado à anca mas está tudo bem, não se preocupem. Ele está bem. Vai ser isto: queremos chegar aos 500 mil sócios, queremos chegar aos 500 milhões de euros de receita. Apesar do que dizem, somos o clube com a melhor situação financeira em Portugal. Vejo muita gente a ficar intimidada pela forma como o Benfica vai crescer. E temos também o Benfica District, que vai melhorar e muito as infraestruturas ao nível dos melhores mas que, sendo um investimento grande, para quem não tenha seguido com tanta atenção, é à parte do futebol”, prossegue Rui Costa num discurso onde faz uma pequena pausa quando sente mais ruído na sala: “Calma, isto aqui ninguém vai sair sem pagar!”.
“Aqui nesta Casa não tenho de explicar muitas coisas, tenho é de estar perto de vocês. Não prometo mais do que aquilo posso cumprir. É isto que me faz estar nesta posição, com coragem. Eu venho daqui, do meio de vocês, e quero continuar assim, quero continuar a dar a vida por este clube. Aqui só o Benfica Importa”, frisa enquanto olha para a mensagem igual que tem no cartaz nas suas costas. “Em Lisboa há muita gente que acha que o Benfica é só de Lisboa mas o Benfica não vive só de Lisboa, é do país e do Mundo. Só assim é que pode ser Benfica. Viva o Benfica!”, concluiu, antes de mais uma ovação de pé e a entrega de uma recordação ligada a Barcelos (com um galo, como não poderia deixar de ser) enquanto se houve o hino do clube. No meio da confusão enquanto tudo isso acontece há umas pingas de um copo que caem nas costas da camisa de Rui Costa mas nada é um problema ou impede nova sessão de fotos e autógrafos agora lá fora.
Há sempre uma ou outra “boca” contra a corrente. Por exemplo, um dos sócios fez questão de recordar que Rui Costa tinha prometido passar por Barcelos quando o Benfica ganhasse o 38.º Campeonato, Rui Costa puxou a fita atrás para dizer que antes de um jogo em Guimarães tinha ido à Casa de Barcelos, tudo amigo como antes e como sempre. Ali como em várias outras Casas que vai percorrendo, o presidente das águias sabe que basta “falar Benfica” para garantir o seu eleitorado, não tendo necessidade de passar por temáticas mais complexas que têm marcado a campanha eleitoral a seis em 2025. “Queremos que os nossos ídolos não caiam no esquecimento e que sejam lembrados por todos vós. Que ao mesmo tempo os possam ver, não como estátuas, mas a participar na história e vida do clube. Para isso, é necessário que consigamos também fazê-los voltar à casa. Se estivermos unidos e juntos, somos imparáveis”, tinha referido ali em 2021.
Tal como enfatizou naquele primeiro discurso em pleno relvado da Luz, em julho desse ano, Rui Costa vai sempre explicando ali que “nunca quis nem será um príncipe herdeiro de nada” e puxa pelos quase 35 anos desde que vestiu pela primeira vez a camisola do Benfica num encontro oficial. Mais: sabendo que Noronha Lopes será agora o adversário mais direto, percebe também que ali o seu principal rival acaba por ser mesmo o antecessor, Luís Filipe Vieira. Podem falar-lhe do antigo presidente, podem comentar para si ou para os outros que vão votar Rui Costa ou Vieira mesmo gostando dos dois. Em nenhum dos cenários existe uma resposta direta do atual presidente dos encarnados. No entanto, essa é uma das figuras que lhe causa mais mágoa ao longo do percurso que teve de ir trilhando ao longo dos últimos quatro anos no poder.
“Quando assumi estávamos a meio do empréstimo obrigacionista, estávamos a horas de sair das competições europeias. Não sou um herói, jamais podia ter dito que não ao Benfica. Mas jamais deixaria de ocupar este cargo porque era um sonho de criança. Os benfiquistas não têm um louco à frente do clube, disse sempre que a parte financeira auxiliaria a desportiva. Se há quatro anos não tive medo de assumir a responsabilidade e me senti preparado para segurar o Benfica, mais fácil hoje é para mim trabalhar o Benfica daqui para o fim”, apontou durante a campanha em respostas às críticas de Luís Filipe Vieira. Se em relação a Noronha Lopes e João Diogo Manteigas, sobretudo estes dois, Rui Costa vê adversários “políticos”, o antecessor deixa mágoa por algumas considerações que foi tendo e pelas palavras duras que foi utilizando na campanha.
▲ Rui Costa tentou aproveitar as curtas paragens na agenda para ficar sozinho e ver as mensagens que tinha no telefone
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
“São palavras muito claras. Falar assim publicamente de uma pessoa que esteve com ele não é agradável. Não vou estar aqui a esconder. Fica-me essa dúvida por que me manteve lá esses anos todos. Quem fala assim de mim, não é uma pessoa amiga. Se já nos cruzámos? Não é normal cruzar-me com ele. Há quatro anos que houve esta mudança no Benfica e cruzei-me com ele uma vez em tribunal porque fui representar o Benfica enquanto presidente. Foi a única vez que me cruzei com essa pessoa. Se tiver alguém que seja tudo o que disse, de certeza que não trabalha comigo. Essa parte deixa-me mágoa. As pessoas deviam ser mais honestas umas com as outras. Não merece resposta, nem que perca tempo com isso”, referiu o atual líder.
Em relação aos outros candidatos, que também não merecem grandes comentários de Rui Costa aos adeptos neste dia tendo em conta os objetivos que pretende com estas visitas, sobraram as críticas não só ao que se passou na Assembleia Geral mas também ao que já descreveu como “campanha suja” – e que às vezes tem a atualidade a ser mais rápida do que a capacidade de acompanhar tudo, a ponto de o próprio admitir ao Observador que não tinha visto sequer a notícia sobre as queixas pelo uso indevido de dados dos associados.
“O que se passou na Assembleia Geral do Benfica envergonha o nosso clube. Não foi obra do acaso. Foi uma manobra orquestrada, planeada e executada por uma candidatura que procura transformar o Benfica numa arena de insultos, mentiras e agressões à dignidade das pessoas. Não aceitaremos que a honra e a honestidade de quem dá a cara pelo Benfica sejam pisadas por quem apenas sabe recorrer à difamação. Os benfiquistas têm de saber: há uma candidatura que manipula sondagens, que manipula a campanha eleitoral com voluntários plantados a falar para as televisões à porta do Estádio da Luz e dos estádios onde o Benfica joga, que manipula Assembleias Gerais, que apupa e assobia sócios que vêm de longe manifestar as legítimas preocupações daqueles que não moram em Lisboa ou em Portugal, que chumba contas com 30 milhões de lucro e depois encurrala o clube numa solução que o obrigará a gastar milhões de euros para assegurar o direito de voto a muitos mas não a todos”, defendeu em comunicado depois da última reunião magna.
“O Benfica não é um exclusivo de alguns privilegiados de Lisboa que se acham uma elite acima dos sócios. O Benfica é de todos – do norte e do sul, do litoral e do interior, das grandes cidades às aldeias mais remotas, dos Benfiquistas espalhados por Portugal e pelo mundo. Ninguém nos dividirá. A candidatura de Rui Costa diz basta a estas manobras vergonhosas. Não temos medo do povo benfiquista, nós respeitamos todos os benfiquistas. Não temos medo da democracia. Pelo contrário: exigimos que sejam todos os sócios a escolher o futuro do Benfica. E lutaremos até ao fim para garantir que o voto de cada um vale tanto quanto o voto de todos. O Benfica é dos sócios. Todos”, acrescentou a lista G ao sufrágio das águias.
▲ Rui Costa cantou o hino, deu o mote para outros cânticos do Benfica e rumou de Barcelos para Braga
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
“Campanha suja? Provavelmente está a falar também para ele próprio porque é preciso ir às redes sociais e perceber o que tenho sido ofendido e maltratado por perfis falsos, de empresas que ainda há bem pouco tempo, em termos políticos, foram corridas da política por esses motivos – e isso foi divulgado pelo Expresso”, atirou, em três ocasiões, neste caso visando João Noronha Lopes. “Passou pelo clube 58 dias e nem sequer chegou a sentar-se no lugar. Essa é uma coisa que me faz muita confusão, está tudo preparado de imediato para perceber de tudo e mais alguma coisa”, referiu numa outra ocasião. “Estou farto de ouvir que Noronha Lopes copiou muitas coisas de outros programas e já vi muitas coisas que são copiadas do nosso programa, a nível de números. Não adianta fazer programas com 300 páginas, até posso fazer um com 500. Temos uma incompatibilidade entre o que se sonha e o que é a realidade de um clube”, disse este domingo à CMTV. “Se eu li o programa dele? Não li mas já vi muitas coisas sobre os 500 mil sócios e ele próprio admitiu que copia muito dos outros programas”, apontou de seguida. A “bipolarização” tem sido mais evidente.
Sobre o futebol, nesta altura parece ser uma questão “congelada”. Quando os adeptos abordam Rui Costa neste tipo de eventos, aquilo que sobra é confiança e esperança de que o efeito Mourinho se comece a fazer sentir, nomeadamente com uma resposta em Newcastle para a Liga dos Campeões como mola ou uma rampa de lançamento. A própria campanha do presidente/candidato teve um primeiro momento com o mea culpa por não ter ganho tanto como desejava e saltou depois para outra fase recordando todas as mexidas que foram feitas no departamento de futebol nos últimos meses. É aqui que a carruagem de associados entra em Barcelos, algo que se veria também em Braga, em Santo Tirso e em Abrantes… com o tempo a “apertar”.
– Faz também algumas alterações às listas que apresenta. Porque é que muda? Isso tem a ver com o novo projeto que tem para o mandato até 2029?
– Antes de mais, gostaria de agradecer a todos os que me acompanharam nestes quatro anos, que tanto deram ao Benfica e que não irão agoira seguir na Direção que vai a votos e se for eleito. Fui a situações mais específicas, a cargos e pelouros mais específicos naquilo que é este elenco. Acredito ter feito uma equipa extraordinariamente positiva, com grande capacidade, com grande benfiquismo e estou muito contente com a aceitação das pessoas que convidei para entrar nestas listas para dar também uma alma nova. Estou satisfeito, fizemos uma lista que me vai ajudar muito a chegar aos objetivos que temos para o clube mas não deixo de agradecer a quem me acompanhou.
– Quando chega a este tipo de convívios, em Casas ou restaurantes, sente que as pessoas olham mais para o que têm no imaginário do Maestro jogador, para o presidente, para o candidato ou para o símbolo? A quem é que as pessoas pedem autógrafos?
– Acho que pedem à figura total, neste momento penso que pedem à figura total. Não esquecem o meu passado no Benfica, são pessoas que reconhecem o meu trajeto, que sabem que tenho um amor igual ao deles pelo clube e isso parte do princípio do Rui Costa jogador que muitos deles admiraram mas não deixam de dar apoio ao presidente, à figura do clube e que é uma pessoa considerada pela grande maioria uma pessoa igual a eles. Isso é um grande motivo de orgulho para mim porque é assim que me sinto. Se na primeira eleição poderiam olhar mais para a figura, hoje já só olham para quatro anos e continuam aqui não só pelo Rui Costa jogador mas pelo que sabem sobre o que o Rui Costa pode dar ao clube e o que o Rui Costa nunca tirará ao clube, que é a dignidade.
▲ Rui Costa chegou a Santo Tirso entre tochas e potes de fumo, numa passagem pela Casa do clube na cidade que teve adeptos que não conseguiram conter as lágrimas de emoção
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
– Hoje [Sábado] aparece mais uma notícia paralela à questão da campanha, neste caso sobre dados de sócios que teriam sido indevidamente partilhados. Já esperava que as coisas fossem para este tipo de polémicas? E acha que tem algum impacto quando visita por exemplo locais como Barcelos, que sai também daquilo que é mais uma bolha em Lisboa?
– Acho que há pouca noção do que é o Benfica fora de Lisboa e esta passagem pelas Casas, o jogo no Norte, os jogos fora do país são uma demonstração daquilo que é a grandeza do Benfica e da força do Benfica. O Benfica não é só Lisboa, está em todos os cantos do Mundo e essa é a grande mais valia que este clube tem. É preciso ver o Benfica de forma muito mais global, se dependêssemos só dos adeptos de Lisboa o Estádio da Luz não enchia semanalmente. São pessoas que estão mais longe de Lisboa, que fazem grandes sacrifícios para acompanhar o clube e que merecem todo o respeito e esta é a visão que se tem de ter do Benfica…
– …
– Se achava que a campanha viesse por aqui, não. Não esperava mesmo que fosse assim, pelos veículos por onde está a vir. Dou alguma coisa de barato, percebo que são seis candidatos e que haja alguma fricção mas importa percebermos que não somos partidos políticos a combater uns contra os outros por uma eleição autárquica, legislativa ou presidencial. Somos todos do mesmo clube e a partir do momento em que haja um novo presidente ou que seja eleito o futuro presidente, que exista também a responsabilidade dos seis. De quem fica, de unir o clube, de quem não fica, de ser responsável por não desunir a família benfiquista. É preciso tornar o clube governável e forte porque se temos o orgulho ou a vaidade de dizer que somos o maior clube do país e com a maior massa associativa, só somos válidos se estivermos juntos e não fraturados. Aliás, se estivermos fraturados é pior ainda sermos desta dimensão… Que haja responsabilidade dos seis candidatos para perceber que o Benfica não é de A, B, C ou D, só há um Benfica.
A conversa combinada com o Observador cumpriu os 10/15 minutos previamente falados, até porque havia sempre a possibilidade de ir trocando ideias ao longo do dia, o problema era outro: Rui Costa faz questão de nunca sair de um lugar para o outro sem cumprimentar toda a gente que se deslocou para apoiá-lo. E é por isso que o atraso de uma hora e meia que já levava quando chegou a Barcelos passa para 1h45 na passagem por Braga e cerca de duas horas em Santo Tirso. A candidatura do líder dos encarnados acabou por fazer a ponte com a candidatura de Cristóvão Carvalho, que tinha uma sessão de esclarecimentos marcada para as 19h30, para que não se “atropelassem” nessa paragem por outra das casas emblemáticas no norte do país (um pouco mais tarde nesse dia Noronha Lopes também passaria por Paredes). Uma boa oportunidade para ouvir também as próprias pessoas de uma Casa com vários daqueles votantes já com direito a 50 votos.
Há um ponto importante que fazem questão de respeitar: qualquer candidato tem sempre a mesma receção. Ou seja, e da mesma forma como Rui Costa foi recebido com tochas, potes de fumo e cânticos, Cristóvão Carvalho teve uma chegada igual (com tudo contado para haver total equidade). Depois, a ligação de todas estas pessoas ao clube: há sempre autocarros a rumar a Lisboa quando o Benfica joga na Luz, são um dos pontos com mais bilhetes vendidos quando a equipa joga no Norte, têm uma faturação assinalável de todos os materiais oficiais que compram aos encarnados para venderem na Casa. Questões como os 70 a 100 euros que gastam em casa deslocação à Catedral ou as chegadas tardias de madrugada nesses compromissos são secundarizados perante a possibilidade de apoiarem o clube. Aqui, o Benfica vive-se mesmo a sério.
▲ Entre camisolas e cachecóis, Rui Costa assinou também bonés com um pedido: "Make Benfica Great Again"
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
“Olha, eu não gosto cá de trafulhices. Era às 17h15, ainda não chegou, vou-me embora. E vou votar mesmo no Vieira”, atira um dos presentes com o passar dos minutos, antes de ser alvo de várias brincadeiras de amigos que ficam por ali. “Ele diz aquilo porque está dividido mas na altura ainda vai para o Rui Costa”, explica-nos um dos presentes, que assume que também ali existe uma bipolarização entre atual e antigo presidentes. Ali, onde também marca presença o antigo vice Sílvio Cervan, a veneração ao Maestro atinge o extremo: entre mais pedidos de desculpa pelo resvalar da hora, justificado pelas dificuldades que sente em sair do local de paragem anterior, Rui Costa é engolido pelos fumos brancos e vermelhos que o esperam, acaba quase placado entre gente que lhe quer apenas dar um abraço, canta o “Assim se vê a força do SLB” como se fosse mais um adepto sempre de braço direito no ar e entra na Casa onde há mesmo quem chore apenas pela emoção de poder estar frente a frente com o presidente. O discurso, esse, é muito semelhante aos anteriores.
“Tem de ser à primeira Rui, tem de ser à primeira”, ouve Rui Costa quando sai do espaço onde autografou chapéus com “Make Benfica great again“. Ainda há mais uma viagem por fazer até Abrantes para terminar o longo dia, ainda haverá na Casa mais uma receção a um candidato à presidência como é Cristóvão Carvalho. Rui Costa está nos antípodas de Donald Trump apesar dessa frase replicada da campanha do atual líder dos EUA mas cumpriu mais um objetivo aí semelhante ao presidente norte-americano: percebendo que as eleições mais concorridas de sempre do Benfica colocarão em jogo mais do que os principais estados, que neste caso aponta mais para um em comparação com os restantes (Lisboa), Rui Costa continua a consolidar posição em zonas que nem sempre merecem tanta atenção mas que podem fazer a diferença no sufrágio. E, por horas que fossem, conseguiu centrar o foco das atenções naquilo que quer: falar “apenas” sobre Benfica.