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epaselect epa11810641 NVIDIA founder and CEO Jensen Huang speaks during the NVIDIA keynote at the 2025 Consumer Electronics Show being held at the Mandalay Bay hotel in Las Vegas, Nevada, USA, 06 January 2025. CES, the world's largest annual consumer technology trade show, is a place where industry manufacturers, advertisers and tech-minded consumers gather to view new innovations coming to the market each year. CES takes place from 07-10 January 2025.  EPA/ALLISON DINNER
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▲Jensen Huang, CEO da Nvidia, comentou os receios de bolha. "Do nosso ponto de vista de vantagem, vemos algo muito diferente”

ALLISON DINNER/EPA

▲Jensen Huang, CEO da Nvidia, comentou os receios de bolha. "Do nosso ponto de vista de vantagem, vemos algo muito diferente”

ALLISON DINNER/EPA

Nvidia bate recorde atrás de recorde e volta a surpreender no último trimestre. É suficiente para acalmar os receios de uma bolha na IA?

Lucro da Nvidia cresceu 65%, superando as estimativas de Wall Street. Resultado acalma "nervosismo de curto prazo” sobre uma “bolha na IA”, mas “não encerra definitivamente o tema”.

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Mais receitas, mais lucro, “unidades de processamento gráfico de cloud esgotadas” e uma “procura por infraestrutura de IA que continua a exceder as expectativas”. Foi assim o trimestre da gigante Nvidia, a empresa mais valiosa do mundo, que apresentou contas ao mercado esta quarta-feira, após o fecho de Wall Street.

Uma das protagonistas no setor da IA, a empresa norte-americana conseguiu superar todas as expectativas dos analistas. No terceiro trimestre do ano, terminado em outubro, a tecnológica registou lucros de 31,9 mil milhões de dólares (27,7 mil milhões de euros), um disparo de 65% em relação ao ano passado. Já as receitas aumentaram 22% em termos homólogos, para 57 mil milhões de dólares (49,2 mil milhões de euros) — um valor recorde para a companhia.

O segmento de centros de dados é, sem surpresas, a galinha dos ovos de ouro da Nvidia. Vale 90% das receitas da companhia. Também aqui registou um recorde, obtendo receitas de 51,2 mil milhões de dólares (44,4 mil milhões de euros) em três meses. Comparando com o mesmo período de 2024, um aumento de 66%. É nesta área de negócio que são registadas as parcerias da Nvidia com empresas de IA como a OpenAI, Anthropic, Google, Microsoft e Oracle.

Havia muitos olhos postos nesta apresentação da Nvidia, vista como uma oportunidade para sentir o pulso ao mercado da IA, numa altura em que sobem os alertas de poder estar a formar-se uma “bolha” neste setor. Até o próprio CEO da Nvidia, Jensen Huang, respondeu à preocupação: “Tem havido muita conversa sobre uma bolha na inteligência artificial (IA). Do nosso ponto de vista de vantagem, vemos algo muito diferente”, declarou na conversa telefónica com analistas após a divulgação dos resultados.

Ao superar as expectativas de Wall Street, a Nvidia conseguiu colocar alguma água na fervura, reconhecem os analistas. “É justo dizer que os resultados da Nvidia mudaram completamente o sentimento do mercado e afastaram quaisquer receios de ‘bolha’ para outro dia”, declararam os analistas do Deutsche Bank, notando a valorização de 5% das ações da empresa no after-market de quarta-feira.

“Os números da Nvidia claramente cooperam para reduzir a narrativa da ‘bolha’”, concorda João Queiroz, head of trading do Banco Carregosa. Este analista explica ao Observador que a ideia de “bolha” pode ter como características uma “avaliação desproporcionada e descorrelacionada da realidade”. Até aqui, têm sido feitas comparações entre o entusiasmo da IA e a bolha das dotcom, que rebentou em 2000.

No caso da Nvidia, o “crescimento ainda acima de 90%, margens muito elevadas e robusto ‘guidance’ [projeções] evidenciam que a procura por computação de IA é, por enquanto, bem real e remuneradora”. Ainda assim, deixa uma ressalva. “Uma ‘bolha’ (ou não) não se decide apenas com uma cotada: depende do conjunto do ecossistema, investimento em capacidade instalada dos grandes hyperscalers [empresas de grande escala na IA], capacidade de monetizar modelos, taxas de juro, regulação”, enumera. “A Nvidia permite acalmar o nervosismo de curto prazo”, mas “ainda não encerra definitivamente o tema”.

Também Henrique Valente, analista da ActivTrades Europe, considera que “os resultados largamente positivos da Nvidia ajudam a arrefecer, ou pelo menos a adiar, as preocupações com a sustentabilidade da trajetória atual do mercado”. Realça que a empresa “ainda apontou para novo crescimento no próximo trimestre”, o que “valida a ideia de que a procura por hardware de IA continua muito forte e que, por agora, não há colapso dos fundamentais”.

A Nvidia espera obter 65 mil milhões de dólares de receitas no próximo trimestre. Aos analistas, tanto a diretora financeira da Nvidia, Colette Kress, como o CEO, descreveram uma “elevada procura” pelos seus chips. Dizendo que “a procura por infraestrutura de IA continua a exceder as expectativas”, a Nvidia espera obter receitas de até 500 mil milhões de dólares através da venda dos chips da série Blackwell e Rubin, “desde o início deste ano até ao fim de 2026”.

epa12139564 Exterior view and signage at Nvidia Corporation headquarter campus in Santa Clara, California, USA, 27 May 2025. Nvidia will release their earnings report at the end of the trading day on May 28.  EPA/JOHN G. MABANGLO

JOHN G. MABANGLO/EPA

As nuvens num céu azul: os avisos sobre as dificuldades de obter capital e energia

Na declaração ao mercado, a Nvidia faz uma série de alertas sobre os riscos que enfrenta, desde as questões de geopolítica no mercado de chips até ao tema da energia. Em relação ao segundo fator, a Nvidia deixa um aviso claro sobre as consequências de mudanças na capacidade financeira dos clientes e no acesso a eletricidade. O mercado de infraestrutura de IA é um consumidor intensivo de eletricidade.

Notando que “as arquiteturas Blackwell representam a maioria das receitas do segmento de data center”, a Nvidia alerta que “a disponibilidade de data centers, energia e o capital por parte dos clientes para apoiar a construção da infraestrutura de IA da Nvidia é crucial”. “Qualquer falha destes recursos pode ter impacto nas receitas futuras e desempenho financeiro”, resultando num possível travão ao crescimento. A empresa nota que alguns clientes “podem enfrentar dificuldades em assegurar financiamento para projetos de infraestrutura de grande escala”, o que potencialmente “pode causar atrasos na adoção de IA”.

Henrique Valente, analista da ActivTrades, reconhece que a questão da energia “é um dos riscos estruturais” para a empresa. “E ajuda a explicar porque se tem falado na possibilidade de uma garantia pública: sem financiamento e sem capacidade elétrica, o crescimento da infraestrutura abranda e isso afetaria de forma significativa a economia dos EUA, que está cada vez mais dependente do setor tecnológico, e principalmente da IA”, explica.

Já João Queiroz aponta outros fatores, como a “elevada concentração de clientes” — a OpenAI foi uma referência frequente na call com analistas —  ou o “caráter cíclico do investimento dos hyperscalers, cujo eventual cenário de abrandamento poderia afetar as receitas desta cotada”. Junta ainda à equação o facto de algumas empresas, como a “Google, Amazon e Microsoft, estarem a desenvolver soluções internas” ou “a intensificação da concorrência direta, sobretudo da AMD, num momento em que as margens são muito estimulantes e o mercado começa a exigir sinais de normalização do crescimento”.

Também lembra a “circularidade” de alguns dos investimentos da Nvidia, que acrescenta “uma camada adicional” de complexidade. “Ao investir em empresas de IA que, por sua vez, contratam capacidade massiva de computação baseada em hardware da própria Nvidia, fica uma perceção de que parte da procura pode estar a ser financiada indiretamente pelo fornecedor”, explica. “Embora estes fluxos sejam reais e contabilizáveis, aumentam a dependência de estruturas de financiamento e de um restrito conjunto de parceiros estratégicos.”

OpenAI montou teia de negócios multimilionários na IA — mas a “circularidade” das parcerias gera nervosismo

Nesse caso, “se o sentimento que envolve a IA se alterar ou se o ritmo de expansão dos clientes registar abrandamento, estes modelos podem ser reavaliados rapidamente, amplificando a volatilidade e introduzindo um risco sistémico, ou de contágio, para a Nvidia”.

Um dos analistas questionou Jensen Huang sobre a febre de investimentos da empresa. Só esta semana, a Nvidia já anunciou uma parceria com a xAI de Musk para instalar capacidade de computação na Arábia Saudita e uma parceria “estratégica” para investir até 10 mil milhões de dólares na Anthropic. A empresa responsável pelo chatbot Claude, rival da OpenAI, também vai passar a usar infraestrutura da Nvidia. “Vamos continuar a investir estrategicamente enquanto mantemos a nossa abordagem disciplinada à gestão de cash flow”, avançou a diretora financeira da empresa.

Também a China está na área de riscos ao negócio da Nvidia. Na comunicação à SEC, o regulador do mercado dos EUA, a empresa detalhou que “encomendas relevantes não se materializaram no trimestre devido a questões geopolíticas e a um mercado crescentemente competitivo na China”. A empresa mostrou-se “desapontada” com a atual situação geopolítica, que “a impede de enviar produtos de computação mais competitiva para data center para a China”. Ainda assim, disse estar disponível para “continuar a trabalhar com os governos dos EUA e a China” na questão dos chips.

epa11873005 A sign marks Wall Street near the New York Stock Exchange in New York, New York, USA, 03 February 2025. Filling up to a campaign promise, President Trump signed an executive order issuing tariffs on goods coming into the U.S. from Canada, Mexico and China. The U.S. is planned to start collecting tariffs from Canada on 04 February 2025.  EPA/SARAH YENESEL

SARAH YENESEL/EPA

Setor da tecnologia agitou-se nos últimos dias. Porquê?

À medida que as maiores empresas de tecnologia foram acelerando os investimentos em infraestrutura de IA, surgiram vozes a alertar para a possibilidade de uma bolha. As alterações foram mais visíveis nos dias que antecederam esta apresentação de contas da Nvidia: o índice tecnológico Nasdaq deprecia 3% este mês e, nas últimas três semanas, os títulos da Nvidia chegaram a desvalorizar 10%, notou o Wall Street Journal.

João Queiroz, do Banco Carregosa, explica que a “turbulência recente resultou de uma combinação de correções rápidas nas cotações das empresas associadas à IA”, a que se juntou “a saída de investidores de referência — um sinal que muitos interpretaram como tomada de lucro por parte de quem melhor conhece o setor”. Na semana passada, foi divulgado que o grupo japonês SoftBank vendeu a totalidade da sua participação na Nvidia, de cerca de 32 milhões de ações, por 5,8 mil milhões de dólares (5 mil milhões de euros). Em conferência de imprensa, citada pelo Financial Times, o diretor financeiro Yoshimitsu Goto explicou que “não era nada em específico em relação à Nvidia”, mas pela necessidade de financiar outros investimentos em IA, como aquele que foi anunciado com a OpenAI.

OpenAI garante investimento de 40 mil milhões do grupo SoftBank, a maior ronda de financiamento de uma tecnológica

“A isto juntou-se a perceção crescente de sobre-investimento: vários inquéritos a gestores revelaram, pela primeira vez desde meados dos anos 2000, a ideia de que o capital alocado à IA pode estar a ultrapassar o ritmo real de monetização”, nota João Queiroz. “Paralelamente, vozes internas do próprio setor, como Sundar Pichai, começaram a alertar para semelhanças com fases exuberantes do passado, reconhecendo que parte do ciclo atual exibe traços especulativos.” Esta semana, em entrevista à BBC, o CEO da Google, declarou que, embora este seja um “momento extraordinário” no setor da IA, há também alguma “irracionalidade” no mercado. “Acho que nenhuma empresa será imune, incluindo nós”, respondeu o líder da Google quando questionado sobre os efeitos da explosão de uma bolha no mercado.

“Em conjunto, estes elementos criaram um clima de maior sensibilidade a qualquer sinal de desaceleração, precipitando receios de ‘bolha’”, resume o líder de trading do Banco Carregosa.

É possível para a Nvidia formar o “clube dos seis biliões”?

Este ano, a Nvidia já atingiu patamares que pareciam impossíveis em termos de valor em bolsa. Primeiro, ao chegar a uma capitalização de quatro biliões de dólares (trillion, na terminologia anglosaxónica), um número bem redondo e acompanhado de doze zeros. A 9 de julho, a Nvidia foi a primeira cotada a chegar à marca, ganhando algum tempo depois a companhia da Microsoft e, mais tarde, da Apple.

O clube dos 4 biliões está inaugurado. A IA é parte de uma história que leva a Nvidia (e em breve a Microsoft) a valer o PIB do Japão

Se antes muitas cotadas demoravam anos a conquistar um novo bilião para acrescentar ao valor de mercado, a Nvidia surpreendeu ao precisar de menos de quatro meses — a tecnológica atingiu o patamar dos cinco biliões a 29 de outubro. Atualmente, está abaixo dessa marca, com um valor em Wall Street de 4,73 biliões de dólares.

Nvidia atinge valor de 5 biliões em bolsa

Após esta apresentação de resultados trimestrais, alguns analistas começam a ver já outro patamar histórico no horizonte: o chamado “clube dos seis biliões” em bolsa. “Acreditamos que os resultados da Nvidia foram outro grande momento de validação para a revolução da IA e para as ações das tecnológicas”, resumiu Dan Ives, analista da Wedbush, numa nota divulgada esta quinta-feira.

Ives tem tido uma postura de otimismo em relação à IA, sendo frequente assinar vários comentários em que Jensen Huang, o CEO da Nvidia, é referido como o “padrinho da IA”. No comentário mais recente, declarou que a Wedbush acredita “que a Nvidia vá entrar no clube dos seis biliões de dólares de market cap ao longo dos próximos 12 a 18 meses, à medida que a visão e os números à volta da tendência de gastos de IA se comprovam”.

“Esta cotada já demonstrou que o salto de quatro para cinco biliões é possível”, reconhece João Queiroz, do Banco Carregosa. “Após a apresentação de resultados evidencia condições para falar em seis biliões”, lembrando a “oportunidade de receitas de data centers” estimada pela Nvidia, na ordem de “500 mil milhões de dólares” com a arquitetura de semicondutores Blackwell e Rubin. “O que, combinado com margens acima de 70% e algum ‘re-rating’ [reclassificação] dos lucros, tornaria essa avaliação atingível”.

Para este analista, o “preço atual” da Nvidia “já incorpora uma trajetória com ambição”. Mas nota que “qualquer desaceleração mais marcada do crescimento, corte no capex [despesas de capital ou investimento] dos clientes ou narrativa de ‘avaliações descorrelacionadas com a realidade’ que eventualmente ganhe tração pode comprimir drasticamente os múltiplos antes de a empresa lá chegar”. “O ‘clube dos 6 biliões’ é cenário possível num contexto em que a Nvidia continua a executar quase sem falhas e a IA mantém a atual prioridade de investimento; mas enquadrado no risco assimétrico não é um cenário que se possa considerar garantido”, ressalva.

Tendo em conta o valor por ação na abertura desta quinta-feira, de 195,98 dólares, os títulos da Nvidia teriam de subir até 244,98 dólares para chegar à fasquia dos seis biliões. Seriam precisos mais 49 dólares por ação. O máximo histórico da Nvidia é de 212,19 dólares.

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