Antes de um funeral reservado a familiares, Francisco Pinto Balsemão teve um último momento de homenagem pública — seguida de perto e em peso pela imprensa, depois de décadas como líder de um dos maiores grupos de comunicação social do país. A missa desta quinta-feira na Igreja de Santa Maria de Belém juntou figuras da política com caras conhecidas do entretenimento e outras tantas do jornalismo. Os discursos na cerimónia seriam apenas dois: do filho e sucessor à frente da Impresa, Francisco Pedro Balsemão; e o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.
O chfe de Estado chegou à porta da Igreja dez minutos antes da cerimónia arrancar, partilhando o banco de trás de um Mercedes com Luís Montenegro. O primeiro-ministro não ficou para ver a urna de Pinto Balsemão entrar na carrinha funerária que levaria o seu corpo até às instalações do grupo Impresa, em Paço de Arcos. Ainda assim, à saída, teve tempo para homenagear o militante número um do então PPD, apelidando-o de “um dos pais do PSD”. A antiga líder do partido Manuela Ferreira Leite, à entrada para a missa, também comparou o que o momento representa para o partido com “o sentimento da morte de um pai”.
Durante a cerimónia, Manuel Clemente, o antigo Cardeal-Patriarca de Lisboa que a presidiu, caracterizou o fundador da SIC e do Expresso como um “homem de Estado” e disse que a missa nos Jerónimos era “um momento nacional”. Depois, seria a vez de Marcelo elogiar a visão, a luta e o otimismo de Francisco Pinto Balsemão, garantindo que “Portugal nunca esquecerá” a sua figura. Por fim, falou Francisco Pedro Balsemão que lembrou que o pai “não era uma pessoa perfeita”, mas que foi um homem “transcendente”.
À entrada, juntaram-se rostos da SIC e do PSD (mas não só)
Uma hora e meia antes do início da missa, às 11h30, começavam a chegar à porta da Igreja dos Jerónimos os primeiros convidados. Por essa altura, iam sendo descarregadas na igreja dezenas de coroas de flores diretamente de uma carrinha da Servilusa dedicada exclusivamente para o efeito. Atrás dos gradeamentos que limitavam o perímetro da cerimónia, uma dezena de turistas curiosos tirava fotos ao forte aparato mediático que se instalou provisoriamente em frente ao Jerónimos (havia plateaus de televisão da sua SIC e da estação pública RTP, mas não da concorrente TVI). Como em qualquer outro dia, outros esperavam na longa fila para visitar o Mosteiro que é património mundial da UNESCO desde 1983. Ninguém que quisesse participar na cerimónia ficou de fora da igreja.
A entrada fez-se por duas portas: uma para o público geral e outra para a família e os convidados mais importantes. Para entrar pela primeira, formou-se uma longa fila com caras que normalmente se encontram entre os convidados mais exclusivos de qualquer evento em que participem. A apresentadora Fátima Lopes, o jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho e a ministra da Saúde Ana Paula Martins foram alguns dos que ajudaram a dar comprimento ao cordão de pessoas que esperavam para entrar.
Pela outra porta, entrou a maioria dos restantes ministros presentes (Paulo Rangel, António Leitão Amaro, Rita Júdice, Gonçalo Matias), os presidentes das câmaras municipais de Lisboa e Porto, Carlos Moedas e Rui Moreira, e as mais altas figuras de Estado como o Presidente da República, o primeiro-ministro e o Presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar Branco.
Também por essa porta foram recebidos Aníbal Cavaco Silva, acompanhado da mulher Maria Cavaco Silva, e Manuela Eanes, na ausência do marido que apenas esteve presente no velório de quarta-feira – tal como aconteceu com Pedro Passos Coelho. A mulher de António Ramalho Eanes foi das poucas a falar à entrada, sublinhando “o papel da viúva”, Mercedes Balsemão, na vida do fundador do Expresso.
Se Cavaco, que não falou à imprensa, era o único ex-primeiro-ministro na cerimónia, os únicos líderes partidários da oposição presentes eram José Luís Carneiro e Inês Sousa Real. O secretário-geral socialista, acompanhado de Eurico Brilhante Dias e Pedro Delgado Alves, vincou que a presença do PS na cerimónia acontecia numa lógica de “respeito institucional” e aproveitou para destacar o legado de Balsemão como um “construtor do valor de liberdade”.
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Lá dentro, falaram o filho sucessor e Marcelo
A cerimónia arrancou perto da hora prevista e os convidados que chegavam atrasados à Igreja de Santa Maria de Belém não tiveram outra alternativa senão assistir à homilia de corpo presente, em pé, a alguns metros da porta. O Cardeal Manuel Clemente começou por destacar que a cerimónia que presidia era “um momento nacional” em homenagem a um “homem de Estado”.
“É significativo que a celebração seja precisamente aqui, sendo [Pinto Balsemão] uma pessoa que viveu uma vida que marcou o nosso destino comum.” De seguida, os netos do fundador do PSD proferiram a oração dos fiéis, antes do fadista Camané interpretar o tema “Abandono” acompanhado de José Manuel Neto na guitarra portuguesa – poema escrito por David Mourão-Ferreira e gravado por Amália Rodrigues, em 1962. Seguiram-se os principais momentos da cerimónia, que durou pouco mais de uma hora, com os discursos de Marcelo Rebelo de Sousa e Francisco Pedro Balsemão. O Presidente da República assinalou que Balsemão “sempre quis realizar-se pelos outros e com os outros”.
Num discurso mais curto do que o normal para Marcelo, destacou três características do fundador da SIC e Expresso: Balsemão foi um “visionário” a “romper barreiras” e “desbravar horizontes; foi um “lutador”, preferindo “a solidão da resistência ao ditame da submissão”; e foi um “otimista escatológico, a acreditar sempre no amanhã”. Por fim, disse que o antigo primeiro-ministro “ajudou a abrir” Portugal “para a liberdade e para a democracia” – país que “nunca o esquecerá”, acredita.
Seguiu-se Francisco Pedro Balsemão que falou do pai como o homem de negócios que lhe passou a pasta, mas, acima de tudo, em nome da família, nomeadamente os seus 20 descendentes – cinco filhos, 14 netos e um bisneto. Concedeu que Pinto Balsemão “não era uma pessoa perfeita” e que foi, “por vezes, um pai e marido ausente”, contando que “se entrou duas vezes” na cozinha da família “foi por engano”. Contudo, lembrou o pai como um homem “transcendental” que “construiu uma família que tudo fará para continuar o seu legado”. Por fim, lembrou um valor que lhe foi transmitido por Pinto Balsemão: “Por termos nascido num berço de ouro tínhamos de fazer mais do que os outros”.
À saída, Rio lembrou o exame de Balsemão para chumbar Montenegro
A urna de Francisco Pinto Balsemão foi, então, transportada para a carrinha funerária que levou o corpo até ao local em Cascais onde se realizou o funeral. Pelo meio, a carrinha funerária parou nas instalações do grupo Impresa, em Paço de Arcos, onde foi recebida por longos aplausos de centenas de trabalhadores.
O último adeus de Francisco Pinto Balsemão à casa que sempre foi dele. Uma última homenagem ao jornalismo independente que ele sonhou e criou. O corpo do fundador da SIC e do Expresso saiu do Mosteiro de Jerónimos e passou pelo edifício Impresa para que todos os funcionários… pic.twitter.com/QGEsoJZ0dm
— SIC Notícias (@SICNoticias) October 23, 2025
Ainda antes deste momento, Luís Montenegro saiu do Mosteiro dos Jerónimos — desta vez, sem Marcelo – e disse que Pinto Balsemão foi “um brinde para o futuro de Portugal”. “É a olhar para a força destas personalidades que nos inspiramos. O PSD terá sempre em Francisco Pinto Balsemão o seu militante número um, mas evidentemente que sentimos uma grande tristeza da sua partida, porque também sentimos sempre o orgulho que ele tinha em ser o militante número um”.
À saída, a única outra personalidade a prestar declarações aos jornalistas foi Rui Rio que lamentou o “tempo atribulado” de Balsemão como primeiro-ministro. Lembrou “as injustiças” que lhe foram feitas em Conselhos Nacionais do PSD quando assumiu a liderança do Governo, após a morte de Sá Carneiro e como esses momentos o fizeram estar “ainda mais do lado” de Balsemão. “Se tivesse estado mais tempo como primeiro-ministro o país tinha ganho muito.”
O antigo presidente da Câmara do Porto também recordou o “exame pesado” a que foi sujeito pelo militante número um do PSD quando o convidou para ser mandatário da sua candidatura à liderança do partido, em 2017. Numa chamada ao telemóvel entre os dois, Balsemão passou “uma hora a fazer perguntas” para avaliar como Rio olhava para a social-democracia. O fundador da SIC e do Expresso terá ficado satisfeito com as respostas, porque aceitou ser mandatário. Já Rio, quando questionado se o atual PSD passaria no exame de Balsemão, disse: “Isto não é momento para eu estar a responder a isso, mas acho que não”.
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