Ao segundo dia de debates, Pedro Nuno Santos e Mariana Mortágua estrearam-se na SIC Notícias. O líder do PS e a porta voz do Bloco começaram por divergir completamente em matéria do aumento do Orçamento da Defesa para acompanhar as exigências da União Europeia, muito pouco concordaram em matéria de habitação, sobretudo no que toca aos tetos para o arrendamento, e só acabaram do mesmo lado em relação à fraca resposta do governo às tarifas de Trump. No final, Pedro Nuno acabou a pedir aos 280 mil eleitores bloquistas de 2024 o voto útil que lhe desse a vitória a 18 de maio.

Depois, André Ventura teve o seu segundo frente a frente, agora com o estreante Rui Tavares, na RTP3. O líder do Chega aproveitou logo de início para puxar a si o crédito do elevado número de imigrantes em Portugal, revelados na tarde desta terça-feira pelo Governo, e partiu daí para falar da Saúde e do “bar aberto” para a imigração que considera ser o SNS defendido pelo Livre. O porta-voz do Livre tentou falar de medidas, mas acabou a pedir oportunidades e a dizer que não tinha tempo para desmontar “todas as mentiras” de Ventura e a colá-lo a Trump que este agradeceu porque quer tornar “Portugal great again”.

Tal como no ano passado, o Observador está a dar notas num “Vencedor é” — à semelhança do programa e podcast da Rádio Observador — dos debates, em que avalia quem ganhou. Assim, ao longo destes dias, um painel de avaliadores do Observador dará notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos frente a frente. E explicará porquê. A média vai surgindo a cada dia, no gráfico inicial.

[Já saiu o quarto episódio de  “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo PodcastPlus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]

Amanhã há um único debate e à tarde. Será entre Paulo Raimundo (CDU) e Rui Tavares (Livre), às 18h00, na SIC Notícias. Pode ver o calendário completo dos debates aqui. Os debates têm 30 minutos, com o tempo cronometrado para cada um, mais cinco minutos de tolerância. Cada candidato fará nove debates, sete frente a frente e dois debates a oito, um nas tv’s e outro nas rádios.

Pedro Nuno Santos (PS)-Mariana Mortágua (Bloco)

Alexandra Machado — Pedro Nuno Santos arrumou Mariana Mortágua quando a colocou, logo de início, no seu lugar secundário. “O Bloco não corre o risco de assumir responsabilidades governativas”, desferiu Pedro Nuno Santos que acabou o frente a frente a apelar ao voto útil: “Sem governo do PS não há política de esquerda. Não podemos correr esse risco”. E com isto arrumou outro tema. Mariana Mortágua tentou, ao longo dos menos de 30 minutos, afastar Pedro Nuno Santos da esquerda – Pedro Nuno acabou também a afastar-se no tema da imigração ao admitir consensualizar a questão com a AD. Mortágua aproveitou a Defesa e a Habitação para enfatizar o seu ponto de vista, de que os princípios da esquerda não estão neste PS. Em particular na Defesa – que foi o tema de maior distância – onde Pedro Nuno Santos se mostrou estadista. Mariana Mortágua insistiu na ideia de que a solução não é a Europa construir mais armamento. E se estivesse sentada no Conselho Europeu, como primeira-ministra, ou na Cimeira da NATO? A esta pergunta respondeu: “Diria que não gastamos mais em armas; nem nós nem a União Europeia”. Só a ideia da pergunta é uma ilusão. A resposta manteve-se nesse plano.  Já agora, num frente a frente é bom que se façam ouvir, mas também não faz mal haver algum diálogo. Mariana Mortágua, por várias vezes, reclamou pelas interrupções (que nem foram muitas, às tantas até pareciam duas entrevistas e não um frente a frente). Não era caso para tal. Acabou por ser mesmo um confronto entre um candidato a primeiro-ministro (com a novidade de que o PS se formar governo não reverte a medida do Governo em relação à isenção de IMT e imposto de selo na compra de casa para jovens) e uma aliada.

Filomena Martins — É muito difícil não ver Pedro Nuno Santos crispado. A irritar-se quando é contrariado. Sempre a ralhar com toda a gente, como diria Lili Caneças. O secretário-geral socialista quis contrariar a socialite de Cascais e não só surgiu tranquilo, como em tom moderado. Mas, sobretudo, nunca levantou a voz quando precisou de dar as estocadas que arrumaram com Mariana Mortágua. A primeira logo a arrancar, quando se discutia o aumento do Orçamento da Defesa e a coordenadora do Bloco usou a frase populista “quem acha que comprar armas é projeto de futuro é porque quer mandar os filhos para a guerra”. Pedro Nuno Santos arrumou a questão com uma resposta assassina: “Percebo o Bloco, mas não corre o risco de assumir responsabilidades governativas” e ainda acrescentou mais tarde “tem uma ideia muito romântica das relações internacionais”. Traduzindo: se alguma vez tivesse de ser primeira-ministra, sabia que não podia andar a brincar com parceiros como a UE ou a NATO, mas esse papel só eu posso ocupar, pode continuar a ser radical, eu sou o estadista aqui na sala. Mortágua ainda o tentou desestabilizar em vários momentos, dizendo que tinha deixado cair princípios da esquerda, mas só o deixou algo intranquilo na questão da Habitação. O socialista, não tendo Spimnunviva, teve até tempo para ir buscar o Porta 65, e falar no atraso nos apoios ao arrendamento jovem, e o Primeiro Direito, um projeto seu de que derivam agora as inaugurações do governo, para atacar Montenegro. E acabou com a possível parceira de uma geringonça a dizer que só governava se ganhasse e a pedir por isso o voto útil aos eleitores bloquistas: “Perdemos por 50 mil votos, o Bloco teve 280 mil, não dispersem votos!”.

Luís Rosa — Foi um debate semelhante ao de Luís Montenegro vs Paulo Raimundo mas por razões completamente diferentes. Apesar do inusitado apelo ao voto do eleitorado comunista, não reza a história que o PSD alguma vez tenha desejado aliar-se ao PCP. Já a geringonça criada por António Costa rompeu com a história do PS e abriu a porta a alianças com BE e PCP. Pedro Nuno Santos sonha com uma nova geringonça e, por isso, foi contido e concentrou-se em não hostilizar Mariana Mortágua — que não recusa uma nova aliança. Nem mesmo perante sintomas de autoritarismo (“não aceito interrupções!”, proclamava Mortágua), o secretário-geral do PS caiu na armadilha de duelo em campo aberto. Mas acabou por defender o apelo ao voto útil contra a “dispersão de votos” à esquerda — e quase que culpou os eleitores que votaram PCP e BE por o PS não ter tido os votos que precisava para ganhar as últimas eleições. Sendo a extrema-esquerda e os progressistas em geral especialistas em utopias, é natural que Pedro Nuno Santos e Mariana Mortágua se tenham esquecido de um facto histórico incontornável: António Costa governou ficando em segundo lugar porque reuniu uma maioria no Parlamento — e algum dia a direita fará a mesma coisa ao PS porque continuará ter maioria no Parlamento por mais alguns anos. As utopias têm sempre a vantagem de fazer esquecer a realidade. No resto do debate, Pedro Nuno Santos deixou a utopia de lado e foi muito pragmático. No dossiê mais difícil para si, a Habitação (onde teve responsabilidades executivas), foi racional ao defender medidas para aumentar a oferta (que é a raiz do problema), foi realista ao defender apoios da União Europeia (pode não ser a mutualização da dívida) para aumentar o investimento na Defesa e foi claro que esse investimento não deve colocar em causa o Estado Social mas que é essencial para defender a democracia. Do lado de Mortágua, ouvimos teorias conspirativas sobre a ameaça russa (que terá sido criada pelo lobbying do armamento — nem os maluquinhos da internet diriam melhor) e políticas de controlo de preços no arrendamento (que levarão inevitavelmente a uma diminuição da oferta e ao agravamento dos preços). No final, o Pedro Nuno Santos com imagem de radical foi o moderado. E Mariana Mortágua continuou igual a si mesma: acutilante mas com o extremismo próprio da natureza do Bloco de Esquerda.

Pedro Jorge Castro — Será que vimos bem? Era mesmo Pedro Nuno Santos? Onde é que tem andado? Enorme eficácia no que interessa: só há governo de esquerda se o PS ficar à frente, portanto, quem não quer Montenegro e é de esquerda já sabe o que tem de fazer. Clarificado este ponto, o líder do PS tem de se virar para o centro, sem radicalismos (quando se sabe que pode ser radical), sem demagogias (quando sabemos que não lhe são impossíveis) nem declarações de amor inúteis (quando sabemos que adora a adversária do duelo de hoje e anseia por se coligar com ela). Conseguiu disfarçar estes seus pontos fracos muito bem, exibindo moderação, pragmatismo e assertividade nos temas da Defesa e da Habitação, sem se deixar levar nem se irritar. E ainda aproveitou para atacar o Governo de Montenegro na falta de resposta às tarifas, na habitação e na propaganda sobre imigrantes. Mariana Mortágua costuma estar muito bem preparada, mas não foi eficaz: não conseguiu ferir o adversário com quem admitiu que se quer coligar, não terá conseguido ir buscar indecisos e arrisca-se a nem conseguir estancar a erosão da base eleitoral do Bloco. Nota ainda para a deselegância final de Pedro Nuno: as regras ditavam que era Mortágua a terminar, mas ele furou a regra para dar mais uma estocada e captar voto útil. Uma deselegância que pode render votos, mas não lhe fica bem.

André Ventura (Chega)-Rui Tavares (Livre)

Alexandra Machado — Há um ano este debate tinha corrido mal a Rui Tavares. Quis entrar ao ataque e perdeu. Um ano depois Rui Tavares esteve a conter-se visivelmente para não entrar no jogo de André Ventura e, a dada altura, até parecia que estava sozinho numa entrevista. Oscilou no entanto quando o líder do Chega o confrontou com a posição do Livre sobre a presença portuguesa da NATO e a custo chutou um pouco para canto. Mas fora esse tema, Rui Tavares conseguiu passar algumas mensagens e conseguiu colar André Ventura a delitos cá em Portugal (com os deputados ou dirigentes do partido – dizendo que tinha um dossiê) e a líderes estrangeiros, que Ventura se assume aliado, que foram condenados ou acusados. Rui Tavares ainda terá ganhado uns pontos quando colou Ventura a Trump, colagem da qual, diga-se, o líder do Chega não se afastou – assumiu, até, alguma simpatia pelas políticas protecionistas de Trump.  Quando Tavares mostrava estes trunfos, Ventura associava o coordenador do Livre de associações dispersas ao Irão, à China, à Venezuela e ainda se tentou defender das acusações dos delitos de pessoas ligadas ao Chega com a ideia de que os esqueletos do Livre seriam muitos mais… Ventura voltou à tática de atirar perguntas – acabando por ganhar no caso da NATO – e ao modelo trumpista de debate. O eleitorado de um e de outro partido viu o que provavelmente estava à espera e, em ambos os casos, terá gostado. Mas não é um debate para roubar votos. Nem tão pouco para forjar alianças. É um debate, ou algo do género.

Luís Rosa — André Ventura voltou ao modo espalha brasas e à sua habitual (e cada vez mais cansativa) cassete. Os ladrões, o aumento das penas, os imigrantes e a alegada insegurança (não comprovada), os imigrantes e o turismo de saúde para roubar o nosso SNS e a comunidade cigana — hoje só faltou a castração química dos pedófilos. O grande problema é que Rui Tavares conseguiu ignorar a cassete e as tradicionais interrupções e provocações para se concentrar nas propostas do Livre. E, além de ter falado olhos nos olhos do eleitorado do Chega para apelar ao seu voto, ainda convidou os telespetadores para consumirem os fact-checks a seguir ao debate para constatarem quantas vezes André Ventura mentiu. A prova da eficácia da tática de Tavares é que a páginas tantas Ventura até se lamentava que o fundador do Livre não lhe respondia. Rui Tavares foi igualmente eficaz ao exemplificar os abusos de poder e a corrupção do regime de Viktor Orban e de Marine Le Pen (amigos de André Ventura), como também acusou Ventura de apoiar as tarifas de Donald Trump que prejudicam as exportações portuguesas para os Estados Unidos e podem provocar uma recessão mundial. O líder do Chega caiu na armadilha e defendeu que “Trump está a fazer nos Estados Unidos o que nós devemos fazer cá”. Ou seja, “fazer Portugal grande novamente” e taxar as importações para defender as nossas empresas — provavelmente com as mesmas consequências: uma subida dos preços dos bens que são agora produzidos no estrangeiro. André Ventura só marcou pontos quando pressionou Rui Tavares a dizer que defende o fim da NATO — por defender uma Comunidade Europeia de Defesa entre a União Europeia e o Reino Unido, a Noruega e outros países europeus. Tavares não disse o que Ventura queria ouvir mas acabou por deixar vir ao de cima um certo anti-americanismo, Ponto central neste ponto: Rui Tavares não foi a pomba da paz que Mariana Mortágua foi com Pedro Nuno Santos, nem desvalorizou a ameaça russa como a líder do Bloco fez. Uma diferença assinalável de um partido que tem origem na origem dos partidos verdes europeus, como os Verdes alemães, que sempre tiveram o pacifismo como grande bandeira. Resta saber se isso lhe dá votos no espaço entre a esquerda radical e a esquerda moderada em que o Livre navega.

Miguel Santos Carrapatoso — André Ventura partiu para as eleições com uma mensagem: “Sou candidato a primeiro-ministro”. Não é entrar no Parlamento, não é aumentar a bancada parlamentar, não é ser o maior partido de oposição. É ser primeiro-ministro. E é à luz desse critério que deve ser avaliado em cada debate. Ora, quando lhe perguntam sobre Saúde, André Ventura responde “imigrantes”. Quando lhe perguntam sobre natalidade ou jovens, responde “imigrantes”. Quando lhe perguntam pelas tarifas de Trump, responde com ‘make Portugal great again’. Quando lhe perguntam pelas companhias internacionais duvidosas que vai tendo, responde com “Venezuela, Coreia do Norte, Irão e George Soros”. E quando lhe perguntam sobre qualquer outra coisa, repete a cassete dos ciganos em cada esquina, dos subsidiodependentes, dos criminosos nas ruas e da bandalheira no geral. A estratégia não é nova e fez de André Ventura líder de um partido com 50 deputados. Um caso de enorme sucesso, sem qualquer dúvida. Mas não fez de André Ventura primeiro-ministro — por algum motivo. Talvez porque as pessoas privilegiam num candidato a primeiro-ministro outro tipo de discurso e outro tipo de propostas. Se André Ventura quiser continuar a ser líder de um partido com 20, 30 ou 50 deputados, será bem sucedido com este tipo de debates. Se quiser ser percecionado como candidato a primeiro-ministro, estratégia que o próprio definiu para si mesmo, ninguém o obrigou, então terá de dizer mais qualquer coisinha. Rui Tavares, por sua vez, teve um enormíssimo mérito: não repetiu o erro clamoroso do debate de há um ano, quando se atirou para a luta corpo a corpo com Ventura (e perdeu em toda linha), e falou das propostas do Livre para o país. Faltou, ainda assim, um discurso mais forte contra o risco do voto útil no PS.

Ricardo Conceição —Rui Tavares falou aos eleitores do Chega de olhos na câmara. Repetiu o gesto mais do que uma vez e sacou de um dossier, em que tinha as suspeitas que pendem sobre os deputados do Chega e organizados por delito. O rosto do Livre, evitou cair nas “armadilhas” lançadas por André Ventura, mas ao fazê-lo foi incapaz de enfrentar ou desmentir os ataques do líder do Chega de forma eficaz. A estratégia escolhida pelo Livre redundou em pouco Tavares e muito Ventura. Tavares quis falar no seu programa e apontar o dedo ao que chamou de mentiras do oponente. Num debate muito direcionado para o próprio eleitorado, Ventura foi igual a si mesmo e conseguiu sair melhor. Mostrou-se em forma. O eleitorado do Livre terá ficado melindrado com os ataques ferozes de Ventura, mas Tavares não terá impressionado indecisos. Salvou-se um debate vivo, animado por dois opositores antagónicos com Ventura a convencer os seus.

Recorde aqui as notas do debates entre Luís Montenegro e Paulo Raimundo e entre André Ventura e Inês Sousa Real.