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IGOR MARTINS / OBSERVADOR

IGOR MARTINS / OBSERVADOR

O namorado, os pais, a sogra, os cunhados, a fisioterapeuta. A rede que amparou Sofia depois de um AVC aos 23 anos

Depois daquele dia em que uma artéria no cérebro rebentou, o corpo deixou de responder e tudo mudou, Sofia teve de reaprender a vestir-se, a pentear-se, a caminhar, a comer. Mas não esteve sozinha.

No dia em que regressou a casa, a 16 de setembro de 2021, foi recebida com rosas vermelhas do namorado, beijos e abraços, lágrimas de alegria da família que a esperava. Sofia Ferreira tinha passado os últimos dois meses internada. Primeiro no Hospital de São Sebastião, em Santa Maria da Feira. Depois no Centro de Reabilitação do Norte (CRN), em Valadares, Vila Nova de Gaia, onde entrou de cadeira de rodas e saiu a andar.

Na manhã de 6 de julho de 2021, depois de entregar a tese de mestrado em Gestão Industrial na Universidade de Aveiro, Sofia teve um AVC hemorrágico grave, causado pelo rompimento de uma artéria no cérebro. Tinha 23 anos.

No telemóvel guarda ainda fotografias desses momentos pesados e difíceis, deitada na cama, a perna esquerda esticada envolta num aparelho que insufla ar, recordações de dias em que esperava ansiosamente a visita da mãe, do pai, do namorado. Há várias imagens em que aparece sorridente, numa felicidade possível naquelas circunstâncias. E guarda as mensagens, também. Todas as que ia recebendo de apoio por parte da família, do namorado e dos amigos foram importantes para não deixar a esperança cair, um suporte emocional fundamental. Esta foi a rede que a amparou.

Os cunhados
Cláudia Santos e Pedro Teixeira

“A presença dela no dia do nosso casamento vai ficar marcada para sempre"

Foram várias as mensagens trocadas durante os internamentos, palavras de motivação e de ânimo, perguntas para saber o estado de saúde, como corria a recuperação. Cláudia Santos atenta ao irmão, namorado de Sofia, naquela angústia e desassossego naturais para quem, de repente, vê a vida virada do avesso. “Não podíamos ir visitá-la, tornou-se mais complicado”, diz o marido, Pedro Teixeira. À época, as visitas ainda eram muito restritas devido à pandemia de Covid-19.

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“A Sofia foi sempre muito positiva, sabendo o tempo de recuperação que demora até ir ao normal”, diz ele. Cláudia concorda, sabe da persistência da cunhada. A relação é próxima, cimentada ao longo do tempo, disponibilidade para o que é preciso, seja para uma boleia ou para tratar de algum assunto.

Houve um dia marcante. Cláudia e Pedro tinham casamento marcado para 19 de setembro daquele 2021 que mudou a vida de todos para sempre. Três dias depois de sair do centro de reabilitação, Sofia estava na cerimónia. Vestido cinzento, sapatos raso, mala pequena, fitas musculares nas costas por causa do ombro que ainda descaía um pouco. Tantos abraços, tantas lágrimas, tanta comoção. “Chorámos de alegria”, lembra Cláudia.

Nas semanas antes, não havia a certeza de que seria possível contar com ela, mas aconteceu. “Sempre disse que ia lá estar e essa esperança da parte deles ajudou-me a lutar mais”, diz Sofia. “A presença dela naquele dia vai ficar marcada para sempre”, diz Pedro. “Foi um dos momentos mais altos.”

A sogra
Rosário Aguiar

“Estava preocupada com ela mas também com o meu filho”

Quando recebeu a chamada do filho, a contar aflito o que estava a acontecer, disse-lhe imediatamente para ligar ao 112 para chamar uma ambulância. Sofia tinha fortes dores de cabeça, precisava de ir imediatamente para o hospital. Nesse dia, Rosário Aguiar tentou manter a calma do outro lado da linha, embora pressentisse que poderia ser grave. Os dias seguintes confirmaram o pior.

Mas depois veio a esperança. E a força que sabia que tinha de ter nos dias, semanas, meses que vieram depois. Ela esteve sempre ali. Foram muitas as palavras e as mensagens que disse e que trocou com Sofia, num tom de que tudo iria correr bem. Acreditou que o estado de saúde ia melhorar, que ela iria recuperar. Tão nova, com tanta alegria e energia. E foi perguntando a uma médica conhecida e a uma auxiliar de saúde o que era ter um AVC em idade tão jovem e as hipóteses de recuperação.

Por outro lado, tinha de estar atenta ao estado emocional do filho com tudo o que estava a acontecer. Era preciso cuidar de quem cuida, com toda a atenção num momento de extrema aflição, insegurança relativamente ao futuro. Naquela altura, Rosário sabia que tinha de ser um pilar. Para ambos.

“Ia dando força, enviando mensagens, dizia-lhe para acreditar que ia ficar tudo bem”, recorda. Sofia sentia esse apoio, esse suporte, mesmo à distância, sabendo a consternação dos mais próximos pelo que se estava a passar. E essa rede deu-lhe uma certa tranquilidade.

A fisioterapeuta
Rute Alves

“A perna recuperou bem, o braço é que deu mais luta”

Depois do AVC, Sofia não conseguia vestir-se, levar o garfo à boca, pentear-se, sentar-se, andar. Rute Alves ensinou-lhe as atividades básicas do dia a dia, a puxar pelo corpo para recuperar os movimentos que antes fazia sem esforço, naturalmente sem pensar. Foram horas, dias, semanas e meses de sessões exigentes. A fisioterapeuta é assim, não descansa enquanto os doentes não conseguem. Com Sofia foi igual.

Rute acompanhou a recuperação no Hospital de São Sebastião, em Santa Maria da Feira, em dois momentos. No primeiro, logo após o AVC. No segundo, três meses depois, em regime de ambulatório, já depois do internamento. “Quando estava internada, trabalhámos o equilíbrio, a mão [mobilidade] para comer, para se pentear, para se vestir, atividades da vida diária.” Isto aconteceu entre 6 de julho a 5 de agosto de 2021, quando saiu dali para o CRN, onde ficou pouco mais de um mês. “Quando veio do centro de reabilitação, já conseguia caminhar, ainda com alguma dificuldade, mas potenciámos essa marcha para a tornar mais eficaz.”

Em outubro de 2021, Sofia voltou à fisioterapia. Rute estava à espera com mais indicações e exercícios. Começava uma nova fase de reabilitação, com três sessões por semana, uma hora cada. Foi assim até junho do ano seguinte. “A perna esquerda recuperou muito bem, o braço esquerdo é que deu mais luta. A condição física foi melhorando.” Sofia era dinâmica e proativa. “O sucesso do tratamento também passa por sentir confiança, por haver empatia.”

Depois do processo de reabilitação continuam próximas, mantêm o contacto, vão falando por telefone para saberem uma da outra. Quando tem possibilidade, Sofia partilha o que lhe aconteceu na iniciativa “AVC Vai à Escola” a convite de um dos Grupos de Ajuda Mútua a sobreviventes e familiares do AVC, da associação Portugal AVC.  É Rute Alves quem a convida e ela já esteve em escolas de Espinho e de São João da Madeira. “A Sofia é um bom exemplo, cria impacto.” A iniciativa aborda os sintomas do AVC, passa a mensagem aos alunos de que esse problema afeta jovens, adultos, idosos, tem uma parte dedicada aos testemunhos. E é aí que Sofia entra.

O namorado
Daniel Santos

“Começamos a dar mais valor ao que é estar com alguém”

Quando Sofia voltou do hospital para casa dos pais, Daniel mudou-se de malas e bagagens para junto dela. Depois da ausência, da distância, das poucas visitas possíveis devido à pandemia e de tantas mensagens, telefonemas e videochamadas para se verem, para falarem.

Daniel é essencial para o dia a dia, pronto para o que é preciso, em casa, no acompanhamento de consultas, nas voltas para estar com a família de um lado e do outro. Mas também para ouvir lamentos e amparar lágrimas nesse tempo em que o chão tremeu, para rir em momentos felizes, para não baixar os braços, a acreditar na recuperação.

Ele garante que tem orgulho na mulher que tem ao lado e não entende bem o que aconteceu naquele 6 de julho de 2021. Tudo se passou ali, à sua frente. No quarto dele, em casa dos pais. Uma rapariga saudável, que não fumava, que não bebia, fazia exercício físico com regularidade, ginásio, algumas corridas e caminhadas. Praticou patinagem artística dos oito aos 18 anos. Defensora e cumpridora de uma alimentação regrada, minuciosa nessa parte, atenta às colheres de açúcar que a família coloca no café ou nos bolos. E, naquele dia, naquelas horas, tudo aconteceu.

Em maio do ano passado, quando Sofia disse que alguma coisa não estava bem, que tinha maior sensibilidade ao frio e ao calor, o pé e a perna dormentes, cada vez com maior frequência, Daniel insistiu para irem ao hospital, apesar de ela não querer. Ficou internada uma semana, a fazer exames complementares de diagnóstico, o que era necessário para perceber o que se passava. “Com o histórico, tinha de ter mais cuidado.” Os resultados chegaram. “Era um tipo de epilepsia, uma consequência do AVC.” A situação está controlada com medicação, embora tenha demorado mais meio ano até poder voltar a conduzir.

“Uma pessoa pensa que só acontece aos outros”, diz hoje Daniel. Mas não é assim, ele sabe bem que não é assim. “Quando uma coisa destas surge, começamos a dar mais valor ao que é estar com alguém.”

Os pais
Olinda Ferreira e José Ferreira

“A nossa filha estava totalmente paralisada, não mexia nada do lado esquerdo”

Prepararam tudo para o regresso da filha a casa, em Argoncilhe, Santa Maria da Feira. O mini ginásio, que têm, com tudo a postos para o que fosse necessário, a passadeira a funcionar, os espaços adaptados. Sabiam que ela iria cumprir os exercícios que lhe tinham mandado fazer. Arrumaram os tapetes do quarto de casal para não haver tropeções, decidiram que Sofia dormiria ali e não no quarto dela, por ser mais cómodo e pelo acesso à casa de banho.

Ambos engenheiros numa empresa familiar, geriram horários profissionais para se adaptarem. Quilómetros de estrada pela EN 1, vinte minutos entre Argoncilhe e o hospital, na Feira, depois outro tanto até ao centro de reabilitação, em Vila Nova de Gaia. Visitas, consultas, tratamentos, sempre de máscaras na cara, em tempos de pandemia. Telefonemas, conversas com médicos, horas sem dormir, refeições levadas à cama.

Olinda lembra-se da primeira sessão de fisioterapia no hospital, era hora da visita, estava lá. “Insistiam para mexer um músculo e ele não obedecia.” A reabilitação era intensa, fisioterapia às segundas, quartas e sextas, terapia ocupacional às terças e quintas. No CRN, também, de manhã e de tarde. Sofia tinha perdido muita massa muscular, o corpo espalmado, cansado, ainda alguma dormência na cara e no lado esquerdo. A mãe recorda-se da batota que, por vezes, a filha fazia. “Na transferência da cadeira de rodas para a cama, usava o pé direito para ajudar.” Sofia ri-se.

“Começámos a ver melhorias, mexia um dedo, mexia a mão, e ficámos mais otimistas”, diz a mãe. “Numa visita, caminhou até nós”, completa o pai. “Num dia, fazia uma coisa, noutro dia outra coisa, um dia atrás do outro, sempre a evoluir de semana para semana.” José ainda guarda as folhas de papel com o historial clínico da filha, datas da entrada e saída do hospital, coisas que a memória não quer relembrar.

A 6 de julho de 2021, Olinda recebeu aquele telefonema da filha a chorar, que passou imediatamente o telemóvel para o namorado. Dali a pouco, Sofia estava numa ambulância. Largou tudo e foi lançada com o marido para o hospital. “Suspeitavam de um AVC hemorrágico, fizeram mais exames. A Sofia estava totalmente paralisada, não mexia nada do lado esquerdo.”

Algumas horas depois, os médicos avisaram que a iriam transferir para os cuidados intensivos do Hospital de Vila Nova de Gaia. “Não sabiam o que iam fazer, não queriam mexer porque o coágulo era de difícil acesso, não dava para operar.” Sofia saía de um hospital para outro, mais a norte. Ficou dois dias em Gaia e regressou aos cuidados intermédios do Hospital de São Sebastião, na Feira. “Nunca souberam a causa do AVC da minha filha”, diz Olinda.

A doente
Sofia Ferreira

“Ouçam o corpo e não cheguem ao limite”

Andava nervosa, demasiado ansiosa, a terminar a tese de mestrado do curso de Gestão Industrial na Universidade de Aveiro. Depois ainda tinha de preparar a apresentação do trabalho. “Queria fazer exercício ao mesmo tempo, não descansava, andava agitada e não conseguia dormir. Tinha dores de cabeça, acordava mais cansada do que quando me deitava.” Sabia que tinha de marcar uma consulta com o médico de família, ver que dores eram aquelas, eventualmente fazer exames. Deixou andar.

A 6 de julho de 2021, Sofia foi de manhã para casa do namorado, em São Paio de Oleiros (Santa Maria da Feira). Era cedo quando lá chegou, pelas nove horas, sentiu uma dor de cabeça “muito forte”. Quando levou a mão à testa, o braço esquerdo caiu-lhe sem força. Estava sentada, sentia a coluna a descair, o lado esquerdo do corpo dormente. “Eu sabia exatamente o que tinha, o que estava a acontecer.” Daniel também. Naquele momento, nada disseram sobre isso um ao outro. Ele fez-lhe algumas perguntas, ela ia respondendo, as palavras cada vez menos percetíveis.

“Foi uma veiazinha que rasgou e houve um derrame”, diz hoje, à distância. O namorado ligou para o 112, a ambulância chegou, hospital, meses de internamento e de reabilitação. “O ponto alto era receber a minha mãezinha”, diz meio emocionada. No CRN, com o vidro a separá-las, foi mais duro. “Sem o toque das pessoas, custou mais.” Dia após dia, foi superando o problema. Em dezembro de 2021, cinco meses depois do AVC, defendeu a tese de mestrado numa apresentação feita online. Tirou 18 valores.

Hoje, quando vai às escolas, falar a turmas do 9.º e 10.º anos, conta a história que causa bastante impacto nos alunos. Uma coisa é terem à frente alguém mais velho, eventualmente numa cadeira de rodas, outra coisa é estar ali uma jovem a partilhar o que se passou. “Falo do que me aconteceu e alerto para que ouçam o corpo e não cheguem ao limite.” A não viver a correr, demasiado depressa, a não ignorar sinais.

Sofia tem agora 26 anos, faz pilates e treino de musculação para melhorar o equilíbrio e a força do lado esquerdo. Trabalha numa empresa de logística, conduz um carro automático e é juíza de patinagem artística. Vive com o namorado em Sandim, Vila Nova de Gaia, desde novembro de 2022, têm dois cães. Está grávida de seis meses. E ainda guarda as rosas vermelhas que Daniel lhe ofereceu no dia em que regressou a casa.

Arterial é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com doenças cérebro-cardiovasculares. Resulta de uma parceria com a Novartis e tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. É um conteúdo editorial completamente independente.

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