1228kWh poupados 1228 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Centro de Tropas de Operações Especiais do Exército, em Lamego, 13 de janeiro de 2026. PAULO NOVAIS/LUSA
i

O Centro de Tropas de Operações Especiais do Exército, em Lamego

PAULO NOVAIS/LUSA

O Centro de Tropas de Operações Especiais do Exército, em Lamego

PAULO NOVAIS/LUSA

O treino militar "duro", as provas que podiam ser adiadas e o exercício fatal no "funicular". Morte de João está a ser investigada

João passou as exigentes provas físicas para ser ranger. Estava a começar a terceira semana do curso, em Lamego, quando foi arrastado pela corrente do rio e morreu. PJ Militar foi chamada.

De olhos postos na outra margem do rio Balsemão, os sete militares em formação no centro de Tropas de Operações Especiais em Penude, Lamego enfrentaram um treino com um acréscimo de dificuldade na noite de 26 de janeiro. O exercício, conhecido como “funicular”, é antigo e várias vezes repetido. Mas desta vez, era ainda mais difícil do que o normal.

Os efeitos da depressão Joseph já se faziam sentir em Portugal, em especial na região Centro, com avisos em vigor para o distrito de Viseu quer por ventos fortes, quer por precipitação. Eram 23h de segunda-feira quando o oficial de Infantaria João dos Santos Cardoso foi levado pelo caudal violento do rio e desapareceu da visão dos camaradas. O exercício terminou de imediato.

“O rio [estava] cheio de água, a dar pela cintura. Eu estou revoltada. Nunca os vi cá a fazer um exercício com a maré tão alta, tem sido sempre com ela mais baixa”. Para Ana Coelho, habitante de Penude que falou com os canais RTP e SIC, a presença desta tropa de elite nas redondezas é habitual, mas não nestas circunstâncias. Rapidamente se mobilizaram esforços para encontrar o jovem mafrense de 23 anos, mas essa missão também se complicava pela fraca visibilidade e os difíceis acessos às margens. As horas passaram sem que fosse possível encontrar João, mesmo com o apoio da Proteção Civil e dos bombeiros.

A Joseph traz muita chuva esta segunda a norte e frio e neve na terça. Todo o país a amarelo e laranja

De manhã, confirmou-se o pior cenário. “O Exército Português comunica o falecimento do Alferes de Infantaria João Rafael Paulino dos Santos Cardoso, natural de Mafra, que se encontrava por localizar desde ontem à noite, na sequência de um incidente ocorrido durante a frequência do Curso de Operações Especiais, no rio Balsemão, na região de Penude, Lamego”, informou o Exército através de um comunicado.

No mesmo comunicado, o Exército enviou as condolências à família — que prometeu ajudar com acompanhamento psicológico — e aos camaradas, e anunciou a abertura de “um processo de averiguações para apurar todas as circunstâncias do ocorrido”, tendo sido informada a Polícia Judiciária Militar, que já está a investigar o caso. A camaradagem de quem sabe a dureza e a complexidade deste curso levou dezenas de militares e ex-militares a manifestarem os seus pêsames nas redes sociais.

Ao Observador, um militar que passou por Lamego como instruendo e instrutor salienta que “obviamente, as provas podem ser adiadas”. “No meu curso aconteceu várias vezes. Se já está previsto as condições meteorológicas serem mais gravosas do que seria normal, elas são adiadas”. Há riscos, assumiu, mas há mecanismos de segurança que devem ser respeitados e, quando, como esta semana, há desastres, é porque não foram devidamente acautelados.

Outro antigo ranger, que esteve em Lamego “há muitos anos”, disse que, nessa altura, estava “fora de questão” adiar um exercício por causa do mau tempo. “Se tivéssemos que fazer, fazíamos, tínhamos que estar preparados para tudo. Eu cheguei a acordar com o meu saco de cama coberto de neve. Somos uma tropa de elite, que tem que estar sempre à frente, somos preparados para tudo”. Ainda assim, assegurou que “agora é diferente” e “há mais segurança”.

O mérito do trabalho realizado em Lamego é reconhecido tanto pela presença constante de militares estrangeiros que vêm a Portugal realizar este curso, como pelos sucessivos destacamentos destas tropas nacionais no estrangeiro: neste momento, os militares da Força de Operações Especiais (FOE) do Exército Português, formados no Centro de Tropas de Operações Especiais (CTOE) de Lamego, estão na Roménia, em missão da NATO, como parte do Special Operations Land Task Group (SOLTG).

Militar morre após ser arrastado pela corrente durante exercício do Exército num rio em Lamego

Curso de Operações Especiais tinha começado há poucos dias com sete militares. Antes de passar rigorosos testes físicos, João foi um dos melhores na Academia

João, como outros seis camaradas, tinha iniciado a 12 de janeiro o curso de Operações Especiais, confirmou ao Observador fonte oficial do Exército. Quem passou pelos desafios complexos que os militares vivem em Lamego admite que é normal, fruto das desistências, terminarem menos do que os poucos que já começaram.

“Há vários cursos, neste caso era um curso pessoal do quadro permanente, mas existe também um curso para praças em que a duração é menor e que o pessoal não tem ainda experiência. Os oficiais e sargentos já vêm com bagagem de vários anos”, explicou um ex-ranger.

O número reduzido de militares e a dificuldade dos seus treinos prepara os rangers para atuarem nas situações mais complexas, sem temor pelo ‘adversário’. “Que os muitos per ser poucos nam temamos”, diz o lema das Operações Especiais. “Há muitas desistências, principalmente logo ao início. Há logo provas iniciais para ver em que condições estão os instruendos e se têm vontade ou não para terminar o curso”, reitera a mesma fonte.

O curso difere entre 13 semanas, para os Praças, e 15 semanas, para as categorias de Sargentos e Oficiais. O mafrense, depois de uma passagem pela Academia Militar, pertencia aos segundos. Segundo o Correio da Manhã, tinha saído há apenas três meses da academia, sendo colocado no regimento 14, em Viseu, até perseguir a vontade de ser ranger.

"O curso tem um programa que decorre em vários locais. Procuramos as condições ideais para consolidar cada uma das atividades formativas"
Fonte oficial do Exército

Antes de perseguir o sonho militar, João intercalava os estudos com, pelo menos, dois hobbies: o andebol — jogou no Clube Desportivo de Mafra — e a música — também na sua terra natal, integrou a Banda da Escola de Música Juventude de Mafra. O jovem nascido em 2002 saiu do curso de armas de Infantaria da Academia Militar como um dos melhores alunos, revelou o Correio da Manhã.

Para entrar nas Operações Especiais, o jovem teve que passar em vários exames e testes para “avaliar a aptidão psicofísica dos candidatos”, descreve o site do Exército. Tais provas consistem em avaliações físicas, psicológicas, médicas e uma entrevista. Os exigentes testes físicos contemplam 16 alíneas, entre as quais: corrida de 2500 metros em 12 minutos; 40 abdominais em 1 minuto; percorrer 15 quilómetros armado, equipado e com dez quilos de carga em 120 minutos; natação de 10 metros em imersão; e subida a corda vertical de cinco metros, com ajuda dos pés.

“Eu quando estive no meu curso houve três pré-seleções, éramos quase 500 e ficamos só os melhores dos melhores”, recorda um antigo ranger, que testemunhou, durante os treinos, acidentes bastante graves. “Infelizmente acontece a quem anda nessa tropa, mas somos bem preparados para isso”.

“Acidentes acontecem porque não se conseguiu acautelar tudo”, confessa ranger. Exército não diz quantos militares supervisionavam exercício noturno

O risco inerente associado a um treino que se quer exigente para preparar tropas, verdadeiramente, especiais, é reconhecido por todos os que lá passaram. Os militares são formados em pistas únicas que só existem, em Portugal, no aquartelamento de Penude. Mas a envolvência de uma zona que reconhece e se orgulha dos jovens que ali treinam também é aproveitada — sejam as serras ou o rio, como o Balsemão.

“O curso tem um programa que decorre em vários locais. Procuramos as condições ideais para consolidar cada uma das atividades formativas. O curso decorre dentro de instalações militares e fora de instalações ou áreas militares”, confirma ao Observador fonte oficial do Exército.

As muitas provas que não são realizadas no quartel passam por exercícios no meio do mato, nas ribeiras e no rio — “travessia de curso de água de bote ou a nado” — e provas de sobrevivência de três dias sem alimento. Por estar a cerca de 400 metros do aquartelamento, os exercícios em água passam muito pelo rio Balsemão. Lá, fazem-se as tais “passagens com corda”, mas sempre cumprindo as regras de segurança. “Mas sabemos como é o curso, também acontecem acidentes, os instruendos assinam um termo de responsabilidade”, frisa o ranger ouvido pelo Observador.

"Deixa marcas para a vida toda. Eu recordo-me todos os dias. Passa-se tudo lá: fome, sede, cansaço. Sai-se de lá outra pessoa, uma pessoa preparada para tudo"
Ex-ranger

“Há sempre alguém que está a acautelar a segurança, temos várias estações por onde passamos para responder ao que está a ser solicitado em cada estação/obstáculo, mas está sempre alguém a acompanhar, tudo o que se possa prever. Eu fui instruendo, mas também já fui instrutor. Os acidentes só acontecem porque não se conseguiu acautelar tudo”. Ainda assim, acrescentou o ranger, “há determinadas variáveis que ninguém consegue calcular”, como “o tempo e as condições meteorológicas”, quando se alteram bruscamente de um momento para o outro.

Ao Observador, fonte oficial do Exército não confirmou quantos instrutores estariam a supervisionar este exercício. “É uma questão que será tida em conta no processo de averiguações”. Também não esclareceu se a prova estaria, sequer, a ser supervisionada, mas um antigo instrutor admitiu que o “curso é sempre acompanhado pela equipa de instrução e o comando da unidade”.

O ranger assume que, numa fase mais avançada do curso (que não era o caso nesta morte), os exercícios podem ser feitos com “mais à vontade”, porque os militares já terão mais experiência. Ainda assim, nunca se deve facilitar e, inclusive, os registos de mortes em treinos das Operações Especiais são escassos. Ao Jornal de Notícias, duas fontes militares apontaram duas possibilidades: ou o arnês de segurança se partiu quando era feita a travessia do rio; ou, depois de concluir a travessia, João escorregou numa pedra e caiu. Fonte oficial recusa comentar, para já, qualquer conclusão precipitada do que pode ter acontecido.

O ranger ouvido pelo Observador que já passou há mais tempo por Lamego, assume: “Não gostava que o meu filho fosse para lá… passar aquilo que eu passei. Foi duro, muito duro. Deixa marcas para a vida toda. Eu recordo-me todos os dias. Passa-se tudo lá: fome, sede, cansaço. Sai-se de lá outra pessoa, uma pessoa preparada para tudo”.

Há muitas desistências, principalmente logo ao início. Há logo provas iniciais para ver em que condições estão os instruendos e se têm vontade ou não para terminar o curso
Ex-ranger

Banda de Mafra lembra “miúdo exemplar” e clube de andebol destaca sorriso contagiante

A primeira confirmação da morte de João surgiu por parte do próprio Exército, que confirmou que o homem que estava desaparecido desde a noite anterior era o militar que estava a completar a formação em Lamego e que tinha sido encontrado sem vida.

A reação de Nuno Melo chegou ao final do dia, depois de uma viagem do Ministro da Defesa à Turquia. “Temos que lamentar esta fatalidade, que acontece numa ação de formação de um jovem. Não há nada que substitua uma vida, não há nada que se possa fazer para substituir essa vida e eu aproveito a oportunidade para apresentar à família, em nome da Defesa Nacional, sentimentos que são muito sinceros”. O governante salientou a abertura do processo de averiguações e prometeu que “tudo será apurado”.

Antes, Marcelo Rebelo de Sousa, que além de Presidente da República assume o título de Comandante Supremo das Forças Armadas, manifestou o seu pesar “pela morte do Alferes de Infantaria João Rafael Paulino dos Santos Cardoso que se encontrava a frequentar o Curso de Operações Especiais.” O Chefe de Estado disse que acompanhou o assunto “desde o primeiro momento”, mantendo “contacto direto com o General Chefe do Estado-Maior do Exército”. PSP, GNR e PJ uniram-se ao Exército e também partilharam, através das redes sociais, uma nota de pesar pela morte do militar.

"No meu curso aconteceu várias vezes. Se já está previsto as condições meteorológicas serem mais gravosas do que seria normal, elas são adiadas"
Ex-ranger

As reações tiveram especial relevo em Mafra, terra que viu o militar nascer, e onde era membro participativo da comunidade, seja no clube de andebol ou na banda de música. “Aos dias de hoje não fazia parte ativa da banda, no entanto era presença assídua nos nossos concertos. Para nos ouvir, por orgulho da sua banda, para reviver as muitas amizades que tem na nossa banda”, escreveu a Banda da Escola de Música Juventude de Mafra no Facebook.

“Há notícias que não queremos receber. Demasiadas vezes assumimos que conseguimos lidar com todo o tipo de emoções. Mas não conseguimos.. Hoje perdemos um dos nossos, o João Rafael Cardoso. Faleceu esta noite, com 23 anos, a fazer o que mais amava. Um miúdo exemplar, com valores bem alicerçados, de uma educação irrepreensível, com um sorriso e alegria de viver que não deixava ninguém indiferente”, acrescentaram.

Já o Clube Desportivo de Mafra pediu que “o seu sorriso e boa disposição contagiantes perdurem nas memórias de todos os que jogaram e conviveram com o ‘Cardoso’”.

Em reação ao que aconteceu, o deputado Fabian Figueiredo, do Bloco de Esquerda, dirigiu uma pergunta ao ministério da Defesa, sobre “a gestão de risco e o cumprimento dos protocolos de segurança, sublinhando que a reincidência de incidentes fatais em instrução militar torna o escrutínio público imperativo”.

Além disso, o partido quer saber se foi realizada uma “reavaliação do Plano de Gestão de Riscos antes do início do exercício, considerando os avisos meteorológicos”; se “estavam garantidas medidas de salvaguarda como a presença de mergulhadores de prevenção, meios de flutuação e cabos de vida adequados à força da corrente”; e qual era “a cadeia de comando responsável pela decisão de manter o treino perante o agravamento das condições hidrológicas”.

“Adicionalmente, o partido solicitou dados sobre o número de militares mortos ou gravemente feridos em exercícios nos últimos 10 anos, bem como as conclusões de investigações a acidentes anteriores em cursos de tropas especiais”.

[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.