A Lei laboral foi o tema de arranque do primeiro dos 28 debates televisivos para as eleições presidenciais de 18 de janeiro. Começando em tom tranquilo, que tentou manter com dificuldade ao longo dos mais de 30 minutos, António José Seguro não deixou de ser crítico, ao falar de “uma legislação laboral desequilibrada, que atenta contra os direitos dos trabalhadores e que não foi a votos”, daí considerar “o direito à greve [geral] legítimo” se não houver acordos até lá. Ora o tom de André Ventura não podia ser mais contrário ao de Seguro. O candidato do Chega não só exigiu “outra lei laboral”, como falou de uma lei “do tempo da União Soviética e do PREC” e, sem questionar o direito à greve, deu exemplos das pessoas que perdem direitos e não são compensadas.
Sem deixar cair o discurso áspero, Ventura voltou a usar o slogan que tem para António José Seguro — “é com o Melhoral, não faz bem nem mal, é só precisamos de fazer consensos, e tal” —, lembrou todo o passado partidário socialista de Seguro e tentou colá-lo a Guterres, a Costa e à esquerda. “Se tem vergonha do PS assuma, assuma que tem vergonha da herança do PS”. O debate acendeu e quase dispensou moderação a partir daqui.
Seguro disse a Ventura que “estava nas eleições erradas, devia achar que ainda eram as legislativas”, e que se queria discutir com o partido socialista lhe dava “o número de José Luís Carneiro”, acentuando que sabia de onde vinha e sabia para onde queria ir: “Eu quero ser Presidente da República. O sr. é que quer ser tudo em pouco tempo, Presidente, primeiro-ministro, eurodeputado, tudo. Eu tenho de me salvaguardar neste debate porque daqui a meses tenho de o receber em Belém”. E ainda tentava encostar André Ventura com uma pergunta direta: “Diga lá: quer ser Presidente ou primeiro-ministro?”.
O tom manteve-se sempre de picardia depois de Ventura responder que não queria ser um Presidente que fosse “uma jarra de enfeitar”, mas sim “dar um murro na mesa”, altura em que falaram de mudanças do sistema semi-presidencialista para presidencialista. Seguro ainda se mostrou condescendente sempre que Ventura interrompia — “Fale lá, Fale lá”; “não há problema em me interrromper”; “dá-me livcença, dá-me licença” —, e fazer uma proposta, uma pacto para a Saúde, cujo guião entregou ao adversário (e irá fazer o mesmo com os restantes candidatos). Acabou por ser o ponto de partida para Ventura agarrar no tema da imigração, e falar do acesso à saúde gratuita de cidadãos do Bangladesh (entre outros). Seguro bem contrapôs que Ventura aproveita o tema da Saúde para “estigmatizar minorias”, mas Ventura replicou com um: “O senhor aceita que alguém do Bangladesh passa à frente dos portugueses?” e ainda conseguiu chamar os ciganos à discussão. Até que o tempo acabou sem hipótese para mais perguntas.
Um painel de avaliadores do Observador dá notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos 28 debates televisivos para as eleições presidenciais e um texto de avaliação ao próprio confronto. A média vai surgindo a cada dia de debates, no gráfico inicial, que abre este artigo. Amanhã, quarta-feira, não há debates, que regressam quinta, na RTP, com o confronto entre Gouveia e Melo e Cotrim Figueiredo (como todos os restantes, às 21h00). Pode ver o calendário completo dos debates aqui.
André Ventura: 12 — António José Seguro: 13,5
Alexandra Machado — A tática de André Ventura era previsível. Tentar colar António José Seguro ao PS. Fê-lo em todo o debate que foi mais de forma do que de conteúdo. O “senhor deputado” André Ventura – como António José Seguro tratou o adversário durante todo o debate para mostrar que Ventura concorre a tudo e quer ser tudo, mas que acabou por parecer que estava a pô-lo num patamar inferior – quase tirou Seguro do sério num ou outro momento. Seguro usou a tática (também previsível) de se mostrar o candidato sereno e com sentido de Estado “sou candidato a Presidente da República” e “estou a resguardar-me porque daqui a quatro meses vou recebê-lo em Belém” (como líder do Chega). Ventura acusou o tom e vitimizou-se: “Está a desqualificar-me”.
A forma estava definida. No conteúdo, André Ventura não saiu do seu papel. Ventura dos debates legislativos é igual a Ventura do (primeiro) debate presidencial. Seguro é, nesse ponto, o estreante e por isso tem mais para conquistar – não foi com este debate que o conseguiu. Ventura não tem nada a perder. E fala do que o seu eleitorado quer ouvir. Uma coisa é certa. O tema de Angola e a visita de Marcelo Rebelo de Sousa foram introduzidas no debate por Ventura. Um debate que ficou pendurado… e prometido para mais tarde. Mas que permitiu a Ventura colar Seguro a Marcelo Rebelo de Sousa.
A custo, António José Seguro lá conseguiu falar do que tinha preparado, o pacto para a saúde (mais um??), entregando a sua proposta a Ventura. Não será o título das notícias sobre o debate. António José Seguro ganhou o debate. Mas vai ter de fazer mais. O seu concorrente não é verdadeiramente Ventura.
Helena Matos — O que eu esperava: tudo é mais difícil para António José Seguro. É certo que Seguro conta com um capital de simpatia por parte de muitos portugueses que não só o viram ser injustiçado por António Costa, como também não esqueceram a sua atitude face a José Sócrates.
Mas ao antigo líder dos socialistas não chega o atestado de bom comportamento que o passado lhe garante. António José Seguro tem de provar que a sua candidatura não é um anacronismo. Por tudo isto e sobretudo porque ele é o candidato “apesar de tudo” dos socialistas, este debate é para António José Seguro um momento com um carácter muito mais determinante que para André Ventura.
Já o líder do Chega chega a este debate com o aquecimento feito. Há semanas que debate com pivots, jornalistas, comentadores e todo e qualquer ser vivo e falante com o qual se cruze. A esta óbvia vantagem junta André Ventura o facto de ter pela frente alguém que arrisca muito mais que ele. Mas, há sempre um mas nestas coisas, também alguém que há onze anos, em Setembro de 2014, num dos debates, encostou António Costa às cordas.
E por fim há a táctica: interessa a Ventura derrotar expressivamente Seguro? Não creio. Ventura precisa que Seguro se mantenha em alta para roubar votos a Gouveia e Melo e a Marques Mendes. Mas, e é esse o mas que traz suspense a este debate, Seguro precisa de mostrar à esquerda donde vem (embora nem se lembre disso) e à direita de cujos votos precisa que é capaz de derrotar Ventura.
Em resumo, António José Seguro aposta em derrotar Ventura. Já a Ventura o que lhe convém é ganhar por poucochinho ou perder por poucochinho.
O que aconteceu: Ventura perdeu por poucochinho. Ou, melhor dizendo, Seguro ganhou por poucochinho.
Ventura foi muito repetitivo. Não trouxe temas novos. Era o Ventura de sempre, com os temas de sempre a falar para os de sempre.
Seguro era a novidade deste debate, ganhou no desmontar da táctica de Ventura de interromper os outros candidatos: fale lá, interrompa… No PS, Seguro pode não ter granjeado mais apoios mas pode ter consolidado alguns.
Pedro Jorge Castro — Toque de saída para o recreio, uma multidão a ver com grande expectativa porque havia rumores de que o bully do costume ia bater em alguém que se ia estrear nestes duelos. Era alguém de uma turma mais velha, que esteve 11 anos fora deste liceu, e voltou agora para acabar os estudos, mas apesar da maturidade tinha muito menos experiência nestas lutas de rua. No mínimo estaria destreinado. No limite, podia nem se adaptar ao ritmo.
Até o contínuo da escola ficou a ver. Tentou pôr ordem no duelo, uma, duas vezes, mas cansou-se de ser ignorado e deixou a luta seguir solta e selvagem, sem regras. O aluno mais velho — mas mais verde nestas andanças — opôs-se veementemente a qualquer mediação ou intervenção para os separar.
O pessoal a assistir no recreio ficou intrigado: o campeão bully dos duelos tentou todos os seus golpes habituais, alguns muito eficazes, mas não conseguiu vencer por KO. O seu adversário conseguiu estranhamente pô-lo em sentido dando-lhe espaço para isso mesmo, para esticar o gancho, desviando-se em câmara lenta, como se fosse um ninja, uma e outra vez, dizendo apenas: “Posso terminar?” E calando-se. Uma estratégia desarmante.
Na substância, Seguro disse coisas de esquerda, afinal: na greve (Ventura esteve melhor a virar para os afetados pelas greves que pagam o passe e não têm compensações) e na imigração (tema preferido de Ventura, onde parte da demagogia foi desmontada por Seguro). Ventura tentou amarrar o oponente à herança do PS, mas Seguro rebateu bem, dispondo-se a dar o número de José Luís Carneiro e vincando a diferença entre ter o apoio do PS e ser o candidato do PS (que o engoliu a custo, como todos vimos).
Seguro foi corajoso e mostrou uma centelha de sentido de Estado ao dizer na cara do líder do Chega que teria feito o mesmo que Marcelo em Angola. Também foi hábil a expor que Ventura quer todos os cargos. Já o guião para a saúde foi um mau momento de Seguro, a ler ideias demasiado óbvias e pouco inovadoras para quem esteve tanto tempo a olhar para o poder de fora.
Mas ganhou à tangente na forma, por se ter sabido impor ao candidato mais temido destes duelos e ao próprio moderador. E por ter levado Ventura a queixar-se de estar a ser desqualificado pelo adversário — coisa que ele nunca fez nos 27 debates que já leva desde as presidenciais de 2021.
A luta de rua só acabou quando tocou o sino para acabar o recreio. Seguro surpreendeu e sobreviveu menos mal do que se esperaria — agora o mais difícil já passou. Ventura não perdeu a base. O rufia-mor vai continuar a ter uma multidão a assistir aos próximos duelos: nestas presidenciais e nas próximas legislativas, que são as que verdadeiramente lhe interessam.
Rui Pedro Antunes — André Ventura seguiu a estratégia da banana: tentar provar que António José Seguro era um frouxo, um banana, crítica que lhe é feita na ala costista do PS. E não só. O líder do Chega repetiu por isso, ad nauseam, expressões como “conversa da treta” e “conversa de chacha”. Conseguiu ainda passar mensagens diretas para os seus ao falar de ciganos, do Bangladesh, dos subsidiodependentes e ao defender a honra nacional contra, no seu entender, um também banana Marcelo que se deixou humilhar em Angola por João Lourenço. Tentou depois, na curta franja do eleitorado que pode disputar com Seguro (junto de passistas e no jogo do mais sério), colar o ex-líder do PS à esquerda e, em particular, ao Partido Socialista. Foi eficaz a afastar Seguro da direita, mas o ex-líder do PS defendeu-se bem (“Se quiser dou-lhe o número do José Luís Carneiro para lhe ligar”, chegou a dizer).
António José Seguro lembrou, por exemplo, que no século XXI André Ventura é muito mais responsável do que ele porque esteve mais tempo na vida partidária ativa. Lembrou ainda que Ventura estava na “eleição errada” e a falhar num “contrato com o eleitorado”, num argumento sensível para o candidato apoiado pelo Chega, já que muitos na sua base eleitoral preferiam vê-lo como primeiro-ministro. Seguro conseguiu ainda manter a pose e corresponder mais à imagem que os portugueses têm de um Presidente da República. À boleia de Ventura defendeu ainda a imigração e a não discriminação, o que o fará ganhar votos à esquerda que anda zangada com o seu esquerdismo envergonhado. Para não ficar refém de uma gritaria lançou ainda um pacto para a Saúde, que consegue impor à história que fica do debate. É um trunfo que só pode usar uma vez, mas que não deixa de revelar astúcia política.