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José Luís Carneiro diz que, caso o PS não vença as eleições, terá de ser Pedro Nuno Santos a avaliar se tem condições para continuar líder. Em entrevista à Vichyssoise, da Rádio Observador, lembra que “defende há muito” que o PS deve, nesse mesmo cenário, viabilizar um governo minoritário de Luís Montenegro. Já sobre uma nova candidatura à liderança do PS diz que é “novo” para se “excluir seja do que for”.
Sobre as listas de deputados, disponibiliza-se para voltar a ser cabeça de lista por um distrito (Porto ou Braga) e avisa que os ex-ministros de António Costa não devem ser excluídos das listas. “Seria inaceitável”, diz, embora acredite na “boa-fé” de Pedro Nuno Santos.
Sobre Presidenciais, elogia António José Seguro, mas diz que se Augusto Santos Silva fosse candidato teria o seu apoio. Esse é, porém, um cenário em que não acredita muito.
Pedro Nuno e a Madeira. “Fica sempre bem reconhecermos [culpa na derrota]”
No passado domingo, o PS passou a terceira força política na Madeira, com o presidente do Governo PSD-CDS arguido num caso de corrupção. É um mau indicador para as legislativas que vamos ter agora em maio?
É necessário ter consciência do contexto histórico, cultural, social, económico e político da Madeira. Tenho visto análises relativamente simplistas dos resultados. A estrutura do poder político na Madeira foi sendo, ao longo do tempo, hegemónica, ou seja, havia mais de dois terços da população que em regra votavam no mesmo partido. Quando é que ocorreu uma transformação da natureza deste poder? Quando Alberto João Jardim saiu das suas funções, num processo de disputa interna em que Miguel Albuquerque afirma uma liderança alternativa. Isto provoca naturalmente um cisma dentro do próprio PSD. Contudo, o atual líder do Governo Regional consolidou-se como poder alternativo, já menos representativo, com menos força, mas mesmo assim um poder maioritário. O PS, que era o principal partido alternativo, teve uma nesga de oportunidade em 2013, quando ganhou um conjunto de autarquias, nomeadamente o Funchal. Por força também de clivagens intestinas que tem vivido, essa alternativa foi perdendo força e a ocupação do espaço, quer de uma parte do eleitorado que votava PSD, quer de uma parte do eleitorado que votou PS que encontraram no partido novo uma ideia de alternativa. É preciso também verificar se este partido novo será ou não a alternativa.
No continente não há um Juntos pelo Povo com essa força? Não vê uma transposição direta para o nível nacional? É aí que vai chegar?
Não é adequado olhar para os resultados da Madeira e fazer uma transposição para o continente.
Mas há a questão da semelhança, por haver um chefe de Governo que está, no caso de Miguel Albuquerque, arguido num processo de corrupção e aqui haver suspeitas sobre o primeiro-ministro. Esse paralelismo é possível? Um partido com uma figura nestas condições e que não só ganha, como reforça a votação?
A constituição de figura de arguido não faz de uma pessoa culpada.
No fundo é suspeito, não é?
Há indícios que levam a que deva ser constituído arguido para efeitos de defesa e, portanto, trata-se do exercício também de um direito de defesa. Não deve ser extraída leitura política nacional e foi até com surpresa que vi Luís Montenegro, por exemplo, querer tirar partido político de um resultado que foi um resultado de eleições regionais para as quais ele próprio não foi convidado. Pareceu-me muito exagerado todo aquele exercício de tentar tirar partido e tentar colar o resultado regional àquilo que poderão vir a ser os resultados nacionais.
E o exercício inverso de Pedro Nuno Santos, de fugir às responsabilidades, dizendo que era uma derrota do PS da Madeira? Agora há isso, o PS da Madeira, o PS do Algarve?
O PS é um partido, é um grande partido e mesmo o maior partido português. É evidente que há autonomia regional e, por princípio, por regra institucional, o PS a nível nacional não se imiscui nas escolhas que a dimensão da autonomia regional decide fazer, nomeadamente nas escolhas para a representação à Assembleia da República, nas escolhas que faz para o desempenho de funções regionais ou mesmo nas escolhas locais.
Mesmo que não tenha responsabilidade, fica bem ao líder do Partido Socialista dizer que a derrota é deles?
Fica sempre bem reconhecermos, é importante deixar ficar uma palavra de solidariedade àqueles que não deitam a toalha ao chão ao fim de tanto tempo de uma maioria e continuam a bater-se pelos seus valores, pelos seus princípios, independentemente dos resultados que, momentaneamente, são melhores ou menores. Em democracia, todos os resultados democráticos são importantes.
José Luís Carneiro teria sido mais solidário?
Não quero estar a fazer essas comparações. Há algo que eu afirmo, do ponto de vista não apenas conceptual, mas do ponto de vista prático. Muitas das vezes um bom poder é também o resultado de uma boa minoria. Porque uma boa minoria, se ela for construtiva, se for inovadora, se for criativa, se exercer o seu escrutínio democrático relativamente ao exercício do poder político, uma boa minoria faz também a qualidade da democracia. E, portanto, temos que também todos ter a consciência de que, aqui lembrando de Mário Soares, só é derrotado quem desiste de lutar pelos seus valores e pelos seus ideais.
Pensei que o culpado era o José Luís Carneiro porque teve o apoio de Paulo Cafôfo…
Eu admito que haja quem faça essas leituras. Mas se as fizer, é de uma forma indevida, porque Paulo Cafôfo deu tudo, como aliás ele disse, tudo o que ele sabia, tudo o que podia, para alcançarmos um bom resultado. Há uma estrutura social, uma estrutura cultural, uma estrutura empresarial, uma estrutura de relativa dependência que exige um trabalho de muita dedicação, de muita entrega, para que venha a produzir resultados nos níveis de confiança dos cidadãos.
“Sempre defendi que PS deve viabilizar Governo do PSD se perder”
Já disse que a questão da governabilidade será central no dia seguinte às eleições, portanto, presumo que não tenha grandes problemas em cenarizar. O PS deve bloquear um governo minoritário da AD, que seja liderado por Luís Montenegro?
Não. Sempre defendi esta posição, como bem sabem. Assim como outrora afirmei que nós deveríamos contribuir para viabilizar um governo que não caísse nas mãos de um partido que atenta contra os valores democráticos, também o digo hoje. E dizê-lo significa também reafirmar aquilo que o secretário-geral do meu partido também tem vindo a dizer, que é que esperamos que se o PS merecer a confiança da maioria dos portugueses, mesmo sendo minoritário no Parlamento, que também mereça da parte de quem estiver na oposição, o mesmo voto de confiança para garantir governabilidade, para garantir a aprovação do Orçamento do Estado e para aprovar as opções políticas do Partido Socialista.
E isso devia ser deixado claro já pelo líder do Partido Socialista, em vez de ser dúbio como está a ser?
Naturalmente o secretário-geral disse que está a trabalhar num único cenário, e o cenário A é garantir a confiança dos portugueses e ganhar as eleições. E, portanto, parece-me bem que ele coloque a fasquia nesse domínio. Acho que o PS tem condições para se bater, para ganhar as eleições.
Mas devia ser claro relativamente a isto?
Do meu ponto de vista, julgo que ganhará quem for claro na relação com os eleitores, ganhará quem for claro e quem demonstrar que com isto está a colocar o interesse do país acima dos interesses partidários.
Mas viabilizar Luís Montenegro e a figura de Luís Montenegro como primeiro-ministro não acabava por ser incoerente com a votação do PS na moção de confiança que resultou na demissão do Governo e com as acusações que têm sido feitas pelo líder do PS em relação ao primeiro-ministro?
Quando se viabilizou o Orçamento do Estado, fundamentalmente viabilizou-se para evitar uma crise política. Quando se viabilizou o programa do Governo, viabilizou-se também para evitar uma crise política. O que eu digo é que deve ser feita uma avaliação daquilo que é o interesse do país. E para mim é claro que o país tem hoje interesses que estão muito para além daquilo que possa ser uma visão muito utilitária da dimensão política. Hoje há uma exigência de olhar para aquilo que o país tem de fazer e por isso é que eu sou um defensor, desde há muito, de que haja um conjunto de compromissos de natureza parlamentar que viabilizem opções de política e, de um ponto de vista, a realidade global que vivemos hoje torna ainda mais exigente essa imperatividade dessa opção.
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“Não devo cair nessa posição antitética com o secretário-geral”
E esse campo de diálogo no dia seguinte está a ser protegido pela campanha que está a ser feita por Pedro Nuno Santos, que acusa Montenegro de tomar “decisões irresponsáveis e levianas”, ataca os seus “traços pessoais” e tem lançado algumas suspeitas não comprovadas sobre o caso da Spinumviva. Isto está a contribuir para esse clima de diálogo?
Compreendo que queiram colocar-me numa posição antitética com o secretário-geral do PS, eu não devo cair nessa posição antitética pelos deveres institucionais que tenho, a começar pelo dever de lealdade com o meu secretário-geral.
Mas a questão aqui é de estratégia numa campanha eleitoral, não é?
Sim. Agora, olhando para a estratégia, o que deve acontecer é o PS ter uma proposta política muito clara, concentrada em meia dúzia de objetivos, sendo que o primeiro objetivo do meu ponto de vista é o objetivo do posicionamento de Portugal naquilo que são hoje as exigências de segurança e defesa europeia no quadro da sua relação atlântica.
Deve ser igual à AD, portanto não é por aí a distinção…
Significa que aqui há um campo de trabalho conjunto. Segundo campo de convergência conjunto, como é que Portugal capitalizará a sua economia a partir dos fundos europeus que terminarão em 2029, e depois do plano de recuperação e de resiliência? Nós temos capitalizado a nossa economia com o investimento direto estrangeiro, nós temos capitalizado a nossa economia com as remessas da imigração, nós temos capitalizado a nossa economia com fundos europeus. Como é que estamos a preparar o país para manter a capitalização desta economia, para a fazer crescer e para garantir um nível de rendimentos superior àquilo que temos hoje?
Só para ficar claro: o PS deve ou não deve abandonar esta ideia de ataque constante ao primeiro-ministro?
Há algo que o secretário-geral tem afirmado com o qual eu estou totalmente de acordo. É evidente que há uma causa da crise e sobre a causa da crise nós temos que explicar porque é que vamos a eleições. 80% dos cidadãos que vão votar, como conseguimos ouvir nos inquéritos, mostra a sua rejeição à ideia de eleições. Mas vamos ter eleições e, portanto, é preciso explicar a razão de ser. Do meu ponto de vista há um facto que, para mim, tornou no plano político a questão mais clara. Sempre defendi que o Presidente da República devia fazer um esforço junto das lideranças políticas para encontrar um espaço de diálogo e de recuo, salvaguardando também os compromissos públicos que assumiram as lideranças para evitar a crise política. Contudo, viemos a saber agora pelo Presidente da República que apelou ao primeiro-ministro para não apresentar a moção de confiança. Ora, este era um dado que nós não tínhamos há oito dias. Se o temos hoje, então, mais ainda se justifica afirmar que há alguém que não ouviu o Presidente da República e que devia ter ouvido para que não submetesse a moção de confiança ao Parlamento. E, portanto, sobre esta origem da crise, e a origem próxima é a moção de confiança, de facto deve-se falar dela. Agora, deve haver outras prioridades, por exemplo, para a governabilidade futura. O apoio tem que ser com base numa proposta ou nas propostas políticas. Eu falei de duas, mas há três ou quatro que devem merecer um consenso entre os dois principais partidos para salvaguardarem a democracia.
“Mantenho que sou contra a Comissão Parlamentar de Inquérito”
Numa reunião do grupo parlamentar do PS, manifestou-se contra a manutenção da Comissão Parlamentar de Inquérito ao primeiro-ministro na próxima legislatura. Sente-se suficientemente esclarecido com tudo aquilo que Luís Montenegro disse sobre o caso?
Manifestei essa posição e mantenho essa posição. Tive dúvidas sobre a aprovação de uma comissão de inquérito, porque as comissões de inquérito são um instrumento parlamentar. Porque vi o que se passou com a comissão de inquérito relativa ao caso das gémeas, onde houve comportamentos e atitudes inquisitoriais a quererem transformar o Parlamento nos tribunais. O Parlamento tem uma dimensão de escrutínio político. Tudo o que tem a ver com matérias sobre as quais se colocam questões de legalidade, nós temos conhecimento de factos e devemos comunicá-los às autoridades competentes que têm os seus instrumentos de investigação, por forma a que se administre a justiça.
Mas sente que ainda há esclarecimentos para dar?
O erro do primeiro-ministro foi de conteúdo e outro erro na forma. O erro de conteúdo tem a ver com os factos. Depois a falta de esclarecimento sobre os factos. Mas este erro foi exponenciado quando convocou o Conselho de Ministros e, no fim da reunião encostou a oposição à parede, dizendo ‘bom, eu não tenho mais esclarecimentos a dar e, portanto, a oposição que diga se confia no Governo ou se não confia no Governo’. É a mesma coisa que perguntar às oposições se elas se querem dissolver para dar viabilidade ao Governo.
Aqui não há uma questão de ética? Porque está só a falar na forma política. Luís Montenegro respondeu politicamente à questão, mas não existe nenhuma questão de ética?
É o Parlamento que administra a ética com que as pessoas estão na vida política? Não há um órgão que administra a ética, ou seja, há, de facto, a legalidade e há os termos e os fundamentos que levam a que seja adotada.
Há a questão da exclusividade…
Por isso é que, quando foi aprovada a comissão de inquérito, eu tive um esclarecimento, como já pude dizer, da parte da direção da bancada parlamentar, que me deu conta de duas coisas. Uma, que o Partido Socialista adotou o modelo do agendamento potestativo para presidir aos trabalhos e para evitar, ou para procurar limitar, que outros fizessem na comissão de inquérito um espaço de chicana política. E também deu conta de que tinha a intenção de não chamar à comissão de inquérito nem a mulher, nem os filhos, e o primeiro-ministro também goza da faculdade, de poder responder por escrito. E, portanto, limitar, digamos, na forma de recolher a informação necessária, mas também limitar o objeto, o âmbito da inquirição.
E ficou convencido?
Em relação ao âmbito da Comissão de Inquérito e aos termos em que ela se ia realizar, fiquei convencido. Contudo, a partir do momento em que há uma sanção política ao Governo, feita pelo Parlamento, do meu ponto de vista, é aquilo que o Parlamento pode e deve fazer. O primeiro-ministro insistiu, teimou, agora já se sabe, contra a vontade do próprio Presidente da República em submeter a moção de confiança, teve a sanção política. A partir do momento em que a Procuradoria Geral da República disse que abriu averiguações preliminares, bom, temos de confiar na Justiça e aguardar que faça agora o seu trabalho.
“Pedro Nuno é que deve avaliar se sai em caso derrota”
Uma derrota nas legislativas era superável para este líder do PS?
Essa é uma avaliação que tem que ser sempre feita por quem lidera as instituições e por quem lidera o PS e também pelos militantes e por aqueles que os representam a nível local e a nível distrital. Como se sabe, o secretário-geral teve um apoio muito expressivo da estrutura militante do PS e num cenário dessa natureza só o secretário-geral deve proceder. Eu fui ao longo da minha vida, e assim também sou reconhecido, um elemento que procura a estabilidade. Assim como defendo a estabilidade para o país, também defendo a estabilidade para o PS. E é evidente que em cada momento temos que fazer uma avaliação dos termos em que o Partido Socialista está ou não está a conseguir falar para aqueles que são os seus destinatários, que são os portugueses. Mas essa é a do secretário-geral. Ele sabe que tem contado com toda a minha lealdade, continua com a minha lealdade, para que possa levar por diante a proposta política que apresentou. Quando tenho que o fazer manifesto-lhe as minhas divergências, pessoalmente ou nos órgãos do partido. Já tive a oportunidade de contribuir para a aprovação do Orçamento do Estado, mostrando desde há muito qual era a minha posição.
Essa forma de lealdade é um modo também de José Luís Carneiro indicar que está numa posição de espera para o pós pedronunismo?
Não. É uma atitude de compromisso com os valores, com os princípios e com a proposta política do PS. E aquilo que tenho exigido dentro do partido é que haja um respeito pela pluralidade, pela diversidade de opiniões e por aquilo que são os contributos que todos nós queremos dar. O partido tem que ter sempre uma cultura de grande abertura para dentro e uma cultura de grande abertura para fora, porque somente assim é que nós nos sentimos cidadãos completos no exercício da nossa militância política, no exercício da nossa cidadania.
Mas, não estando nessa posição de espera, também não exclui voltar a assumir uma candidatura à liderança do PS?
Com certeza que ainda sou relativamente novo para também me excluir seja do que for. Tenho que manter os meus direitos intactos e os meus deveres também. Do meu ponto de vista, o Partido Socialista tem condições para ganhar as eleições. E nesse caso não se coloca.
E ganhando as eleições, Pedro Nuno Santos apresentará uma proposta de Governo, será o nosso primeiro-ministro.
Aceitava ir para o Governo dele?
Com certeza que aceitaria servir o meu país, porque tanto se serve o nosso país numa autarquia de freguesia, como no Governo. E eu já disse desde a primeira hora de que continuaria disponível para servir o meu partido e colocar o PS ao serviço do país, porque esse é o nosso primeiro dever.
Se Pedro Nuno Santos perder, deve ficar até às autárquicas?
É uma avaliação que tem que ser o partido a fazer e os órgãos do partido. Todos temos a consciência de que temos que contribuir para que o processo eleitoral autárquico ocorra com a maior estabilidade possível, porque temos todas as condições para manter os objetivos autárquicos e, à luz dos dados que possuo, termos mesmo maioria em capitais de distrito que são decisivas. E, portanto, temos que ter consciência de que qualquer ato, qualquer gesto, palavra ou atitude que possa colocar em causa essa estabilidade no processo eleitoral autárquico traz efeitos nas eleições autárquicas. Temos de ter essa consciência. Mas é evidente que tudo dependerá também da própria avaliação que o secretário-geral fizer das eleições.
“Seria inaceitável ex-ministros não integrarem as listas”
Está disponível para votar a ser cabeça de lista nestas legislativas por Braga ou agora vai finalmente para o Porto?
Estou disponível para ser cabeça de lista. Só posso ser cabeça de lista, do meu ponto de vista, em dois distritos. Um onde criei, entretanto, relações de grande proximidade e serviço às instituições e à sociedade, que é o distrito de Braga, e até relações de afeto muito profundas, e o distrito onde vivo e onde tenho a minha vida pessoal e familiar e também profissional.
Tem uma preferência entre as duas?
Deixarei ficar essa decisão nas mãos do secretário-geral. Em qualquer uma delas sinto que poderei dar um importante contributo para os resultados eleitorais do PS.
Se os ex-ministros de António Costa, onde inclui o José Luís Carneiro, mas também os outros que fizeram agora parte nas últimas listas, forem retirados, isso é alguma purga que é inaceitável?
Isso é inaceitável. Ou seja, eu parto do pressuposto, e todo este meu discurso de boa-fé e de confiança no secretário-geral e na direção do partido, de que todos aqueles que desempenharam funções, têm provas dadas na vida cívica e na vida política, entre os quais muitos dos que me apoiaram nas eleições passadas, que serão todos respeitados por parte da direção do partido, pois é evidente que se não forem respeitados, isso altera o quadro em que me estou a pronunciar hoje.
Tirando aqueles que são autarcas, que à partida não vão nas listas, os ex-ministros devem continuar se assim desejarem?
Aqueles que têm condições, por um lado vontade, que é fundamental, segundo, condições para darem esse contributo, pois é evidente que é uma experiência que o Partido Socialista não deve pôr de lado. Veja, vimos agora este exemplo do Bloco de Esquerda. Eu entendo que é uma boa atitude ir buscar pessoas que têm uma experiência feita, que hoje não estão à procura de, digamos, de retribuição política ou de reconhecimento da própria sociedade…
Está a lembrar-se de alguém específico no PS?
São personalidades que têm uma vida própria feita, o seu prestígio está alcançado, o seu serviço, podiam estar, digamos, muito tranquilos na sua vida pessoal e decidiram regressar e dar o seu contributo. O Partido Socialista tem, entre aqueles que estiveram no Governo ou em governos passados, outros que têm aspirações para virem a desempenhar funções governativas. É muito importante que o PS conserve essa sua característica de partido intergeracional, por um lado, interclassista, por outro, ou seja, o PS foi grande quando dialogou com toda a sociedade, com todos os setores da sociedade, desde os trabalhadores agrícolas, aos trabalhadores industriais, aos intelectuais, às pessoas da cultura, às pessoas das empresas, aos investidores, porque é essa diversidade, essa pluralidade que o PS sempre teve que fez do PS um grande partido.
“Pizarro é o melhor candidato na medida em que é o que foi escolhido”
Disponibilizou-se para ser candidato à Câmara Municipal do Porto e não foi ouvido nesse processo que acabou com a escolha de Manuel Pizarro. A situação foi bem gerida pelo líder do PS?
Poderemos dizer que foi bem gerida em função dos resultados. Aquilo que desejo é que Manuel Pizarro seja bem-sucedido na sua candidatura, porque creio que depois de um percurso de 12 anos de uma candidatura e de um modelo de gestão independente da cidade, do meu ponto de vista um modelo excessivamente liberal para aquilo que a cidade carecia, do ponto de vista de alguma regulação das condições de vida e também da própria dinamização da economia.
Mas é o melhor candidato que o PS podia ter?
É o melhor candidato na medida em que é o candidato que foi escolhido, é um candidato com muita experiência política, uma pessoa que foi secretário de Estado da Saúde, foi vereador com pelouro e sem pelouro na Câmara Municipal do Porto, foi Ministro da Saúde.
Se fosse líder do PS teria escolhido Manuel Pizarro?
Isso é estar a fazer um exercício que não tem razão de ser. Respeito a decisão que foi tomada e como também já transmiti ao Manuel Pizarro, contará comigo para o apoiar em tudo quanto venha a necessitar para afirmar a sua alternativa política de cidade e para afirmar um modelo de desenvolvimento que a cidade bem carece.
Pelo menos vai votar nele e não em Pedro Duarte.
Quer na economia, quer na sociedade, quer na cultura, quer na vida social, no combate à pobreza e às desigualdades, a cidade padece de um problema de assimetria muito acentuada, assimetria económica e social, há muito o que fazer na cidade do Porto. No trânsito, na mobilidade e, portanto, o meu camarada Manuel Pizarro conta com todo o meu apoio e com a minha disponibilidade, se assim o entender, para o apoiar nesse objetivo. Para que fique claro, contará com o meu voto.
Pedro Nuno Santos chamou António Vitorino para as sessões de preparação do programa eleitoral do Partido Socialista. Devia incluir também nesta campanha o outro presidenciável da área socialista, António José Seguro?
Desconheço quais foram os critérios que presidiram a essa escolha e, portanto, haverá certamente critério nas opções. Devo dizer que também fui contactado [para participar], nomeadamente em relação às questões da justiça e da segurança interna, onde pretendo estar. Vi que houve a preocupação de abrir e ir buscar personalidades que podem dar um contributo para áreas que são nevrálgicas para o desenvolvimento do país. E nada mais posso acrescentar.
E Seguro é um bom candidato para o PS apoiar nas presidenciais do próximo ano?
Nós temos uma posição institucional sobre essa matéria, adotada numa Comissão Nacional, que é de procurarmos aguardar que quem quer ser candidato tenha um passo em frente. Depois, o Partido Socialista reunirá para proceder à decisão. Como disse o presidente do partido, há margem de liberdade e de consciência para que cada militante possa optar por quem bem entender na sua escolha presencial.
Mas vai haver um candidato oficialmente apoiado.
Oficialmente apoiado. Há um candidato que resulta sempre de uma vontade unipessoal e depois o PS pronunciar-se-á sobre quem apoia. Eu tenho visto que o António José Seguro está a dar passos sólidos, todos os dias, todas as semanas, para vir a transformar um desejo numa candidatura.
Também terá o seu apoio, se calhar de uma forma mais veemente do que o Manuel Pizarro no Porto.
Vamos aguardar. Para que fique claro, o meu apoio não é de andar na campanha todos os dias, mas é um apoio veemente ao candidato Manuel Pizarro. É um apoio inequívoco, para ficar claro.
E a António José Seguro também seria.
A António José Seguro vamos aguardar pela sua decisão e pela decisão do partido, mas procurarei também ter em consideração a decisão do partido.
Nas diretas teve o apoio de Augusto Santos Silva, que promete candidatar-se contra António José Seguro, se não houver mais ninguém que o faça. Se ficar nessa situação, isto é um problema para si?
Criei uma relação política com Augusto Santos Silva de grande confiança, fui secretário-geral das Comunidades Portuguesas, ele era ministro dos Negócios Estrangeiros, e a nossa relação pautou-se por uma confiança e por uma lealdade e por uma dedicação ao interesse público, do primeiro ao último dia. Por outro lado, contei também com o seu apoio quando fui candidato à liderança. E eu, se Augusto Santos Silva fosse candidato a Presidente da República, o meu apoio estaria com Augusto Santos Silva, para ser claro. Tenho a ideia de que ele não pretenderá dar esse passo. E, portanto, aguardarei por aquilo que sejam os passos que venham a ser dados por parte do partido e tomarei a minha decisão no momento oportuno.
“Preferia ser líder da oposição a Passos do que Montenegro”
Avançamos para o Carne ou Peixe, onde tem de escolher uma de duas opções. Preferia estar sentado na mesa do Conselho de Ministros de um futuro governo liderado pelo PS, ao lado da ministra Mariana Mortágua ou do ministro Rui Rocha?
Da Mariana Mortágua.
Quem preferia levar a uma prova de vinho verde de Baião numa visita presidencial à sua terra em 2026, António José Seguro ou Augusto Santos Silva?
Gostava imenso que os dois fossem almoçar comigo, servindo-lhes não apenas um vinho verde, mas também um bom anho assado com batata assada e arroz de forno. Podia ser, aliás, na fundação Eça de Queiroz, porque ambos já lá estiveram. E o Manuel Alegre já esteve. Julgo que António Vitorino ainda não esteve.
Preferia ser líder da oposição de uma maioria absoluta da Aliança Democrática ou ministro num governo da geringonça?
É preferível ser ministro num governo de geringonça. Eu pude ser secretário de Estado das Comunidades Portuguesas num governo de geringonça e foram alcançados bons resultados. Não, contrariamente ao que eu disse há dias Francisco Louçã, por mérito exclusivo do Bloco de Esquerda, mas por mérito dos partidos que suportaram o Governo e pela especial capacidade do primeiro-ministro António Costa e do Governo do PS.
Se fosse primeiro-ministro pelo PS, naturalmente, quem é que preferia ter como líder da oposição, Luís Montenegro ou Pedro Passos Coelho?
Era preferível Pedro Passos Coelho.