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O cavaleiro que pregou quadros de Ventura, falhou a entrada na AR por um lugar e fez discurso contra abuso de menores. Quem é Nuno Pardal?

Nuno Pardal era, até hoje, deputado municipal e vice-presidente da distrital de Lisboa do Chega. Renunciou a todos os cargos devido a uma suspeita de dois crimes de prostituição de menores.

Nuno Pardal era o número 10 da lista do Chega para as eleições legislativas de 2024. Falhou a eleição para deputado por um lugar e há quem respire de alívio com esse facto: “Não é um deputado nacional. Isso seria ainda pior”, desabafa um dirigente. Numa altura em que o partido não estava ainda recomposto do caso de Miguel Arruda, que é arguido por furtar malas de tapetes de aeroportos, o ex-cavaleiro tauromáquico abriu uma ferida num dos temas mais caros para André Ventura: abuso de menores.

Tão caro que o líder do Chega foi duro nas palavras: recusou que o Chega tenha “dois critérios” ou “uma cara para dentro e uma para fora” e reconheceu que um caso desta dimensão é difícil para o partido. E, assim, atirou: “Não podemos dizer que há castração química para uns e não para outros. Quem é abusador de menores deve ser castrado.”

Nuno Pardal está acusado não de abusos, mas de dois crimes de prostituição de menores agravada: um consumado e outro na forma tentada — por ainda ter procurado agendar um segundo encontro com o jovem de 15 anos com quem teve sexo e a quem pagou 20 euros através de um código de levantamento do MB Way.

Deputado municipal do Chega acusado de prostituição de menores renuncia ao mandato

“Numa lista de pessoas que podiam vir a dar problemas ao Chega, o Nuno Pardal seria o último”, comenta uma fonte que trabalhou diretamente com o dirigente do partido. As reações são quase todas consensuais: “Nunca na vida pensei”, comenta outro dirigente, enquanto um outro remata que “é surpresa para todos”. Nos últimos anos, o militante 547 do Chega foi-se tornando relevante no partido, designadamente em Lisboa, mais ainda nos momentos em que era preciso organizar eventos.

Na altura em que o Chega elegeu 12 deputados e conquistou o primeiro grupo parlamentar, Nuno Pardal foi o homem que andou de gabinete em gabinete a pregar os quadros com os retratos de André Ventura.

Conquistou o lugar de deputado na Assembleia Municipal de Lisboa quando Pedro Pessanha, cabeça de lista do Chega nas autárquicas, foi um dos 12 deputados do Chega eleitos nas legislativas de 2022. Nuno Pardal, que também aqui tinha falhado a eleição por um lugar — era o quarto e o partido elegeu três — nas autárquicas de 2021, passou a deputado municipal com a saída do deputado que é também seu cunhado.

Nessa altura, já era vice-presidente da distrital de Lisboa, também liderada por Pedro Pessanha e, por inerência, tornou-se conselheiro nacional do Chega. Acumulou todos os cargos até agora, momento em que decidiu renunciar devido à acusação da justiça.

O homem dos eventos que pregou os quadros de Ventura

Divorciado (a ex-mulher morreu já depois da separação), Nuno Pardal tem dois filhos, estando um deles a estudar no estrangeiro. Licenciou-se em Organização e Gestão de Empresas na Universidade Moderna, fez um Programa Avançado de Gestão para Executivos na Universidade Católica de Lisboa e está a frequentar um Master Business Administration. Tem uma empresa de eventos e comunicação e isso deu-lhe espaço para ir colocando em prática a experiência que já tinha. Começou a ser muitas vezes responsável por organizar os eventos do Chega, principalmente aqueles que acontecem em Lisboa, e era um homem do aparelho.

Desde inciativas específicas da distrital de Lisboa a ações do partido em várias partes do país, da rentrée aos conselhos nacionais e jantares do Chega, Nuno Pardal estava praticamente em todas. “Era o homem que alugava os espaços, que organizava e controlava tudo”, conta uma fonte do Observador. Nos outros partidos da oposição até se lembram de o verem muito atarefado na altura do encontro da Identidade e Democracia (ID), que reuniu os partidos europeus de extrema-direita na capital em 2023.

Numa intervenção como deputado municipal em 2023 disse que “não admitia” que houvesse uma “desculpabilização”, em casos de abuso e exploração sexual. “Nós tivemos a coragem, independentemente de ser fundamental a defesa dos direitos humanos, de defendermos a castração química de pedófilos e abusadores”, recordava então, apelando à “coragem” dos partidos para garantir a segurança não só das crianças, mas também dos “adolescentes”.

É recordado como alguém que trabalhava muito para o Chega, que estava muito presente, nomeadamente na sede do partido, muitas vezes junto a figuras importantes, “sempre pronto a ajudar”. Na altura em que o Chega elegeu 12 deputados e conquistou o primeiro grupo parlamentar, Nuno Pardal foi o homem que andou de gabinete em gabinete a pregar os quadros com os retratos de André Ventura.

Além dos trabalhos no partido, Nuno Pardal tinha ainda uma avença com a Câmara Municipal de Loures, onde prestava, através da sua empresa, “serviços de assessoria técnica nas áreas de comunicação, relações públicas e organização de eventos” ao vereador do Chega, Bruno Nunes. O contrato em regime de avença, entretanto rescindido, foi assinado a 8 de agosto de 2023 e tinha a duração de 925 dias, e o valor de 52.900,00 euros.

[Terapia de Casal é o podcast que pode acabar com o casamento do Guilherme Fonseca e da Rita da Nova. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível nas plataformas de podcast.]

O trabalho com crianças na assembleia e o discurso sobre abuso de menores

Desde que a notícia da acusação de prostituição de menor foi conhecida, começaram a circular vídeos de uma intervenção de Nuno Pardal, feita em 2023 na Assembleia Municipal de Lisboa, que os adversários políticos recuperam agora com ironia. Trata-se de uma declaração sobre a “exploração sexual e abusos sexuais” de crianças ser um “ponto fundamental” para o Chega, crime para o qual o deputado municipal “não admitia” que houvesse uma “desculpabilização”, defendia.

“Nós tivemos a coragem, independentemente de ser fundamental a defesa dos direitos humanos, de defendermos a castração química de pedófilos e abusadores”, recordava então, apelando à “coragem” dos partidos para garantir a segurança não só das crianças, mas também dos “adolescentes”.

Também por isso, e confiando mais ou menos na genuinidade da imagem de “simpatia” que o deputado municipal do Chega cultiva, os eleitos de outras bancadas fazem o mesmo desabafo que se faz dentro do próprio partido: “É uma total surpresa”. Isto porque mesmo para adversários políticos, que sublinham as diferenças ideológicas que os separam de Nuno Pardal, o dirigente local do Chega está longe de ser o elemento do partido que cria mais anticorpos: “Até tinha uma capacidade de diálogo com os outros, não era quezilento”, comenta um deputado de outro partido. “Dentro das pessoas do Chega, com ele era mais fácil de conversar. Era das pessoas mais fáceis”, corrobora outro. “Informalmente falava com outras bancadas e mostrava-se empático”, acrescenta um terceiro.

Separando sempre o conteúdo das intervenções – muitas descritas, sobretudo mais à esquerda, como “xenófobas” ou “racistas” – do trato, há deputados municipais que se lembram de episódios em que Nuno Pardal mostrou alguma “empatia” ou facilidade em conversar com os adversários – como o dia em que perdeu o seu gato por algumas horas e chegou a pedir ajuda ao PAN para o localizar (entretanto o gato apareceu).

Gonçalo da Câmara Pereira, que tem assento na Assembleia Municipal pelo PPM mas conheceu Nuno Pardal muitos anos antes, dadas as ligações ao mundo tauromáquico, mostra-se surpreendido pela notícia que envolve uma “pessoa de bem”. “Era um tipo afável, educado, culto, muito simpático. Conheço-o desde miúdo”, conta ao Observador. “Tinha ali uns discursos dentro da política do Chega, mas sem agressividades.”

Também é recordada a intervenção no grupo de trabalho da Assembleia Municipal das Crianças – uma iniciativa que visa envolver as crianças na construção de políticas públicas que as envolvam –, grupo do qual Nuno Pardal fazia parte e no qual “não tentava influenciar as opiniões das crianças”, recorda outra fonte da Assembleia Municipal. Certo é que a instituição se apressou a responder à polémica, esclarecendo em comunicado que a Assembleia das Crianças “adotou desde o seu primeiro momento as melhores práticas preconizadas pelo Comité dos Direitos da Criança do Conselho da Europa”, tendo em vista a “mitigação dos diversos riscos”. Por isso, garantiu que “as reuniões decorrem sempre em espaços amplos, seguros e vigiados e que em nenhum momento algum adulto esteve sozinho com as crianças”.

O cavaleiro que nunca deixou a tauromaquia

Nuno Pardal foi cavaleiro tauromáquico profissional, mas nunca deixou a paixão, sendo presidente da Associação Nacional de Toureiros e presidente do Fundo de Assistência dos Toureiros Portugueses. Filho de Humberto Pardal, empresário tauromáquico, toureou pela primeira vez em público a 2 de abril de 1988 na praça de Monforte e prestou provas para cavaleiro praticante nesse mesmo ano, a 3 de outubro, em Vila Franca. A corrida de alternativa de Nuno Pardal aconteceu no Campo Pequeno a 4 de julho de 1991). Joaquim Bastinhas foi o seu padrinho.

Também no Chega, partido com vários adeptos da tauromaquia, fazia questão de se envolver no tema. E bem recentemente, no dia antes da polémica explodir, Nuno Pardal fez parte de uma reunião na Assembleia da República em que Pedro Pinto, líder parlamentar, recebeu uma delegação da ProToiro-Federação Portuguesa de Tauromaquia, integrada pelo seu presidente Francisco Macedo, pelo seu secretário-geral, Bernardo Mendia, e pelo próprio Nuno  Pardal. O até aqui dirigente do Chega chegou a comentar que durante a reunião “se sentou dos dois lados”.

▲ A corrida de alternativa de Nuno Pardal no Campo Pequeno (4 de Julho de 1991). Joaquim Bastinhas foi o seu padrinho

No mundo da tauromaquia, Nuno Pardal deixava as “melhores referências”, mesmo após “bastantes anos de trabalho em comum”. Quem trabalhou com Pardal durante muito tempo diz que fez “sempre um bom trabalho” e recorda o “caráter sempre recomendável”. “Parecia-me bem sucedido”, lembra uma fonte ligada à tauromaquia, descrevendo Pardal como “muito afável, muito prestável e de fácil trato” e, mais do que isso, alguém que era “tipicamente de consensos e muito dialogante”.

Também Gonçalo da Câmara Pereira recorda, em declarações ao Observador, que o pai de Nuno Pardal era colecionador de artefactos e literatura tauromáquica e que recorda que foi cavaleiro de “alternativa”, o que significa que tinha chegado a passar a profissional. Independentemente de cores políticas ou profissionais, as pessoas ouvidas pelo Observador partilham um estado de espírito: choque.

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