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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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O número mágico chegou, mas Ventura não foi suficiente para unir a direita

Ventura quis ser o "líder da direita" contra Seguro, mas num país que deu mais de 3 milhões e 700 mil votos entre AD, Chega e IL há uns meses, presidente do Chega ficou aquém da própria ambição.

“Com este resultado temos um novo primeiro-ministro.” A frase saiu da boca de um deputado no momento em que as primeiras projeções foram conhecidas (com um silêncio profundo) e espelham bem as expectativas que existiam no quartel-general de André Ventura ao início da noite. A essa hora faltava apenas saber se o número mágico que estava na cabeça do núcleo duro do Chega (31,21%, leia-se resultado da AD nas legislativas de 2025) se confirmava ou não para o presidente do Chega atirar para a frente: reafirmar-se como o “líder da direita” e mostrar que “o Chega superou a AD”.

André Ventura esteve até ao último segundo para perceber se podia ou não fazer um discurso de semi-vitória dentro da derrota (que assumiu prontamente: “Não vencemos”) e com os 33,18% com que a noite fechou foi exatamente isso que fez. Mais a mais: esta não era uma batalha para o Ventura que sempre sonhou ser primeiro-ministro e que acredita que esse é o fato que lhe assenta melhor. Com a passagem à segunda volta ficou claríssimo que este era apenas mais um degrau no percurso. A alegria com que subiu ao palco há três semanas não é comparável com o semblante desta noite eleitoral — independentemente do peso e da previsibilidade, Ventura não está habituado a perder (nunca foi o verdadeiro vencedor, mas tem feito um caminho que lhe permite sempre cantar vitória).

Não havia tempo para mais do que o assumir a derrota e colocar isso para trás das costas. Mesmo que o peso estivesse presente no rosto, era preciso mostrar que este pode ser um passo em frente. E Ventura fez isso: focou o discurso no futuro. No fim de uma “campanha a lutar contra todo o sistema político português”, André Ventura considerou “justo dizer” o seguinte: “Liderámos de forma clara, com uma vitória na primeira volta de todo o espaço não-socialista em Portugal, conseguimos mobilizar uma parte do país contra um sistema de 50 anos montado de bipartidarismo que se verificou nesta segunda volta ainda mais intenso e ainda mais feroz e conseguimos dizer aos portugueses que, talvez pela primeira vez em 50 anos, havia uma alternativa que não era do espaço do PS e do espaço do PSD. Liderámos a direita, vamos liderar a direita em Portugal.”

E fê-lo assim, a falar no plural, já com fato de líder do Chega e líder da oposição vestido — e deixando cair o candidato presidencial com a mesma rapidez com que o construiu, entre dúvidas e tentativas de marcar espaço. Aliás, depois de várias semanas a ser apresentado como o “próximo Presidente da República” nos comícios da primeira volta das eleições, o speaker chamou-o ao palco o “líder de todos nós”.

“Tivemos o melhor resultado de sempre da nossa história e acho que é justo dizermos, olhando para o resultado desta noite, em que superámos a percentagem da AD nas últimas eleições legislativas, mais de 30% dos votos em relação à primeira volta das eleições presidenciais e tivemos mais de 300 mil votos do que nas últimas eleições legislativas em Portugal. Ultrapassámos com 33,2% os 31% da AD nas últimas eleições. Acho que a mensagem dos portugueses foi clara. Lideramos a direita em Portugal, lideramos o espaço da direita em Portugal e vamos em breve governar este país”, atirou, deixando claro que esta é uma conquista do Chega, não pessoal, e que deve ser usada para ambicionar mais — de olhos postos no Governo.

Consciente de que os portugueses “escolheram ainda o caminho da continuidade” ao optar por um “Presidente da área do Partido Socialista que representa a continuidade do sistema político”, Ventura reiterou que o Chega não vencer, “mas [está] no caminho dessa vitória.” Aos olhos do presidente do partido, este resultado é um “enorme estímulo para trabalhar, para continuarmos a trabalhar nesse projeto que é transformar Portugal”.

Ainda que a percentagem tenha sido maior do que a da AD nas legislativas, Ventura não ultrapassou os votos que levaram Luís Montenegro a essa vitória e, questionado sobre esse facto, desvalorizou: “Não, não, desculpe, votaram menos 500 ou 600 mil pessoas, o Chega teve 33%, a AD teve 31%, é essa a base. É a primeira vez que acontece na história: o Chega supera a AD.” E resumiu: “Vocês disseram durante a campanha toda que eu era o líder da oposição, se isso significa 33,2%, significa que sou o melhor partido do país.”

Mesmo no final do discurso no púlpito onde se lia “Ventura Presidente”, o candidato derrotado não deixou arrumar a campanha sem recuperar o “sonho de Sá Carneiro: conseguir uma maioria que não em nome das elites, mas em nome do povo, faça a diferença e a mudança”.

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A luta a dois que não venceu (e o sonho mais difícil em legislativas)

André Ventura conseguiu mais 413.468 votos do que na primeira volta das presidenciais (faltam apurar 20 freguesias e sete consulados), mais 291.500 do que o Chega nas legislativas de 2025, mas na luta a dois perdeu em toda a linha: o círculo eleitoral de Faro passou a ser de Seguro, bem como a Madeira. Perdeu nos dois concelhos em que tinha conquistado câmaras municipais (Entroncamento e Albufeira) e, em todo o país, apenas consegue vitórias nos concelhos de São Vicente e Elvas.

Mas o número mais relevante é mesmo aquele que o separa da votação conquistada por Luís Montenegro nas legislativas de 2025 (mais de 240 mil eleitores), que Ventura desvalorizou devido à percentagem superior, sendo certo que houve menos eleitores. Já o tinha feito na primeira volta, quando teve menos votos do que o Chega nas legislativas, ainda que isso se tenha refletido numa percentagem maior.

A verdade é que, nas últimas semanas, se colocou como fasquia esse valor, numa fórmula que deixaria Ventura numa posição bem mais confortável no Parlamento, como um líder da oposição reforçado. O outro lado da moeda é que o presidente do Chega não foi muito além desse valor quando era uma luta de um para um e construiu a narrativa de que era o líder da direita frente a um socialista e, mais do que isso, o representante do povo contra as elites. Acabou por não ser nenhum dos dois.

Em maio de 2026, AD, Chega e IL conseguiram praticamente 60% dos votos, mais de 3 milhões e 700 mil votos — o que bastou para uma maioria de ⅔ no Parlamento. Perante estes números, André Ventura, que se auto-intitulou “líder da direita”, fica muito aquém de ser o rosto capaz de “unir e agregar” essa mesma direita, como ambicionou na noite eleitoral da primeira volta. E, mais uma vez, esta é uma luta a dois. Na próxima vez que for a votos terá sempre de contar com uma distribuição de votos maior do que a que existiu nesta segunda ronda — numas legislativas os votos serão baralhados por vários partidos, como aconteceu na primeira volta.

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Seja como for, depois de ter conseguido mais de 1 milhão e 400 mil eleitores nas legislativas de 2025, André Ventura pode bem ter desbloqueado a barreira psicológica das mais 300 mil pessoas que votaram em si — um dos receios da AD — e esse é o grande foco do líder do Chega, mesmo que possa ter perdido uma oportunidade para convencer mais eleitores de direita. Resta saber como Ventura vai ou não aproveitar a derrota que quis transformar numa semi-vitória.

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