Luís Marques Mendes já não só ex-líder do PSD nem comentador. Como candidato presidencial tem dois grandes objetivos, além do já adquirido apoio do PSD: conquistar o centro (tendo, por vezes, de criticar o Governo e piscar o olho ao PS) e marcar diferenças para Marcelo sem criar ruturas com o estilo do incumbente. No jantar-conferência na Universidade de Verão do PSD desta quinta-feira, Mendes criticou Montenegro de forma velada, fez propostas para o combate aos incêndios e pressionou acordos com o PS.
Num momento em que é popular criticar a gestão dos incêndios — como já fez o almirante Gouveia e Melo — o candidato apoiado pelo PSD está sempre numa posição mais sensível. Ainda assim, Mendes não deixou de enviar recados que são críticas veladas a Montenegro.
Desde logo, na mesma linha das críticas feitas a Luís Montenegro por ter ido à Festa do Pontal, Mendes diz que antes da resposta política, o assunto deve ser encarado com “empatia e sensibilidade”, porque as populações afetadas se tratam pessoas de “carne e osso”. Primeira crítica velada. Depois — após o Governo ser criticado por autarcas por não declarar calamidade pública nos incêndios — Mendes atirou que “não é preciso declarar calamidade, o país declarou calamidade”. Segunda crítica velada. E, ainda antes de passar para as propostas, Mendes criticava a ineficácia política dos Governos na resposta aos incêndios, incluindo o de Montenegro, ao dizer que “a sensação que há em Portugal é que São Pedro manda mais do que os políticos portugueses. Esta sensação é preocupante”. Terceira crítica velada.
O “fogo amigo” de Mendes tem uma razão: o candidato presidencial precisa de ter vida própria para ter sucesso nas eleições de janeiro. Mas há formas de mitigar isso: informar Montenegro previamente dos tiros que foi dar na UV — o que é natural que tenha acontecido.
Ainda a propósito dos incêndios, Mendes também comentou a ousadia de ir a um evento do partido que apoia o Governo fazer propostas. Uma delas é inovadora. O candidato presidencial considera que criação de “uma Comissão de Avaliação Independente faz todo sentido” — como propôs o PS e foi secundado pelo PSD — mas sugere que “peritos internacionais” façam parte desta comissão. O candidato presidencial diz que “há excelentes especialistas em Portugal, mas que a presença de peritos internacionais traria distanciamento”, o que daria um contributo positivo.
Mendes defendeu ainda uma proposta do almirante (Silva Ribeiro) de que deve existir “um envolvimento total das Forças Armadas [no combate aos incêndios].” O seu adversário principal, o almirante (Gouveia e Melo) costuma utilizar a sua participação em Pedrógão Grande como um exemplo da sua capacidade de liderança — mas nem isso demove Mendes de sugerir uma maior intervenção das Forças Armadas nos incêndios.
O piscar de olho ao PS (e a defesa da moderação)
Com candidatos ou potenciais — como Gouveia e Melo, Cotrim Figueiredo ou André Ventura — a “pescar” à direita, Mendes precisa de alargar a capacidade de atrair eleitorado ao centro, incluindo aos socialista. Quer para a primeira, quer para uma eventual segunda volta. Daí que o candidato a Presidente da República não só se afaste do Chega (eleitorado que dificilmente atrai e que está distante das suas ideias), mas se tente aproximar do PS.
O candidato presidencial pressionou mesmo o partido que o apoia, o PSD, a negociar a Lei da Nacionalidade com os socialistas. “Uma lei como esta, que é orgânica, deve ter um consenso muito amplo, que envolva também o Partido Socialista. Uma lei destas não deve ser aprovada na base de uma maioria conjuntural.”
A diferença (sem rutura) com Marcelo
Mesmo sem ser propriamente “fogo amigo”, Marques Mendes vai tentando marcar a diferença para Marcelo. O Presidente tem sido criticado pela imprudência de ter chamado a Donald Trump um “ativo soviético ou russo”. Questionado por um aluno se validava essa afirmação, Mendes fugiu para não ter de criticar Marcelo, de quem se percebeu que discorda: “Não comento, em primeiro lugar, porque não sou um candidato-comentador e depois porque um candidato presidencial deve ter um mínimo de elegância quer para com o Presidente da República, quer para que os antecedem”. Ora, se Mendes concordasse com Marcelo, não seria deselegante. Ao não validar a frase é porque não concorda.
Ainda nas diferenças para Marcelo, Mendes voltou a ser questionado sobre o estilo de Presidência, procurando firmar distanciamento para Marcelo, mas apenas quanto baste. Repetiu, por isso, como já fez no passado, que “não há dois Presidentes iguais porque os estilos são diferentes, porque os contextos são diferentes e as causas são diferentes”. Disse, por isso, que “compete a cada um de vós [os alunos] tirar o estilo onde se enquadra”. Será fácil concluir que Mendes está muito mais próximo de Marcelo do que qualquer um dos antecessores, como aliás já se notava em anteriores edições da Universidade de Verão.
Além das semelhanças com Marcelo, ao longo do tempo foi-se tornando evidente que avançaria para Belém. E até que teria o apoio do PSD.
Marques Mendes está no terreno e é o mais bem posicionado para ter apoio do PSD a Belém
Tudo se confirmou. Em 2022, 2024 e 2025 a Universidade de Verão foi marcando o compasso de Mendes rumo a Belém. Primeiro, pelo assumir de um percurso similar a Marcelo. Depois, pela uma espécie de trailer da conquista do indispensável apoio do PSD. Terceiro, pela necessidade de conquistar um centro que também incluiu o PS.